Magna Concursos

Foram encontradas 453 questões.

2105452 Ano: 2021
Disciplina: Português
Banca: Consulplan
Orgão: Pref. Colômbia-SP
Provas:
O excerto do livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, contextualiza a questão. Leia-o atentamente.
“... Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis; nada menos. Meu pai, logo que teve aragem dos onze contos, sobressaltou-se deveras; achou que o caso excedia as raias de um capricho juvenil.
– Desta vez, disse ele, vais para a Europa; vais cursar uma Universidade, provavelmente Coimbra; quero-te homem sério e não para arruador e gatuno. E como eu fizesse um gesto de espanto: – Gatuno, sim senhor; não é outra coisa um filho que me faz isto...
(ASSIS, Machado de. Memórias Póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro: Edições de Ouro.)
Considerando o excerto anterior, pode-se afirmar que se trata de um texto:
 

Provas

Questão presente nas seguintes provas
2105451 Ano: 2021
Disciplina: Português
Banca: Consulplan
Orgão: Pref. Colômbia-SP
Provas:
Texto para responder à questão.
Eu, meu melhor amigo
Os manuais de autoajuda se incorporaram à vida moderna tanto quanto os telefones celulares ou a internet. Cada vez mais gente encontra inspiração em seus conselhos para perseguir uma vida melhor […], os títulos de maior sucesso ensinam a ficar rico em pouco tempo, a atrair a sorte para si próprio e a galgar degraus no trabalho rapidamente. Se todos os títulos fossem colocados em uma centrífuga, o conselho fundamental que daí resultaria seria: goste de você, tenha confiança em si mesmo, acredite em sua capacidade. Em resumo: preserve sua autoestima. Os psicólogos são unânimes em afirmar que a autoestima é a principal ferramenta com que o ser humano conta para enfrentar os desafios do cotidiano, uma espécie de sistema imunológico emocional. […] Resume o historiador inglês Peter Burke: “A autoestima é o conceito mais estudado na psicologia social, e há um bom motivo para isso. Ela é a chave para a convivência harmoniosa no mundo civilizado”.
A autoestima é vital não apenas para as pessoas, mas também para as famílias, os grupos, as empresas, as equipes esportivas e os países. Sem ela, não há terreno fértil para as grandes descobertas nem para o surgimento de líderes. Quem não acredita em si mesmo acha que não vale a pena dizer o que pensa. Desde o início da civilização, o mundo é movido a pessoas que confiam de tal forma nas próprias ideias que se sentem estimuladas a dividi-las com os outros.
[…]
(ZAKABI, Rosana. Veja. São Paulo, Abril, ano 40, nº 26, 4 jul. 2007.)
Tendo em vista características do gênero discursivo apresentado, pode-se afirmar em relação ao trecho destacado a seguir “Resume o historiador inglês Peter Burke: ‘A autoestima é o conceito mais estudado na psicologia social, e há um bom motivo para isso. Ela é a chave para a convivência harmoniosa no mundo civilizado’.” (1º§) que:
 

Provas

Questão presente nas seguintes provas
2105450 Ano: 2021
Disciplina: Português
Banca: Consulplan
Orgão: Pref. Colômbia-SP
Provas:
Cada leitura é uma nova escritura de um texto. O ato de criação não estaria, assim, na escrita, mas na leitura, o verdadeiro produtor não seria o autor, mas o leitor. Ler não é descobrir o que o autor quis nos dizer, [...] ao ler, o leitor trabalha produzindo significações e nesse trabalho que ele se constrói leitor. Suas leituras prévias, suas histórias como leitor, estão presentes como condição de seu trabalho de leitura e esse trabalho o constitui como leitor e assim sucessivamente. (SILVA, Klyvia Larissa de Andrade. Formar Leitores: um desafio da escola. Revista ABC Educatio. Junho/2010.) A partir do texto anterior, pode-se afirmar que, de acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio para a disciplina de Língua Portuguesa:
 

