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2490230 Ano: 2014
Disciplina: Português
Banca: UECE
Orgão: UECE
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TEXTO I

O ESCRETE DO SONHO

Nélson Rodrigues

Quem devia escrever a história do tricampeonato era Mário Filho. Só ele teria a visão homérica do maior feito do futebol brasileiro e mundial. Nunca houve, na face da terra, um escrete tão humilhado e tão ofendido. Vocês se lembram do que aconteceu no Morumbi.

Sempre digo que a torcida vaia até minuto de silêncio. Mas em São Paulo foi demais. A torcida queria Edu, e Zagallo escalou Paulo César. A vaia começou antes do jogo, continuou durante e depois do jogo. Até hoje, não sei como Paulo César sobreviveu ao próprio massacre. Há um tipo de vaia que explode como uma força da natureza. Sim. Uma vaia que venta, chove, troveja e relampeja.

Os jogadores se entreolhavam, sem entender que os tratassem, no Brasil, como o inimigo, como o estrangeiro. Mas não era só a multidão. Também a imprensa, fora algumas exceções, dizia horrores do técnico, do time, dos jogadores.

Todavia, ninguém contava com o homem brasileiro. Cada um de nós é um pouco como o Zé do Patrocínio. O “Tigre da Abolição” era suscetível às mais cavas e feias depressões. Sua retórica sempre começava fria, gaguejante. Seus amigos, porém, iam para o meio da massa e começavam a berrar: — “Negro burro, negro analfabeto, negro ordinário!” E, então, Patrocínio pegava fogo. Dizia coisas assim: — “Sou negro, sim, Deus deu-me sangue de Otelo para ter ciúmes de minha pátria”. Para assumir a sua verdadeira dimensão, o escrete precisava ser mordido pelas vaias. Foi toda uma maravilhosa ressurreição.

A Copa do México desmontou a gigantesca impostura que a maioria criava em torno do futebol europeu. Os virtuosos, os estilistas, éramos nós; nós, os goleadores; nós, os inventores. E a famosa velocidade? Meu Deus, ganhamos andando.

Pelé, maravilhosamente negro, poderia erguer o gesto, gritando: — “Deus deu-me sangue de Otelo para ter ciúmes da minha pátria”. E assim, brancos ou pretos, somos 90 milhões de otelos incendiados de ciúme pela pátria.

(Brasil 4 x 1 Itália, 21/6/1970, na Cidade do México. Brasil tricampeão mundial.)

RODRIGUES, Nélson. In: A pátria em chuteiras: novas crônicas de futebol. São Paulo: Companhia das Letras, 1984. p. 158-160. Texto adaptado

O texto 2 (subdividido em seções) faz uma reflexão sobre a maneira como se comporta, em determinado momento, a sociedade brasileira, que, mais cedo ou mais tarde, teria que integrar negros e mulatos.

Texto 2

José Paulo Florenzano

FUTEBOL E RACISMO: O MITO DA DEMOCRACIA EM CAMPO A história do futebol brasileiro contém, ao longo de quase um século, registros de episódios marcados pelo racismo. Eis o paradoxo: se de um lado a atividade futebolística era depreciada aos olhos da “boa sociedade” enquanto profissão destinada a pobres, negros e marginais, de outro ela se achava investida do poder de representar e projetar a nação em escala mundial.

VÍNCULO MENOS ASSIMÉTRICO ENTRE NEGROS E BRANCOS O trem do futebol descortinava perspectivas promissoras no terreno das relações sociais. Mas embora transportasse ricos e pobres, negros e brancos, ele o fazia alocando os diversos grupos em vagões separados. Enquanto a juventude privilegiada agia de modo a reforçar as divisões internas da composição, a mocidade alegre dos subúrbios buscava franquear a passagem a fim de enriquecer a experiência da viagem. Caberia, nesse sentido, um papel de destaque aos jogadores que logravam transitar entre os diversos compartimentos.

