Instrução: As questões de números 34 a 36 referem-se ao texto abaixo. Em caso de destaques ao longo do texto, eles estarão citados nas questões.
Ênclises demais
01 ____ Pelo mesmo mecanismo se podem explicar certos casos de ênclise, como “que (não)
02 inscreveram-se”, pelo estigma associado às próclises, simbolizadas por formas como “me parece”,
03 sempre condenadas. O resultado é o exagero de ênclises, que até substituem mesóclises: em vez
04 de “mostrar-se-ia”, ocorre “mostraria-se”. Uma das razões é que “se mostraria” soa errado.
05 ____ Um bom exemplo é o seguinte, que reúne dois casos de hipercorreção em uma só palavra
06 (na verdade, numa só letra / som): uma placa ou faixa anunciando show com um cover de Renato
07 Russo significa que um cantor executará músicas daquele roqueiro.
08 _____Possivelmente, mas não necessariamente, ele se vestirá como Russo se vestia ou
09 procurará ter aparência semelhante à dele. Um cover de Elvis Presley sempre ostentará aquela
10 cabeleira e vestirá camisas com aquela gola alta.
11 ____ Um problema que pode aparecer nessa faixa ou placa é a grafia de “cover”. A que tem
12 circulado pela internet é “colver”. De onde ela virá? Os idiotas da gramatiquinha (uma alusão à
13 expressão “idiotas da objetividade”, de Nelson Rodrigues) dirão simplesmente que é ridículo,
14 gritarão “veja o nível de nossa escola” etc. Estarão certos, em parte. De fato, deveria ter sido
15 possível que todos escrevessem “cover”, que soubessem que é uma palavra inglesa etc.
16 ____ Mas os fatos são diferentes. Muita gente apreende o sentido da palavra (desta e de outras
17 tantas) com base em seu uso, em sua circulação em determinados contextos. E a emprega
18 corretamente, exceto pela grafia, às vezes. Que não é aleatória, e revela dois traços do português
19 atual.
20 ____ Um desses traços é a eliminação de semivogais em muitos ditongos. Palavras como “outro
21 / dourado”, além de “caixa / peixe” etc., são frequentemente pronunciadas sem a semivogal do
22 ditongo: “otro / dorado / caxa / pexe”. Mas aprende-se na escola, mesmo se ela é um pouco
23 precária, que essas palavras se escrevem “outro / dourado / peixe / caixa”. Ou seja, que há mais
24 um elemento sonoro na sílaba, e não apenas a vogal.
25 ____ Outro fenômeno comum em nossa língua é a vocalização do “l” em final de sílaba (só em
26 final de sílaba!). A maioria diz “braziw”, com uma semivogal no final da sílaba, tal como diz “awto”
27 (alto), azuw” (azul), “cawma” (calma) etc. Quando se escreve, as dúvidas se instalam: como
28 grafar a primeira sílaba de “ouro / dourado / cover”? Com ou sem ditongo? Se se decide pelo
29 ditongo, como grafar o som “w”: com “u” ou com “l”?
30 ____ Na palavra “cover”, a dúvida é dupla, como se vê: a) há ou não um ditongo na primeira
31 sílaba (“cover” é como “otro”?)? b) se sim, como grafar o som “w”? Será uma semivogal (escrita
32 “u”) ou uma consoante lateral (escrita “l”)? Se a decisão caminhar na direção das correções
33 comuns, o resultado é a grafia “colver”.
Nas linhas 12 e 18, observa-se a ocorrência da crase. Sobre essa fusão da preposição a com outras classes gramaticais, avalie as afirmações que seguem, assinalando V, se verdadeiro, ou F, se falso.
( ) Na escrita, assinala-se a crase com o acento grave. A contração à, que representa a fusão da preposição a com o artigo a, não é tônica, mas pode ser proferida um tanto mais fortemente que o a átono.
( ) Os termos diante dos quais ocorre a crase exercem as funções sintáticas de complementos (objeto direto, objeto indireto, complemento nominal) ou adjuntos adverbiais.
( ) O artigo definido feminino, quando vem precedido da preposição a, funde-se com ela, e tal fusão é representada na escrita por um acento grave sobre a vogal.
A ordem correta de preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é: