A Velha
A velha era felicíssima. Pois não é verdade que tinha
uma boa vida e nada lhe faltava? Só nessa manhã tinha
encontrado um lugar vago num banco de jardim, nem
demasiado à sombra nem demasiado ao sol, o elétrico1
não
vinha excessivamente cheio e também conseguiu lugar, o
padeiro disse-lhe bom dia com um ar tão simpático, quando
ela deixou em cima do balcão o dinheiro de três carcaças2
,
e o empregado da mercearia ficou a conversar depois de lhe
dar o troco e perguntou-lhe se gostava daquela nova marca
de café.
Nos meses mais quentes tirava um passe de terceira
idade e passeava. No inverno não valia a pena, estava frio
e vinha logo a chuva e preferia não sair, por causa do reumatismo.
Mas, saindo só nos meses mais bonitos, o passe ficava
ainda mais barato. Se fizesse a conta do preço a dividir por
doze (ah, sabia bem fazer contas, sempre tinha sido esperta
na escola) pois se fizesse a conta a dividir por doze ainda
era menos que pagava pelo passe.
Gostava sobretudo do elétrico da circulação, dava a volta
à cidade sem ter de sair, e ainda por cima bem instalada,
conseguia ficar quase sempre ao pé da janela. Ou, se não
conseguisse na primeira volta, era certo que conseguia na
segunda, porque, entretanto, sairia quem fosse à janela e era
só empurrar-se um pouco e ocupar o lugar do outro, e então
sim, via tudo como se estivesse no cinema.
Ao cinema propriamente ia pouco, há vários anos até que
já não ia. Não era só por ser caro, é que às vezes as cadeiras
estavam gastas e faziam-lhe doer as costas, e também nunca
sabia se ia gostar dos filmes. E se não gostasse não podia
fazer como na televisão e mudar de canal ou desligar, tinha de aguentar até ao fim, ou sair. E era um grande desconsolo sair
a meio, já lhe tinha acontecido mais do que uma vez.
Por isso não ia cinema. Televisão via bastante, claro,
mas dava-lhe mais gozo andar de elétrico. Em vez de ficar
fechada em casa, andava no meio das pessoas e das ruas,
mas sem se cansar, bem sentada. Gozando o espetáculo dos
outros — olha ali aquela montra3
iluminada, aquele homem
a correr, aquela mulher ajoujada4
com o cesto das couves.
E ela ali, recostada na cadeira, sem carregar pesos, nem
sequer o peso do seu próprio corpo — dava-lhe vontade de
rir, tamanha facilidade.
(Teolinda Gersão. Histórias de Ver e Andar, 2002. Adaptado)
1 bonde
2 pãezinhos
3 vitrine
4 sobrecarregada
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