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TEXTO III
FALARES LOCAIS E DIALETOS
No Brasil, como há variedades de falares, pode-se observar algumas nuances fonéticas na realização da langue, o que comumente denominam-se dialetos. Antenor Nascentes identifica essas nuances e a abrangência delas como falares ou dialetos locais e regionais. Há, para ele, no Brasil, o falar fluminense, o falar baiano, o nordestino, o sulista e o amazônico. Nessas regiões, identificam-se particularidades linguísticas (fonéticas, fonológicas, morfológicas etc.), que apontam para pluralidade de normas e registros.
No norte do país, registra-se o uso maciço da vogal pretônica aberta. Em palavras como /odeio/, /rebolo/ têm-se, respectivamente, a realização fonética [ódeio] e [rébolo] com a vogal pretônica aberta, com recorrente uso na Bahia, Pernambuco e outros estados do nordeste. Na região de São Paulo, observa-se que o fonema /r/ em sílaba travada, como em porta, é retroflexo, alguns o chamam de [r] caipira. No Rio de Janeiro, o mesmo fonema /r/, em sílaba travada se articula como fonema mais gutural, velar. Em falares/dialetos nordestinos como na Paraíba, Pernambuco, Ceará, além da prosódia característica, têm-se o fonema oclusivo /t/ com traços mais linguodentais, como se vê em [tia], já no dialeto fluminense, este mesmo fonema oclusivo /t/ antes do fonema vocálico /i/ , apresenta [tsia], um chiado característico, próprio do falar do Rio de Janeiro, o que a fonética chama de [ts] africado.
Em termos gerais, diz-se que os “dialetos são as formas características que uma língua assume regionalmente” (CUNHA, 2007, p. 4). Ou seja, são as variedades linguísticas, que se materializam mediante uso maciço e expressivo por uma comunidade, grupo ou região que partilham da mesma norma.
Se o dialeto possui uma abrangência social da língua, o idioleto é o uso particular, a parole. Ele é, pois, a realização individual e expressiva da língua, que, por conseguinte, abarca todo traço linguístico do falante. No idioleto é que se observa o conceito de desempenho/performance chomskyano, na relação competência/desempenho.
Ao falar sobre diferenças que existem em um sistema linguístico, reconhece-se que embora haja uma unidade estrutural da língua, não há uma igualdade ou homogeneidade nela, ou seja, o sistema não é monoclítico e sim heteroclítico. Há um ideal de língua padrão, que vige como variante de prestígio e há variedades (ditas) não-padrão, língua mais popular. O fato é que a língua, nesse caso específico a portuguesa, sofre a todo instante a ação de seus falantes, e de acordo com escolaridade, região e grau de (in) formalidade que a situação exija, têm-se realizações distintas para a mesma língua portuguesa.
Existem estudos linguísticos que investigaram as particularidades que faz a variação da língua. Segundo pesquisas, a língua sofre variação diatópica. Trata-se de uma variante que existe em determinadas regiões, por influência de colonização ou até mesmo o clima, relevo etc., que contribui de alguma forma para o desenvolvimento de características linguísticas próprias do grupo, da localidade, formando regionalismos, dialetos. Há também a chamada variação diastrática. Essa variedade é produto do grau de instrução do falante, de sua formação, escolaridade, grupo a que pertence. Ou seja, por esse modelo, afirma-se que o desempenho do falante é determinado pela sua posição sociocultural e seu papel na sociedade. Das diferenças entre as camadas sociais, surgem também as variedades: culta, padrão e popular. E, por último, fala-se na variedade diafásica, que consiste nas diferenças das modalidades expressivas da língua. Entra nesse tipo de variedade a modalidade da língua falada, escrita, literária, língua dos homens, mulheres, faixa etária etc. Todos esses fatores: geográficos, históricos, sociológicos e culturais fazem com que haja variação da língua, seja em nível fonético, fonológico, morfológico, sintático ou semântico.
(http://folhetimdasletras.blogspot.com.br/2009/10/falares-locais-e-dialetos.html)
Segundo o texto acima o dialeto é(são):
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TEXTO II
MOTIVO
(Cecília Meireles)
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem
sou triste: sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.
A estrutura poética de Motivo apresenta uma antítese na primeira estrofe (alegre/triste), duas na segunda (gozo/tormento; noites/dias) e três na terceira (desmorono/edifico; permaneço/desfaço e fico/passo). A quarta e última estrofe este recurso não é utilizado. Sobre isso é correto afirmar:
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TEXTO II
MOTIVO
(Cecília Meireles)
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem
sou triste: sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.
A ideia que mais se adequa à segunda estrofe é:
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TEXTO II
MOTIVO
(Cecília Meireles)
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem
sou triste: sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.
A máxima que melhor explica a última estrofe é:
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TEXTO II
MOTIVO
(Cecília Meireles)
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem
sou triste: sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.
A estrofe em que aparece a isotopia lexical é:
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TEXTO II
MOTIVO
(Cecília Meireles)
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem
sou triste: sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.
O trecho que melhor justifica o título é:
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TEXTO II
MOTIVO
(Cecília Meireles)
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem
sou triste: sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.
Marque a alternativa INCORRETA:
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TEXTO II
MOTIVO
(Cecília Meireles)
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem
sou triste: sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.
Sobre o texto de Cecília Meireles podemos afirmar:
I– apresenta em uma primeira instância o manifestar artístico, fala da não obrigatoriedade de sofrimentos profundos para o manifestar poético e encerra falando da efemeridade da vida.
II– grande parte do texto se estrutura em antíteses sugerindo a necessidade dos díspares para realçar a beleza e servir de estímulos para as decisões tomadas.
III– o texto transita entre o efêmero e o permanente e pode ser caracterizado como de caráter predominantemente existencialista.
IV– do primeiro ao último verso o eu poético afirma a sua certeza no existir e na forma de manifestar-se.
Dadas as proposições, marque a alternativa CERTA:
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- Interpretação de TextosCoesão e CoerênciaCoesãoCoesão Referencial
- Interpretação de TextosFiguras e Vícios de LinguagemFiguras de Linguagem
TEXTO I
A BÊNÇÃO DO PAI
Era lei na nossa casa que os filhos homens não podiam chorar. No dia em que fui embora para o Recife senti um aperto no coração, a garganta travou, os olhos encheram-se de lágrimas. Sobravam razões para isso. Ia morar numa cidade grande e desconhecida, não tinha endereço certo e nem havia feito matrícula no colégio. Tudo nebuloso no futuro do menino de dezessete anos que deixava a casa paterna, o paraíso verdejante do Cariri cearense e sua gente acolhedora. Como na canção de Caetano Veloso, minha mãe e meus sete irmãos me acompanharam até a porta. Apertei suas mãos sem dizer uma única palavra, os dentes cerrados. Se deixasse escapar um singelo adeus, o açude represado de lágrimas romperia. Meu pai me olhava firme, vigilante. Com ele planejara largar a vidinha feliz, conhecer outro mundo, tentar a sorte. Traçamos um projeto que eu deveria seguir à risca: me formaria em medicina, levaria os irmãos mais novos ao Recife e ajudaria a educá-los. Árduo compromisso.
Desde o ciclo migratório da década de cinquenta, quando as fazendas sertanejas se esvaziaram dos seus moradores, meus pais compreenderam não existir mais futuro no campo. Largaram o plantio de algodão, os criatórios de gado, as lavouras, e tomaram para si a tarefa de iniciar os filhos numa outra vida. No que dependesse deles, todos nós frequentaríamos a universidade. Sábia escolha do nosso pai, um homem que aprendeu a ler sozinho e atravessou noites brigando com os enigmas do português e da aritmética. Por algum mistério que nunca desvendei, os livros eram objetos de fetiche na família, prestando-se verdadeiro culto aos tios letrados, homens sábios e faladores.
Foi meu pai quem me acompanhou até a garagem do ônibus, pois não existia rodoviária no Crato. Caminhava ao meu lado, solene e silencioso. Um carregador transportava na cabeça minha parca mudança: uma mala de couro e uma caixa de papelão amarrada com cordas de barbante. A mais franciscana pobreza. Eu não enxergava nada à minha frente, os olhos cegos de lágrimas. Lembrei uma história que minha avó me contava, a de três irmãos que abandonam o lar em busca de fortuna. A todos eles o pai perguntou na hora da despedida: – Você prefere muito dinheiro e minha maldição ou pouco dinheiro e minha bênção? Apenas o mais novo escolheu a bênção e pouco dinheiro, alcançando sucesso.
