Na política, a verdade e a mentira, exatamente como as taxas de juros futuros, são cotadas diariamente a partir de fatos e interpretações. E assim são compradas e consumidas. O processo é histórico. A política desde sempre é preparada como uma refeição cujos ingredientes transformam o prato a ser servido à opinião pública em uma espécie de feijoada de factoides — composta de verdades, mentiras, mentiras sinceras e meias verdades.
Nem sempre, contudo, ganha a melhor feijoada. Isso porque o júri tem padrões de julgamento carregados de preconceitos e de expectativas que norteiam o seu veredicto sobre o que lhe é servido. Tampouco a verdade leva vantagem nessa história, já que ninguém aguenta tantas verdades.
A mentira tem o papel sociológico de conter conflitos e evitar certas situações. Ou, como disse Nietzsche, a mentira é uma necessidade para que possamos viver e superar as dificuldades apresentadas pela realidade. E, como disse T.S. Eliot, a humanidade não suporta tantas realidades.
No preparo da política e na expressão de seus resultados, os preconceitos existentes são ressaltados ou minimizados de acordo com a cotação do momento das verdades e das mentiras. Na imprensa, tal fenômeno é conhecido como agendamento e enquadramento – escolhemos o que queremos falar e como falar. Na política é a mesma coisa. E também como cidadãos queremos ouvir o que gostaríamos de ouvir e da maneira que nos apetece.
(Murillo de Aragão, De fatos e ficção – o papel da verdade, das meias verdades e da mentira. Veja, 15.06.2022)
Assinale a alternativa que substitui, respectivamente, os termos destacados no segundo parágrafo, sem prejuízo do sentido.