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Assinale a alternativa cuja frase foi redigida em conformidade com a norma-padrão de regência verbal.
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Leia o texto a seguir para responder à questão:
Fobia imobiliária
A vida me poupou de uns tantos pesadelos. É nisso que
penso enquanto o camarada à minha frente, com incontida
excitação, vai fazendo o pormenorizado relato de sua batalha para alugar apartamento. Já esteve em duas dúzias de
endereços, contabiliza, e em outros tantos pretende estar,
pois em cada um achou defeito. Longe de se lamentar, está
feliz. À beira da euforia, parece governado pela convicção de
que o bom não é achar, é procurar, prazer que exige dele ver
imperfeição onde não tem.
Faria par, este amigo recente, com uma senhora da
minha família, que, precisando de empregada, vetou consecutivamente duas alternativas que as filhas lhe arranjaram,
uma por lhe faltarem alguns dentes, a outra porque, prognata, tinha “dentes demais”.
Respeitemos o time dos que procuram na esperança de
não encontrar – de certa forma aparentados com aqueles
que inventam pretexto para estar o tempo todo reformando
a casa. São, uns e outros, meus antípodas. A simples ideia
de empreender uma reforma já me levaria a buscar um novo
pouso – se também essa perspectiva não me trouxesse
pânico. E, a esta altura da vida, talvez já não haja divã que
dê jeito na fobia imobiliária de quem jamais – jamais – se lançou, como o citado camarada, numa peregrinação em busca
de poleiro.
Minto: ciente das minhas dificuldades nesse particular, houve um dia, meio século atrás, em que, com poucos
meses de São Paulo, e pendurado ainda na generosidade do
casal que me acolheu de mala e cuia, achei que era hora
de providenciar cafofo próprio. Encantado com o que me
parecia ser uma inédita capacidade de superar limitações,
dias depois eu fechava negócio com o dono de um apartamento num predinho até simpático, na esquina de Augusta e
Rua Costa. Quem disse que eu não dava conta? – gabei-me.
Mas não precisei de uma semana para me dar conta de que
ali simplesmente não havia água, nem disposição dos
outros moradores para dar sentido à existência das torneiras. E, no entanto, tudo estava claro desde o início, pois na
primeira incursão eu pudera ver o espetáculo medieval de
cordas içando baldes na soturna área interna do edifício.
A rapidez com que consegui anulação do contrato me trouxe
a certeza de que não fui ali o otário pioneiro.
(Humberto Werneck, “Fobia Imobiliária”, 02.10.20.
Disponível em: https://www.estadao.com.br/cultura/
humberto-werneck/fobia-imobiliaria. Adaptado)
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Fobia imobiliária
A vida me poupou de uns tantos pesadelos. É nisso que
penso enquanto o camarada à minha frente, com incontida
excitação, vai fazendo o pormenorizado relato de sua batalha para alugar apartamento. Já esteve em duas dúzias de
endereços, contabiliza, e em outros tantos pretende estar,
pois em cada um achou defeito. Longe de se lamentar, está
feliz. À beira da euforia, parece governado pela convicção de
que o bom não é achar, é procurar, prazer que exige dele ver
imperfeição onde não tem.
Faria par, este amigo recente, com uma senhora da
minha família, que, precisando de empregada, vetou consecutivamente duas alternativas que as filhas lhe arranjaram,
uma por lhe faltarem alguns dentes, a outra porque, prognata, tinha “dentes demais”.
Respeitemos o time dos que procuram na esperança de
não encontrar – de certa forma aparentados com aqueles
que inventam pretexto para estar o tempo todo reformando
a casa. São, uns e outros, meus antípodas. A simples ideia
de empreender uma reforma já me levaria a buscar um novo
pouso – se também essa perspectiva não me trouxesse
pânico. E, a esta altura da vida, talvez já não haja divã que
dê jeito na fobia imobiliária de quem jamais – jamais – se lançou, como o citado camarada, numa peregrinação em busca
de poleiro.
