TEXTO:
Hoje a pergunta com que nos confrontamos é simples: estamos nós realmente salvando o mundo? Não me parece que a resposta possa ser aquela que gostaríamos. O mundo só pode ser salvo se for outro, se esse outro mundo nascer em nós e nos fizer nascer nele.
Mas nem o mundo está sendo salvo nem ele nos salva enquanto seres de existência única e irrepetível. Alguns de nós estarão fazendo coisas que acreditam ser importantíssimas. Mas poucos terão a crença de que estão mudando o nosso futuro. A maior parte de nós está apenas gerindo uma condição que sabemos torta, geneticamente modificada ao sabor de um enorme laboratório para o qual todos trabalhamos, mesmo sem vencimento.
Se alguma coisa queremos mudar, e parece que mudar é preciso, temos que enfrentar algumas perguntas. A primeira das quais é como estamos nós, biólogos, pensando a ciência biológica? Antes de sermos cientistas, somos cidadãos críticos, capazes de questionar os pressupostos que nos são entregues como sendo “naturais”. A verdade, colegas, é que estamos hoje perante uma natureza muito pouco natural. E é aqui que o pecado da preguiça pode estar ganhando corpo. Uma sutil e silenciosa preguiça pode levar a abandonar a reflexão sobre o nosso próprio objeto de trabalho. Aos poucos, cedemos ao comitê de não mais colocarmos em causa quem somos, o que sabemos, o que fazemos. As últimas décadas tenderam a tecnicizar as ciências biológicas. De novo, insistem conosco em que as soluções virão de sofisticadas tecnologias e de que pouco vale questionarmos os desafios políticos e sociais do nosso tempo. À força de termos que sobreviver, vamos aceitando encaixes, ofertas e arranjos. A ideia de que não vale a pena tentar outra utopia conduz à acomodação e ao conformismo intelectual.
A própria ideia de Ciência que nos parece isenta e acima de toda suspeita é tão exclusivista, que pode ser entendida como uma ideia gulosa. Gulosa e glutona. Engorda não por comer, mas por fazer dieta. E essa dieta consiste em ignorar outras sabedorias, outros sistemas de conhecimento.
COUTO, Mia. Estamos nós realmente salvando o mundo? Disponível em:<http://www.citador.pt/
textos/estamos-nos-realmente-salvando-o-mundo-mia-couto>. Acesso em: 3 mar. 2016. Adaptado.
Com base no texto, assinale com V as afirmativas verdadeiras e com F, as falsas, ao analisar os termos transcritos nas proposições a seguir:
( ) O nome “crença” apresenta-se com a mesma regência que “ideia”, sendo ambos derivados regressivos.
( ) A forma verbal “trabalhamos” concorda com a pessoa gramatical implícita no contexto, conferida pela ideia de que o enunciador também se inclui no discurso.
( ) O elemento coesivo “como” possui o mesmo valor morfossemântico de “como”.
( ) O advérbio “muito” é modificador de “pouco”, que, num contexto antitético, expressa intensidade.
( ) O sinal indicativo de crase em “à” deve-se à regência de verbo presente na frase e à presença do artigo feminino, singular, que está anteposto ao substantivo, havendo, assim, a fusão de duas vogais idênticas numa só.
A alternativa que contém a sequência correta, de cima para baixo, é a