Eu não podia me despedir de meu pai sem um adeus e sem pedir a bênção. Precisava ouvir de seus lábios a fórmula protetora do “Deus te abençoe”. Atravessava a cidade a pé, com a sensação de que me empurravam para o desterro. Nunca um trajeto me pareceu tão longo. Chegamos. O carregador instalou as bagagens no ônibus, recebeu o pagamento e deixou-nos sozinhos com meia hora de espera e constrangimento. Foi uma eternidade. Meu pai apertou minha mão, o máximo de afeto permitido entre nós, não me olhou, de modo que nunca soube o que sentiu naquela tarde. Na família, não existiam trocas de afagos e confidências, apesar dos fortes vínculos que nos uniam. Apertei a mão dele, e consegui pedir a bênção sem chorar. Ele me abençoou e parti sozinho. Sozinho, chorei horas seguidas e tive a primeira de muitas consciências, a de que eu era senhor do meu pranto.
As velhas fórmulas caíram em desuso, já não se pede a bênção a ninguém. Ah! O poder mágico dessa invocação! Toda noite, antes de dormir, escutava os irmãos gritarem dos seus quartos, para o quarto dos pais: A bênção! Só calavam depois que ouviam o “Deus te abençoe”. As três palavras pareciam o pano que nossa mãe estendia sobre as redes, nos protegendo dos respingos da chuva, na casa de telha vã. A fórmula não se referia ao Deus de nenhuma instituição religiosa, era apenas uma graça pacificadora, um sonífero sem droga.
Chegaram os dias em que desprezei os costumes da família, virei o rosto para os velhos que cobravam o pedido de bênção, senti nojo das mãos descarnadas das tias, estendidas para que eu as beijasse. Morreu a geração de bisavôs, depois caíram os avôs e já começaram as baixas nos tios paternos. Quando não restarem vivos na fileira dos pais, assumirei a linha de frente. Todos estarão depois de mim, ninguém mais antes de mim para abençoar-me. Serei eu a abençoar.
Por esses dias, meu filho mais novo viajou para estudar na Inglaterra. Achei que minha história se repetia em condições diferentes e por uma estrada bem mais comprida. Conversei com ele sobre seus projetos para o futuro. Ajudei-o a comprar as passagens, o curso, o seguro saúde, a arrumar a mala. Levei-o ao aeroporto na companhia festiva dos amigos, da namorada, e dos irmãos. Minha mulher e eu éramos as únicas pessoas graves na comitiva.
Meu filho transpôs o portão de embarque, tudo estava certo, não faltava nada. De repente, ele voltou até junto de mim, me estendeu a mão e pediu: A bênção, pai! Pronunciei o “Deus te abençoe” e a ordem do mundo se refez, uma ordem em que se recompõem os elos com o passado, sem nenhuma culpa pelas formas que o presente assume. Não sei o que meu filho sentia, nem em que pensava quando me pediu a bênção. Talvez tenha lembrado a história dos três irmãos, a que minha avó me contava e contei para ele. Todas as experiências do homem são de algum modo análogas, está escrito no Eclesiastes, o livro em que aprendi a ler, ajudado por meu pai.
Ronaldo Correia de Brito
“As três palavras pareciam o pano que nossa mãe estendia sobre as redes, nos protegendo dos respingos da chuva, na casa de telha vã.” O termo em destaque retomam um enunciado citado: “Deus te abençoe”, o recurso coesivo aqui falado se chama:
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TEXTO I
A BÊNÇÃO DO PAI
Era lei na nossa casa que os filhos homens não podiam chorar. No dia em que fui embora para o Recife senti um aperto no coração, a garganta travou, os olhos encheram-se de lágrimas. Sobravam razões para isso. Ia morar numa cidade grande e desconhecida, não tinha endereço certo e nem havia feito matrícula no colégio. Tudo nebuloso no futuro do menino de dezessete anos que deixava a casa paterna, o paraíso verdejante do Cariri cearense e sua gente acolhedora. Como na canção de Caetano Veloso, minha mãe e meus sete irmãos me acompanharam até a porta. Apertei suas mãos sem dizer uma única palavra, os dentes cerrados. Se deixasse escapar um singelo adeus, o açude represado de lágrimas romperia. Meu pai me olhava firme, vigilante. Com ele planejara largar a vidinha feliz, conhecer outro mundo, tentar a sorte. Traçamos um projeto que eu deveria seguir à risca: me formaria em medicina, levaria os irmãos mais novos ao Recife e ajudaria a educá-los. Árduo compromisso.
