Leia o texto a seguir para responder à questão.
Saudade do televizinho
Houve tempo em que havia o televizinho.
Será que sobra algum televizinho? Será que
sobra, até mesmo, quem saiba o que é
televizinho? Televizinho era a pessoa que, não
tendo televisão em casa, se aproveitava da do
vizinho. O jovem leitor duvida? Acha que se está
aqui inventando vocábulo exótico, só para fazer
graça? Pois corra aos dicionários. A palavra ali
está, tanto no Aurélio como no Houaiss. Os
dicionários têm isso de bom: conservam as
palavras em desuso como os sedimentos
conservam os fósseis. Neles repousam, em sono
esplêndido, palavras como bufarinheiro e
alcouceira, mandrana e parvajola. Ou então,
diriam os moralistas, palavras que, embora em
uso, identificam práticas em desuso:
honestidade, vergonha, intimidade, virgindade...
Quem viveu os primeiros anos da televisão
sabe que o fenômeno da televizinhança não foi
desprezível. Poucos tinham televisores em casa.
Aos sem-TV, essa maioria de deserdados, restava
correr à casa dos que a possuíam como os
famintos correm aos sopões da caridade. O
televizinho era um tipo social definido e
reconhecido em seus direitos e sua
individualidade. Os próprios apresentadores da
TV se referiam a eles. Davam boa noite “aos
televizinhos”. Depois, ele desapareceu.
Desapareceu como, por exemplo, a figura do
agregado, tão popular nos romances do século
XIX. O agregado, mal comparando, era um
televizinho sem televisão.
As famílias livraram-se do agregado.
Livraram-se em seguida, acrescente-se de
passagem, do excesso de filhos e ficaram mais
enxutas, para usar a palavra que lhes conviria se
famílias fossem empresas – se é que não são.
Mas, na medida em que, nos lares, se iam
cortando os excessos, em matéria de seres
humanos, iam-se, inversamente, multiplicando
os aparelhos de TV. Ninguém mais deixava de
tê-los. Nem mesmo os moradores de barracos.
Triunfo! O televizinho de antes agora tinha seu
próprio aparelho. Foi alcançado por ele, em seu avanço irresistível, como a maré, ao subir,
alcança a praia toda. O vocábulo que o
identificava virou forma sem conteúdo. (...)
TOLEDO, Roberto Pompeu. Saudade do televizinho. Veja. 25 fev. 2002.
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