Confidência do Itabirano
Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.
A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem
[horizontes.
E o hábito de sofrer, que tanto me diverte, é doce herança itabirana.
De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço:
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa...
Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!
Carlos Drummond de Andrade. Antologia poética. Rio de Janeiro: Record, 1987, p. 46-47.
Considerando o poema acima e conhecimentos por ele suscitados, julgue os itens de 22 a 35 a seguir.
Suponha-se que, no verso 4, quando o poeta Carlos Drummond de Andrade escreve “Noventa por cento de ferro nas calçadas”, ele esteja referindo-se à área das calçadas de Itabira que são cobertas pelo pó proveniente das minas de minério de ferro da região. Então, mais de \( \dfrac{4}{5} \right \) da área dessas calçadas são cobertos pelo pó de ferro.