Magna Concursos
1438928 Ano: 2015
Disciplina: Português
Banca: FUNDATEC
Orgão: CRA-RS
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Instrução: As questões de números 01 a 10 referem-se ao texto abaixo.

Socorro, barata!

  1. Meu marido costuma perguntar-me: para onde estás olhando? Brinca que se uma manada
  2. de elefantes estiver marchando na calçada eu casualmente estarei reparando em alguma folhinha
  3. caída. Há uma exceção: tudo isso altera-se radicalmente quando o assunto é barata.
  4. A simples presença desse inseto dito inofensivo torna-me uma observadora ninja. Não há ruído
  5. dele que escape aos meus ouvidos apurados, e os olhos são capazes de visão noturna. Entre a
  6. percepção e o ataque de pânico costuma não haver lapso. Ondas de calafrios me percorrem e
  7. fico em pânico de que a barata me toque.
  8. Graças a essa fraqueza, sinto empatia com o drama dos pequenos, que gritam apavorados
  9. ao serem obrigados a aproximar-se do Papai Noel, de um cachorro ou do que for seu objeto
  10. fóbico. Isso acontece porque no começo da vida temos dificuldade de diferenciar onde termina o
  11. eu e começa o outro, assim como o que vem de dentro e de fora do corpo. Também nem sempre
  12. é fácil distinguir os adultos amorosos e confiáveis dos monstros. Já na escuridão, sentem-se
  13. diluídos, sem contornos, o que é fonte dos terrores noturnos. Para todos esses males, temer uma
  14. figura facilmente encontrável organiza a geografia do perigo, tornando-o mais passível de
  15. controle: se o medo se focar no cachorro da vizinha, que sempre late quando passamos, ou no
  16. Papai Noel de shopping, basta evitá-los e estaremos seguros. O pequeno apavorado não tira os
  17. olhos do monstro, mantendo-o na mira.
  18. Meu problema com as baratas é comum entre as mulheres que, tradicionalmente confinadas,
  19. partilharam o destino das crianças. A privacidade da casa era um não lugar, sua voz não fazia
  20. diferença, seu pensamento não era chamado a participar. Nunca sabiam bem quem eram, pois a
  21. identidade não vinha dali. Reinavam, mas num território de exílio dos homens públicos, em
  22. contato com a roupa suja dos patriarcas, em sentido real e figurado. Longe dos ritos sociais, que
  23. protegem e organizam o corpo e as ideias, convivendo com as fraquezas, doenças e vilanias dos
  24. que se bancam fortes e ________ lá fora, elas sentiam medo. A barata, forma __________ da
  25. sujeira imune mesmo à limpeza mais __________, é o pesadelo da mulher. Representa seu
  26. trabalho repetido de Sísifo, o castigo da sujeira invencível. Como todo objeto fóbico, deve ser
  27. próximo e assíduo.
  28. Frágeis como crianças, em seu mundo isento dos direitos civis e cheio de deveres servis, as
  29. fêmeas elegeram na barata um perigo que pode ser mapeado e combatido. Hoje isso não faria
  30. mais sentido, pois também somos uma figura pública, mas continuamos em pânico. Talvez ainda
  31. estejamos marcadas pelo longo período de dependência. Para mim, pelo menos, nada no mundo
  32. parece tão reconfortante quanto a paz que se instala uma vez que o monstro, de borco, cessa de
  33. espernear para sempre.

(Fonte: Zero Hora. Sábado, 3 de janeiro de 2015 – Adaptado. Disponível em:

http://wp.clicrbs.com.br/opiniaozh/page/2/?topo=13%2C1%2C1%2C%2C%2C13)

As lacunas das linhas 24 (duas ocorrências) e 25, considerando o sentido do texto, ficam correta e respectivamente preenchidas por:

 

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