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TEXTO V – APANHO TODOS OS DIAS DA GRAMÁTICA.
ELA NÃO É TÃO IMPORTANTE ASSIM
Conceição Freitas, Metrópoles, 03/09/2019
Verissimo, filho do Érico, tem uma crônica saborosa sobre a língua portuguesa. Que as
feministas mais aguerridas não nos leiam, ele diz que a gramática precisa apanhar todos os
dias pra saber quem é que manda. Eu apanho dela todos os dias.
Nunca consegui decorar regras gramaticais. Tudo que é muito explicadinho me confunde.
Sorte minha é que a memória visual das boas leituras tem me ajudado desde sempre a não
tropeçar nos erros mais grotescos. Sei que "paralisação" é com S, que "cônjuge" se escreve
assim, que "cafta" é uma receita da culinária árabe e "Kafka" é o genial escritor austríaco.
O conhecimento da língua portuguesa não é um valor moral e nem mesmo distingue quem
é inteligente de quem não é. O rigor na obediência às regras gramaticais é um divisor de
classe – os cultos e os supostamente incultos; os inteligentes e os burros; os graduados e
os sem graduação.
O Verissimo escreveu o que quero dizer de um jeito delicioso:
“...a linguagem, qualquer linguagem, é um meio de comunicação e deve ser julgada exclusivamente como tal. Respeitadas algumas regras básicas da gramática, para evitar os
vexames mais gritantes, as outras são dispensáveis. A sintaxe é uma questão de uso de
princípios. Escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo. Por exemplo: dizer
‘escrever claro’ não é certo, mas é claro, certo? O importante é comunicar (e quando
possível surpreender, iluminar, divertir, comover...). Mas aí entramos na área do talento, que
também não tem nada a ver com a gramática). A gramática é o esqueleto da língua. Só
predomina nas línguas mortas, e aí de interesse restrito de necrólogos e professores de
Latim, gente em geral pouco comunicativa. Aquela sombria gravidade que a gente nota nas
fotografias em grupo dos membros da Academia Brasileira de Letras é de reprovação pelo
português ainda estar vivo. Eles só estão esperando, fardados, que o português morra para
poderem carregar o caixão e escrever sua autópsia definitiva. É o esqueleto que nos traz de
pé, certo, mas ele não informa nada, como a gramática é a estrutura da língua, mas sozinha
não diz nada, não tem futuro. As múmias conversam entre si em gramática pura.”
Impura, sigo apanhando da gramática mesmo tendo de lidar com ela todos os dias, há tanto
tempo que nem é bom contar.
Não consigo decorar, por exemplo, quando devo usar “senão” ou “se não”. (“Senão”
significa “do contrário”. Como no exemplo: “Me escute, senão vou embora.” “Se não” quer
dizer “caso não”. Assim: “Se não vier logo, perderá a vez.” Mas como a língua portuguesa
não facilita pra ninguém, se for trocar o “se não” por “caso não”, muda a conjugação do
verbo: “Caso não venha logo, perderá a vez.”) Nem adianta escrever uma crônica sobre o
“senão”. Da próxima vez, terei de “googlar” de novo. Desconfio que há uma razão freudiana
nessa minha dificuldade com o “se” e o “não”. Talvez porque não me dê bem com
dubiedades.
Se for pra contar vantagem, posso dizer que tiro de letra o uso do “porque”, “por que”,
“porquê” e “por quê”. Também sei de cor, desde criancinha, todas as preposições simples:
“A, ante, após, até, com, contra, de, desde, em, entre, para, per, perante, por, sem, sobre,
sob, trás”. Talvez tenha sido a única lista que decorei no tempo da escola. Como ouvi há
muito tempo de um psicanalista: “Não existe memória, existe desejória.” Por isso, só guardo
o que é essencialmente importante.
Se não morri até agora, disso não morro mais. Será que acertei? (Se errei, senhor revisor,
me diga, que incluo suas considerações. Grata.) Senão, posso perder os leitores que
pacientemente venho tentando conquistar. (Acho que agora acertei!)
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TEXTO V – APANHO TODOS OS DIAS DA GRAMÁTICA.
ELA NÃO É TÃO IMPORTANTE ASSIM
Conceição Freitas, Metrópoles, 03/09/2019
Verissimo, filho do Érico, tem uma crônica saborosa sobre a língua portuguesa. Que as
feministas mais aguerridas não nos leiam, ele diz que a gramática precisa apanhar todos os
dias pra saber quem é que manda. Eu apanho dela todos os dias.