Desde o ciclo migratório da década de cinquenta, quando as fazendas sertanejas se esvaziaram dos seus moradores, meus pais compreenderam não existir mais futuro no campo. Largaram o plantio de algodão, os criatórios de gado, as lavouras, e tomaram para si a tarefa de iniciar os filhos numa outra vida. No que dependesse deles, todos nós frequentaríamos a universidade. Sábia escolha do nosso pai, um homem que aprendeu a ler sozinho e atravessou noites brigando com os enigmas do português e da aritmética. Por algum mistério que nunca desvendei, os livros eram objetos de fetiche na família, prestando-se verdadeiro culto aos tios letrados, homens sábios e faladores.
Foi meu pai quem me acompanhou até a garagem do ônibus, pois não existia rodoviária no Crato. Caminhava ao meu lado, solene e silencioso. Um carregador transportava na cabeça minha parca mudança: uma mala de couro e uma caixa de papelão amarrada com cordas de barbante. A mais franciscana pobreza. Eu não enxergava nada à minha frente, os olhos cegos de lágrimas. Lembrei uma história que minha avó me contava, a de três irmãos que abandonam o lar em busca de fortuna. A todos eles o pai perguntou na hora da despedida: – Você prefere muito dinheiro e minha maldição ou pouco dinheiro e minha bênção? Apenas o mais novo escolheu a bênção e pouco dinheiro, alcançando sucesso.
Eu não podia me despedir de meu pai sem um adeus e sem pedir a bênção. Precisava ouvir de seus lábios a fórmula protetora do “Deus te abençoe”. Atravessava a cidade a pé, com a sensação de que me empurravam para o desterro. Nunca um trajeto me pareceu tão longo. Chegamos. O carregador instalou as bagagens no ônibus, recebeu o pagamento e deixou-nos sozinhos com meia hora de espera e constrangimento. Foi uma eternidade. Meu pai apertou minha mão, o máximo de afeto permitido entre nós, não me olhou, de modo que nunca soube o que sentiu naquela tarde. Na família, não existiam trocas de afagos e confidências, apesar dos fortes vínculos que nos uniam. Apertei a mão dele, e consegui pedir a bênção sem chorar. Ele me abençoou e parti sozinho. Sozinho, chorei horas seguidas e tive a primeira de muitas consciências, a de que eu era senhor do meu pranto.
As velhas fórmulas caíram em desuso, já não se pede a bênção a ninguém. Ah! O poder mágico dessa invocação! Toda noite, antes de dormir, escutava os irmãos gritarem dos seus quartos, para o quarto dos pais: A bênção! Só calavam depois que ouviam o “Deus te abençoe”. As três palavras pareciam o pano que nossa mãe estendia sobre as redes, nos protegendo dos respingos da chuva, na casa de telha vã. A fórmula não se referia ao Deus de nenhuma instituição religiosa, era apenas uma graça pacificadora, um sonífero sem droga.
Chegaram os dias em que desprezei os costumes da família, virei o rosto para os velhos que cobravam o pedido de bênção, senti nojo das mãos descarnadas das tias, estendidas para que eu as beijasse. Morreu a geração de bisavôs, depois caíram os avôs e já começaram as baixas nos tios paternos. Quando não restarem vivos na fileira dos pais, assumirei a linha de frente. Todos estarão depois de mim, ninguém mais antes de mim para abençoar-me. Serei eu a abençoar.
Por esses dias, meu filho mais novo viajou para estudar na Inglaterra. Achei que minha história se repetia em condições diferentes e por uma estrada bem mais comprida. Conversei com ele sobre seus projetos para o futuro. Ajudei-o a comprar as passagens, o curso, o seguro saúde, a arrumar a mala. Levei-o ao aeroporto na companhia festiva dos amigos, da namorada, e dos irmãos. Minha mulher e eu éramos as únicas pessoas graves na comitiva.
Meu filho transpôs o portão de embarque, tudo estava certo, não faltava nada. De repente, ele voltou até junto de mim, me estendeu a mão e pediu: A bênção, pai! Pronunciei o “Deus te abençoe” e a ordem do mundo se refez, uma ordem em que se recompõem os elos com o passado, sem nenhuma culpa pelas formas que o presente assume. Não sei o que meu filho sentia, nem em que pensava quando me pediu a bênção. Talvez tenha lembrado a história dos três irmãos, a que minha avó me contava e contei para ele. Todas as experiências do homem são de algum modo análogas, está escrito no Eclesiastes, o livro em que aprendi a ler, ajudado por meu pai.
Ronaldo Correia de Brito
“As velhas fórmulas caíram em desuso”. Sintaticamente, o termo se classifica como:
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