Provas

Questão presente nas seguintes provas
2105449 Ano: 2021
Disciplina: Português
Banca: Consulplan
Orgão: Pref. Colômbia-SP
Provas:
O sentido maior
Quando eu era jovem, um padre dava aulas sobre Tomásde Aquino (1225-1274), doutor da igreja e teólogo global. Otema eram as cinco provas da existência de Deus. Após aexposição, o jesuíta contou, como arremate de uma boa aula,um caso sobre o doutor angélico. Disse que, após o italiano terescrito coisas profundas e enormes sobre a divindade, teve umêxtase místico e, segundo a narrativa, uma compreensão deDeus além da Razão, além da Escolástica, além de Aristóteles ede toda a gramática possível de um cérebro humano. Ao sair da“divina possessão”, ele emudeceu e resistiu a continuarescrevendo sua já famosa obra. Motivo? Para ele, após ocontato com Deus na forma direta que os místicos vivem, o queele escrevera sob o rigor acadêmico e com base erudita, parecia--lhe superficial, fraco, pífio, irrelevante e tão distante do queexperimentara que ficou abatido. Bem, antes de partir precocemente do mundo, Tomás terminou ditando comentários aoCântico dos Cânticos, o poema amoroso salomônico que possuidezenas de interpretações. Curioso que a última obra do grandeintelectual católico seja sobre o amor.
A história narrada traz uma questão que sempre meassombrou. Em todos os campos, inúmeras pessoas ao meuredor falam de uma densidade maior atrás do simples discursoou do sentimento imediato. Sim, você pode ler os maisrefinados teólogos, porém, sempre serão pálida sombra doobjeto sagrado em si. O mesmo valeria para as emoçõeshumanas como o amor. Romeu indica várias vezes a Julieta (eé correspondido) que as palavras são irrelevantes, que o queeles sentem está além da expressão delas. Já vi discursossemelhantes sobre arte e até sexo. Haveria uma densidade,uma complexidade, algo tão imenso que tudo o que eu possaexpressar seria incompleto.
Sempre desconfiei um pouco da afirmação sobre adensidade extraordinária que tornaria as coisas indizíveis.Por vezes acho que devo ter uma capacidade melhor deexpressão ou uma capacidade menor de sentir. Um dos itensexplica o fato de eu achar que as coisas são no limite do queconsigo expressar e que não possuem uma película queesconde o “mais além” de uma metafísica absoluta.
A leitura de boas obras sempre me pareceu muitoprazerosa, muito, exatamente porque as ideias, a estética daescrita, o encadeamento de personagens ou de fatos e assoluções dos bons autores me seduzem. Uma taça boa devinho ou uma noite amorosa são extraordinárias pelo quesão em si, pelo prazer ali contido, pelas papilas gustativasagraciadas, pelos hormônios atiçados, pelos disparos deadrenalina e outras coisas. Não perco a consciência, nãoletivo, não transfiguro, não tenho êxtase: apenas gosto esinto o motivo de eu gostar, alguns surpreendentes. Seriabom em descrever ou ruim em sentir de forma mais densa? Faltaria metafísica ou abundaria consciência? A descrição quealguns fazem de suas experiências sempre me pareceu fascinante e sedutora e profundamente distante do plano no qual eusinto. Idiossincrasia? Couraça racional? Seria lucidez ou secura?Nunca saberei de fato, mas o vinho sempre pareceu bom, otexto fascinante, o sexo envolvente, o afeto belo, a boa músicaavassaladora e a paisagem produtora de paz interna. Já choreide alegria diante de experiências lindas como um quadro queeu desejava conhecer ou quando desci ao Grand Canyon nosEstados Unidos. Eram lágrimas provocadas pela emoção debeleza, uma invasão positiva de muitos bons sentimentos queantigas expectativas estimularam. Era emoção, não transcendência que me derrubasse ao solo impactado pelo eterno.Vários filósofos chamaram isso de maravilhar-se, uma suspensãomomentânea da racionalidade junto de incapacidade de narrar oexperienciado. Mas, passado alguns instantes, recuperamos alógica narrativa. Eu estava feliz porque era bom estar ali, porqueeu desejara estar ali, porque eu me preparara para estar ali eporque, enfim estando, se fechava um ciclo de ansiedade-desejo-prazer produzindo o momento único e... lacrimoso. Foimuito bom, excelente até, todavia foi aquilo e eu posso descrevero início, o meio e o fim daquele instante. Por vezes lembro-me daexperiência de um “banho xamânico” em Oaxaca, no México. Aguia da experiência dizia que aspirássemos as plantas naquelasauna e que imaginássemos a luz lilás sobre nós. Aluno fiel, euaspirava a planta acre que ela jogara às brasas e imaginava a luzlilás. Ao final de meia hora de exercício imaginativo, ela meperguntou o que eu tinha sentido e eu disse: “Um cheiro fortedessa planta”. Ela insistia: “E?”. “Só”, eu respondia à desoladasenhora. Eu sentira o cheiro e imaginara a luz. Foi minha experiência xamânica. Na verdade, é minha experiência de vida. Ascoisas são no limite do que existem, sem energias ou algo muitomais denso escondido pelo véu do discurso. Onde algunsdescrevem alguém de “energia pesada”, eu vejo um chatoagressivo. Não há uma “aura”, apenas frases desagradáveis oureclamações incessantes. Onde identificam “vampiros de energia”eu vejo alguém irritante. Seria a mesma coisa? Volto ao que eusinto (sem fazer disso uma definição de valor universal): as coisassão no limite do que existem. Dou a elas sentido, simbolismo,signos aleatórios e que dependem da minha imaginação, sem“energia”. Essa é imensa solidão da consciência, ou, ao menos, daminha consciência. Uma boa semana para todos.
(KARNAL, Leandro. Sentido maior. O Estado de São Paulo, São Paulo,
19/01/2020. Caderno 2, p. C2.)
Em todos os campos, inúmeras pessoas ao meu redorfalam de uma densidade maior atrás do simples discursoou do sentimento imediato.” (2º§) Nesse trecho, a vírgula:
 

