Leia o texto para responder às questões de números 02 a 10.
Não quero fazer injúria ao silêncio, que estimo como um amigo. Mas quero fazer hoje o elogio do ruído, da agitação, da música que invade os ouvidos e retumba no peito. Quero declarar meu gosto pelo encontro festivo num breu que se faz brilho, entre braços camaradas e olhos desconhecidos, meu apreço por aquilo que os rígidos insistem em reprimir.
Minha cidade, São Paulo, já foi conspicuamente alegre, dessas que se julgam notívagas ou insones, dessas que desejam chegar despertas ao amanhecer. Um dia, porém, o sono dos justos ressonou mais forte que o ruído dos ébrios, e decidiu-se por lei que era preciso calar a cidade, submetê-la aos ditames irredutíveis dos relógios e dos medidores de decibéis. Já não lhe era mais permitido vagar livre depois da meia-noite. A cidade devia se apresentar em casa à uma no máximo, sóbria e casta e lúcida e respeitável, apta para a labuta do dia seguinte.
Depois desse dia, quem se atreve a circular por suas ruas na alta madrugada ouve o triunfo do silêncio. Bairros antes repletos de cores e luzes tornaram-se sequências de fachadas deslustradas e sombrias, indistintas portas metálicas a esconder seus restaurantes e bares, seus botecos e tabernas, seus sambas e pagodes, como se a essa hora se fizessem todos tão escandalosos que já não pudessem existir. Ao sonâmbulo andarilho que percorra sem saber esses caminhos, tão agitados na luz impávida dos dias, não resta mais que o susto da noite vazia e a constatação do poder sinistro do sossego.
Mas onde há poder, como ensinou um desses andarilhos festivos, há resistência. Tão fácil assim a cidade insone não dorme, não se resigna aos lençóis brancos e limpos ou à hipnose televisiva. Detrás das portas metálicas, sob letreiros apagados, por passagens furtivas, a noite paulistana sobrevive às escondidas, e há fervor na resistência, há amor e liberdade e um gosto inconfundível de vida. Em seu centro despovoado de pernas apressadas, ou em seus bairros recônditos, entre galpões e terrenos baldios, a cidade celebra ainda aquilo que a lei calou, de olhos fechados e braços erguidos.
Hoje é possível reencontrar a noite que perdemos pelas continências da ordem e da lei. E é assim que se podem frequentar vastos salões nobres que se abrem acima de botecos insuspeitos, e pistas quentes à margem dos trilhos do trem, e terraços que estranhamente escapam à vigilância municipal, e apertados porões onde os músicos se reúnem ao fim da noite, todos juntos à espera de um sol gentil. E é assim que temos descoberto que ainda vivemos numa cidade inquieta e enérgica, disposta a combater com música a ubiquidade do silêncio.
(Julián Fuks. https://www.uol.com.br/ecoa/colunas/julian-fuks/2023/12/02/quiseram-calar-a-noite-de-sao-paulo-mas-ela-ainda-resiste.htm. Adaptado)
A forma verbal destacada no trecho do 3º parágrafo “... como se a essa hora se fizessem todos tão escandalosos que já não pudessem existir” está no mesmo modo daquela destacada em: