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Texto 1
O TEMPO
Sobraram de tudo, com mais legendas, o palacete do barão, ruínas, o sobrado do fisco, onde se cobrava o quinto do rei, e a capela, que foi promessa de mulher-dama, convertida após amealhar ouro e diamantes dos forasteiros que chegavam, sendo que essa mesma capela é hoje ninho de morcegos e corujas. Sobraram também as velhas casas de beirais e cornijas, mais sobrados, sem portas nem janelas, olhos vazados: fixam o tempo e a eternidade, parados na tarde. Restaram ainda as velhas de muita velhice. Elas pitam os cachimbos, comem as próprias bocas e trazem lembranças do passado.
- Muita coisa a contar, seu moço. Histórias muitas.
Foi chão de mineração, com o braço de rio, a serra, com veios de ouro, o pedregulho solto em cor de ferro ou ferrugem. No tempo bem mais antigo, muitos escravos, nus da cintura para cima e de calças arregaçadas, mergulhavam as bateias e peneiravam o cascalho. Onda de aventureiros. Alguns estrangeiros. Abriram galerias na serra, que hoje são também moradas de morcegos, a picareta seguia o filão de ouro. Crimes e iniquidades: o alemão de barbas e botas, que apareceu morto e roubado no alpendre da casa; o preto Ludovico, que, por suspeita, foi obrigado a tomar dose dupla de pinhão, para expelir o diamante raro. O negro, com licença da palavra, se desfazia em merda e suor, o feitor catando a pedra no chão com a ponta da vara.
Dinheiro abundante para gasto e divertimento de todos. O bar, as cartas, a cerveja e as mulheres. Fandangos e bumba-meu-boi. Também as missões de expurgo, quando chegava Frei Nemésio, casando amancebados e purificando menino pagão, os pecados todos condenados em sermão de fogo pelas barbas venerandas de Frei Nemésio, e perdoados enfim com a grande procissão de velas.
- Senhor Deus, misericórdia.
E a procissão de velas:
- Misericórdia.
Outras festas havia. Cavalhadas ou justas, por iniciativa do próprio barão, que se apresentava no palanque em ordem de comando e respeito, o cebolão de ouro, com corrente pesada, no bolso do colete.
De todos os crimes, o de maior força foi o desse mesmo barão: viúvo, teve relações de incesto com a filha. Daí o abandono de tudo. O palacete dele em ruínas, coberto pela erva daninha, refúgio de cobras e lagartos.
- Que fortes são os poderes de Deus.
- E diga.
Por maldição do crime e também pelo braço de rio que secou e o veio de ouro que se perdeu, tudo foi entrando em abandono. As levas de homens que se retiravam da noite para o dia. O vazio dos arruados, os armazéns que se fechavam. Havia muito cerrara as portas o sobrado do fisco para a cobrança do quinto. Menino que se fizesse rapaz, por insinuação de um ou outro rádio de pilhas ou viandante raro que por ali passasse, dava para emigrar ou fugir, ou ficava atoleimado, se escondendo de pessoa estranha, sem saber dar respostas.
Bichos.
E o mundo se fez silêncio, espaço e tempo infinitos, com aquelas velhas casas de olhos vazados, onde ruminavam cabras e carneiros, o telheiro do mercado arriado. Por força de alguma vida, restou, na esquina, a venda de Seu Aniceto, também viveiro de ratos em correria pelas prateleiras, com uma ou outra garrafa empoeirada.
Por último começou a parar por ali o caminhão do Nozinho, que traz de longe carregamento de minério descoberto em mina nova. Nozinho descobriu, entre as velhas, menina-moça, que quer ir com ele na boleia. O caminhão chega em grande alegria de buzina e rádio aberto, as bandeirinhas coloridas. Todos acorrem, e Nozinho, por ele mesmo, é de muita prosa, enquanto salta, escarra no chão e tange com o pé o cachorro magro. Então Seu Aniceto, em nome de todos, talvez, e mais no seu interesse e ainda porque era fim de dezembro, supunha, pediu a Nozinho que lhe trouxesse o tempo marcado. É que estavam perdidos dentro do mundo, sem contagem de dia, mês ou ano, mas existindo dia e noite para a orientação de todos:
- Que dia é hoje, por exemplo?
- Quarta.
Está aí, ninguém sabia.
E Nozinho, na viagem de volta, trouxe o Tempo em forma de calendário, não com fotografia de mulher nua, como gostava, mas com a estampa de Nossa Senhora das Dores, o coração trespassado por sete setas, que era assim que apreciavam as velhas de muita velhice que comiam as próprias bocas e se arrimavam às paredes.
(Moreira Campos. Obra completa: contos. p. 326-328.)
Em a capela, que foi promessa de mulher-dama, convertida após amealhar ouro e diamantes dos forasteiros que chegavam, infere-se que o narrador se refere à mulher-dama, com
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Texto 1
O TEMPO
Sobraram de tudo, com mais legendas, o palacete do barão, ruínas, o sobrado do fisco, onde se cobrava o quinto do rei, e a capela, que foi promessa de mulher-dama, convertida após amealhar ouro e diamantes dos forasteiros que chegavam, sendo que essa mesma capela é hoje ninho de morcegos e corujas. Sobraram também as velhas casas de beirais e cornijas, mais sobrados, sem portas nem janelas, olhos vazados: fixam o tempo e a eternidade, parados na tarde. Restaram ainda as velhas de muita velhice. Elas pitam os cachimbos, comem as próprias bocas e trazem lembranças do passado.
- Muita coisa a contar, seu moço. Histórias muitas.
Foi chão de mineração, com o braço de rio, a serra, com veios de ouro, o pedregulho solto em cor de ferro ou ferrugem. No tempo bem mais antigo, muitos escravos, nus da cintura para cima e de calças arregaçadas, mergulhavam as bateias e peneiravam o cascalho. Onda de aventureiros. Alguns estrangeiros. Abriram galerias na serra, que hoje são também moradas de morcegos, a picareta seguia o filão de ouro. Crimes e iniquidades: o alemão de barbas e botas, que apareceu morto e roubado no alpendre da casa; o preto Ludovico, que, por suspeita, foi obrigado a tomar dose dupla de pinhão, para expelir o diamante raro. O negro, com licença da palavra, se desfazia em merda e suor, o feitor catando a pedra no chão com a ponta da vara.
Dinheiro abundante para gasto e divertimento de todos. O bar, as cartas, a cerveja e as mulheres. Fandangos e bumba-meu-boi. Também as missões de expurgo, quando chegava Frei Nemésio, casando amancebados e purificando menino pagão, os pecados todos condenados em sermão de fogo pelas barbas venerandas de Frei Nemésio, e perdoados enfim com a grande procissão de velas.
- Senhor Deus, misericórdia.
E a procissão de velas:
- Misericórdia.
Outras festas havia. Cavalhadas ou justas, por iniciativa do próprio barão, que se apresentava no palanque em ordem de comando e respeito, o cebolão de ouro, com corrente pesada, no bolso do colete.
De todos os crimes, o de maior força foi o desse mesmo barão: viúvo, teve relações de incesto com a filha. Daí o abandono de tudo. O palacete dele em ruínas, coberto pela erva daninha, refúgio de cobras e lagartos.
- Que fortes são os poderes de Deus.
- E diga.
Por maldição do crime e também pelo braço de rio que secou e o veio de ouro que se perdeu, tudo foi entrando em abandono. As levas de homens que se retiravam da noite para o dia. O vazio dos arruados, os armazéns que se fechavam. Havia muito cerrara as portas o sobrado do fisco para a cobrança do quinto. Menino que se fizesse rapaz, por insinuação de um ou outro rádio de pilhas ou viandante raro que por ali passasse, dava para emigrar ou fugir, ou ficava atoleimado, se escondendo de pessoa estranha, sem saber dar respostas.
Bichos.
E o mundo se fez silêncio, espaço e tempo infinitos, com aquelas velhas casas de olhos vazados, onde ruminavam cabras e carneiros, o telheiro do mercado arriado. Por força de alguma vida, restou, na esquina, a venda de Seu Aniceto, também viveiro de ratos em correria pelas prateleiras, com uma ou outra garrafa empoeirada.
Por último começou a parar por ali o caminhão do Nozinho, que traz de longe carregamento de minério descoberto em mina nova. Nozinho descobriu, entre as velhas, menina-moça, que quer ir com ele na boleia. O caminhão chega em grande alegria de buzina e rádio aberto, as bandeirinhas coloridas. Todos acorrem, e Nozinho, por ele mesmo, é de muita prosa, enquanto salta, escarra no chão e tange com o pé o cachorro magro. Então Seu Aniceto, em nome de todos, talvez, e mais no seu interesse e ainda porque era fim de dezembro, supunha, pediu a Nozinho que lhe trouxesse o tempo marcado. É que estavam perdidos dentro do mundo, sem contagem de dia, mês ou ano, mas existindo dia e noite para a orientação de todos:
- Que dia é hoje, por exemplo?