Provas

Questão presente nas seguintes provas
2105447 Ano: 2021
Disciplina: Português
Banca: Consulplan
Orgão: Pref. Colômbia-SP
Provas:
O sentido maior
Quando eu era jovem, um padre dava aulas sobre Tomásde Aquino (1225-1274), doutor da igreja e teólogo global. Otema eram as cinco provas da existência de Deus. Após aexposição, o jesuíta contou, como arremate de uma boa aula,um caso sobre o doutor angélico. Disse que, após o italiano terescrito coisas profundas e enormes sobre a divindade, teve umêxtase místico e, segundo a narrativa, uma compreensão deDeus além da Razão, além da Escolástica, além de Aristóteles ede toda a gramática possível de um cérebro humano. Ao sair da“divina possessão”, ele emudeceu e resistiu a continuarescrevendo sua já famosa obra. Motivo? Para ele, após ocontato com Deus na forma direta que os místicos vivem, o queele escrevera sob o rigor acadêmico e com base erudita, parecia--lhe superficial, fraco, pífio, irrelevante e tão distante do queexperimentara que ficou abatido. Bem, antes de partir precocemente do mundo, Tomás terminou ditando comentários aoCântico dos Cânticos, o poema amoroso salomônico que possuidezenas de interpretações. Curioso que a última obra do grandeintelectual católico seja sobre o amor.
A história narrada traz uma questão que sempre meassombrou. Em todos os campos, inúmeras pessoas ao meuredor falam de uma densidade maior atrás do simples discursoou do sentimento imediato. Sim, você pode ler os maisrefinados teólogos, porém, sempre serão pálida sombra doobjeto sagrado em si. O mesmo valeria para as emoçõeshumanas como o amor. Romeu indica várias vezes a Julieta (eé correspondido) que as palavras são irrelevantes, que o queeles sentem está além da expressão delas. Já vi discursossemelhantes sobre arte e até sexo. Haveria uma densidade,uma complexidade, algo tão imenso que tudo o que eu possaexpressar seria incompleto.
Sempre desconfiei um pouco da afirmação sobre adensidade extraordinária que tornaria as coisas indizíveis.Por vezes acho que devo ter uma capacidade melhor deexpressão ou uma capacidade menor de sentir. Um dos itensexplica o fato de eu achar que as coisas são no limite do queconsigo expressar e que não possuem uma película queesconde o “mais além” de uma metafísica absoluta.
A leitura de boas obras sempre me pareceu muitoprazerosa, muito, exatamente porque as ideias, a estética daescrita, o encadeamento de personagens ou de fatos e assoluções dos bons autores me seduzem. Uma taça boa devinho ou uma noite amorosa são extraordinárias pelo quesão em si, pelo prazer ali contido, pelas papilas gustativasagraciadas, pelos hormônios atiçados, pelos disparos deadrenalina e outras coisas. Não perco a consciência, nãoletivo, não transfiguro, não tenho êxtase: apenas gosto esinto o motivo de eu gostar, alguns surpreendentes. Seriabom em descrever ou ruim em sentir de forma mais densa? Faltaria metafísica ou abundaria consciência? A descrição quealguns fazem de suas experiências sempre me pareceu fascinante e sedutora e profundamente distante do plano no qual eusinto. Idiossincrasia? Couraça racional? Seria lucidez ou secura?Nunca saberei de fato, mas o vinho sempre pareceu bom, otexto fascinante, o sexo envolvente, o afeto belo, a boa músicaavassaladora e a paisagem produtora de paz interna. Já choreide alegria diante de experiências lindas como um quadro queeu desejava conhecer ou quando desci ao Grand Canyon nosEstados Unidos. Eram lágrimas provocadas pela emoção debeleza, uma invasão positiva de muitos bons sentimentos queantigas expectativas estimularam. Era emoção, não transcendência que me derrubasse ao solo impactado pelo eterno.Vários filósofos chamaram isso de maravilhar-se, uma suspensãomomentânea da racionalidade junto de incapacidade de narrar oexperienciado. Mas, passado alguns instantes, recuperamos alógica narrativa. Eu estava feliz porque era bom estar ali, porqueeu desejara estar ali, porque eu me preparara para estar ali eporque, enfim estando, se fechava um ciclo de ansiedade-desejo-prazer produzindo o momento único e... lacrimoso. Foimuito bom, excelente até, todavia foi aquilo e eu posso descrevero início, o meio e o fim daquele instante. Por vezes lembro-me daexperiência de um “banho xamânico” em Oaxaca, no México. Aguia da experiência dizia que aspirássemos as plantas naquelasauna e que imaginássemos a luz lilás sobre nós. Aluno fiel, euaspirava a planta acre que ela jogara às brasas e imaginava a luzlilás. Ao final de meia hora de exercício imaginativo, ela meperguntou o que eu tinha sentido e eu disse: “Um cheiro fortedessa planta”. Ela insistia: “E?”. “Só”, eu respondia à desoladasenhora. Eu sentira o cheiro e imaginara a luz. Foi minha experiência xamânica. Na verdade, é minha experiência de vida. Ascoisas são no limite do que existem, sem energias ou algo muitomais denso escondido pelo véu do discurso. Onde algunsdescrevem alguém de “energia pesada”, eu vejo um chatoagressivo. Não há uma “aura”, apenas frases desagradáveis oureclamações incessantes. Onde identificam “vampiros de energia”eu vejo alguém irritante. Seria a mesma coisa? Volto ao que eusinto (sem fazer disso uma definição de valor universal): as coisassão no limite do que existem. Dou a elas sentido, simbolismo,signos aleatórios e que dependem da minha imaginação, sem“energia”. Essa é imensa solidão da consciência, ou, ao menos, daminha consciência. Uma boa semana para todos.
(KARNAL, Leandro. Sentido maior. O Estado de São Paulo, São Paulo,
19/01/2020. Caderno 2, p. C2.)
A palavra “que” pode desempenhar diferentes funções morfossintáticas na Língua Portuguesa. Assinale a alternativa em que eladesempenha a função de pronome relativo e, por isso, introduzuma oração adjetiva.
 

