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Cozinhar é um modo de se ligar
Nessas férias, assisti de perto, por falta de alternativa, a uma pequena reforma na cozinha. Os pintores pintaram o chão e as paredes com rolo, os pedreiros levantaram uma parede pequena. Facílimo. Mal dá para acreditar. Qualquer ser humano, levemente jeitoso, faz uma reforma. Não vai ficar lá essas coisas, mas já é uma possibilidade.
Não é incrível como a maioria de nós não sabe o elementar das coisas do dia a dia? Cortar cabelo, passar uma camisa, lavar um terno, fazer um colete, plantar salsa, assar pão, matar galinha, consertar o ferro – e vai por aí afora.
Até fritar um ovo anda saindo complicado. Cozinhar, então, nem se fale. Além do que comer é perigoso, engorda e mata. Já não somos tão íntimos da comida. Ela vem de longe, anda distâncias sem fim e tem uma vida secreta guardada a sete chaves. Um chicken nugget* não tem na memória o dia em que foi galinha botadeira, se é que o foi. Processado, micropulverizado, maquiado, não tem a menor afinidade com seu consumidor, e vice-versa. Tanto aquele que come como o comido ficam totalmente afastados de sua realidade biológica. São duas substâncias inertes em contato de terceiro grau.
Cozinhar é um modo de se ligar, de se amarrar à vida com simplicidade. E o bom é que cozinhar é preciso, mas cozinhar bem não é preciso, o que dá um certo grau de alívio e liberdade de movimentos. Aprender a cozinhar é uma questão de atitude, de peito. Mais ou menos como saltar de paraquedas.
(Nina Horta. Não é sopa. São Paulo: Companhia de Mesa, 2020. Adaptado)
*Chicken nugget: produto feito a partir de carne de frango, preparado à milanesa para ser frito ou assado.
No trecho do 1º parágrafo, “Não vai ficar lá essas coisas, mas já é uma possibilidade.”, a expressão destacada indica que o trabalho da reforma ficará