Minto: ciente das minhas dificuldades nesse particular, houve um dia, meio século atrás, em que, com poucos
meses de São Paulo, e pendurado ainda na generosidade do
casal que me acolheu de mala e cuia, achei que era hora
de providenciar cafofo próprio. Encantado com o que me
parecia ser uma inédita capacidade de superar limitações,
dias depois eu fechava negócio com o dono de um apartamento num predinho até simpático, na esquina de Augusta e
Rua Costa. Quem disse que eu não dava conta? – gabei-me.
Mas não precisei de uma semana para me dar conta de que
ali simplesmente não havia água, nem disposição dos
outros moradores para dar sentido à existência das torneiras. E, no entanto, tudo estava claro desde o início, pois na
primeira incursão eu pudera ver o espetáculo medieval de
cordas içando baldes na soturna área interna do edifício.
A rapidez com que consegui anulação do contrato me trouxe
a certeza de que não fui ali o otário pioneiro.
(Humberto Werneck, “Fobia Imobiliária”, 02.10.20.
Disponível em: https://www.estadao.com.br/cultura/
humberto-werneck/fobia-imobiliaria. Adaptado)
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A vida me poupou de uns tantos pesadelos. É nisso que
penso enquanto o camarada à minha frente, com incontida
excitação, vai fazendo o pormenorizado relato de sua batalha para alugar apartamento. Já esteve em duas dúzias de
endereços, contabiliza, e em outros tantos pretende estar,
pois em cada um achou defeito. Longe de se lamentar, está
feliz. À beira da euforia, parece governado pela convicção de
que o bom não é achar, é procurar, prazer que exige dele ver
imperfeição onde não tem.
Faria par, este amigo recente, com uma senhora da
minha família, que, precisando de empregada, vetou consecutivamente duas alternativas que as filhas lhe arranjaram,
uma por lhe faltarem alguns dentes, a outra porque, prognata, tinha “dentes demais”.
Respeitemos o time dos que procuram na esperança de
não encontrar – de certa forma aparentados com aqueles
que inventam pretexto para estar o tempo todo reformando
a casa. São, uns e outros, meus antípodas. A simples ideia
de empreender uma reforma já me levaria a buscar um novo
pouso – se também essa perspectiva não me trouxesse
pânico. E, a esta altura da vida, talvez já não haja divã que
dê jeito na fobia imobiliária de quem jamais – jamais – se lançou, como o citado camarada, numa peregrinação em busca
de poleiro.
Minto: ciente das minhas dificuldades nesse particular, houve um dia, meio século atrás, em que, com poucos
meses de São Paulo, e pendurado ainda na generosidade do
casal que me acolheu de mala e cuia, achei que era hora
de providenciar cafofo próprio. Encantado com o que me
parecia ser uma inédita capacidade de superar limitações,
dias depois eu fechava negócio com o dono de um apartamento num predinho até simpático, na esquina de Augusta e
Rua Costa. Quem disse que eu não dava conta? – gabei-me.
Mas não precisei de uma semana para me dar conta de que
ali simplesmente não havia água, nem disposição dos
outros moradores para dar sentido à existência das torneiras. E, no entanto, tudo estava claro desde o início, pois na
primeira incursão eu pudera ver o espetáculo medieval de
cordas içando baldes na soturna área interna do edifício.
A rapidez com que consegui anulação do contrato me trouxe
a certeza de que não fui ali o otário pioneiro.
(Humberto Werneck, “Fobia Imobiliária”, 02.10.20.