Provas

Questão presente nas seguintes provas
2105438 Ano: 2021
Disciplina: Português
Banca: Consulplan
Orgão: Pref. Colômbia-SP
Provas:
O sentido maior
Quando eu era jovem, um padre dava aulas sobre Tomásde Aquino (1225-1274), doutor da igreja e teólogo global. Otema eram as cinco provas da existência de Deus. Após aexposição, o jesuíta contou, como arremate de uma boa aula,um caso sobre o doutor angélico. Disse que, após o italiano terescrito coisas profundas e enormes sobre a divindade, teve umêxtase místico e, segundo a narrativa, uma compreensão deDeus além da Razão, além da Escolástica, além de Aristóteles ede toda a gramática possível de um cérebro humano. Ao sair da“divina possessão”, ele emudeceu e resistiu a continuarescrevendo sua já famosa obra. Motivo? Para ele, após ocontato com Deus na forma direta que os místicos vivem, o queele escrevera sob o rigor acadêmico e com base erudita, parecia-lhe superficial, fraco, pífio, irrelevante e tão distante do queexperimentara que ficou abatido. Bem, antes de partir precocemente do mundo, Tomás terminou ditando comentários aoCântico dos Cânticos, o poema amoroso salomônico que possuidezenas de interpretações. Curioso que a última obra do grandeintelectual católico seja sobre o amor.
A história narrada traz uma questão que sempre meassombrou. Em todos os campos, inúmeras pessoas ao meuredor falam de uma densidade maior atrás do simples discursoou do sentimento imediato. Sim, você pode ler os maisrefinados teólogos, porém, sempre serão pálida sombra doobjeto sagrado em si. O mesmo valeria para as emoçõeshumanas como o amor. Romeu indica várias vezes a Julieta (eé correspondido) que as palavras são irrelevantes, que o queeles sentem está além da expressão delas. Já vi discursossemelhantes sobre arte e até sexo. Haveria uma densidade,uma complexidade, algo tão imenso que tudo o que eu possaexpressar seria incompleto.
Sempre desconfiei um pouco da afirmação sobre adensidade extraordinária que tornaria as coisas indizíveis.Por vezes acho que devo ter uma capacidade melhor deexpressão ou uma capacidade menor de sentir. Um dos itensexplica o fato de eu achar que as coisas são no limite do queconsigo expressar e que não possuem uma película queesconde o “mais além” de uma metafísica absoluta.
A leitura de boas obras sempre me pareceu muitoprazerosa, muito, exatamente porque as ideias, a estética daescrita, o encadeamento de personagens ou de fatos e assoluções dos bons autores me seduzem. Uma taça boa devinho ou uma noite amorosa são extraordinárias pelo quesão em si, pelo prazer ali contido, pelas papilas gustativasagraciadas, pelos hormônios atiçados, pelos disparos deadrenalina e outras coisas. Não perco a consciência, nãoletivo, não transfiguro, não tenho êxtase: apenas gosto esinto o motivo de eu gostar, alguns surpreendentes. Seriabom em descrever ou ruim em sentir de forma mais densa? Faltaria metafísica ou abundaria consciência? A descrição quealguns fazem de suas experiências sempre me pareceu fascinante e sedutora e profundamente distante do plano no qual eusinto. Idiossincrasia? Couraça racional? Seria lucidez ou secura?Nunca saberei de fato, mas o vinho sempre pareceu bom, otexto fascinante, o sexo envolvente, o afeto belo, a boa músicaavassaladora e a paisagem produtora de paz interna. Já choreide alegria diante de experiências lindas como um quadro queeu desejava conhecer ou quando desci ao Grand Canyon nosEstados Unidos. Eram lágrimas provocadas pela emoção debeleza, uma invasão positiva de muitos bons sentimentos queantigas expectativas estimularam. Era emoção, não transcendência que me derrubasse ao solo impactado pelo eterno.Vários filósofos chamaram isso de maravilhar-se, uma suspensãomomentânea da racionalidade junto de incapacidade de narrar oexperienciado. Mas, passado alguns instantes, recuperamos alógica narrativa. Eu estava feliz porque era bom estar ali, porqueeu desejara estar ali, porque eu me preparara para estar ali eporque, enfim estando, se fechava um ciclo de ansiedadedesejo-prazer produzindo o momento único e... lacrimoso. Foimuito bom, excelente até, todavia foi aquilo e eu posso descrevero início, o meio e o fim daquele instante. Por vezes lembro-me daexperiência de um “banho xamânico” em Oaxaca, no México. Aguia da experiência dizia que aspirássemos as plantas naquelasauna e que imaginássemos a luz lilás sobre nós. Aluno fiel, euaspirava a planta acre que ela jogara às brasas e imaginava a luzlilás. Ao final de meia hora de exercício imaginativo, ela meperguntou o que eu tinha sentido e eu disse: “Um cheiro fortedessa planta”. Ela insistia: “E?”. “Só”, eu respondia à desoladasenhora. Eu sentira o cheiro e imaginara a luz. Foi minha experiência xamânica. Na verdade, é minha experiência de vida. Ascoisas são no limite do que existem, sem energias ou algo muitomais denso escondido pelo véu do discurso. Onde algunsdescrevem alguém de “energia pesada”, eu vejo um chatoagressivo. Não há uma “aura”, apenas frases desagradáveis oureclamações incessantes. Onde identificam “vampiros de energia”eu vejo alguém irritante. Seria a mesma coisa? Volto ao que eusinto (sem fazer disso uma definição de valor universal): as coisassão no limite do que existem. Dou a elas sentido, simbolismo,signos aleatórios e que dependem da minha imaginação, sem“energia”. Essa é imensa solidão da consciência, ou, ao menos, daminha consciência. Uma boa semana para todos.
(KARNAL, Leandro. Sentido maior. O Estado de São Paulo, São Paulo,
19/01/2020. Caderno 2, p. C2.)
A descrição é considerada por alguns teóricos da Língua Portuguesa como um tipo textual que serve para indicar as impressõese as características de um objeto, pessoa, animal, lugar, acontecimento. No texto em questão, o autor defende que a descriçãoverbal:
 