- Quarta.
Está aí, ninguém sabia.
E Nozinho, na viagem de volta, trouxe o Tempo em forma de calendário, não com fotografia de mulher nua, como gostava, mas com a estampa de Nossa Senhora das Dores, o coração trespassado por sete setas, que era assim que apreciavam as velhas de muita velhice que comiam as próprias bocas e se arrimavam às paredes.
(Moreira Campos. Obra completa: contos. p. 326-328.)
A expressão por último indica
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Texto 1
O TEMPO
Sobraram de tudo, com mais legendas, o palacete do barão, ruínas, o sobrado do fisco, onde se cobrava o quinto do rei, e a capela, que foi promessa de mulher-dama, convertida após amealhar ouro e diamantes dos forasteiros que chegavam, sendo que essa mesma capela é hoje ninho de morcegos e corujas. Sobraram também as velhas casas de beirais e cornijas, mais sobrados, sem portas nem janelas, olhos vazados: fixam o tempo e a eternidade, parados na tarde. Restaram ainda as velhas de muita velhice. Elas pitam os cachimbos, comem as próprias bocas e trazem lembranças do passado.
- Muita coisa a contar, seu moço. Histórias muitas.
Foi chão de mineração, com o braço de rio, a serra, com veios de ouro, o pedregulho solto em cor de ferro ou ferrugem. No tempo bem mais antigo, muitos escravos, nus da cintura para cima e de calças arregaçadas, mergulhavam as bateias e peneiravam o cascalho. Onda de aventureiros. Alguns estrangeiros. Abriram galerias na serra, que hoje são também moradas de morcegos, a picareta seguia o filão de ouro. Crimes e iniquidades: o alemão de barbas e botas, que apareceu morto e roubado no alpendre da casa; o preto Ludovico, que, por suspeita, foi obrigado a tomar dose dupla de pinhão, para expelir o diamante raro. O negro, com licença da palavra, se desfazia em merda e suor, o feitor catando a pedra no chão com a ponta da vara.
Dinheiro abundante para gasto e divertimento de todos. O bar, as cartas, a cerveja e as mulheres. Fandangos e bumba-meu-boi. Também as missões de expurgo, quando chegava Frei Nemésio, casando amancebados e purificando menino pagão, os pecados todos condenados em sermão de fogo pelas barbas venerandas de Frei Nemésio, e perdoados enfim com a grande procissão de velas.
- Senhor Deus, misericórdia.
E a procissão de velas:
- Misericórdia.
Outras festas havia. Cavalhadas ou justas, por iniciativa do próprio barão, que se apresentava no palanque em ordem de comando e respeito, o cebolão de ouro, com corrente pesada, no bolso do colete.
De todos os crimes, o de maior força foi o desse mesmo barão: viúvo, teve relações de incesto com a filha. Daí o abandono de tudo. O palacete dele em ruínas, coberto pela erva daninha, refúgio de cobras e lagartos.
- Que fortes são os poderes de Deus.
- E diga.
Por maldição do crime e também pelo braço de rio que secou e o veio de ouro que se perdeu, tudo foi entrando em abandono. As levas de homens que se retiravam da noite para o dia. O vazio dos arruados, os armazéns que se fechavam. Havia muito cerrara as portas o sobrado do fisco para a cobrança do quinto. Menino que se fizesse rapaz, por insinuação de um ou outro rádio de pilhas ou viandante raro que por ali passasse, dava para emigrar ou fugir, ou ficava atoleimado, se escondendo de pessoa estranha, sem saber dar respostas.
Bichos.
E o mundo se fez silêncio, espaço e tempo infinitos, com aquelas velhas casas de olhos vazados, onde ruminavam cabras e carneiros, o telheiro do mercado arriado. Por força de alguma vida, restou, na esquina, a venda de Seu Aniceto, também viveiro de ratos em correria pelas prateleiras, com uma ou outra garrafa empoeirada.
