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2868107 Ano: 2023
Disciplina: Português
Banca: IBAM
Orgão: CAU-RJ
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INFLUENCIADORES DIGITAIS: UMA MERA ENCENAÇÃO SOCIAL?

Na obra Testemunha ocular, o historiador Peter Burke defende a ideia do uso das imagens como evidência histórica. Logo na introdução, ele pondera: “nos próximos anos, será interessante observar como os historiadores de uma geração exposta a computadores e televisão praticamente desde o nascimento, que sempre viveu num mundo saturado de imagens, vão enfocar a evidência visual em relação ao passado”.

Em 2001, quando o livro foi publicado, o ambiente virtual ainda não contava com ferramentas como o Instagram, que levaram a proliferação de imagens a patamares jamais imaginados. Se, nos termos de Burke, a saturação da nossa experiência de mundo por uma quantidade crescente de imagens é uma questão que se impôs na Era Moderna – com a invenção da imprensa e, mais tarde, com a popularização da fotografia –, origina-se também desse quadro um debate mais atual sobre o uso que estamos fazendo das imagens.

Um documentário recém-lançado pela HBO, Fake famous [“Famoso falso”], escrito e dirigido por Nick Bilton, traz reflexões instigantes nesse sentido. A produção gira em torno do universo dos influenciadores digitais e tem como argumento um experimento inusitado. Três anônimos são selecionados para conquistar fama instantânea nas redes sociais. São jovens na faixa dos vinte anos, que vislumbram na experiência a oportunidade de concretizar suas ambições. Enquanto ajuda-os na construção de uma imagem mais atraente para os padrões das redes, a produção do filme vai revelando os meios espúrios aos quais muitos usuários recorrem na busca incessante por engajamento.

Talvez não seja uma grande novidade, mas o documentário escancara a realidade da compra de seguidores (no caso, bots [“robôs”]), um dos meios mais comuns para simular um maior alcance das contas e impressionar marcas que buscam impulsionar a venda de seus produtos com a divulgação feita pelos influencers. Peter Burke bem nos lembra que “as tentações do realismo, mais exatamente a de tomar uma representação pela realidade, são particularmente sedutoras no que se refere a fotografias e retratos”. Em tempos remotos, já eram usuais representações artísticas que favoreciam as figuras retratadas. “Os modelos geralmente vestiam suas melhores roupas para serem pintados, de tal forma que os historiadores seriam desaconselhados a tratar retratos pintados como evidência do vestuário cotidiano”, acrescenta Burke. Ora, se artifícios como esses definem as imagens há tanto tempo, o que haveria de novo no comportamento visto hoje nas redes sociais?

Ao falar dos sistemas de convenções que sempre acompanharam a produção de retratos, o historiador sentencia: “as posturas e gestos dos modelos e os acessórios e objetos representados à sua volta seguem um padrão e estão frequentemente carregados de um sentido simbólico”. Se tomarmos como exemplo os antigos retratos da aristocracia, podemos entender, segundo essa lógica, que o reparo da aparência e o acréscimo de acessórios eram uma forma, portanto, de reafirmação simbólica de uma realidade já dada. Burke lembra como os governantes apareciam em armaduras e em vestes de coroação, no que lhes conferia maior dignidade.

Certamente, a imaginação humana permitiu que pessoas fossem retratadas de formas não totalmente equivalentes a suas existências concretas. No entanto, o que havia era mais um idealismo nas representações individuais do que aquilo que notamos hoje – a frequente falta de qualquer lastro com a realidade. Por um lado, é interessante reconhecer a democratização existente agora quanto à produção e à circulação de imagens. Por outro, é justamente a proliferação e o amplo alcance de distorções como as mostradas no documentário Fake famous que levam a um questionamento sobre o quanto não estamos presos a uma teia de artificialidade, regida ainda por relações mercadológicas nem sempre explícitas.

JÚLIA CORRÊA

Adaptado de fronteiras.com, abril/2021.

No entanto, o que havia era mais um idealismo nas representações individuais do que aquilo que notamos hoje – a frequente falta de qualquer lastro com a realidade. (6º parágrafo)

Mantendo a coerência com o texto e a frase citada, o trecho após o travessão poderia ser introduzido pelo seguinte marcador:

 

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