Texto 2
O futuro sustentável sonhado pelo arquiteto chinês
que morreu no Pantanal
Eliane Trindade
Três meses antes de ser vítima de acidente aéreo no Brasil,
Kongjian Yu concedeu entrevista para documentário brasileiro
"Smart Cities – as Cidades do Futuro”. Acompanharam a
entrevista conduzida por mim, como roteirista do documentário,
o diretor Fábio Berringer, o produtor local Filipe Porto e o
cinegrafista chinês Zhang QinZheng. Em conversa inédita,
Kongjian Yu fala das perspectivas de construir um planetaesponja e uma nova civilização ecológica, amiga da água.
Discorreu por mais de uma hora sobre como tornar as cidades
e o planeta mais resilientes às intempéries climáticas. Ao final
do encontro, passeou com a equipe pelos corredores da
Turenscape, enfeitados por fotos de alguns dos projetos
urbanísticos e paisagísticos entre os mil que levam sua
assinatura.
Como o senhor resume o conceito de cidade-esponja?
É uma solução baseada na natureza para resolver problemas
de inundações e secas urbanas, ao criar cidades resilientes. É
uma solução holística, que usa a paisagem natural para
retenção da água, desacelerando seu fluxo. A chave de uma
cidade-esponja é a oposição à infraestrutura cinza
convencional, construída sobre um sistema de tubulações de
concreto e de drenagem. Uma cidade-esponja retém a água,
que não é inimiga.
Como nasceu o conceito?
Vem da cultura das monções. A ideia de cidade-esponja foi
inspirada por esse fenômeno atmosférico típico do Sul e
Sudeste asiático. Nasci em uma pequena vila na província de
Zhejiang, onde há tempestades durante a estação das
monções. Então, desde muito jovem aprendi como reter a água
no período de inundações para reutilização na estação seca. É
um conhecimento ancestral sobre como lidar com a alternância
de inundações e secas, de forma a manter o equilíbrio
hidrológico.
Então, o futuro também é ancestral?
Sim. Temos que olhar para o passado, para a experiência
acumulada ao longo dos séculos. Estamos falando de milhares
de anos de cooperação com a natureza, que nos mostram como
criar uma paisagem resiliente. É por isso que esses
conhecimentos ancestrais podem ser inspiração para tornar o
nosso planeta mais resiliente diante das mudanças climática.
Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/redesocial/2025/11/ofuturo-sustentavel-sonhado-pelo-arquiteto-chines-que-morreu-nopantanal.shtml. Acesso em: 17 nov. 2025. [Texto reduzido e adaptado].
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