Nunca consegui decorar regras gramaticais. Tudo que é muito explicadinho me confunde.
Sorte minha é que a memória visual das boas leituras tem me ajudado desde sempre a não
tropeçar nos erros mais grotescos. Sei que "paralisação" é com S, que "cônjuge" se escreve
assim, que "cafta" é uma receita da culinária árabe e "Kafka" é o genial escritor austríaco.
O conhecimento da língua portuguesa não é um valor moral e nem mesmo distingue quem
é inteligente de quem não é. O rigor na obediência às regras gramaticais é um divisor de
classe – os cultos e os supostamente incultos; os inteligentes e os burros; os graduados e
os sem graduação.
O Verissimo escreveu o que quero dizer de um jeito delicioso:
“...a linguagem, qualquer linguagem, é um meio de comunicação e deve ser julgada exclusivamente como tal. Respeitadas algumas regras básicas da gramática, para evitar os
vexames mais gritantes, as outras são dispensáveis. A sintaxe é uma questão de uso de
princípios. Escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo. Por exemplo: dizer
‘escrever claro’ não é certo, mas é claro, certo? O importante é comunicar (e quando
possível surpreender, iluminar, divertir, comover...). Mas aí entramos na área do talento, que
também não tem nada a ver com a gramática). A gramática é o esqueleto da língua. Só
predomina nas línguas mortas, e aí de interesse restrito de necrólogos e professores de
Latim, gente em geral pouco comunicativa. Aquela sombria gravidade que a gente nota nas
fotografias em grupo dos membros da Academia Brasileira de Letras é de reprovação pelo
português ainda estar vivo. Eles só estão esperando, fardados, que o português morra para
poderem carregar o caixão e escrever sua autópsia definitiva. É o esqueleto que nos traz de
pé, certo, mas ele não informa nada, como a gramática é a estrutura da língua, mas sozinha
não diz nada, não tem futuro. As múmias conversam entre si em gramática pura.”
Impura, sigo apanhando da gramática mesmo tendo de lidar com ela todos os dias, há tanto
tempo que nem é bom contar.
Não consigo decorar, por exemplo, quando devo usar “senão” ou “se não”. (“Senão”
significa “do contrário”. Como no exemplo: “Me escute, senão vou embora.” “Se não” quer
dizer “caso não”. Assim: “Se não vier logo, perderá a vez.” Mas como a língua portuguesa
não facilita pra ninguém, se for trocar o “se não” por “caso não”, muda a conjugação do
verbo: “Caso não venha logo, perderá a vez.”) Nem adianta escrever uma crônica sobre o
“senão”. Da próxima vez, terei de “googlar” de novo. Desconfio que há uma razão freudiana
nessa minha dificuldade com o “se” e o “não”. Talvez porque não me dê bem com
dubiedades.
Se for pra contar vantagem, posso dizer que tiro de letra o uso do “porque”, “por que”,
“porquê” e “por quê”. Também sei de cor, desde criancinha, todas as preposições simples:
“A, ante, após, até, com, contra, de, desde, em, entre, para, per, perante, por, sem, sobre,
sob, trás”. Talvez tenha sido a única lista que decorei no tempo da escola. Como ouvi há
muito tempo de um psicanalista: “Não existe memória, existe desejória.” Por isso, só guardo
o que é essencialmente importante.
Se não morri até agora, disso não morro mais. Será que acertei? (Se errei, senhor revisor,
me diga, que incluo suas considerações. Grata.) Senão, posso perder os leitores que
pacientemente venho tentando conquistar. (Acho que agora acertei!)
"Escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo. Por exemplo: dizer ‘escrever claro’ não é certo, mas é claro, certo?"
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ELA NÃO É TÃO IMPORTANTE ASSIM
Conceição Freitas, Metrópoles, 03/09/2019
Verissimo, filho do Érico, tem uma crônica saborosa sobre a língua portuguesa. Que as
feministas mais aguerridas não nos leiam, ele diz que a gramática precisa apanhar todos os
dias pra saber quem é que manda. Eu apanho dela todos os dias.
Nunca consegui decorar regras gramaticais. Tudo que é muito explicadinho me confunde.
Sorte minha é que a memória visual das boas leituras tem me ajudado desde sempre a não
tropeçar nos erros mais grotescos. Sei que "paralisação" é com S, que "cônjuge" se escreve
assim, que "cafta" é uma receita da culinária árabe e "Kafka" é o genial escritor austríaco.