Por último começou a parar por ali o caminhão do Nozinho, que traz de longe carregamento de minério descoberto em mina nova. Nozinho descobriu, entre as velhas, menina-moça, que quer ir com ele na boleia. O caminhão chega em grande alegria de buzina e rádio aberto, as bandeirinhas coloridas. Todos acorrem, e Nozinho, por ele mesmo, é de muita prosa, enquanto salta, escarra no chão e tange com o pé o cachorro magro. Então Seu Aniceto, em nome de todos, talvez, e mais no seu interesse e ainda porque era fim de dezembro, supunha, pediu a Nozinho que lhe trouxesse o tempo marcado. É que estavam perdidos dentro do mundo, sem contagem de dia, mês ou ano, mas existindo dia e noite para a orientação de todos:
- Que dia é hoje, por exemplo?
- Quarta.
Está aí, ninguém sabia.
E Nozinho, na viagem de volta, trouxe o Tempo em forma de calendário, não com fotografia de mulher nua, como gostava, mas com a estampa de Nossa Senhora das Dores, o coração trespassado por sete setas, que era assim que apreciavam as velhas de muita velhice que comiam as próprias bocas e se arrimavam às paredes.
(Moreira Campos. Obra completa: contos. p. 326-328.)
O 13º parágrafo é constituído de uma única palavra: Bichos. Sobre essa palavra, considere as seguintes afirmações:
I. Refere-se aos animais citados no parágrafo seguinte.
II. É uma metáfora para os rapazes que permaneciam no povoado.
III. Adquire mais peso no texto por aparecer isolada, formando sozinha um parágrafo.
Está correto o que se diz apenas em
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O TEMPO
Sobraram de tudo, com mais legendas, o palacete do barão, ruínas, o sobrado do fisco, onde se cobrava o quinto do rei, e a capela, que foi promessa de mulher-dama, convertida após amealhar ouro e diamantes dos forasteiros que chegavam, sendo que essa mesma capela é hoje ninho de morcegos e corujas. Sobraram também as velhas casas de beirais e cornijas, mais sobrados, sem portas nem janelas, olhos vazados: fixam o tempo e a eternidade, parados na tarde. Restaram ainda as velhas de muita velhice. Elas pitam os cachimbos, comem as próprias bocas e trazem lembranças do passado.
- Muita coisa a contar, seu moço. Histórias muitas.
Foi chão de mineração, com o braço de rio, a serra, com veios de ouro, o pedregulho solto em cor de ferro ou ferrugem. No tempo bem mais antigo, muitos escravos, nus da cintura para cima e de calças arregaçadas, mergulhavam as bateias e peneiravam o cascalho. Onda de aventureiros. Alguns estrangeiros. Abriram galerias na serra, que hoje são também moradas de morcegos, a picareta seguia o filão de ouro. Crimes e iniquidades: o alemão de barbas e botas, que apareceu morto e roubado no alpendre da casa; o preto Ludovico, que, por suspeita, foi obrigado a tomar dose dupla de pinhão, para expelir o diamante raro. O negro, com licença da palavra, se desfazia em merda e suor, o feitor catando a pedra no chão com a ponta da vara.
Dinheiro abundante para gasto e divertimento de todos. O bar, as cartas, a cerveja e as mulheres. Fandangos e bumba-meu-boi. Também as missões de expurgo, quando chegava Frei Nemésio, casando amancebados e purificando menino pagão, os pecados todos condenados em sermão de fogo pelas barbas venerandas de Frei Nemésio, e perdoados enfim com a grande procissão de velas.
- Senhor Deus, misericórdia.
E a procissão de velas:
- Misericórdia.
Outras festas havia. Cavalhadas ou justas, por iniciativa do próprio barão, que se apresentava no palanque em ordem de comando e respeito, o cebolão de ouro, com corrente pesada, no bolso do colete.
De todos os crimes, o de maior força foi o desse mesmo barão: viúvo, teve relações de incesto com a filha. Daí o abandono de tudo. O palacete dele em ruínas, coberto pela erva daninha, refúgio de cobras e lagartos.
- Que fortes são os poderes de Deus.
- E diga.
Por maldição do crime e também pelo braço de rio que secou e o veio de ouro que se perdeu, tudo foi entrando em abandono. As levas de homens que se retiravam da noite para o dia. O vazio dos arruados, os armazéns que se fechavam. Havia muito cerrara as portas o sobrado do fisco para a cobrança do quinto. Menino que se fizesse rapaz, por insinuação de um ou outro rádio de pilhas ou viandante raro que por ali passasse, dava para emigrar ou fugir, ou ficava atoleimado, se escondendo de pessoa estranha, sem saber dar respostas.
Bichos.
E o mundo se fez silêncio, espaço e tempo infinitos, com aquelas velhas casas de olhos vazados, onde ruminavam cabras e carneiros, o telheiro do mercado arriado. Por força de alguma vida, restou, na esquina, a venda de Seu Aniceto, também viveiro de ratos em correria pelas prateleiras, com uma ou outra garrafa empoeirada.
Por último começou a parar por ali o caminhão do Nozinho, que traz de longe carregamento de minério descoberto em mina nova. Nozinho descobriu, entre as velhas, menina-moça, que quer ir com ele na boleia. O caminhão chega em grande alegria de buzina e rádio aberto, as bandeirinhas coloridas. Todos acorrem, e Nozinho, por ele mesmo, é de muita prosa, enquanto salta, escarra no chão e tange com o pé o cachorro magro. Então Seu Aniceto, em nome de todos, talvez, e mais no seu interesse e ainda porque era fim de dezembro, supunha, pediu a Nozinho que lhe trouxesse o tempo marcado. É que estavam perdidos dentro do mundo, sem contagem de dia, mês ou ano, mas existindo dia e noite para a orientação de todos:
- Que dia é hoje, por exemplo?
- Quarta.
Está aí, ninguém sabia.
E Nozinho, na viagem de volta, trouxe o Tempo em forma de calendário, não com fotografia de mulher nua, como gostava, mas com a estampa de Nossa Senhora das Dores, o coração trespassado por sete setas, que era assim que apreciavam as velhas de muita velhice que comiam as próprias bocas e se arrimavam às paredes.
(Moreira Campos. Obra completa: contos. p. 326-328.)
A manifestação de uma outra voz, no caso, de uma personagem que viveu ou presenciou os fatos, tem alguns efeitos no texto. Sobre tais efeitos, considere as seguintes afirmações.
I. Dá mais veracidade aos fatos.
II. Torna a narrativa mais convincente.
III. Imprime mais literariedade à narrativa.
Está correto o que se diz apenas em
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Texto 1
O TEMPO
Sobraram de tudo, com mais legendas, o palacete do barão, ruínas, o sobrado do fisco, onde se cobrava o quinto do rei, e a capela, que foi promessa de mulher-dama, convertida após amealhar ouro e diamantes dos forasteiros que chegavam, sendo que essa mesma capela é hoje ninho de morcegos e corujas. Sobraram também as velhas casas de beirais e cornijas, mais sobrados, sem portas nem janelas, olhos vazados: fixam o tempo e a eternidade, parados na tarde. Restaram ainda as velhas de muita velhice. Elas pitam os cachimbos, comem as próprias bocas e trazem lembranças do passado.
- Muita coisa a contar, seu moço. Histórias muitas.
Foi chão de mineração, com o braço de rio, a serra, com veios de ouro, o pedregulho solto em cor de ferro ou ferrugem. No tempo bem mais antigo, muitos escravos, nus da cintura para cima e de calças arregaçadas, mergulhavam as bateias e peneiravam o cascalho. Onda de aventureiros. Alguns estrangeiros. Abriram galerias na serra, que hoje são também moradas de morcegos, a picareta seguia o filão de ouro. Crimes e iniquidades: o alemão de barbas e botas, que apareceu morto e roubado no alpendre da casa; o preto Ludovico, que, por suspeita, foi obrigado a tomar dose dupla de pinhão, para expelir o diamante raro. O negro, com licença da palavra, se desfazia em merda e suor, o feitor catando a pedra no chão com a ponta da vara.
Dinheiro abundante para gasto e divertimento de todos. O bar, as cartas, a cerveja e as mulheres. Fandangos e bumba-meu-boi. Também as missões de expurgo, quando chegava Frei Nemésio, casando amancebados e purificando menino pagão, os pecados todos condenados em sermão de fogo pelas barbas venerandas de Frei Nemésio, e perdoados enfim com a grande procissão de velas.
- Senhor Deus, misericórdia.
E a procissão de velas:
- Misericórdia.
Outras festas havia. Cavalhadas ou justas, por iniciativa do próprio barão, que se apresentava no palanque em ordem de comando e respeito, o cebolão de ouro, com corrente pesada, no bolso do colete.
De todos os crimes, o de maior força foi o desse mesmo barão: viúvo, teve relações de incesto com a filha. Daí o abandono de tudo. O palacete dele em ruínas, coberto pela erva daninha, refúgio de cobras e lagartos.