Provas

Questão presente nas seguintes provas
2105436 Ano: 2021
Disciplina: Português
Banca: Consulplan
Orgão: Pref. Colômbia-SP
O sentido maior
Quando eu era jovem, um padre dava aulas sobre Tomás de Aquino (1225-1274), doutor da igreja e teólogo global. O tema eram as cinco provas da existência de Deus. Após a exposição, o jesuíta contou, como arremate de uma boa aula, um caso sobre o doutor angélico. Disse que, após o italiano ter escrito coisas profundas e enormes sobre a divindade, teve um êxtase místico e, segundo a narrativa, uma compreensão de Deus além da Razão, além da Escolástica, além de Aristóteles e de toda a gramática possível de um cérebro humano. Ao sair da “divina possessão”, ele emudeceu e resistiu a continuar escrevendo sua já famosa obra. Motivo? Para ele, após o contato com Deus na forma direta que os místicos vivem, o que ele escrevera sob o rigor acadêmico e com base erudita, parecia-lhe superficial, fraco, pífio, irrelevante e tão distante do que experimentara que ficou abatido. Bem, antes de partir precocemente do mundo, Tomás terminou ditando comentários ao Cântico dos Cânticos, o poema amoroso salomônico que possui dezenas de interpretações. Curioso que a última obra do grande intelectual católico seja sobre o amor.
A história narrada traz uma questão que sempre me assombrou. Em todos os campos, inúmeras pessoas ao meu redor falam de uma densidade maior atrás do simples discurso ou do sentimento imediato. Sim, você pode ler os mais refinados teólogos, porém, sempre serão pálida sombra do objeto sagrado em si. O mesmo valeria para as emoções humanas como o amor. Romeu indica várias vezes a Julieta (e é correspondido) que as palavras são irrelevantes, que o que eles sentem está além da expressão delas. Já vi discursos semelhantes sobre arte e até sexo. Haveria uma densidade, uma complexidade, algo tão imenso que tudo o que eu possa expressar seria incompleto.
Sempre desconfiei um pouco da afirmação sobre a densidade extraordinária que tornaria as coisas indizíveis. Por vezes acho que devo ter uma capacidade melhor de expressão ou uma capacidade menor de sentir. Um dos itens explica o fato de eu achar que as coisas são no limite do que consigo expressar e que não possuem uma película que esconde o “mais além” de uma metafísica absoluta.
A leitura de boas obras sempre me pareceu muito prazerosa, muito, exatamente porque as ideias, a estética da escrita, o encadeamento de personagens ou de fatos e as soluções dos bons autores me seduzem. Uma taça boa de vinho ou uma noite amorosa são extraordinárias pelo que são em si, pelo prazer ali contido, pelas papilas gustativas agraciadas, pelos hormônios atiçados, pelos disparos de adrenalina e outras coisas. Não perco a consciência, não letivo, não transfiguro, não tenho êxtase: apenas gosto e sinto o motivo de eu gostar, alguns surpreendentes. Seria bom em descrever ou ruim em sentir de forma mais densa? Faltaria metafísica ou abundaria consciência? A descrição que alguns fazem de suas experiências sempre me pareceu fascinante e sedutora e profundamente distante do plano no qual eu sinto. Idiossincrasia? Couraça racional? Seria lucidez ou secura? Nunca saberei de fato, mas o vinho sempre pareceu bom, o texto fascinante, o sexo envolvente, o afeto belo, a boa música avassaladora e a paisagem produtora de paz interna. Já chorei de alegria diante de experiências lindas como um quadro que eu desejava conhecer ou quando desci ao Grand Canyon nos Estados Unidos. Eram lágrimas provocadas pela emoção de beleza, uma invasão positiva de muitos bons sentimentos que antigas expectativas estimularam. Era emoção, não transcendência que me derrubasse ao solo impactado pelo eterno. Vários filósofos chamaram isso de maravilhar-se, uma suspensão momentânea da racionalidade junto de incapacidade de narrar o experienciado. Mas, passado alguns instantes, recuperamos a lógica narrativa. Eu estava feliz porque era bom estar ali, porque eu desejara estar ali, porque eu me preparara para estar ali e porque, enfim estando, se fechava um ciclo de ansiedadedesejo-prazer produzindo o momento único e... lacrimoso. Foi muito bom, excelente até, todavia foi aquilo e eu posso descrever o início, o meio e o fim daquele instante. Por vezes lembro-me da experiência de um “banho xamânico” em Oaxaca, no México. A guia da experiência dizia que aspirássemos as plantas naquela sauna e que imaginássemos a luz lilás sobre nós. Aluno fiel, eu aspirava a planta acre que ela jogara às brasas e imaginava a luz lilás. Ao final de meia hora de exercício imaginativo, ela me perguntou o que eu tinha sentido e eu disse: “Um cheiro forte dessa planta”. Ela insistia: “E?”. “Só”, eu respondia à desolada senhora. Eu sentira o cheiro e imaginara a luz. Foi minha experiência xamânica. Na verdade, é minha experiência de vida. As coisas são no limite do que existem, sem energias ou algo muito mais denso escondido pelo véu do discurso. Onde alguns descrevem alguém de “energia pesada”, eu vejo um chato agressivo. Não há uma “aura”, apenas frases desagradáveis ou reclamações incessantes. Onde identificam “vampiros de energia” eu vejo alguém irritante. Seria a mesma coisa? Volto ao que eu sinto (sem fazer disso uma definição de valor universal): as coisas são no limite do que existem. Dou a elas sentido, simbolismo, signos aleatórios e que dependem da minha imaginação, sem “energia”. Essa é imensa solidão da consciência, ou, ao menos, da minha consciência. Uma boa semana para todos.
(KARNAL, Leandro. Sentido maior. O Estado de São Paulo, São Paulo,
19/01/2020. Caderno 2, p. C2.)
Haveria uma densidade, uma complexidade, algo tão imenso que tudo o que eu possa expressar seria incompleto.” (2º§) Considerando o trecho é correto afirmar que:
 