LEÔNIDAS DA SILVA: IDENTIDADE AMBÍGUA DO ATLETA Seria nesta conjuntura adversa que Leônidas da Silva pegaria o bonde da história. Símbolo da proeminência adquirida pelo boleiro em detrimento do sportsman, ele encarnava a mudança destinada a apagar os últimos vestígios da marca refinada, esnobe e excludente que a juventude privilegiada procurara atribuir à prática do esporte inglês, substituindo-a gradativamente por uma feição mais popular do jogo, por uma dimensão mais nacional do futebol, por uma identidade mais ambígua do atleta.

RISCOS SIMBÓLICOS A realização da Copa do Brasil em 1950 viria a se constituir, neste sentido, em uma rara oportunidade. No dia da decisão contra o Uruguai sobreveio o inesperado revés. Foi, então, que os torcedores descobriram os riscos simbólicos envolvidos na tarefa de reimaginar a nação dentro das quatro linhas do campo. As reportagens da crônica esportiva elegiam o goleiro Barbosa e o defensor Bigode como bodes expiatórios, exprimindo a vontade de “descarregar nas costas” dos referidos jogadores os “prejuízos” acarretados pela derrota. Uma chibata moral, eis a sentença proferida no tribunal dos brancos.

A REVOLTA DA CHIBATA Nos anos 1970, por não atender às expectativas normativas suscitadas pelo estereótipo do “bom negro”, Paulo César Lima foi classificado como “jogador-problema”. Responsabilizado pelo fracasso do Brasil na Copa da Alemanha, pleiteava o direito de voltar a vestir a camisa verde e amarela. O rumor de que o banimento tinha o respaldo de um ministro de Estado, não o surpreendia: “Se for, mais uma vez vou ter a certeza de que sou um negro que incomoda muita gente”. E acrescentava: “Não vou ser um negro tímido, quieto, com medo e temor das pessoas”. Dessa maneira, nas páginas de O Estado de S. Paulo, Paulo César esboçava a revolta da chibata no futebol brasileiro. Enquanto Barbosa e Bigode, sem alternativa, suportaram com dignidade o linchamento moral na derrota de 1950, Paulo César contra-atacava os que pretendiam condená-lo pelo insucesso de 1974, reeditando as acusações de “covarde” e de “mercenário” – as mesmas dirigidas a Leônidas no passado. Paulo César, no entanto, assumia, sem ambiguidades, as cores e as causas defendidas pela esquadra dos pretos em todas as esferas da vida social. “Sinto na pele esse racismo subjacente”, revelou certa vez à imprensa francesa: “Isto é, ninguém ousa pronunciar a palavra racismo. Mas posso garantir que ele existe, mesmo na Seleção Brasileira”. Sua ousadia consistiu em pronunciar a palavra interdita no espaço simbólico utilizado pelo discurso oficial para reafirmar o mito da democracia racial.

José Paulo Florenzano é professor de Antropologia da PUC-SP e autor do livro “A Democracia Corinthiana” (2009). Texto adaptado.

Releia o parágrafo 2 do texto 1. Você deve ter percebido que o Paulo César de que fala o texto 2 é o mesmo Paulo César de que fala Nélson Rodrigues no texto 1. Cotejando esses dois textos, marque a opção INCORRETA.

 

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2490229 Ano: 2014
Disciplina: Português
Banca: UECE
Orgão: UECE
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O texto 2 (subdividido em seções) faz uma reflexão sobre a maneira como se comporta, em determinado momento, a sociedade brasileira, que, mais cedo ou mais tarde, teria que integrar negros e mulatos.

Texto 2

José Paulo Florenzano

FUTEBOL E RACISMO: O MITO DA DEMOCRACIA EM CAMPO A história do futebol brasileiro contém, ao longo de quase um século, registros de episódios marcados pelo racismo. Eis o paradoxo: se de um lado a atividade futebolística era depreciada aos olhos da “boa sociedade” enquanto profissão destinada a pobres, negros e marginais, de outro ela se achava investida do poder de representar e projetar a nação em escala mundial.

VÍNCULO MENOS ASSIMÉTRICO ENTRE NEGROS E BRANCOS O trem do futebol descortinava perspectivas promissoras no terreno das relações sociais. Mas embora transportasse ricos e pobres, negros e brancos, ele o fazia alocando os diversos grupos em vagões separados. Enquanto a juventude privilegiada agia de modo a reforçar as divisões internas da composição, a mocidade alegre dos subúrbios buscava franquear a passagem a fim de enriquecer a experiência da viagem. Caberia, nesse sentido, um papel de destaque aos jogadores que logravam transitar entre os diversos compartimentos.

