Texto III
No ano passado, um físico colega meu, Lawrence Krauss, visitou minha universidade. Krauss é um conhecido popularizador de ciência, autor de livros como A Física de Jornada das Estrelas. Saímos para almoçar e a conversa caiu no tema do criacionismo. Krauss foi categórico: “Só o ato de debater com criacionistas lhes dá uma credibilidade que não merecem”.
Eu discordei. “Larry, acho que essa atitude radical só piora as coisas. Se cientistas, sempre prontos a debater entre si, não se dignarem a ir a público para expor as limitações do criacionismo, como iremos vencer?” “Perda de tempo”, replicou. “Eles não estão dispostos a ouvir. É pregar para surdos.”
“É verdade que existe uma minoria radical que não vai mesmo mudar de idéia”, respondi. “Mas a maioria das pessoas é razoável. Se argumentos claros forem apresentados, acho que irão ouvir sim. Ninguém quer ser chamado de burro ou se sentir roubado de sua fé. Porque é isso, percebe? As pessoas acham que, quanto mais a ciência avança, menos justificativa têm para acreditar em Deus. E isso é algo que poucos podem suportar.”
O argumento-chave do criacionismo e do design inteligente é que a evolução não pode ser definitivamente provada com os dados que existem, os fósseis de espécies extintas. Segundo a teoria, os indivíduos de uma população têm variações genéticas.
Essas raras mutações ocorrem por acaso. A complexidade observada nas espécies é produto da seleção natural, que favorece as variações mais bem adaptadas ao ambiente. Os criacionistas dizem que existem buracos demais, que a complexidade do ser humano não pode ser explicada apenas por mutações e seleção natural. Somos, segundo eles, produto de um criador, que tinha planos bem claros.
O design inteligente vai contra a premissa fundamental da ciência, a sua objetividade por meio da validação empírica.
Cientistas propõem teorias. Essas teorias são passíveis de verificação. A genética provou a origem comum do gene. Jamais teremos todas as respostas, mas temos muitas. E cada vez mais. Invocar Deus para preencher lacunas em nosso conhecimento não avança o saber. É preciso ter coragem para aceitar nossas limitações.
Marcelo Gleiser. O desafio criacionista. In: Folha de S. Paulo.
“Micro/Macro”, 23/1/2005, p. 9 (com adaptações).
Com referência às idéias e às estruturas do texto, julgue o item seguinte.
Na linha, “a teoria” é a teoria criacionista.