Provas

Questão presente nas seguintes provas
2105435 Ano: 2021
Disciplina: Português
Banca: Consulplan
Orgão: Pref. Colômbia-SP
O sentido maior
Quando eu era jovem, um padre dava aulas sobre Tomás de Aquino (1225-1274), doutor da igreja e teólogo global. O tema eram as cinco provas da existência de Deus. Após a exposição, o jesuíta contou, como arremate de uma boa aula, um caso sobre o doutor angélico. Disse que, após o italiano ter escrito coisas profundas e enormes sobre a divindade, teve um êxtase místico e, segundo a narrativa, uma compreensão de Deus além da Razão, além da Escolástica, além de Aristóteles e de toda a gramática possível de um cérebro humano. Ao sair da “divina possessão”, ele emudeceu e resistiu a continuar escrevendo sua já famosa obra. Motivo? Para ele, após o contato com Deus na forma direta que os místicos vivem, o que ele escrevera sob o rigor acadêmico e com base erudita, parecia-lhe superficial, fraco, pífio, irrelevante e tão distante do que experimentara que ficou abatido. Bem, antes de partir precocemente do mundo, Tomás terminou ditando comentários ao Cântico dos Cânticos, o poema amoroso salomônico que possui dezenas de interpretações. Curioso que a última obra do grande intelectual católico seja sobre o amor.
A história narrada traz uma questão que sempre me assombrou. Em todos os campos, inúmeras pessoas ao meu redor falam de uma densidade maior atrás do simples discurso ou do sentimento imediato. Sim, você pode ler os mais refinados teólogos, porém, sempre serão pálida sombra do objeto sagrado em si. O mesmo valeria para as emoções humanas como o amor. Romeu indica várias vezes a Julieta (e é correspondido) que as palavras são irrelevantes, que o que eles sentem está além da expressão delas. Já vi discursos semelhantes sobre arte e até sexo. Haveria uma densidade, uma complexidade, algo tão imenso que tudo o que eu possa expressar seria incompleto.
Sempre desconfiei um pouco da afirmação sobre a densidade extraordinária que tornaria as coisas indizíveis. Por vezes acho que devo ter uma capacidade melhor de expressão ou uma capacidade menor de sentir. Um dos itens explica o fato de eu achar que as coisas são no limite do que consigo expressar e que não possuem uma película que esconde o “mais além” de uma metafísica absoluta.
A leitura de boas obras sempre me pareceu muito prazerosa, muito, exatamente porque as ideias, a estética da escrita, o encadeamento de personagens ou de fatos e as soluções dos bons autores me seduzem. Uma taça boa de vinho ou uma noite amorosa são extraordinárias pelo que são em si, pelo prazer ali contido, pelas papilas gustativas agraciadas, pelos hormônios atiçados, pelos disparos de adrenalina e outras coisas. Não perco a consciência, não letivo, não transfiguro, não tenho êxtase: apenas gosto e sinto o motivo de eu gostar, alguns surpreendentes. Seria bom em descrever ou ruim em sentir de forma mais densa? Faltaria metafísica ou abundaria consciência? A descrição que alguns fazem de suas experiências sempre me pareceu fascinante e sedutora e profundamente distante do plano no qual eu sinto. Idiossincrasia? Couraça racional? Seria lucidez ou secura? Nunca saberei de fato, mas o vinho sempre pareceu bom, o texto fascinante, o sexo envolvente, o afeto belo, a boa música avassaladora e a paisagem produtora de paz interna. Já chorei de alegria diante de experiências lindas como um quadro que eu desejava conhecer ou quando desci ao Grand Canyon nos Estados Unidos. Eram lágrimas provocadas pela emoção de beleza, uma invasão positiva de muitos bons sentimentos que antigas expectativas estimularam. Era emoção, não transcendência que me derrubasse ao solo impactado pelo eterno. Vários filósofos chamaram isso de maravilhar-se, uma suspensão momentânea da racionalidade junto de incapacidade de narrar o experienciado. Mas, passado alguns instantes, recuperamos a lógica narrativa. Eu estava feliz porque era bom estar ali, porque eu desejara estar ali, porque eu me preparara para estar ali e porque, enfim estando, se fechava um ciclo de ansiedadedesejo-prazer produzindo o momento único e... lacrimoso. Foi muito bom, excelente até, todavia foi aquilo e eu posso descrever o início, o meio e o fim daquele instante. Por vezes lembro-me da experiência de um “banho xamânico” em Oaxaca, no México. A guia da experiência dizia que aspirássemos as plantas naquela sauna e que imaginássemos a luz lilás sobre nós. Aluno fiel, eu aspirava a planta acre que ela jogara às brasas e imaginava a luz lilás. Ao final de meia hora de exercício imaginativo, ela me perguntou o que eu tinha sentido e eu disse: “Um cheiro forte dessa planta”. Ela insistia: “E?”. “Só”, eu respondia à desolada senhora. Eu sentira o cheiro e imaginara a luz. Foi minha experiência xamânica. Na verdade, é minha experiência de vida. As coisas são no limite do que existem, sem energias ou algo muito mais denso escondido pelo véu do discurso. Onde alguns descrevem alguém de “energia pesada”, eu vejo um chato agressivo. Não há uma “aura”, apenas frases desagradáveis ou reclamações incessantes. Onde identificam “vampiros de energia” eu vejo alguém irritante. Seria a mesma coisa? Volto ao que eu sinto (sem fazer disso uma definição de valor universal): as coisas são no limite do que existem. Dou a elas sentido, simbolismo, signos aleatórios e que dependem da minha imaginação, sem “energia”. Essa é imensa solidão da consciência, ou, ao menos, da minha consciência. Uma boa semana para todos.
(KARNAL, Leandro. Sentido maior. O Estado de São Paulo, São Paulo,
19/01/2020. Caderno 2, p. C2.)
A leitura global do texto permite concluir que, para o autor:
 