LEÔNIDAS DA SILVA: IDENTIDADE AMBÍGUA DO ATLETA Seria nesta conjuntura adversa que Leônidas da Silva pegaria o bonde da história. Símbolo da proeminência adquirida pelo boleiro em detrimento do sportsman, ele encarnava a mudança destinada a apagar os últimos vestígios da marca refinada, esnobe e excludente que a juventude privilegiada procurara atribuir à prática do esporte inglês, substituindo-a gradativamente por uma feição mais popular do jogo, por uma dimensão mais nacional do futebol, por uma identidade mais ambígua do atleta.

RISCOS SIMBÓLICOS A realização da Copa do Brasil em 1950 viria a se constituir, neste sentido, em uma rara oportunidade. No dia da decisão contra o Uruguai sobreveio o inesperado revés. Foi, então, que os torcedores descobriram os riscos simbólicos envolvidos na tarefa de reimaginar a nação dentro das quatro linhas do campo. As reportagens da crônica esportiva elegiam o goleiro Barbosa e o defensor Bigode como bodes expiatórios, exprimindo a vontade de “descarregar nas costas” dos referidos jogadores os “prejuízos” acarretados pela derrota. Uma chibata moral, eis a sentença proferida no tribunal dos brancos.

A REVOLTA DA CHIBATA Nos anos 1970, por não atender às expectativas normativas suscitadas pelo estereótipo do “bom negro”, Paulo César Lima foi classificado como “jogador-problema”. Responsabilizado pelo fracasso do Brasil na Copa da Alemanha, pleiteava o direito de voltar a vestir a camisa verde e amarela. O rumor de que o banimento tinha o respaldo de um ministro de Estado, não o surpreendia: “Se for, mais uma vez vou ter a certeza de que sou um negro que incomoda muita gente”. E acrescentava: “Não vou ser um negro tímido, quieto, com medo e temor das pessoas”. Dessa maneira, nas páginas de O Estado de S. Paulo, Paulo César esboçava a revolta da chibata no futebol brasileiro. Enquanto Barbosa e Bigode, sem alternativa, suportaram com dignidade o linchamento moral na derrota de 1950, Paulo César contra-atacava os que pretendiam condená-lo pelo insucesso de 1974, reeditando as acusações de “covarde” e de “mercenário” – as mesmas dirigidas a Leônidas no passado. Paulo César, no entanto, assumia, sem ambiguidades, as cores e as causas defendidas pela esquadra dos pretos em todas as esferas da vida social. “Sinto na pele esse racismo subjacente”, revelou certa vez à imprensa francesa: “Isto é, ninguém ousa pronunciar a palavra racismo. Mas posso garantir que ele existe, mesmo na Seleção Brasileira”. Sua ousadia consistiu em pronunciar a palavra interdita no espaço simbólico utilizado pelo discurso oficial para reafirmar o mito da democracia racial.

José Paulo Florenzano é professor de Antropologia da PUC-SP e autor do livro “A Democracia Corinthiana” (2009). Texto adaptado.

Sobre a seção “Riscos simbólicos”, reconheça o que for verdadeiro escrevendo V, e o que for falso escrevendo F.

( ) A Copa do Mundo de 1950, sediada no Brasil, seria um bom cenário para mostrar ao mundo que o País era um paraíso racial.

( ) A seleção brasileira de 1950 compunha-se de jogadores brancos e negros; entre os negros, o goleiro Barbosa e o defensor Bigode.

( ) Reunindo, no mesmo time, jogadores negros e jogadores brancos, o espaço delimitado do campo seria um símbolo do Brasil sem preconceito racial.

( ) A escolha de dois jogadores negros para ser responsabilizados pela derrota da seleção desconstruiu o simbolismo de ser o Brasil um paraíso racial.

( ) Ao falar em chibata moral, o enunciador faz uma alusão às chibatadas que os senhores de engenho infringiam aos negros escravos.