O conhecimento da língua portuguesa não é um valor moral e nem mesmo distingue quem
é inteligente de quem não é. O rigor na obediência às regras gramaticais é um divisor de
classe – os cultos e os supostamente incultos; os inteligentes e os burros; os graduados e
os sem graduação.
O Verissimo escreveu o que quero dizer de um jeito delicioso:
“...a linguagem, qualquer linguagem, é um meio de comunicação e deve ser julgada exclusivamente como tal. Respeitadas algumas regras básicas da gramática, para evitar os
vexames mais gritantes, as outras são dispensáveis. A sintaxe é uma questão de uso de
princípios. Escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo. Por exemplo: dizer
‘escrever claro’ não é certo, mas é claro, certo? O importante é comunicar (e quando
possível surpreender, iluminar, divertir, comover...). Mas aí entramos na área do talento, que
também não tem nada a ver com a gramática). A gramática é o esqueleto da língua. Só
predomina nas línguas mortas, e aí de interesse restrito de necrólogos e professores de
Latim, gente em geral pouco comunicativa. Aquela sombria gravidade que a gente nota nas
fotografias em grupo dos membros da Academia Brasileira de Letras é de reprovação pelo
português ainda estar vivo. Eles só estão esperando, fardados, que o português morra para
poderem carregar o caixão e escrever sua autópsia definitiva. É o esqueleto que nos traz de
pé, certo, mas ele não informa nada, como a gramática é a estrutura da língua, mas sozinha
não diz nada, não tem futuro. As múmias conversam entre si em gramática pura.”
Impura, sigo apanhando da gramática mesmo tendo de lidar com ela todos os dias, há tanto
tempo que nem é bom contar.
Não consigo decorar, por exemplo, quando devo usar “senão” ou “se não”. (“Senão”
significa “do contrário”. Como no exemplo: “Me escute, senão vou embora.” “Se não” quer
dizer “caso não”. Assim: “Se não vier logo, perderá a vez.” Mas como a língua portuguesa
não facilita pra ninguém, se for trocar o “se não” por “caso não”, muda a conjugação do
verbo: “Caso não venha logo, perderá a vez.”) Nem adianta escrever uma crônica sobre o
“senão”. Da próxima vez, terei de “googlar” de novo. Desconfio que há uma razão freudiana
nessa minha dificuldade com o “se” e o “não”. Talvez porque não me dê bem com
dubiedades.
Se for pra contar vantagem, posso dizer que tiro de letra o uso do “porque”, “por que”,
“porquê” e “por quê”. Também sei de cor, desde criancinha, todas as preposições simples:
“A, ante, após, até, com, contra, de, desde, em, entre, para, per, perante, por, sem, sobre,
sob, trás”. Talvez tenha sido a única lista que decorei no tempo da escola. Como ouvi há
muito tempo de um psicanalista: “Não existe memória, existe desejória.” Por isso, só guardo
o que é essencialmente importante.
Se não morri até agora, disso não morro mais. Será que acertei? (Se errei, senhor revisor,
me diga, que incluo suas considerações. Grata.) Senão, posso perder os leitores que
pacientemente venho tentando conquistar. (Acho que agora acertei!)
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ELA NÃO É TÃO IMPORTANTE ASSIM
Conceição Freitas, Metrópoles, 03/09/2019
Verissimo, filho do Érico, tem uma crônica saborosa sobre a língua portuguesa. Que as
feministas mais aguerridas não nos leiam, ele diz que a gramática precisa apanhar todos os
dias pra saber quem é que manda. Eu apanho dela todos os dias.
Nunca consegui decorar regras gramaticais. Tudo que é muito explicadinho me confunde.
Sorte minha é que a memória visual das boas leituras tem me ajudado desde sempre a não
tropeçar nos erros mais grotescos. Sei que "paralisação" é com S, que "cônjuge" se escreve
assim, que "cafta" é uma receita da culinária árabe e "Kafka" é o genial escritor austríaco.
O conhecimento da língua portuguesa não é um valor moral e nem mesmo distingue quem
é inteligente de quem não é. O rigor na obediência às regras gramaticais é um divisor de
classe – os cultos e os supostamente incultos; os inteligentes e os burros; os graduados e
os sem graduação.
O Verissimo escreveu o que quero dizer de um jeito delicioso:
“...a linguagem, qualquer linguagem, é um meio de comunicação e deve ser julgada exclusivamente como tal. Respeitadas algumas regras básicas da gramática, para evitar os
vexames mais gritantes, as outras são dispensáveis. A sintaxe é uma questão de uso de
princípios. Escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo. Por exemplo: dizer
‘escrever claro’ não é certo, mas é claro, certo? O importante é comunicar (e quando
possível surpreender, iluminar, divertir, comover...). Mas aí entramos na área do talento, que
também não tem nada a ver com a gramática). A gramática é o esqueleto da língua. Só
predomina nas línguas mortas, e aí de interesse restrito de necrólogos e professores de
Latim, gente em geral pouco comunicativa. Aquela sombria gravidade que a gente nota nas
fotografias em grupo dos membros da Academia Brasileira de Letras é de reprovação pelo
português ainda estar vivo. Eles só estão esperando, fardados, que o português morra para
poderem carregar o caixão e escrever sua autópsia definitiva. É o esqueleto que nos traz de
pé, certo, mas ele não informa nada, como a gramática é a estrutura da língua, mas sozinha
não diz nada, não tem futuro. As múmias conversam entre si em gramática pura.”
Impura, sigo apanhando da gramática mesmo tendo de lidar com ela todos os dias, há tanto
tempo que nem é bom contar.
Não consigo decorar, por exemplo, quando devo usar “senão” ou “se não”. (“Senão”
significa “do contrário”. Como no exemplo: “Me escute, senão vou embora.” “Se não” quer
dizer “caso não”. Assim: “Se não vier logo, perderá a vez.” Mas como a língua portuguesa
não facilita pra ninguém, se for trocar o “se não” por “caso não”, muda a conjugação do
verbo: “Caso não venha logo, perderá a vez.”) Nem adianta escrever uma crônica sobre o
“senão”. Da próxima vez, terei de “googlar” de novo. Desconfio que há uma razão freudiana
nessa minha dificuldade com o “se” e o “não”. Talvez porque não me dê bem com
dubiedades.
Se for pra contar vantagem, posso dizer que tiro de letra o uso do “porque”, “por que”,
“porquê” e “por quê”. Também sei de cor, desde criancinha, todas as preposições simples:
“A, ante, após, até, com, contra, de, desde, em, entre, para, per, perante, por, sem, sobre,
sob, trás”. Talvez tenha sido a única lista que decorei no tempo da escola. Como ouvi há
muito tempo de um psicanalista: “Não existe memória, existe desejória.” Por isso, só guardo
o que é essencialmente importante.
Se não morri até agora, disso não morro mais. Será que acertei? (Se errei, senhor revisor,
me diga, que incluo suas considerações. Grata.) Senão, posso perder os leitores que
pacientemente venho tentando conquistar. (Acho que agora acertei!)
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ELA NÃO É TÃO IMPORTANTE ASSIM
Conceição Freitas, Metrópoles, 03/09/2019
Verissimo, filho do Érico, tem uma crônica saborosa sobre a língua portuguesa. Que as
feministas mais aguerridas não nos leiam, ele diz que a gramática precisa apanhar todos os
dias pra saber quem é que manda. Eu apanho dela todos os dias.
Nunca consegui decorar regras gramaticais. Tudo que é muito explicadinho me confunde.
Sorte minha é que a memória visual das boas leituras tem me ajudado desde sempre a não
tropeçar nos erros mais grotescos. Sei que "paralisação" é com S, que "cônjuge" se escreve
assim, que "cafta" é uma receita da culinária árabe e "Kafka" é o genial escritor austríaco.
O conhecimento da língua portuguesa não é um valor moral e nem mesmo distingue quem
é inteligente de quem não é. O rigor na obediência às regras gramaticais é um divisor de
classe – os cultos e os supostamente incultos; os inteligentes e os burros; os graduados e
os sem graduação.
O Verissimo escreveu o que quero dizer de um jeito delicioso:
“...a linguagem, qualquer linguagem, é um meio de comunicação e deve ser julgada exclusivamente como tal. Respeitadas algumas regras básicas da gramática, para evitar os
vexames mais gritantes, as outras são dispensáveis. A sintaxe é uma questão de uso de
princípios. Escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo. Por exemplo: dizer
‘escrever claro’ não é certo, mas é claro, certo? O importante é comunicar (e quando
possível surpreender, iluminar, divertir, comover...). Mas aí entramos na área do talento, que
também não tem nada a ver com a gramática). A gramática é o esqueleto da língua. Só
predomina nas línguas mortas, e aí de interesse restrito de necrólogos e professores de
Latim, gente em geral pouco comunicativa. Aquela sombria gravidade que a gente nota nas
fotografias em grupo dos membros da Academia Brasileira de Letras é de reprovação pelo
português ainda estar vivo. Eles só estão esperando, fardados, que o português morra para
poderem carregar o caixão e escrever sua autópsia definitiva. É o esqueleto que nos traz de
pé, certo, mas ele não informa nada, como a gramática é a estrutura da língua, mas sozinha
não diz nada, não tem futuro. As múmias conversam entre si em gramática pura.”
Impura, sigo apanhando da gramática mesmo tendo de lidar com ela todos os dias, há tanto
tempo que nem é bom contar.
Não consigo decorar, por exemplo, quando devo usar “senão” ou “se não”. (“Senão”
significa “do contrário”. Como no exemplo: “Me escute, senão vou embora.” “Se não” quer
dizer “caso não”. Assim: “Se não vier logo, perderá a vez.” Mas como a língua portuguesa
não facilita pra ninguém, se for trocar o “se não” por “caso não”, muda a conjugação do
verbo: “Caso não venha logo, perderá a vez.”) Nem adianta escrever uma crônica sobre o
“senão”. Da próxima vez, terei de “googlar” de novo. Desconfio que há uma razão freudiana
nessa minha dificuldade com o “se” e o “não”. Talvez porque não me dê bem com
dubiedades.
Se for pra contar vantagem, posso dizer que tiro de letra o uso do “porque”, “por que”,
“porquê” e “por quê”. Também sei de cor, desde criancinha, todas as preposições simples:
“A, ante, após, até, com, contra, de, desde, em, entre, para, per, perante, por, sem, sobre,
sob, trás”. Talvez tenha sido a única lista que decorei no tempo da escola. Como ouvi há
muito tempo de um psicanalista: “Não existe memória, existe desejória.” Por isso, só guardo
o que é essencialmente importante.
Se não morri até agora, disso não morro mais. Será que acertei? (Se errei, senhor revisor,
me diga, que incluo suas considerações. Grata.) Senão, posso perder os leitores que
pacientemente venho tentando conquistar. (Acho que agora acertei!)
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TEXTO IV – A menina e o pássaro encantado
(Rubem Alves, Ciranda Cultural – texto adaptado)
Era uma vez uma menina que tinha um pássaro como seu melhor amigo. Ele era um
pássaro diferente de todos os demais: era encantado. Os pássaros comuns, se a porta da
gaiola ficar aberta, vão-se embora para nunca mais voltar. Mas o pássaro da menina voava
livre e vinha quando sentia saudades...
As suas penas também eram diferentes. Mudavam de cor. Eram sempre pintadas pelas
cores dos lugares estranhos e longínquos por onde voava. Certa vez, voltou totalmente
branco, cauda enorme de plumas fofas como algodão...
— Menina, eu venho das montanhas frias e cobertas de neve, tudo maravilhosamente
branco e puro, brilhando sob a luz da lua, nada se ouvindo a não ser o barulho do vento que
faz estalar o gelo que cobre os galhos das árvores. Trouxe, nas minhas penas, um pouco do
encanto que vi, como presente para ti...
E, assim, ele começava a cantar as canções e as histórias daquele mundo que a menina
nunca vira. Até que ela adormecia e sonhava que voava nas asas do pássaro.
Outra vez voltou vermelho como o fogo, penacho dourado na cabeça.
— Venho de uma terra queimada pela seca, terra quente e sem água, onde os grandes, os
pequenos e os bichos sofrem a tristeza do sol que não se apaga. As minhas penas ficaram
como aquele sol, e eu trago as canções tristes daqueles que gostariam de ouvir o barulho
das cachoeiras e ver a beleza dos campos verdes.
E de novo começavam as histórias. A menina amava aquele pássaro e podia ouvi-lo sem
parar, dia após dia. E o pássaro amava a menina, e por isso voltava sempre. (...)
I. Ele era um pássaro diferente de todos os demais. II. Convidei-a para ouvir as canções e as histórias daquele lugar. III. Gostaria de voar comigo? IV. Pássaro, tenho confiança em ti. V. Contou-me as mais belas histórias.
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TEXTO IV – A menina e o pássaro encantado
(Rubem Alves, Ciranda Cultural – texto adaptado)
Era uma vez uma menina que tinha um pássaro como seu melhor amigo. Ele era um
pássaro diferente de todos os demais: era encantado. Os pássaros comuns, se a porta da
gaiola ficar aberta, vão-se embora para nunca mais voltar. Mas o pássaro da menina voava
livre e vinha quando sentia saudades...
