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Na luta contra o etarismo, mulheres provam que são mais que idade!
Com o passar do tempo, a saúde mental e física necessita de cuidados. Envelhecer, no entanto, pode ser um processo ainda
mais difícil em razão de questões e dilemas sociais. Para as mulheres, esse ciclo representa inúmeros desafios
Eduardo Fernandes - postado em 03/03/2024
Envelhecer é um processo natural da vida. As rugas aparecem, a atenção com a saúde precisa ser redobrada e a pele necessita
de mais cuidados. Entretanto, no meio desse ciclo, outras questões aparecem. Para as mulheres, a idade é uma prerrogativa para o
preconceito e o início de várias dificuldades, em diversas áreas da sociedade. Chamada de etarismo de gênero, das roupas que usam
até a produtividade no mercado de trabalho, essa forma de discriminação põe o valor delas à prova.
Segundo relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS), 16,8% dos brasileiros com mais de 50 anos já se sentiram vítima
de algum tipo de discriminação ligado à idade. Embora o etarismo, preconceito com a pessoa idosa, impacte tanto o público masculino
quanto o feminino, é com as mulheres que ele se desenvolve de maneira mais cruel.
Isso, de acordo com Camila Potyara Pereira, socióloga e professora do Departamento de Serviço Social e do Programa de Pósgraduação em Política Social da UnB, porque há uma cultura sexista enraizada na sociedade. "O sexismo se expressa de diferentes
modos. Um deles é o etarismo de gênero, uma discriminação dupla que menospreza mulheres pela faixa etária. Apesar de não ser
exclusivo do campo profissional, o etarismo de gênero encontra nesse espaço um solo fértil", detalha.
No trabalho, quando mais jovens, são vistas como meninas, imaturas, ingênuas e fracas. Para muitos, incapazes de exercerem
suas profissões. Após os 50 anos, são consideradas frágeis, descartáveis e sem vigor. A crença, inclusive, é de que este público deveria
dar lugar a pessoas com mais energia, conforme explica Camila. "Contudo, não há idade ideal. Entre os 40 e os 50 anos as mulheres
são discriminadas pela maternidade, pela sobrecarga imposta pelos afazeres domésticos, pela menstruação e pela chegada da
menopausa", ressalta a socióloga.
Do preconceito, derivam práticas discriminatórias amplamente conhecidas, como a opção pela não contratação de mulheres em
empresas, os salários desiguais e a interferência do chefe na vida privada das funcionárias. Infelizmente, na visão da especialista, o
estigma não se restringe somente ao ambiente do trabalho. Opiniões e condutas esperadas das mulheres, mesmo em espaços de lazer
ou descanso, são igualmente mediados pelo etarismo de gênero. Intimamente ligado à aparência e ao valor sexual, o etarismo direcionado
às mulheres atua como agente opressor para que se mantenham sempre jovens e desejáveis.
"O público feminino é proibido de envelhecer. De fato, enquanto os homens são vistos como mais preparados e sábios à medida
que envelhecem, as mulheres passam a ser vistas como desinteressantes, ultrapassadas e caricatas. A discriminação é tão grande que
as mulheres são as mais afetadas pela depressão, pela ansiedade e pela síndrome do impostor, que se caracteriza por sentimentos
constantes de incapacidade, desqualificação e farsa", acrescenta Camila.
Fora da caixa
"Depois de uma certa idade, nem opinião própria podemos ter." A professora de educação física Cheila de Souza Luiz, 51 anos,
tem vivido na pele a pressão do etarismo. As cobranças e os questionamentos, que sempre existiram, bateram na porta assim que
completou cinco décadas de vida. Machismo, opressão e comentários desconfortáveis inauguraram uma nova percepção de realidade a
ela. Algo como estar presa a uma ideia que os outros gostariam que Cheila fosse para sempre. Dentro desse imaginário coletivo, descobriu
no poder da luta feminina uma forma de se reinventar.
"É muito comum ouvir frases como: 'nossa, você está conservada para a idade que tem'; 'você aparenta ser 10 anos mais nova'.
