TEXTO I
― Ainda na véspera eram seis viventes, contando
com o papagaio. Coitado, morrera na areia do rio,
onde haviam descansado, à beira de uma poça: a fome
apertara demais os retirantes e por ali não existia sinal
de comida. Baleia jantara os pés, a cabeça, os ossos
do amigo, e não guardava lembrança disto. Agora,
enquanto parava, dirigia as pupilas brilhantes aos
objetos familiares, estranhava não ver sobre o baú de
folha a gaiola pequena onde a ave se equilibrava mal.
Fabiano também às vezes sentia falta dela, mas logo
a recordação chegava. Tinha andado a procurar
raízes, à toa: o resto da farinha acabara, não se ouvia
um berro de rês perdida na caatinga.
Fonte: RAMOS, Graciliano. Vidas secas. Rio de Janeiro: José
Olympio, 1953.