Está correta, de cima para baixo, a sequência seguinte:

 

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2490228 Ano: 2014
Disciplina: Português
Banca: UECE
Orgão: UECE
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O texto 2 (subdividido em seções) faz uma reflexão sobre a maneira como se comporta, em determinado momento, a sociedade brasileira, que, mais cedo ou mais tarde, teria que integrar negros e mulatos.

Texto 2

José Paulo Florenzano

FUTEBOL E RACISMO: O MITO DA DEMOCRACIA EM CAMPO A história do futebol brasileiro contém, ao longo de quase um século, registros de episódios marcados pelo racismo. Eis o paradoxo: se de um lado a atividade futebolística era depreciada aos olhos da “boa sociedade” enquanto profissão destinada a pobres, negros e marginais, de outro ela se achava investida do poder de representar e projetar a nação em escala mundial.

VÍNCULO MENOS ASSIMÉTRICO ENTRE NEGROS E BRANCOS O trem do futebol descortinava perspectivas promissoras no terreno das relações sociais. Mas embora transportasse ricos e pobres, negros e brancos, ele o fazia alocando os diversos grupos em vagões separados. Enquanto a juventude privilegiada agia de modo a reforçar as divisões internas da composição, a mocidade alegre dos subúrbios buscava franquear a passagem a fim de enriquecer a experiência da viagem. Caberia, nesse sentido, um papel de destaque aos jogadores que logravam transitar entre os diversos compartimentos.

LEÔNIDAS DA SILVA: IDENTIDADE AMBÍGUA DO ATLETA Seria nesta conjuntura adversa que Leônidas da Silva pegaria o bonde da história. Símbolo da proeminência adquirida pelo boleiro em detrimento do sportsman, ele encarnava a mudança destinada a apagar os últimos vestígios da marca refinada, esnobe e excludente que a juventude privilegiada procurara atribuir à prática do esporte inglês, substituindo-a gradativamente por uma feição mais popular do jogo, por uma dimensão mais nacional do futebol, por uma identidade mais ambígua do atleta.

RISCOS SIMBÓLICOS A realização da Copa do Brasil em 1950 viria a se constituir, neste sentido, em uma rara oportunidade. No dia da decisão contra o Uruguai sobreveio o inesperado revés. Foi, então, que os torcedores descobriram os riscos simbólicos envolvidos na tarefa de reimaginar a nação dentro das quatro linhas do campo. As reportagens da crônica esportiva elegiam o goleiro Barbosa e o defensor Bigode como bodes expiatórios, exprimindo a vontade de “descarregar nas costas” dos referidos jogadores os “prejuízos” acarretados pela derrota. Uma chibata moral, eis a sentença proferida no tribunal dos brancos.

A REVOLTA DA CHIBATA Nos anos 1970, por não atender às expectativas normativas suscitadas pelo estereótipo do “bom negro”, Paulo César Lima foi classificado como “jogador-problema”. Responsabilizado pelo fracasso do Brasil na Copa da Alemanha, pleiteava o direito de voltar a vestir a camisa verde e amarela. O rumor de que o banimento tinha o respaldo de um ministro de Estado, não o surpreendia: “Se for, mais uma vez vou ter a certeza de que sou um negro que incomoda muita gente”. E acrescentava: “Não vou ser um negro tímido, quieto, com medo e temor das pessoas”. Dessa maneira, nas páginas de O Estado de S. Paulo, Paulo César esboçava a revolta da chibata no futebol brasileiro. Enquanto Barbosa e Bigode, sem alternativa, suportaram com dignidade o linchamento moral na derrota de 1950, Paulo César contra-atacava os que pretendiam condená-lo pelo insucesso de 1974, reeditando as acusações de “covarde” e de “mercenário” – as mesmas dirigidas a Leônidas no passado. Paulo César, no entanto, assumia, sem ambiguidades, as cores e as causas defendidas pela esquadra dos pretos em todas as esferas da vida social. “Sinto na pele esse racismo subjacente”, revelou certa vez à imprensa francesa: “Isto é, ninguém ousa pronunciar a palavra racismo. Mas posso garantir que ele existe, mesmo na Seleção Brasileira”. Sua ousadia consistiu em pronunciar a palavra interdita no espaço simbólico utilizado pelo discurso oficial para reafirmar o mito da democracia racial.