Há uma cobrança exacerbada para que estejamos dentro do padrão de juventude pelo resto de nossos dias. A frase que parece clichê
— cabelos grisalhos neles é charme —, infelizmente, é vista como uma verdade", enfatiza a multiartista.
Exigências desproporcionais em relação aos homens. O peso das rugas, dos quilos extras, dos fios brancos é desafiador,
principalmente se elas ainda estão subjugadas e presas a crenças castradoras e limitantes. Cheila acredita que há sempre uma tentativa
de reduzir mulheres a esse lugar de servidão, do qual praticamente sempre estiveram. Além disso, se o tema foi reprodutividade ou
sexualidade, com o passar da idade, logo perdem a funcionalidade. (...)
Como combater o etarismo?
Para combater esse tipo de discriminação, a socióloga Camila Potyara Pereira afirma que é essencial um letramento de gênero.
Homens e mulheres devem ter acesso a uma pedagogia feminista, ou seja, uma educação que discuta as desigualdades entre os gêneros
e questione criticamente os papéis sociais atribuídos a cada um deles.
"Uma pedagogia feminista incentiva a construção social de mulheres independentes e que podem escolher o próprio destino,
reconhecendo seu valor pelo que são, e não em comparação com os homens. E friso que essa pedagogia não deve estar presente
apenas nas instituições educacionais. O processo educativo também ocorre no dia a dia, nas rodas de amigos e no almoço de domingo."
Impacto na autoestima
Para Lucas Benevides, psiquiatra e professor de medicina do Ceub, o etarismo pode ter efeitos negativos na saúde mental das
mulheres, afetando a autoestima, o bem-estar emocional e o psicológico. Isso, de acordo com ele, porque a sociedade frequentemente
impõe expectativas e padrões que valorizam a juventude, especialmente para o sexo feminino, o que pode levar a uma série de
problemáticas quando elas envelhecem. (...)
"As cobranças sociais relacionadas à aparência, à produtividade e aos papéis tradicionais podem se intensificar com a faixa
etária. Mulheres são frequentemente avaliadas por sua capacidade de manter a aparência jovem e atender às expectativas de cuidados
dos outros. A comparação com padrões inalcançáveis pode levar a uma percepção distorcida de si mesma e a sentimentos de
inadequação", explica o profissional. (...)
Sem medo de envelhecer
Encarar o envelhecimento e o etarismo de maneira positiva envolve a construção de resiliência psicológica e a busca por apoio
social. A participação em grupos sociais ou atividades coletivas que valorizem a diversidade de idades, bem como o desenvolvimento de
uma identidade positiva que transcenda a aparência física são fundamentais, na visão de Lucas. "Práticas de autocuidado, como a
manutenção de um estilo de vida saudável e a busca por terapia quando necessário, também são cruciais", destrincha o psiquiatra.
Falar sobre saúde mental das mulheres após os 50 anos requer uma compreensão holística que inclua os aspectos físicos,
emocionais e sociais do envelhecimento. A sociedade precisa, antes de tudo, compreender e reconhecer, incluindo profissionais de saúde
da área, o que é etarismo. Assim, o trabalho para promover uma visão mais inclusiva e respeitosa no que diz respeito ao envelhecimento
pode acontecer. (...)
https://www.correiobraziliense.com.br/revista-do-correio/2024/03/6809873-na-luta-contra-o-etarismo-mulheres-provam-que-sao-mais-que-idade.html
I. “De fato, enquanto os homens são vistos como mais preparados e sábios à medida que¹ envelhecem, as mulheres passam a ser vistas como desinteressantes, ultrapassadas e caricatas”.
II. “A participação em grupos sociais ou atividades coletivas que valorizem a diversidade de idades, bem como² o desenvolvimento de uma identidade positiva que transcenda a aparência física são fundamentais, na visão de Lucas”.
III. “Apesar de³ não ser exclusivo do campo profissional, o etarismo de gênero encontra nesse espaço um solo fértil", detalha”.
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