Magna Concursos
3316694 Ano: 2023
Disciplina: Português
Banca: IF-ES
Orgão: IF-ES

O texto a seguir serve de base para que se responda às questões de 16 a 23.

Abaixo a norma curta do português!

Indústria de concursos e de consultórios gramatiqueiros faz mal à língua

Sérgio Rodrigues

Escritor e jornalista, autor de A vida futura e Viva a língua brasileira

1 “Norma curta” é o excelente nome que o linguista Carlos Alberto Faraco dá a certo

2 conjunto dogmático de regrinhas gramatiqueiras, vetos arbitrários, apego acrítico à variedade

3 lusitana da língua e pegadinhas em geral. Repare que não falo da norma culta, registro da

4 língua de fato usado pelas camadas de maior escolaridade da população. Esta tem papel social

5 imprescindível e deveria ser ensinada com mais eficiência – não menos – na escola.

6 Me refiro à norma curta, que ninguém de fato fala, mas fingimos que sim, e que vem

7 a ser uma versão idealizada, caricatural, burra e mesquinha daquela. No fim das contas, sua

8 inimiga, pois transforma o estudo da língua portuguesa em território hostil para uma imensa

9 maioria da população. “Ai, como é difícil a nossa língua!”, dizemos quase todos. Difícil nada,

10 ou não teríamos aprendido a falá-la na primeira infância. Tem seus caprichos, como toda

11 língua, e desvelá-los carinhosamente deveria ser um prazer. Insana de tão difícil é a norma

12 curta, que tira seu sustento dessa dificuldade. [...]

13 É ela que move a indústria do português concurseiro e dos consultórios gramaticais

14 da internet. É ela que, via Enem, obriga adolescentes a encher suas redações de “outrossim”

15 e outros entulhos juridiquentos. A norma curta não quer saber se você consegue ler e

16 interpretar um texto. Que importância tem isso? Fundamental é que recite a lista das “figuras

17 de linguagem” em ordem alfabética enquanto equilibra uma bola no nariz. Vai me dizer que

18 não manja de zeugma?

19 Os estudantes capazes de memorizar os truques e evitar as armadilhas que a norma

20 curta chama de provas de português entram para um grupo privilegiado de norma-curtistas.

21 Seu esforço é então recompensado e eles, mesmo os que são incapazes de interpretar um

22 parágrafo simples, ganham o direito de oprimir outros falantes e humilhar quem não alcançou

23 o paraíso do norma-curtismo.

24 A norma curta é inculta. Nunca leu Graciliano Ramos, Rubem Braga, Rachel de Queiroz

25 e tantos outros estilistas do brasileiro que, ao longo do século passado, moldaram um jeito de

26 escrever que soa como música aos ouvidos de quem nasceu aqui. Os autores

27 contemporâneos também brilham pela ausência. A norma curta nunca leu nada. Leram por

28 ela, é verdade. Isso foi muito tempo atrás: um Alexandre Herculano aqui, um Almeida Garrett

29 acolá. Todos portugueses. Nesses clássicos, leitores mortos desde o pré-modernismo

30 pinçaram arbitrariamente só o que confirmava seus dogmas. Estavam prontas – pela

31 eternidade – as tábuas da lei.

32 A norma curta engana muita gente com sua pose de defensora do “bom português”.

33 Tudo mentira. Ela ignora mais de um século de conhecimento teórico e prático sobre a

34 matéria, desprezando grandes gramáticos e zombando de nossos maiores escritores. Ontem

35 me deparei com um caso demencial de norma-curtismo: na página internética de “dicas de

36 português”, o cartum de traço fofo mostra o rapaz se declarando para a moça (“Te amo!”) e

37 sendo corrigido por ela: “Não se pode começar frase com pronome oblíquo átono”. Sim, ela

38 queria ouvir um “Amo-te!” lusitano, acredite quem quiser. A página tem quase um milhão de

39 seguidores. Me parece que estamos lascados.

Adaptado de https://www1.folha.uol.com.br/colunas/sergio-rodrigues/2023/04/abaixo-a-normacurta-do-portugues.shtml. Acesso em: 15 set. 2023.

Sérgio Rodrigues escreve Me refiro à norma curta, linha 6, e Me parece que estamos lascados, linhas 38-39, com o emprego proclítico de me em início de frase, desafiando o padrão da colocação pronominal e conferindo mais fluidez ao gênero do texto que produziu. Na linha 10, por outro lado, hibridiza a norma e usa o clítico em posição posposta ao verbo, aproximando-se de empregos mais cultos e/ou normativos: [...] ou não teríamos aprendido a falá-la na primeira infância [...]. Além disso, transcreve o texto encontrado num cartum, Não se pode começar frase com pronome oblíquo átono, linha 37, em que a próclise à lexia complexa é abonada por gramáticas de orientação normativa. Preâmbulo feito, assinale a alternativa em que o emprego do clítico pronominal sublinhado está de acordo com a norma-padrão vigente.

 

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