Provas

Questão presente nas seguintes provas
2105432 Ano: 2021
Disciplina: Português
Banca: Consulplan
Orgão: Pref. Colômbia-SP

Sob o feitiço dos livros

Nietzsche estava certo: “De manhã cedo, quando o dia nasce, quando tudo está nascendo — ler um livro é simplesmente algo depravado”. É o que sinto ao andar pelas manhãs pelos maravilhosos caminhos da fazenda Santa Elisa, do Instituto Agronômico de Campinas. Procuro esquecer-me de tudo que li nos livros. É preciso que a cabeça esteja vazia de pensamentos para que os olhos possam ver. Aprendi isso lendo Alberto Caeiro, especialista inigualável na difícil arte de ver. Dizia ele que “pensar é estar doente dos olhos”.

Mas meus esforços são frustrados. As coisas que vejo são como o beijo do príncipe: elas vão acordando os poemas que aprendi de cor e que agora estão adormecidos na minha memória. Assim, ao não pensar da visão, une-se o não-pensar da poesia. E penso que o meu mundo seria muito pobre se em mim não estivessem os livros que li e amei. Pois, se não sabem, somente as coisas amadas são guardadas na memória poética, lugar da beleza.

“Aquilo que a memória amou fica eterno”, tal como o disse a Adélia Prado, amiga querida. Os livros que amo não me deixam. Caminham comigo. Há os livros que moram na cabeça e vão se desgastando com o tempo. Esses, eu deixo em casa. Mas há os livros que moram no corpo. Esses são eternamente jovens. Como no amor, uma vez não chega. De novo, de novo, de novo...

Um amigo me telefonou. Tinha uma casa em Cabo Frio. Convidou-me. Gostei. Mas meu sorriso entortou quando disse: “Vão também cinco adolescentes...”. Adolescentes podem ser uma alegria. Mas podem ser também uma perturbação para o espírito. Assim, resolvi tomar minhas providências. Comprei uma arma de amansar adolescentes. Um livro. Uma versão condensada da “Odisseia”, de Homero, as fantásticas viagens de Ulisses de volta à casa, por mares traiçoeiros...

Primeiro dia: praia; almoço; sono. Lá pelas cinco, os dorminhocos acordaram, sem ter o que fazer. E antes que tivessem ideias próprias eu tomei a iniciativa. Com voz autoritária, dirigi-me a eles, ainda sob o efeito do torpor: “Ei, vocês... Venham cá na sala. Quero lhes mostrar uma coisa”. Não consultei as bases. Teria sido terrível. Uma decisão democrática das bases optaria por ligar a televisão. Claro. Como poderiam decidir por uma coisa que ignoravam? Peguei o livro e comecei a leitura. Ao espanto inicial seguiu-se silêncio e atenção. Vi, pelos seus olhos, que já estavam sob o domínio do encantamento. Daí para frente foi uma coisa só. Não me deixavam. Por onde quer que eu fosse, lá vinham eles com a “Odisseia” na mão, pedindo que eu lesse mais. Nem na praia me deram descanso.

Essa experiência me fez pensar que deve haver algo errado na afirmação que sempre se repete de que os adolescentes não gostam da leitura. Sei que, como regra, não gostam de ler. O que não é a mesma coisa que não gostar da leitura. Lembro-me da escola primária que frequentei. Havia uma aula de leitura. Era a aula que mais amávamos. A professora lia para que nós ouvíssemos. Leu todo o Monteiro Lobato. E leu aqueles livros que se liam naqueles tempos: “Heidi”, “Poliana”, “A Ilha do Tesouro”.