- Que fortes são os poderes de Deus.
- E diga.
Por maldição do crime e também pelo braço de rio que secou e o veio de ouro que se perdeu, tudo foi entrando em abandono. As levas de homens que se retiravam da noite para o dia. O vazio dos arruados, os armazéns que se fechavam. Havia muito cerrara as portas o sobrado do fisco para a cobrança do quinto. Menino que se fizesse rapaz, por insinuação de um ou outro rádio de pilhas ou viandante raro que por ali passasse, dava para emigrar ou fugir, ou ficava atoleimado, se escondendo de pessoa estranha, sem saber dar respostas.
Bichos.
E o mundo se fez silêncio, espaço e tempo infinitos, com aquelas velhas casas de olhos vazados, onde ruminavam cabras e carneiros, o telheiro do mercado arriado. Por força de alguma vida, restou, na esquina, a venda de Seu Aniceto, também viveiro de ratos em correria pelas prateleiras, com uma ou outra garrafa empoeirada.
Por último começou a parar por ali o caminhão do Nozinho, que traz de longe carregamento de minério descoberto em mina nova. Nozinho descobriu, entre as velhas, menina-moça, que quer ir com ele na boleia. O caminhão chega em grande alegria de buzina e rádio aberto, as bandeirinhas coloridas. Todos acorrem, e Nozinho, por ele mesmo, é de muita prosa, enquanto salta, escarra no chão e tange com o pé o cachorro magro. Então Seu Aniceto, em nome de todos, talvez, e mais no seu interesse e ainda porque era fim de dezembro, supunha, pediu a Nozinho que lhe trouxesse o tempo marcado. É que estavam perdidos dentro do mundo, sem contagem de dia, mês ou ano, mas existindo dia e noite para a orientação de todos:
- Que dia é hoje, por exemplo?
- Quarta.
Está aí, ninguém sabia.
E Nozinho, na viagem de volta, trouxe o Tempo em forma de calendário, não com fotografia de mulher nua, como gostava, mas com a estampa de Nossa Senhora das Dores, o coração trespassado por sete setas, que era assim que apreciavam as velhas de muita velhice que comiam as próprias bocas e se arrimavam às paredes.
(Moreira Campos. Obra completa: contos. p. 326-328.)
No 12º parágrafo, há uma tentativa de explicar a decadência do lugar. Marque a opção que indica o meio usado para dar essa explicação.
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O TEMPO
Sobraram de tudo, com mais legendas, o palacete do barão, ruínas, o sobrado do fisco, onde se cobrava o quinto do rei, e a capela, que foi promessa de mulher-dama, convertida após amealhar ouro e diamantes dos forasteiros que chegavam, sendo que essa mesma capela é hoje ninho de morcegos e corujas. Sobraram também as velhas casas de beirais e cornijas, mais sobrados, sem portas nem janelas, olhos vazados: fixam o tempo e a eternidade, parados na tarde. Restaram ainda as velhas de muita velhice. Elas pitam os cachimbos, comem as próprias bocas e trazem lembranças do passado.
- Muita coisa a contar, seu moço. Histórias muitas.
Foi chão de mineração, com o braço de rio, a serra, com veios de ouro, o pedregulho solto em cor de ferro ou ferrugem. No tempo bem mais antigo, muitos escravos, nus da cintura para cima e de calças arregaçadas, mergulhavam as bateias e peneiravam o cascalho. Onda de aventureiros. Alguns estrangeiros. Abriram galerias na serra, que hoje são também moradas de morcegos, a picareta seguia o filão de ouro. Crimes e iniquidades: o alemão de barbas e botas, que apareceu morto e roubado no alpendre da casa; o preto Ludovico, que, por suspeita, foi obrigado a tomar dose dupla de pinhão, para expelir o diamante raro. O negro, com licença da palavra, se desfazia em merda e suor, o feitor catando a pedra no chão com a ponta da vara.
Dinheiro abundante para gasto e divertimento de todos. O bar, as cartas, a cerveja e as mulheres. Fandangos e bumba-meu-boi. Também as missões de expurgo, quando chegava Frei Nemésio, casando amancebados e purificando menino pagão, os pecados todos condenados em sermão de fogo pelas barbas venerandas de Frei Nemésio, e perdoados enfim com a grande procissão de velas.
- Senhor Deus, misericórdia.
E a procissão de velas:
- Misericórdia.
