A cigarra e a formiga
I – A FORMIGA BOA
Houve uma jovem cigarra que tinha o costume de chiar ao pé dum formigueiro. Só parava quando cansadinha; e seu divertimento, então, era observar as formigas na eterna faina de abastecer as tulhas, mas o bom tempo afinal passou, e vieram as chuvas. Os animais todos, arrepiados, passavam o dia cochilando nas tocas. A pobre cigarra, sem abrigo em seu galhinho seco e metida em grandes apuros, deliberou socorrer-se de alguém. Manquitolando, com uma asa a arrastar, lá se dirigiu para o formigueiro.
[...]
II - A FORMIGA MÁ
Já houve, entretanto, uma formiga má que não soube compreender a cigarra e, com dureza, a repeliu de sua porta.
Foi isso na Europa, em pleno inverno, quando a neve recobria o mundo com seu cruel manto de gelo.
A cigarra, como de costume, havia cantado sem parar o estio inteiro, e o inverno veio encontrá-la desprovida de tudo, sem casa onde se abrigar nem folhinha que comesse.
Desesperada, bateu à porta da formiga e implorou (emprestado, notem!) uns miseráveis restos de comida. Pagaria com juros altos aquela comida de empréstimo, logo que o tempo o permitisse, mas a formiga era uma usurária sem entranhas, além disso, invejosa. Como não soubesse cantar, tinha ódio à cigarra por vê-la querida de todos os seres.
– Que fazia você durante o bom tempo?
– Eu… eu cantava!
– Cantava? Pois dance agora, vagabunda! – e fechou-lhe a porta no nariz.
Resultado: a cigarra ali morreu entanguidinha; quando voltou a primavera, o mundo apresentava um aspecto mais triste. É que faltava na música do mundo o som estridente daquela cigarra, morta por causa da avareza da formiga, mas, se a usurária morresse, quem daria pela falta dela?
Moral: Os artistas, poetas, pintores e músicos são as cigarras da humanidade.
MONTEIRO, Lobato. In MARÇAL, I. A. T. (coord.). Antologia escolar. v. 1. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1995, p. 181-183.
O autor, ao utilizar esta estrutura parentética “(emprestado, notem!)”