José Paulo Florenzano é professor de Antropologia da PUC-SP e autor do livro “A Democracia Corinthiana” (2009). Texto adaptado.

Pelo texto de Florenzano, conclui-se que os grandes pecados de Paulo César consistiam em ser negro e

 

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2490227 Ano: 2014
Disciplina: Português
Banca: UECE
Orgão: UECE
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O texto 2 (subdividido em seções) faz uma reflexão sobre a maneira como se comporta, em determinado momento, a sociedade brasileira, que, mais cedo ou mais tarde, teria que integrar negros e mulatos.

Texto 2

José Paulo Florenzano

FUTEBOL E RACISMO: O MITO DA DEMOCRACIA EM CAMPO A história do futebol brasileiro contém, ao longo de quase um século, registros de episódios marcados pelo racismo. Eis o paradoxo: se de um lado a atividade futebolística era depreciada aos olhos da “boa sociedade” enquanto profissão destinada a pobres, negros e marginais, de outro ela se achava investida do poder de representar e projetar a nação em escala mundial.

VÍNCULO MENOS ASSIMÉTRICO ENTRE NEGROS E BRANCOS O trem do futebol descortinava perspectivas promissoras no terreno das relações sociais. Mas embora transportasse ricos e pobres, negros e brancos, ele o fazia alocando os diversos grupos em vagões separados. Enquanto a juventude privilegiada agia de modo a reforçar as divisões internas da composição, a mocidade alegre dos subúrbios buscava franquear a passagem a fim de enriquecer a experiência da viagem. Caberia, nesse sentido, um papel de destaque aos jogadores que logravam transitar entre os diversos compartimentos.

LEÔNIDAS DA SILVA: IDENTIDADE AMBÍGUA DO ATLETA Seria nesta conjuntura adversa que Leônidas da Silva pegaria o bonde da história. Símbolo da proeminência adquirida pelo boleiro em detrimento do sportsman, ele encarnava a mudança destinada a apagar os últimos vestígios da marca refinada, esnobe e excludente que a juventude privilegiada procurara atribuir à prática do esporte inglês, substituindo-a gradativamente por uma feição mais popular do jogo, por uma dimensão mais nacional do futebol, por uma identidade mais ambígua do atleta.

RISCOS SIMBÓLICOS A realização da Copa do Brasil em 1950 viria a se constituir, neste sentido, em uma rara oportunidade. No dia da decisão contra o Uruguai sobreveio o inesperado revés. Foi, então, que os torcedores descobriram os riscos simbólicos envolvidos na tarefa de reimaginar a nação dentro das quatro linhas do campo. As reportagens da crônica esportiva elegiam o goleiro Barbosa e o defensor Bigode como bodes expiatórios, exprimindo a vontade de “descarregar nas costas” dos referidos jogadores os “prejuízos” acarretados pela derrota. Uma chibata moral, eis a sentença proferida no tribunal dos brancos.

A REVOLTA DA CHIBATA Nos anos 1970, por não atender às expectativas normativas suscitadas pelo estereótipo do “bom negro”, Paulo César Lima foi classificado como “jogador-problema”. Responsabilizado pelo fracasso do Brasil na Copa da Alemanha, pleiteava o direito de voltar a vestir a camisa verde e amarela. O rumor de que o banimento tinha o respaldo de um ministro de Estado, não o surpreendia: “Se for, mais uma vez vou ter a certeza de que sou um negro que incomoda muita gente”. E acrescentava: “Não vou ser um negro tímido, quieto, com medo e temor das pessoas”. Dessa maneira, nas páginas de O Estado de S. Paulo, Paulo César esboçava a revolta da chibata no futebol brasileiro. Enquanto Barbosa e Bigode, sem alternativa, suportaram com dignidade o linchamento moral na derrota de 1950, Paulo César contra-atacava os que pretendiam condená-lo pelo insucesso de 1974, reeditando as acusações de “covarde” e de “mercenário” – as mesmas dirigidas a Leônidas no passado. Paulo César, no entanto, assumia, sem ambiguidades, as cores e as causas defendidas pela esquadra dos pretos em todas as esferas da vida social. “Sinto na pele esse racismo subjacente”, revelou certa vez à imprensa francesa: “Isto é, ninguém ousa pronunciar a palavra racismo. Mas posso garantir que ele existe, mesmo na Seleção Brasileira”. Sua ousadia consistiu em pronunciar a palavra interdita no espaço simbólico utilizado pelo discurso oficial para reafirmar o mito da democracia racial.

