Atenção: a questão a seguir, refere-se ao texto abaixo.
Godofredo Rangel − Um escritor delicado
Godofredo Rangel parecia pedir desculpas por ser escritor, num tempo em que tantos simulam essa condição. Ninguém menos do que ele ostentava o dom natural. O isolamento em pequenas comarcas do interior, como juiz, dava-lhe igualmente motivos para desistir e força para continuar, pois a vocação literária se nutre de contrários. Tantos anos levou nessa luta contra o meio, não digo hostil, pior do que isso: indiferente, e contra a própria timidez, que, ao atingir uma cidade onde os contatos culturais já não eram abstratos, e sim um aspecto habitual da vida, o criador deixara nele de funcionar. Rangel mergulhara no Túnel da Tradução, de onde os escritores saem fatigados e sem rosto.
Não direi mal dos tradutores, e Godofredo Rangel era dos bons. Lastimo apenas que cada vez mais seja impossível nos entregarmos àqueles trabalhos de penetração do texto literário e de transposição de sua essência misteriosa, de um para outro invólucro, tão só pelo prazer do exercício arriscado. Quem ler A barca de Gleyre* perceberá facilmente como e por que um autor é arrastado ao ofício de tradutor, como se profissionaliza e, mesmo dando à sua tarefa o desempenho mais escrupuloso, não consegue alçá-la à categoria de obra de arte. De resto, distingue o trabalho de tradutor um fundo de humildade que haveria de comprazer ao romancista Rangel, humilde de natureza.
Meu cortês, meu douto, meu caro e bom Godofredo Rangel: agora que morreste, posso bem dizer que não te conheci menos porque pouco te frequentei. E se me lastimo porque a vida não me permitiu privar de tua companhia, deixa estar que nós mineiros, e entre os mineiros os de certo tipo de sensibilidade, em rigor não carecemos de presença física para a funda convivência.
(Adaptado de Carlos Drummond de Andrade. Passeios na ilha)
* A barca de Gleyre − Edição em livro da correspondência
entre Godofredo Rangel e Monteiro Lobato.
Quanto às normas de concordância verbal, está plenamente correta a frase: