TEXTO PARA A QUESTÃO.
A insônia é carrasca
Não comecei nada que terminei, li por aí. Digo e a cabeça
se revira de olhos acordados. Apesar de não saber a partir do que
a coisa começa. Talvez porque acorde em meio à noite e durante
o escuro da noite tudo toma outra dimensão. Tudo na
madrugada é mais fantasmagórico. Carrego uma leve suspeita de
que esse acordar repentino e repetido diz respeito a mim e a ti.
Uma tentativa de apartar as coisas ditas, desditas e malditas e a
angústia que aperta o corpo. Compramos a ilusão do mau agouro
das coisas atravessadas e já que foram ditas pela metade, a outra
parte se transforma num monstro. Não sei bem se tu me
entende, mas talvez, sinta o mesmo. Daí o acordar seguido,
madrugada após madrugada, sempre na mesma hora. Insônia
maldição. Essa consciência atravessada pelo cansaço das horas.
A vida como parte componente, sempre partida ao meio. Uma
parte não toda. E o medo a rosnar pelos cantos. Medo de ser
captado, capturado nessa farsa alargada de achar que está tudo
bem. A noite produz sombras. Ou, as revela.
Acendo a luz numa busca frustrada do sono diante do
descompasso constante da noite que galopa em direção ao dia.
A cabeça como uma ilha, lugar povoado de pensamentos,
encantamentos e reconhecimentos da estranheza do mundo.
Nós e nossos pensamentos num campo desviante e errante sem
mapa ou bússola. A insônia é carrasca, carrega ao extremo
colapsante dos minutos que demoram a passar. Arrasto os
pensamentos pelo quarto, na tentativa de me desvencilhar
inutilmente das ideias que aprisionam a mente. Respiro diante
das inconformidades. Estarei fadada a não dormir? Nestas horas
nem a oração conforta. O pensamento é uma ilha flutuante que
tenta se desvencilhar da condição de umbigo do mundo: somos
apenas mais uns no mundo sem sono. A ilha como uma parte
amputada do continente.
Eu e minhas ficções teóricas e tu, sem saber. Como
esquecer o coquetel molotov do que fora dito? A cabeça anda,
anda e dá voltas. Na madrugada, durante a insônia, os
sentimentos são dinamites. Como se desvencilhar disso tudo
sem se perder? Como cair num rio sem se afogar? Como aceitar
que dormir é entregar-se aquilo que jamais saberei ser eu?
Porque no sono não existimos. Porque conseguir dormir é
desistir de tentar fazer diferente. É entregar os pontos. É fechar
os olhos e não ver mais nada, nem o que está fora e talvez, nem
o que se passa dentro. E o medo de que o sonho seja mais um
pesadelo?
A insônia é o recorte de uma existência e quiçá um dia,
façamos um corte-fluxo nos pensamentos madrugadeiros e
deles, uma colcha de retalhos que nos proteja do frio que
infringimos a nós mesmos. Até lá, outra vez, bom dia.
Autora: Adriana Antunes – GZH (adaptado).
I. Em “quiçá um dia, façamos um corte-fluxo nos pensamentos madrugadeiros”, a palavra “quiçá” é um advérbio.
II. Em “nos proteja do frio que infringimos a nós mesmos”, o termo “que” atua como pronome relativo.
Das assertivas, pode-se afirmar que:
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