José Paulo Florenzano é professor de Antropologia da PUC-SP e autor do livro “A Democracia Corinthiana” (2009). Texto adaptado.

Na segunda seção, o enunciador, para representar a difícil relação entre negros e brancos, mediada pelo futebol, lança mão de uma imagem, o trem. Assinale a opção que reúne somente expressões que remetem, direta ou indiretamente, a trem.

 

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2490226 Ano: 2014
Disciplina: Português
Banca: UECE
Orgão: UECE
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O texto 2 (subdividido em seções) faz uma reflexão sobre a maneira como se comporta, em determinado momento, a sociedade brasileira, que, mais cedo ou mais tarde, teria que integrar negros e mulatos.

Texto 2

José Paulo Florenzano

FUTEBOL E RACISMO: O MITO DA DEMOCRACIA EM CAMPO A história do futebol brasileiro contém, ao longo de quase um século, registros de episódios marcados pelo racismo. Eis o paradoxo: se de um lado a atividade futebolística era depreciada aos olhos da “boa sociedade” enquanto profissão destinada a pobres, negros e marginais, de outro ela se achava investida do poder de representar e projetar a nação em escala mundial.

VÍNCULO MENOS ASSIMÉTRICO ENTRE NEGROS E BRANCOS O trem do futebol descortinava perspectivas promissoras no terreno das relações sociais. Mas embora transportasse ricos e pobres, negros e brancos, ele o fazia alocando os diversos grupos em vagões separados. Enquanto a juventude privilegiada agia de modo a reforçar as divisões internas da composição, a mocidade alegre dos subúrbios buscava franquear a passagem a fim de enriquecer a experiência da viagem. Caberia, nesse sentido, um papel de destaque aos jogadores que logravam transitar entre os diversos compartimentos.

LEÔNIDAS DA SILVA: IDENTIDADE AMBÍGUA DO ATLETA Seria nesta conjuntura adversa que Leônidas da Silva pegaria o bonde da história. Símbolo da proeminência adquirida pelo boleiro em detrimento do sportsman, ele encarnava a mudança destinada a apagar os últimos vestígios da marca refinada, esnobe e excludente que a juventude privilegiada procurara atribuir à prática do esporte inglês, substituindo-a gradativamente por uma feição mais popular do jogo, por uma dimensão mais nacional do futebol, por uma identidade mais ambígua do atleta.

RISCOS SIMBÓLICOS A realização da Copa do Brasil em 1950 viria a se constituir, neste sentido, em uma rara oportunidade. No dia da decisão contra o Uruguai sobreveio o inesperado revés. Foi, então, que os torcedores descobriram os riscos simbólicos envolvidos na tarefa de reimaginar a nação dentro das quatro linhas do campo. As reportagens da crônica esportiva elegiam o goleiro Barbosa e o defensor Bigode como bodes expiatórios, exprimindo a vontade de “descarregar nas costas” dos referidos jogadores os “prejuízos” acarretados pela derrota. Uma chibata moral, eis a sentença proferida no tribunal dos brancos.

A REVOLTA DA CHIBATA Nos anos 1970, por não atender às expectativas normativas suscitadas pelo estereótipo do “bom negro”, Paulo César Lima foi classificado como “jogador-problema”. Responsabilizado pelo fracasso do Brasil na Copa da Alemanha, pleiteava o direito de voltar a vestir a camisa verde e amarela. O rumor de que o banimento tinha o respaldo de um ministro de Estado, não o surpreendia: “Se for, mais uma vez vou ter a certeza de que sou um negro que incomoda muita gente”. E acrescentava: “Não vou ser um negro tímido, quieto, com medo e temor das pessoas”. Dessa maneira, nas páginas de O Estado de S. Paulo, Paulo César esboçava a revolta da chibata no futebol brasileiro. Enquanto Barbosa e Bigode, sem alternativa, suportaram com dignidade o linchamento moral na derrota de 1950, Paulo César contra-atacava os que pretendiam condená-lo pelo insucesso de 1974, reeditando as acusações de “covarde” e de “mercenário” – as mesmas dirigidas a Leônidas no passado. Paulo César, no entanto, assumia, sem ambiguidades, as cores e as causas defendidas pela esquadra dos pretos em todas as esferas da vida social. “Sinto na pele esse racismo subjacente”, revelou certa vez à imprensa francesa: “Isto é, ninguém ousa pronunciar a palavra racismo. Mas posso garantir que ele existe, mesmo na Seleção Brasileira”. Sua ousadia consistiu em pronunciar a palavra interdita no espaço simbólico utilizado pelo discurso oficial para reafirmar o mito da democracia racial.

José Paulo Florenzano é professor de Antropologia da PUC-SP e autor do livro “A Democracia Corinthiana” (2009). Texto adaptado.

Na primeira parte do texto, o autor fala em paradoxo, palavra que pode ser entendida como uma contradição entre opiniões divergentes de uma mesma pessoa; entre opinião e comportamento ou entre os termos de uma proposição. Assinale a opção que expressa corretamente, no texto, os elementos que formam o paradoxo.

 

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2490225 Ano: 2014
Disciplina: Português
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TEXTO I

O ESCRETE DO SONHO

Nélson Rodrigues

Quem devia escrever a história do tricampeonato era Mário Filho. Só ele teria a visão homérica do maior feito do futebol brasileiro e mundial. Nunca houve, na face da terra, um escrete tão humilhado e tão ofendido. Vocês se lembram do que aconteceu no Morumbi.

Sempre digo que a torcida vaia até minuto de silêncio. Mas em São Paulo foi demais. A torcida queria Edu, e Zagallo escalou Paulo César. A vaia começou antes do jogo, continuou durante e depois do jogo. Até hoje, não sei como Paulo César sobreviveu ao próprio massacre. Há um tipo de vaia que explode como uma força da natureza. Sim. Uma vaia que venta, chove, troveja e relampeja.

Os jogadores se entreolhavam, sem entender que os tratassem, no Brasil, como o inimigo, como o estrangeiro. Mas não era só a multidão. Também a imprensa, fora algumas exceções, dizia horrores do técnico, do time, dos jogadores.

Todavia, ninguém contava com o homem brasileiro. Cada um de nós é um pouco como o Zé do Patrocínio. O “Tigre da Abolição” era suscetível às mais cavas e feias depressões. Sua retórica sempre começava fria, gaguejante. Seus amigos, porém, iam para o meio da massa e começavam a berrar: — “Negro burro, negro analfabeto, negro ordinário!” E, então, Patrocínio pegava fogo. Dizia coisas assim: — “Sou negro, sim, Deus deu-me sangue de Otelo para ter ciúmes de minha pátria”. Para assumir a sua verdadeira dimensão, o escrete precisava ser mordido pelas vaias. Foi toda uma maravilhosa ressurreição.

A Copa do México desmontou a gigantesca impostura que a maioria criava em torno do futebol europeu. Os virtuosos, os estilistas, éramos nós; nós, os goleadores; nós, os inventores. E a famosa velocidade? Meu Deus, ganhamos andando.

Pelé, maravilhosamente negro, poderia erguer o gesto, gritando: — “Deus deu-me sangue de Otelo para ter ciúmes da minha pátria”. E assim, brancos ou pretos, somos 90 milhões de otelos incendiados de ciúme pela pátria.

(Brasil 4 x 1 Itália, 21/6/1970, na Cidade do México. Brasil tricampeão mundial.)

RODRIGUES, Nélson. In: A pátria em chuteiras: novas crônicas de futebol. São Paulo: Companhia das Letras, 1984. p. 158-160. Texto adaptado.

O cronista faz alusão a Otelo, personagem da tragédia shakespeariana intitulada “Otelo, o Mouro de Veneza”. Otelo, o protagonista, apaixona-se por uma jovem de família nobre, Desdêmona, com quem se casa. Insuflado por Iago, acaba matando a amada por ciúme. Nos parágrafos destacados, o cronista escreve Otelo, com a inicial maiúscula. No último parágrafo, põe o vocábulo no plural e o grafa com inicial minúscula. Atente para o que se diz sobre o uso das iniciais maiúsculas e minúsculas, nesse caso.