Outras festas havia. Cavalhadas ou justas, por iniciativa do próprio barão, que se apresentava no palanque em ordem de comando e respeito, o cebolão de ouro, com corrente pesada, no bolso do colete.
De todos os crimes, o de maior força foi o desse mesmo barão: viúvo, teve relações de incesto com a filha. Daí o abandono de tudo. O palacete dele em ruínas, coberto pela erva daninha, refúgio de cobras e lagartos.
- Que fortes são os poderes de Deus.
- E diga.
Por maldição do crime e também pelo braço de rio que secou e o veio de ouro que se perdeu, tudo foi entrando em abandono. As levas de homens que se retiravam da noite para o dia. O vazio dos arruados, os armazéns que se fechavam. Havia muito cerrara as portas o sobrado do fisco para a cobrança do quinto. Menino que se fizesse rapaz, por insinuação de um ou outro rádio de pilhas ou viandante raro que por ali passasse, dava para emigrar ou fugir, ou ficava atoleimado, se escondendo de pessoa estranha, sem saber dar respostas.
Bichos.
E o mundo se fez silêncio, espaço e tempo infinitos, com aquelas velhas casas de olhos vazados, onde ruminavam cabras e carneiros, o telheiro do mercado arriado. Por força de alguma vida, restou, na esquina, a venda de Seu Aniceto, também viveiro de ratos em correria pelas prateleiras, com uma ou outra garrafa empoeirada.
Por último começou a parar por ali o caminhão do Nozinho, que traz de longe carregamento de minério descoberto em mina nova. Nozinho descobriu, entre as velhas, menina-moça, que quer ir com ele na boleia. O caminhão chega em grande alegria de buzina e rádio aberto, as bandeirinhas coloridas. Todos acorrem, e Nozinho, por ele mesmo, é de muita prosa, enquanto salta, escarra no chão e tange com o pé o cachorro magro. Então Seu Aniceto, em nome de todos, talvez, e mais no seu interesse e ainda porque era fim de dezembro, supunha, pediu a Nozinho que lhe trouxesse o tempo marcado. É que estavam perdidos dentro do mundo, sem contagem de dia, mês ou ano, mas existindo dia e noite para a orientação de todos:
- Que dia é hoje, por exemplo?
- Quarta.
Está aí, ninguém sabia.
E Nozinho, na viagem de volta, trouxe o Tempo em forma de calendário, não com fotografia de mulher nua, como gostava, mas com a estampa de Nossa Senhora das Dores, o coração trespassado por sete setas, que era assim que apreciavam as velhas de muita velhice que comiam as próprias bocas e se arrimavam às paredes.
(Moreira Campos. Obra completa: contos. p. 326-328.)
Há, no conto, alguns indícios textuais que levam o leitor a inferir uma mistura de vozes, isto é, a manifestação de outra ou outras vozes além da voz do narrador. Escreva V ou F, conforme o que está abaixo funcione ou não como pista dessa outra voz no texto em estudo.
( ) O emprego do travessão nos parágrafos (2º, 5º, 7º, 10º, 11º, 16º e 17º)
( ) A referência a detalhes de episódios muito específicos.
( ) As expressões com licença da palavra, (o negro) se desfazia em merda e suor ; o adjetivo atoleimado .
( ) O juízo de valor expresso pelo substantivo Bichos, no 13º parágrafo.
( ) O estilo deste excerto: o mundo se fez silêncio, espaço e tempo infinitos, com aquelas velhas casas de olhos vazados, onde ruminavam cabras e carneiros, o telheiro do mercado arriado.
Está correta, de cima para baixo, a sequência:
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O TEMPO
Sobraram de tudo, com mais legendas, o palacete do barão, ruínas, o sobrado do fisco, onde se cobrava o quinto do rei, e a capela, que foi promessa de mulher-dama, convertida após amealhar ouro e diamantes dos forasteiros que chegavam, sendo que essa mesma capela é hoje ninho de morcegos e corujas. Sobraram também as velhas casas de beirais e cornijas, mais sobrados, sem portas nem janelas, olhos vazados: fixam o tempo e a eternidade, parados na tarde. Restaram ainda as velhas de muita velhice. Elas pitam os cachimbos, comem as próprias bocas e trazem lembranças do passado.
- Muita coisa a contar, seu moço. Histórias muitas.
