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3187387 Ano: 2019
Disciplina: Português
Banca: Pref. Rio Janeiro-RJ
Orgão: Pref. Rio Janeiro-RJ

TEXTO: A cidade contra a vacina

A Revolta da Vacina, famoso charivari que tomou conta das ruas do Rio de Janeiro no início do século passado, não se explica somente pelo temor que a população sentia da vacinação obrigatória [contra a varíola, proposta pelo sanitarista Oswaldo Cruz e aprovada pelo Congresso Nacional em 31 de outubro de 1904].

A população da cidade, sobretudo a de baixa renda, tinha razões para estar enfurecida. Os aluguéis eram caros, o desemprego crescia, os salários diminuíam e, no meio de tudo isso, o prefeito Pereira Passos iniciara uma reforma urbana que visava transformar a cidade numa espécie de Paris tropical, com a demolição de cortiços e hospedarias, a abertura de largas avenidas e a expulsão das camadas populares do centro.

Nesse clima, a notícia de que todos deveriam tomar a vacina explodiu como uma bomba. Sem qualquer esclarecimento sobre a eficácia da vacinação, a população sabia apenas que brigadas de vacinadores, acompanhadas por policiais armados, teriam autorização para violar residências, vacinar as pessoas e prender os que se recusassem a tomar a danada. Até mesmo Rui Barbosa, considerado o sujeito mais inteligente do país, declarou que ninguém teria o direito de contaminar seu sangue com um vírus. quela época, o próprio princípio da vacinação era polêmico.

A revolta explodiu no dia 10 de novembro, quando um comício contra a vacina terminou com os oradores presos no palanque pelo efetivo policial. A população literalmente quebrou a cidade. Teve de tudo: bondes incendiados, lojas depredadas, postes de luz destruídos, palacetes art noveau devidamente atacados. Membros da elite escaparam para seus palacetes de verão em Petrópolis e Teresópolis.

No meio da confusão, explodiu uma rebelião de cadetes da Escola Militar da Praia Vermelha, que planejaram atacar o Palácio do Catete e derrubar o presidente da República, Rodrigues Alves. Após intenso tiroteio, que varou a madrugada de 15 de novembro, o saldo do levante militar era inacreditável, com vários cadáveres estendidos no Largo do Machado.

Para piorar a situação, pais de família ameaçavam receber os vacinadores à bala, com o argumento de que “a aplicação da vacina em braços e virilhas de donzelas era uma imoralidade capaz de despertar demônios adormecidos nas moças”.

Moradores negros da zona portuária, que cultuavam os orixás africanos, evocaram a proteção de Omolu, o poderoso deus da peste e da saúde, e rufaram os atabaques durante a pancadaria. Operários anarquistas ajudaram a erguer barricadas para proteger as casas de santo da repressão policial. Foi ali, onde vivia a população negra, que a revolta foi mais efetiva.

A reação do poder público não tardou. O governo decretou Estado de Sítio. Cortiços, hospedarias e favelas foram invadidos e milhares de moradores pobres foram detidos e enviados ilegalmente para campos de trabalho forçado nos seringais da Amazônia. A vacinação, interrompida no dia 11 de novembro, foi reiniciada e a varíola devidamente erradicada do Rio de Janeiro em pouco tempo.

Luiz Antonio Simas. In: Almanaque brasilidades: um inventário do Brasil popular. Rio de Janeiro: Bazar do tempo, 2018. Páginas 198 – 200. (adaptado)

Quanto à acentuação gráfica, estão reunidas palavras do texto que NÃO obedecem à mesma regra gramatical na sequência:

 

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