As suas penas também eram diferentes. Mudavam de cor. Eram sempre pintadas pelas
cores dos lugares estranhos e longínquos por onde voava. Certa vez, voltou totalmente
branco, cauda enorme de plumas fofas como algodão...
— Menina, eu venho das montanhas frias e cobertas de neve, tudo maravilhosamente
branco e puro, brilhando sob a luz da lua, nada se ouvindo a não ser o barulho do vento que
faz estalar o gelo que cobre os galhos das árvores. Trouxe, nas minhas penas, um pouco do
encanto que vi, como presente para ti...
E, assim, ele começava a cantar as canções e as histórias daquele mundo que a menina
nunca vira. Até que ela adormecia e sonhava que voava nas asas do pássaro.
Outra vez voltou vermelho como o fogo, penacho dourado na cabeça.
— Venho de uma terra queimada pela seca, terra quente e sem água, onde os grandes, os
pequenos e os bichos sofrem a tristeza do sol que não se apaga. As minhas penas ficaram
como aquele sol, e eu trago as canções tristes daqueles que gostariam de ouvir o barulho
das cachoeiras e ver a beleza dos campos verdes.
E de novo começavam as histórias. A menina amava aquele pássaro e podia ouvi-lo sem
parar, dia após dia. E o pássaro amava a menina, e por isso voltava sempre. (...)
“— Venho de uma terra queimada pela seca, terra quente e sem água, onde os grandes, os pequenos e os bichos sofrem a tristeza do sol que não se apaga.”
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TEXTO IV – A menina e o pássaro encantado
(Rubem Alves, Ciranda Cultural – texto adaptado)
Era uma vez uma menina que tinha um pássaro como seu melhor amigo. Ele era um
pássaro diferente de todos os demais: era encantado. Os pássaros comuns, se a porta da
gaiola ficar aberta, vão-se embora para nunca mais voltar. Mas o pássaro da menina voava
livre e vinha quando sentia saudades...
As suas penas também eram diferentes. Mudavam de cor. Eram sempre pintadas pelas
cores dos lugares estranhos e longínquos por onde voava. Certa vez, voltou totalmente
branco, cauda enorme de plumas fofas como algodão...
— Menina, eu venho das montanhas frias e cobertas de neve, tudo maravilhosamente
branco e puro, brilhando sob a luz da lua, nada se ouvindo a não ser o barulho do vento que
faz estalar o gelo que cobre os galhos das árvores. Trouxe, nas minhas penas, um pouco do
encanto que vi, como presente para ti...
E, assim, ele começava a cantar as canções e as histórias daquele mundo que a menina
nunca vira. Até que ela adormecia e sonhava que voava nas asas do pássaro.
Outra vez voltou vermelho como o fogo, penacho dourado na cabeça.
— Venho de uma terra queimada pela seca, terra quente e sem água, onde os grandes, os
pequenos e os bichos sofrem a tristeza do sol que não se apaga. As minhas penas ficaram
como aquele sol, e eu trago as canções tristes daqueles que gostariam de ouvir o barulho
das cachoeiras e ver a beleza dos campos verdes.
E de novo começavam as histórias. A menina amava aquele pássaro e podia ouvi-lo sem
parar, dia após dia. E o pássaro amava a menina, e por isso voltava sempre. (...)
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TEXTO II – Poema tirado de uma notícia de jornal
(Manuel Bandeira; Libertinagem, 1930)
João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro
da Babilônia num barracão sem número.
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.
TEXTO III – Receita da felicidade
(Domínio público)
Ingredientes:
3 xícaras de bondade,
5 colheres de perdão,
1 xícara de alegria,
½ litro de sinceridade,
Esperança a gosto.
Modo de fazer:
Aqueça o forno em temperatura branda enquanto mistura com
cuidado e carinho todos os ingredientes. Lembre-se, diariamente,
de misturar os ingredientes para equilibrar a mistura. Sirva-se
bem!
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TEXTO II – Poema tirado de uma notícia de jornal
(Manuel Bandeira; Libertinagem, 1930)
João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro
da Babilônia num barracão sem número.
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.
TEXTO III – Receita da felicidade
(Domínio público)
Ingredientes:
3 xícaras de bondade,
5 colheres de perdão,
1 xícara de alegria,
½ litro de sinceridade,
Esperança a gosto.
Modo de fazer:
Aqueça o forno em temperatura branda enquanto mistura com
cuidado e carinho todos os ingredientes. Lembre-se, diariamente,
de misturar os ingredientes para equilibrar a mistura. Sirva-se
bem!
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