Foi chão de mineração, com o braço de rio, a serra, com veios de ouro, o pedregulho solto em cor de ferro ou ferrugem. No tempo bem mais antigo, muitos escravos, nus da cintura para cima e de calças arregaçadas, mergulhavam as bateias e peneiravam o cascalho. Onda de aventureiros. Alguns estrangeiros. Abriram galerias na serra, que hoje são também moradas de morcegos, a picareta seguia o filão de ouro. Crimes e iniquidades: o alemão de barbas e botas, que apareceu morto e roubado no alpendre da casa; o preto Ludovico, que, por suspeita, foi obrigado a tomar dose dupla de pinhão, para expelir o diamante raro. O negro, com licença da palavra, se desfazia em merda e suor, o feitor catando a pedra no chão com a ponta da vara.
Dinheiro abundante para gasto e divertimento de todos. O bar, as cartas, a cerveja e as mulheres. Fandangos e bumba-meu-boi. Também as missões de expurgo, quando chegava Frei Nemésio, casando amancebados e purificando menino pagão, os pecados todos condenados em sermão de fogo pelas barbas venerandas de Frei Nemésio, e perdoados enfim com a grande procissão de velas.
- Senhor Deus, misericórdia.
E a procissão de velas:
- Misericórdia.
Outras festas havia. Cavalhadas ou justas, por iniciativa do próprio barão, que se apresentava no palanque em ordem de comando e respeito, o cebolão de ouro, com corrente pesada, no bolso do colete.
De todos os crimes, o de maior força foi o desse mesmo barão: viúvo, teve relações de incesto com a filha. Daí o abandono de tudo. O palacete dele em ruínas, coberto pela erva daninha, refúgio de cobras e lagartos.
- Que fortes são os poderes de Deus.
- E diga.
Por maldição do crime e também pelo braço de rio que secou e o veio de ouro que se perdeu, tudo foi entrando em abandono. As levas de homens que se retiravam da noite para o dia. O vazio dos arruados, os armazéns que se fechavam. Havia muito cerrara as portas o sobrado do fisco para a cobrança do quinto. Menino que se fizesse rapaz, por insinuação de um ou outro rádio de pilhas ou viandante raro que por ali passasse, dava para emigrar ou fugir, ou ficava atoleimado, se escondendo de pessoa estranha, sem saber dar respostas.
Bichos.
E o mundo se fez silêncio, espaço e tempo infinitos, com aquelas velhas casas de olhos vazados, onde ruminavam cabras e carneiros, o telheiro do mercado arriado. Por força de alguma vida, restou, na esquina, a venda de Seu Aniceto, também viveiro de ratos em correria pelas prateleiras, com uma ou outra garrafa empoeirada.
Por último começou a parar por ali o caminhão do Nozinho, que traz de longe carregamento de minério descoberto em mina nova. Nozinho descobriu, entre as velhas, menina-moça, que quer ir com ele na boleia. O caminhão chega em grande alegria de buzina e rádio aberto, as bandeirinhas coloridas. Todos acorrem, e Nozinho, por ele mesmo, é de muita prosa, enquanto salta, escarra no chão e tange com o pé o cachorro magro. Então Seu Aniceto, em nome de todos, talvez, e mais no seu interesse e ainda porque era fim de dezembro, supunha, pediu a Nozinho que lhe trouxesse o tempo marcado. É que estavam perdidos dentro do mundo, sem contagem de dia, mês ou ano, mas existindo dia e noite para a orientação de todos:
- Que dia é hoje, por exemplo?
- Quarta.
Está aí, ninguém sabia.
E Nozinho, na viagem de volta, trouxe o Tempo em forma de calendário, não com fotografia de mulher nua, como gostava, mas com a estampa de Nossa Senhora das Dores, o coração trespassado por sete setas, que era assim que apreciavam as velhas de muita velhice que comiam as próprias bocas e se arrimavam às paredes.
(Moreira Campos. Obra completa: contos. p. 326-328.)
Assinale a opção em que está expresso o objetivo central do conto, que é mostrar
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A soma de todos os números naturais x que satisfazem à dupla desigualdade !$ 3 \le \sqrt x \le 21 !$ é
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Se os polinômios !$ p(x)=x^3+mx^2+nx+k !$ e !$ g(x)=x^3+ux^2+vx+w !$, são divisíveis por !$ x^2-x !$, então o resultado da soma !$ m+n+u+v !$ é
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O número de inteiros positivos, de três dígitos, nos quais figura o algarismo 3 é
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