Leia o excerto do conto de Conceição Evaristo para responder a questão:
A morte brinca com balas nos dedos gatilhos dos meninos. Dorvi se lembrou do combinado, o juramento feito em
voz uníssona, gritado sob o pipocar dos tiros:
— A gente combinamos de não morrer!
Limpou os olhos. Lágrimas apontavam diversos sentimentos. A fumaça que subia do monturo de lixo ao lado justificava qualquer gota ou rio-mar que surgisse e rolasse pela
face abaixo. Era a fumaça, desculpou-se consigo mesmo e
cantarolou mordiscando a dor, a canção do Seixas: “Quem
não tem colírio usa óculos escuros.”
A morte incendeia a vida, como se essa estopa fosse.
Molambos erigem fumaça no ar. Na lixeira, corpos são incinerados. A vida é capim, mato, lixo, é pele e cabelo. É e não
é. Na televisão deu:
— Mataram a mulher, puseram o corpo na lixeira e atearam fogo!
(Conceição Evaristo, “A gente combinamos de não morrer”.
Olhos d’água, 2016)