Disponível em: https://www.estadao.com.br/cultura/
humberto-werneck/fobia-imobiliaria. Adaptado)
• “São, uns e outros, meus antípodas.” (3º parágrafo)
• “… cordas içando baldes na soturna área interna do edifício.” (4º parágrafo)
Considerando o contexto em que foram empregadas, as palavras destacadas podem ser, correta e respectivamente, substituídas por:
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A vida me poupou de uns tantos pesadelos. É nisso que
penso enquanto o camarada à minha frente, com incontida
excitação, vai fazendo o pormenorizado relato de sua batalha para alugar apartamento. Já esteve em duas dúzias de
endereços, contabiliza, e em outros tantos pretende estar,
pois em cada um achou defeito. Longe de se lamentar, está
feliz. À beira da euforia, parece governado pela convicção de
que o bom não é achar, é procurar, prazer que exige dele ver
imperfeição onde não tem.
Faria par, este amigo recente, com uma senhora da
minha família, que, precisando de empregada, vetou consecutivamente duas alternativas que as filhas lhe arranjaram,
uma por lhe faltarem alguns dentes, a outra porque, prognata, tinha “dentes demais”.
Respeitemos o time dos que procuram na esperança de
não encontrar – de certa forma aparentados com aqueles
que inventam pretexto para estar o tempo todo reformando
a casa. São, uns e outros, meus antípodas. A simples ideia
de empreender uma reforma já me levaria a buscar um novo
pouso – se também essa perspectiva não me trouxesse
pânico. E, a esta altura da vida, talvez já não haja divã que
dê jeito na fobia imobiliária de quem jamais – jamais – se lançou, como o citado camarada, numa peregrinação em busca
de poleiro.
Minto: ciente das minhas dificuldades nesse particular, houve um dia, meio século atrás, em que, com poucos
meses de São Paulo, e pendurado ainda na generosidade do
casal que me acolheu de mala e cuia, achei que era hora
de providenciar cafofo próprio. Encantado com o que me
parecia ser uma inédita capacidade de superar limitações,
dias depois eu fechava negócio com o dono de um apartamento num predinho até simpático, na esquina de Augusta e
Rua Costa. Quem disse que eu não dava conta? – gabei-me.
Mas não precisei de uma semana para me dar conta de que
ali simplesmente não havia água, nem disposição dos
outros moradores para dar sentido à existência das torneiras. E, no entanto, tudo estava claro desde o início, pois na
primeira incursão eu pudera ver o espetáculo medieval de
cordas içando baldes na soturna área interna do edifício.
A rapidez com que consegui anulação do contrato me trouxe
a certeza de que não fui ali o otário pioneiro.
(Humberto Werneck, “Fobia Imobiliária”, 02.10.20.
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Fobia imobiliária
A vida me poupou de uns tantos pesadelos. É nisso que
penso enquanto o camarada à minha frente, com incontida
excitação, vai fazendo o pormenorizado relato de sua batalha para alugar apartamento. Já esteve em duas dúzias de
endereços, contabiliza, e em outros tantos pretende estar,
pois em cada um achou defeito. Longe de se lamentar, está
feliz. À beira da euforia, parece governado pela convicção de
que o bom não é achar, é procurar, prazer que exige dele ver
imperfeição onde não tem.
Faria par, este amigo recente, com uma senhora da
minha família, que, precisando de empregada, vetou consecutivamente duas alternativas que as filhas lhe arranjaram,
uma por lhe faltarem alguns dentes, a outra porque, prognata, tinha “dentes demais”.
Respeitemos o time dos que procuram na esperança de
não encontrar – de certa forma aparentados com aqueles
que inventam pretexto para estar o tempo todo reformando
a casa. São, uns e outros, meus antípodas. A simples ideia
de empreender uma reforma já me levaria a buscar um novo
pouso – se também essa perspectiva não me trouxesse
pânico. E, a esta altura da vida, talvez já não haja divã que
dê jeito na fobia imobiliária de quem jamais – jamais – se lançou, como o citado camarada, numa peregrinação em busca
de poleiro.
Minto: ciente das minhas dificuldades nesse particular, houve um dia, meio século atrás, em que, com poucos
meses de São Paulo, e pendurado ainda na generosidade do
casal que me acolheu de mala e cuia, achei que era hora
de providenciar cafofo próprio. Encantado com o que me
parecia ser uma inédita capacidade de superar limitações,
dias depois eu fechava negócio com o dono de um apartamento num predinho até simpático, na esquina de Augusta e
Rua Costa. Quem disse que eu não dava conta? – gabei-me.
