TEXTO I
Portas Fechadas
A síndrome da insegurança vem causando, há alguns anos, sérios contratempos no cotidiano dos habitantes de Fortaleza, sobretudo na liberdade de ir-e-vir e no empecilho do cumprimento usual de alguns hábitos e obrigações.
Além do progressivo fechamento das outrora diversificadas opções de lazer existentes no Centro da cidade, como cinemas e parques, ocorreu também o fechamento, por grades, de vários logradouros e edifícios públicos. É um retrato da crescente degeneração social, quando os indivíduos e os grupos são obrigados a se isolar para não se tornarem vítimas da marginalidade.
Por último – e o fato é mais estarrecedor, porque mostra o grau de desrespeito em nível tão perigoso, que toca o próprio sentimento religioso –, vem sendo adotada uma medida preventiva que atinge, de modo direto, os católicos praticantes. A tradicional porta aberta das igrejas e dos templos, imortalizada em antiga canção de grande impacto popular, expressava a permanente disponibilidade do recinto para os fiéis carentes de apoio religioso. Essa imagem ficou retida em algum lugar do passado.
O acesso a algumas igrejas tornou-se quase impraticável, reduzido a horários limitados e escudado por inamistosos paredões e grades. O pior é que estes são levantados sem a menor afinidade com a estética original das edificações destinadas aos cultos e à paz interior dos que a buscam. Além disso, mesmo nos horários de visitação, as pessoas se vêem surpreendidas, por vezes, com uma incômoda vigilância de seus passos, como se eles fossem marginais em potencial.
Antes mesmo do término das cerimônias religiosas, tais como missas de sétimo dia ou casamentos, as portas das igrejas começam a ser cerradas quase sem tempo de proporcionar a retirada digna aos circunstantes. É como se os fiéis não fossem bem-vindos ao local. As pessoas se sentem constrangidas, quando de súbito são interrompidas em meio às suas orações e solicitadas a sair da igreja. Esse não é um procedimento geral, o que demonstra que ele depende muito do temperamento dos párocos ou dos pastores responsáveis. O Santuário de Adoração Perpétua, na Igreja de São Benedito, por exemplo, sempre aberto em qualquer horário, dedica aos seus fiéis uma acolhida fraternal.
Culpa-se a onda de marginalismo e violência por esse recesso forçado de igrejas e templos. Não há a menor dúvida quanto a isso, sobretudo no Centro da cidade. O fato reclama providências impostergáveis, porque a religião funciona também como instrumento eficaz de controle social. A insegurança nos lugares sagrados passa a idéia de desordem e os fiéis se sentem desamparados, provocando até sua desestabilização emocional. Por isso, as autoridades devem viabilizar medidas ostensivas de proteção, para que os fiéis reencontrem, pelo menos em parte, a anterior liberdade de usufruir o necessário aconchego das sedes materiais de cultivo ao espírito cristão
(Jornal Diário do Nordeste. 30 mar. 2003)
Acerca das classes, há uma palavra que tem o mesmo valor do “quando". Ela está na frase da opção: