Analise o texto abaixo e responda à questão.
Texto I
Quando começou a enterrar os seus mortos,
quando de algum modo construiu um ritual funeral,
o homo sapiens há cem mil anos já tinha
consciência de sua finitude, de sua presença
provisória no mundo. E este ritual funeral marca
um novo estágio na vida da espécie homo, a
consciência: nasce o homo sapiens sapiens,
aquele que tem consciência do próprio saber,
aquele que sabe que sabe. Foi esta consciência
da fragilidade da vida, foi este choque que nos fez
ver a nós mesmos, que nos fez ter a vida em alta
conta: a vida é rara, deve ser cuidada, cultivada,
mantida.
Foi a necessidade de expansão da vida
humana no mundo, foi o seu fortalecimento que
nos fez de algum modo pensar: “Preciso me
precaver, conhecer as estações, preciso plantar o
próprio alimento, cultivar as ervas que curam,
preciso fabricar armas, ferramentas, preciso
festejar o que ainda tenho e brindar à vida porque
a vida é curta e eu quero viver”.
Foi a consciência da fragilidade da vida, do
quanto tudo é provisório e instável, que
impulsionou os humanos em direção à cultura,
mas esta relação entre a vida pensada como
natureza, e a cultura no sentido de ação, de
intervenção humana no mundo, sempre foi uma
relação difícil. É esta relação entre o
conhecimento, produto da linguagem e da
consciência, e a vida, como a totalidade que nos é
dada, que interessa a Nietzsche, e do modo como
a espécie humana se relaciona com a natureza, o
mundo, a exterioridade que a cerca, mas também
com a natureza que traz em seu próprio corpo e
que a constitui.
O que Nietzsche faz é propor um exercício de
autognose, ou seja, de autoconhecimento da
humanidade, como se a própria espécie se
colocasse em questão e pensasse: O que temos
feito? Que caminhos trilhamos? O que enfim nos
tornamos? É com este objetivo que Nietzsche
percorre a história da humanidade procurando não
aquilo que aparece, mas aquilo que a cultura
esconde: O que de fato move a nossa ação no
mundo? Que valores reproduz?
(MOSÉ, Viviane. Nietzsche hoje: sobre os desafios da vida
contemporânea. Petrópolis, RJ: Vozes. 2018, p.11)
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