Mas não precisei de uma semana para me dar conta de que
ali simplesmente não havia água, nem disposição dos
outros moradores para dar sentido à existência das torneiras. E, no entanto, tudo estava claro desde o início, pois na
primeira incursão eu pudera ver o espetáculo medieval de
cordas içando baldes na soturna área interna do edifício.
A rapidez com que consegui anulação do contrato me trouxe
a certeza de que não fui ali o otário pioneiro.
(Humberto Werneck, “Fobia Imobiliária”, 02.10.20.
Disponível em: https://www.estadao.com.br/cultura/
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Leia o excerto a seguir para responder à questão:
Sobre zona de conforto, meritocracia e Trump
Dia desses, assistindo a uma entrevista, vi um capitalista dizer que, para ganhar mais dinheiro, precisa sair de
sua “zona de conforto”. Oh, chavão. Pelo que pude entender, a “zona de conforto” representaria para ele um convite
à acomodação e à preguiça improdutiva. Logo, um estado
de relaxamento e de calma seria um vício moral; o homem
de negócios sem ócios precisa contar com uma dose de aflição, de nervosismo e até de medo, ou não terá disposição
para correr riscos, mesmo que calculados. Moral da história:
o conforto não é bom para o tilintar das caixas registradoras.
Outro capitalista, esse mais velho, nos tempos em que
tinha um banco de investimentos na Avenida Faria Lima,
comentava com seus diretos que não gostava de “gato
gordo”. Ele não se referia a felinos, óbvio. Ele falava de
homens. O “gato gordo”, em seu dicionário, era aquele
ex-jovem promissor que rapidamente se refestelava numa
posição remediada e se dava por satisfeito com ganhos de
adiposidade, não mais de cifrões. A partir daí, o “gato gordo”,
indolente, comprava uma casa de campo num condomínio
fechado com heliporto e não queria mais saber de aventuras
perigosas. Segundo os ensinamentos do lendário banqueiro,
o “gato gordo” era uma praga. Quando identificava um, demitia correndo.
A expressão “gato gordo” não se popularizou. A outra,
“zona de conforto”, esta caiu na boca do povaréu e virou clichê no mundo corporativo. A toda hora, alguém aparece na
sua frente para falar mal da “zona de conforto”, um signo universal de morosidade, procrastinação, inoperância e falta de
iniciativa (pública ou privada).
A ideologia funciona exatamente assim: as implicâncias
idiossincráticas do patrão são alçadas a cânones inabaláveis
de virtude para o empregado. De pé, oh, vítimas da fome!
Fujam da sua zona de conforto!
Sim, estou sendo irônico. Se for para falar sério, digo
que “zona de conforto” é piada de mau gosto. Na vida de um
bilionário, que não precisa saber quanto custa a anuidade
da escola dos filhos e troca de jatinho todo ano, pode até
ser divertido quebrar a rotina de vez em quando e desafiar o
sossego, um pouquinho só. Mas, na vida do resto da humanidade, uma pitada de estabilidade tranquila é tudo de bom.
Deveria ser festejada, nunca repudiada.
(Eugênio Bucci, “Sobre zona de conforto, meritocracia e Trump”, 02.04.2025.
Disponível em: https://www.estadao.com.br/opiniao/eugenio-bucci/
sobre-zona-de-conforto-meritocracia-e-trump/. Adaptado)
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Leia o excerto a seguir para responder à questão:
Sobre zona de conforto, meritocracia e Trump
Dia desses, assistindo a uma entrevista, vi um capitalista dizer que, para ganhar mais dinheiro, precisa sair de
sua “zona de conforto”. Oh, chavão. Pelo que pude entender, a “zona de conforto” representaria para ele um convite
à acomodação e à preguiça improdutiva. Logo, um estado
de relaxamento e de calma seria um vício moral; o homem
de negócios sem ócios precisa contar com uma dose de aflição, de nervosismo e até de medo, ou não terá disposição
para correr riscos, mesmo que calculados. Moral da história:
o conforto não é bom para o tilintar das caixas registradoras.
