A CONFISSÃO
Tarde da noite. Tempo, dinheiro e prestígio eram coisas que aquele velho tinha em abundância. Graças a seus feitos, era respeitado por todo o reino, da família real aos mais humildes lenhadores. Durante os longos meses de inverno que massacraram aquela terra, sua casa era uma das únicas a receber queijos, frutos e aves frescas enviadas pelo governo. Qualquer coisa que quisesse obter ali, desde um simples pedaço de pão às terras do próprio rei, já se via quitada pela gratidão que todos lhe deviam.
Mesmo sendo tão afortunado, o velho se sentia ainda mais vazio do que nos tempos de pobreza e mais miserável do que os vendedores de fósforos que morriam de frio pelas ruas. Pois, desde que perdera o único filho, sua vida se transformara numa tediosa espera por notícias, que jamais chegavam, ou pelo fim, o que viesse primeiro.
Quis o destino enviá-los em comitiva.
O velho ouviu batidas vindas do andar térreo. Pegou sua antiga lamparina para iluminar o caminho, desceu e abriu a porta para o xerife, que disse sem cerimônia:
“Senhor... creio que o encontramos!”
O maltratado coração do velho disparou. Ele arrumou os óculos no rosto, franziu a testa e perguntou:
“Como sabeis que é ele?”
“Fizemos o que mandaste. Apenas seguimos a trilha de sangue, até encontrarmos uma pobre viúva, cujo marido fora assassinado. A partir do relato da desamparada mulher, pudemos encontrar o suspeito, e ele se entregou sem a menor resistência. Contudo...”
“Contudo o quê?”
“... há algo que não encaixa na história. Pois, além deste crime horrendo, ele ainda confessou outro, sem sequer ter sido questionado. Simplesmente desatou a falar, de maneira sádica, satisfeita, até prazerosa. Certamente te lembras da pobre menina dos cachinhos dourados...”
“Claro”, respondeu o velho, lamentando-se. “A pobrezinha que foi devorada por ursos!”
“Pois bem, segundo o... hã, suspeito, não se tratou de um simples acidente, mas de uma ação premeditada!”
O velho, que amava crianças, tirou os óculos e esfregou os olhos.
“Céus!”
“Infelizmente, meu relato não acaba aqui. O meliante afirma ainda estar ligado a diversos outros crimes, especialmente fraudes, como a dos sete gigantes supostamente assassinados. Mas, em todos meus anos de polícia, acho difícil crer que um único ser humano, que tem no máximo 19 ou 20 anos, tenha sido capaz de acumular tamanho currículo de perversidades, por mais endemoniado que seja!”
“Tu não o conheces, caro xerife! Não sabes o que ele fez comigo nem do que é capaz!”, disse o velho, pegando seu casaco e seu chapéu. “Vamos até lá, tenho contas a ajustar!”
O xerife levou o velho até o calabouço, onde os piores tipos encontrados no reino eram aprisionados. Assassinos, charlatões e adoradores do diabo dividiam seus claustros com baratas, ratazanas e sócios corruptos, aguardando a execução em praça pública que tanto apetecia os cidadãos.
Cada passo por aqueles corredores abafados e úmidos era uma tortura para o velho. Mas sem sombra de dúvida ele preferia ficar preso ali a encarar o que veria a seguir. Dentro de um claustro, amarrado a uma cadeira, estava um rapaz magro, de tez morena como um pinheiro, olhos azuis e cabelos lisos e negros, encharcados pelo suor que lhe caía sobre os olhos.
“Eu assumo daqui, xerife. Vai descansar”, ordenou o velho.
“Por favor, lembra-te de nosso acordo!”, pediu o xerife, tirando do bolso um enorme molho de chaves. Abriu as grades do claustro e o velho entrou, acompanhado por dois guardas. Virou-se e fez sinal para que saíssem também. Eles olharam para o chefe, em busca de aprovação, e deixaram o ancião a sós com o marginal.
Olhou para o rapaz amarrado diante de si. Durante vários minutos, as goteiras e a respiração eram os únicos sons que se ouvia. As lembranças dos dias felizes ao lado do filho inundaram sua mente, mas ele conteve as lágrimas, prendendo a respiração. Esfregando a mão na testa, disse:
“O que houve com meu filho?”
Nenhuma resposta.
A cada palavra, o velho elevava o tom de voz:
“O que houve com meu filho!?”
Nada.
O velho percebeu que era inútil gritar.
“Que diabos estás tentando fazer?”
O rapaz jogou a cabeça para trás, mas estava apenas tentando tirar a franja molhada de suor da frente dos olhos. Tornou a baixar o queixo.
“Tu não vais escapar desta vez. Finalmente vais responder por todas tuas fraudes e crimes.”
Silêncio.
“O pobre gigante. Ele era meu amigo. E tu subiste num pé de feijão até a casa dele só para matá-lo?”