Quando a aula terminava, era a tristeza. Mas o bom mesmo é que não havia provas ou avaliações. Era prazer puro. E estava certo. Porque esse é o objetivo da literatura: prazer. O que os exames vestibulares tentam fazer é transformar a literatura em informações que podem ser armazenadas na cabeça. Mas o lugar da literatura não é a cabeça: é o coração. A literatura é feita com as palavras que desejam morar no corpo. Somente assim ela provoca as transformações alquímicas que deseja realizar. Se não concordam, que leiam João Guimarães Rosa, que dizia que literatura é feitiçaria que se faz com o sangue do coração humano.

(ALVES, Rubem. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/ folha/sinapse/ult1063u727.shtml.)

Acerca da citação de Nietzsche na introdução do texto pode-se afirmar que:
 

Provas

Questão presente nas seguintes provas
2105431 Ano: 2021
Disciplina: Português
Banca: Consulplan
Orgão: Pref. Colômbia-SP

Sob o feitiço dos livros

Nietzsche estava certo: “De manhã cedo, quando o dia nasce, quando tudo está nascendo — ler um livro é simplesmente algo depravado”. É o que sinto ao andar pelas manhãs pelos maravilhosos caminhos da fazenda Santa Elisa, do Instituto Agronômico de Campinas. Procuro esquecer-me de tudo que li nos livros. É preciso que a cabeça esteja vazia de pensamentos para que os olhos possam ver. Aprendi isso lendo Alberto Caeiro, especialista inigualável na difícil arte de ver. Dizia ele que “pensar é estar doente dos olhos”.

Mas meus esforços são frustrados. As coisas que vejo são como o beijo do príncipe: elas vão acordando os poemas que aprendi de cor e que agora estão adormecidos na minha memória. Assim, ao não pensar da visão, une-se o não-pensar da poesia. E penso que o meu mundo seria muito pobre se em mim não estivessem os livros que li e amei. Pois, se não sabem, somente as coisas amadas são guardadas na memória poética, lugar da beleza.

“Aquilo que a memória amou fica eterno”, tal como o disse a Adélia Prado, amiga querida. Os livros que amo não me deixam. Caminham comigo. Há os livros que moram na cabeça e vão se desgastando com o tempo. Esses, eu deixo em casa. Mas há os livros que moram no corpo. Esses são eternamente jovens. Como no amor, uma vez não chega. De novo, de novo, de novo...

Um amigo me telefonou. Tinha uma casa em Cabo Frio. Convidou-me. Gostei. Mas meu sorriso entortou quando disse: “Vão também cinco adolescentes...”. Adolescentes podem ser uma alegria. Mas podem ser também uma perturbação para o espírito. Assim, resolvi tomar minhas providências. Comprei uma arma de amansar adolescentes. Um livro. Uma versão condensada da “Odisseia”, de Homero, as fantásticas viagens de Ulisses de volta à casa, por mares traiçoeiros...

Primeiro dia: praia; almoço; sono. Lá pelas cinco, os dorminhocos acordaram, sem ter o que fazer. E antes que tivessem ideias próprias eu tomei a iniciativa. Com voz autoritária, dirigi-me a eles, ainda sob o efeito do torpor: “Ei, vocês... Venham cá na sala. Quero lhes mostrar uma coisa”. Não consultei as bases. Teria sido terrível. Uma decisão democrática das bases optaria por ligar a televisão. Claro. Como poderiam decidir por uma coisa que ignoravam? Peguei o livro e comecei a leitura. Ao espanto inicial seguiu-se silêncio e atenção. Vi, pelos seus olhos, que já estavam sob o domínio do encantamento. Daí para frente foi uma coisa só. Não me deixavam. Por onde quer que eu fosse, lá vinham eles com a “Odisseia” na mão, pedindo que eu lesse mais. Nem na praia me deram descanso.

Essa experiência me fez pensar que deve haver algo errado na afirmação que sempre se repete de que os adolescentes não gostam da leitura. Sei que, como regra, não gostam de ler. O que não é a mesma coisa que não gostar da leitura. Lembro-me da escola primária que frequentei. Havia uma aula de leitura. Era a aula que mais amávamos. A professora lia para que nós ouvíssemos. Leu todo o Monteiro Lobato. E leu aqueles livros que se liam naqueles tempos: “Heidi”, “Poliana”, “A Ilha do Tesouro”.

Quando a aula terminava, era a tristeza. Mas o bom mesmo é que não havia provas ou avaliações. Era prazer puro. E estava certo. Porque esse é o objetivo da literatura: prazer. O que os exames vestibulares tentam fazer é transformar a literatura em informações que podem ser armazenadas na cabeça. Mas o lugar da literatura não é a cabeça: é o coração. A literatura é feita com as palavras que desejam morar no corpo. Somente assim ela provoca as transformações alquímicas que deseja realizar. Se não concordam, que leiam João Guimarães Rosa, que dizia que literatura é feitiçaria que se faz com o sangue do coração humano.

(ALVES, Rubem. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/ folha/sinapse/ult1063u727.shtml.)

De acordo com as características do gênero textual, pode-se dizer que o texto apresentado se trata de um(uma):
 

Provas

Questão presente nas seguintes provas