Outro capitalista, esse mais velho, nos tempos em que
tinha um banco de investimentos na Avenida Faria Lima,
comentava com seus diretos que não gostava de “gato
gordo”. Ele não se referia a felinos, óbvio. Ele falava de
homens. O “gato gordo”, em seu dicionário, era aquele
ex-jovem promissor que rapidamente se refestelava numa
posição remediada e se dava por satisfeito com ganhos de
adiposidade, não mais de cifrões. A partir daí, o “gato gordo”,
indolente, comprava uma casa de campo num condomínio
fechado com heliporto e não queria mais saber de aventuras
perigosas. Segundo os ensinamentos do lendário banqueiro,
o “gato gordo” era uma praga. Quando identificava um, demitia correndo.
A expressão “gato gordo” não se popularizou. A outra,
“zona de conforto”, esta caiu na boca do povaréu e virou clichê no mundo corporativo. A toda hora, alguém aparece na
sua frente para falar mal da “zona de conforto”, um signo universal de morosidade, procrastinação, inoperância e falta de
iniciativa (pública ou privada).
A ideologia funciona exatamente assim: as implicâncias
idiossincráticas do patrão são alçadas a cânones inabaláveis
de virtude para o empregado. De pé, oh, vítimas da fome!
Fujam da sua zona de conforto!
Sim, estou sendo irônico. Se for para falar sério, digo
que “zona de conforto” é piada de mau gosto. Na vida de um
bilionário, que não precisa saber quanto custa a anuidade
da escola dos filhos e troca de jatinho todo ano, pode até
ser divertido quebrar a rotina de vez em quando e desafiar o
sossego, um pouquinho só. Mas, na vida do resto da humanidade, uma pitada de estabilidade tranquila é tudo de bom.
Deveria ser festejada, nunca repudiada.
(Eugênio Bucci, “Sobre zona de conforto, meritocracia e Trump”, 02.04.2025.
Disponível em: https://www.estadao.com.br/opiniao/eugenio-bucci/
sobre-zona-de-conforto-meritocracia-e-trump/. Adaptado)
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Leia o excerto a seguir para responder à questão:
Sobre zona de conforto, meritocracia e Trump
Dia desses, assistindo a uma entrevista, vi um capitalista dizer que, para ganhar mais dinheiro, precisa sair de
sua “zona de conforto”. Oh, chavão. Pelo que pude entender, a “zona de conforto” representaria para ele um convite
à acomodação e à preguiça improdutiva. Logo, um estado
de relaxamento e de calma seria um vício moral; o homem
de negócios sem ócios precisa contar com uma dose de aflição, de nervosismo e até de medo, ou não terá disposição
para correr riscos, mesmo que calculados. Moral da história:
o conforto não é bom para o tilintar das caixas registradoras.
Outro capitalista, esse mais velho, nos tempos em que
tinha um banco de investimentos na Avenida Faria Lima,
comentava com seus diretos que não gostava de “gato
gordo”. Ele não se referia a felinos, óbvio. Ele falava de
homens. O “gato gordo”, em seu dicionário, era aquele
ex-jovem promissor que rapidamente se refestelava numa
posição remediada e se dava por satisfeito com ganhos de
adiposidade, não mais de cifrões. A partir daí, o “gato gordo”,
indolente, comprava uma casa de campo num condomínio
fechado com heliporto e não queria mais saber de aventuras
perigosas. Segundo os ensinamentos do lendário banqueiro,
o “gato gordo” era uma praga. Quando identificava um, demitia correndo.