O rapaz enfim reergueu o queixo, encarou o velho e desatou a falar:
“Sim! Mas, antes disso, resolvi roubar todo o ouro que o desgraçado possuía!” Ele mal cabia em si. “Depois roubei sua galinha que botava os ovos de ouro. Preciso dizer o que eu fiz com ela?”
“Maldito, a galinha era um presente dos céus para os homens, que poderia pôr fim à fome que há anos assola nosso reino! O que tua mente deturpada fez? Tu a abriste querendo os ovos?”
“Abrir? Mas é claro que não! Desde quando me importo com ouro? Primeiro, eu quebrei-lhe o pescoço, e deleitei-me ao vê-la girar desesperadamente no chão ao redor do próprio eixo. Depois, enfiei-a num buraco e, em seguida, ateei fogo, ha, ha, ha!”
“Ateou fogo? Que espécie de ser humano és tu?”
“Oras, tu bem sabes a resposta para essa pergunta!”
A fúria do velho estava prestes a transbordar. Ele sentia seu coração palpitando, o braço formigando, sabia que um infarto se aproximava, mas, no fundo de seu ser, ele não se importava mais. Viver ou morrer naquela noite era indiferente.
“E a menina dos cachinhos dourados? Também foste tu?”
“Não. Ao menos, não exatamente. Quem matou a intrometida foram os ursos. Eu apenas disse a ela o que encontraria na casa: três pratos de mingau, três cadeiras, três camas e ninguém para importuná-la. Quando a pirralha entrou, eu só alertei os ursos que ela estava lá, ha, ha, ha!”
“E a amiga dela?
“Ah, a do capuz vermelho? Menininha irritante. Não me admira que o pai dela tenha deixado-a sozinha na floresta!”
“O que fizeste com ela?”
“Eu? Eu não fiz nada. Mas nada posso dizer pelo lobo que seguiu minha dica, ha, ha, ha!”
“Miserável, como podes rir de uma situação dessas? Será possível que não tens coração!?”
“Ha, ha, ha", gargalhou o rapaz, histericamente. “Logo TU vens me perguntar isso?”
Mais do que a confissão dos crimes, aquelas palavras fizeram o velho finalmente perder o controle. Cerrou o punho direito e desferiu um golpe no rosto do suspeito, que urrou cuspindo sangue e dentes.
Do corredor, os guardas se prepararam para entrar, mas foram impedidos pelo xerife.
“Isso é entre eles!”, censurou.
O velho desferiu outro golpe, depois mais outro e mais outro, até se tornarem incontáveis como as lágrimas que finalmente se libertaram e desceram furiosamente por seu rosto.
“Tu querias chamar minha atenção?”
“Na verdade, sim, eu quer...”
“Pois conseguiste! Conseguiste! Miserável! Maníaco! Assassino!”, berrou o velho, massacrando o rapaz.
Por mais que o esmurrasse repetidamente, o velho sentia como se estivesse num sonho, e nenhum dos socos saía com a força que refletia seu perturbado estado de espírito. E, pior, nada era capaz de tirar o sorriso cínico do suspeito, que o mantinha mesmo depois de perder os dentes da frente.
Sem se importar com o que fora acordado com o xerife, o velho o agarrou pelas cordas e o empurrou com tudo para o lado, em cima de uma poça. Em seguida, chutou-lhe o estômago e o viu agonizar em busca de oxigênio enquanto a água suja espirrava em sua boca.
“Desgraçado! Por que fazes isso? Por quê? POR QUÊ?!”
Então, a criatura disse as palavras que ecoariam na mente do velho até sua morte:
“PORQUE EU TE ODEIO!”
Tão logo ele as pronunciou, seu sorriso cínico desapareceu e ele desabou a chorar. As lágrimas que escorriam de seus olhos azuis não eram de remorso, pois isso era algo que não sentia desde o dia em que perdera o grilo de sua consciência. Eram lágrimas de derrota, envergonhadas pelo nariz que crescia em seu rosto e já atingia quase um palmo. Dentre tantas confissões horripilantes e verdadeiras, ele contou a única mentira daquela noite, a maior mentira que um filho poderia contar ao pai.
O velho Gepeto deixou o claustro, consternado. Agradeceu ao xerife e pediu que se assegurasse de que o criminoso jamais deixaria aquele local.
Voltou a sua oficina. Foi encontrado morto no dia seguinte.
(FOBIYA, Abu. A confissão. In: Branca dos Mortos e os sete zumbis. Curitiba: Nerdbooks, 2012.)
No enunciado “O velho, que amava crianças, tirou os óculos e esfregou os olhos.”, o termo em destaque é um pronome relativo que estabelece relação coesiva com outro termo anteriormente citado no período. Em qual das orações a seguir o elemento retomado pelo pronome em destaque exerce essa mesma função sintática?