A expressão “gato gordo” não se popularizou. A outra,
“zona de conforto”, esta caiu na boca do povaréu e virou clichê no mundo corporativo. A toda hora, alguém aparece na
sua frente para falar mal da “zona de conforto”, um signo universal de morosidade, procrastinação, inoperância e falta de
iniciativa (pública ou privada).
A ideologia funciona exatamente assim: as implicâncias
idiossincráticas do patrão são alçadas a cânones inabaláveis
de virtude para o empregado. De pé, oh, vítimas da fome!
Fujam da sua zona de conforto!
Sim, estou sendo irônico. Se for para falar sério, digo
que “zona de conforto” é piada de mau gosto. Na vida de um
bilionário, que não precisa saber quanto custa a anuidade
da escola dos filhos e troca de jatinho todo ano, pode até
ser divertido quebrar a rotina de vez em quando e desafiar o
sossego, um pouquinho só. Mas, na vida do resto da humanidade, uma pitada de estabilidade tranquila é tudo de bom.
Deveria ser festejada, nunca repudiada.
(Eugênio Bucci, “Sobre zona de conforto, meritocracia e Trump”, 02.04.2025.
Disponível em: https://www.estadao.com.br/opiniao/eugenio-bucci/
sobre-zona-de-conforto-meritocracia-e-trump/. Adaptado)
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Sobre zona de conforto, meritocracia e Trump
Dia desses, assistindo a uma entrevista, vi um capitalista dizer que, para ganhar mais dinheiro, precisa sair de
sua “zona de conforto”. Oh, chavão. Pelo que pude entender, a “zona de conforto” representaria para ele um convite
à acomodação e à preguiça improdutiva. Logo, um estado
de relaxamento e de calma seria um vício moral; o homem
de negócios sem ócios precisa contar com uma dose de aflição, de nervosismo e até de medo, ou não terá disposição
para correr riscos, mesmo que calculados. Moral da história:
o conforto não é bom para o tilintar das caixas registradoras.
Outro capitalista, esse mais velho, nos tempos em que
tinha um banco de investimentos na Avenida Faria Lima,
comentava com seus diretos que não gostava de “gato
gordo”. Ele não se referia a felinos, óbvio. Ele falava de
homens. O “gato gordo”, em seu dicionário, era aquele
ex-jovem promissor que rapidamente se refestelava numa
posição remediada e se dava por satisfeito com ganhos de
adiposidade, não mais de cifrões. A partir daí, o “gato gordo”,
indolente, comprava uma casa de campo num condomínio
fechado com heliporto e não queria mais saber de aventuras
perigosas. Segundo os ensinamentos do lendário banqueiro,
o “gato gordo” era uma praga. Quando identificava um, demitia correndo.
A expressão “gato gordo” não se popularizou. A outra,
“zona de conforto”, esta caiu na boca do povaréu e virou clichê no mundo corporativo. A toda hora, alguém aparece na
sua frente para falar mal da “zona de conforto”, um signo universal de morosidade, procrastinação, inoperância e falta de
iniciativa (pública ou privada).
A ideologia funciona exatamente assim: as implicâncias
idiossincráticas do patrão são alçadas a cânones inabaláveis
de virtude para o empregado. De pé, oh, vítimas da fome!
Fujam da sua zona de conforto!
Sim, estou sendo irônico. Se for para falar sério, digo
que “zona de conforto” é piada de mau gosto. Na vida de um
bilionário, que não precisa saber quanto custa a anuidade
da escola dos filhos e troca de jatinho todo ano, pode até
ser divertido quebrar a rotina de vez em quando e desafiar o
sossego, um pouquinho só. Mas, na vida do resto da humanidade, uma pitada de estabilidade tranquila é tudo de bom.
Deveria ser festejada, nunca repudiada.
(Eugênio Bucci, “Sobre zona de conforto, meritocracia e Trump”, 02.04.2025.
Disponível em: https://www.estadao.com.br/opiniao/eugenio-bucci/
sobre-zona-de-conforto-meritocracia-e-trump/. Adaptado)
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