I. A maiúscula se justifica por ser a palavra um substantivo próprio, no caso, um antropônimo, que individualiza um ser humano.

II. A minúscula, por seu lado, justifica-se porque o vocábulo Otelo não mais nomeia um homem em particular, mas um conjunto de sujeitos que representam um tipo, no texto, o ciumento. Migrou, pois, da categoria de substantivo próprio para a de substantivo comum.

III. A grafia otelos é opcional. O cronista poderia ter escrito com maiúscula: somos 90 milhões de Otelos.

Está correto o que se diz em

 

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2490224 Ano: 2014
Disciplina: Português
Banca: UECE
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TEXTO I

O ESCRETE DO SONHO

Nélson Rodrigues

Quem devia escrever a história do tricampeonato era Mário Filho. Só ele teria a visão homérica do maior feito do futebol brasileiro e mundial. Nunca houve, na face da terra, um escrete tão humilhado e tão ofendido. Vocês se lembram do que aconteceu no Morumbi.

Sempre digo que a torcida vaia até minuto de silêncio. Mas em São Paulo foi demais. A torcida queria Edu, e Zagallo escalou Paulo César. A vaia começou antes do jogo, continuou durante e depois do jogo. Até hoje, não sei como Paulo César sobreviveu ao próprio massacre. Há um tipo de vaia que explode como uma força da natureza. Sim. Uma vaia que venta, chove, troveja e relampeja.

Os jogadores se entreolhavam, sem entender que os tratassem, no Brasil, como o inimigo, como o estrangeiro. Mas não era só a multidão. Também a imprensa, fora algumas exceções, dizia horrores do técnico, do time, dos jogadores.

Todavia, ninguém contava com o homem brasileiro. Cada um de nós é um pouco como o Zé do Patrocínio. O “Tigre da Abolição” era suscetível às mais cavas e feias depressões. Sua retórica sempre começava fria, gaguejante. Seus amigos, porém, iam para o meio da massa e começavam a berrar: — “Negro burro, negro analfabeto, negro ordinário!” E, então, Patrocínio pegava fogo. Dizia coisas assim: — “Sou negro, sim, Deus deu-me sangue de Otelo para ter ciúmes de minha pátria”. Para assumir a sua verdadeira dimensão, o escrete precisava ser mordido pelas vaias. Foi toda uma maravilhosa ressurreição.

A Copa do México desmontou a gigantesca impostura que a maioria criava em torno do futebol europeu. Os virtuosos, os estilistas, éramos nós; nós, os goleadores; nós, os inventores. E a famosa velocidade? Meu Deus, ganhamos andando.

Pelé, maravilhosamente negro, poderia erguer o gesto, gritando: — “Deus deu-me sangue de Otelo para ter ciúmes da minha pátria”. E assim, brancos ou pretos, somos 90 milhões de otelos incendiados de ciúme pela pátria.

(Brasil 4 x 1 Itália, 21/6/1970, na Cidade do México. Brasil tricampeão mundial.)

RODRIGUES, Nélson. In: A pátria em chuteiras: novas crônicas de futebol. São Paulo: Companhia das Letras, 1984. p. 158-160. Texto adaptado.

Sobre o trecho seguinte: “Há um tipo de vaia que explode como uma força da natureza. Sim. Uma vaia que venta, chove, troveja e relampeja”, é INCORRETO afirmar que

 

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2490223 Ano: 2014
Disciplina: Português
Banca: UECE
Orgão: UECE
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TEXTO I

O ESCRETE DO SONHO

Nélson Rodrigues

Quem devia escrever a história do tricampeonato era Mário Filho. Só ele teria a visão homérica do maior feito do futebol brasileiro e mundial. Nunca houve, na face da terra, um escrete tão humilhado e tão ofendido. Vocês se lembram do que aconteceu no Morumbi.

Sempre digo que a torcida vaia até minuto de silêncio. Mas em São Paulo foi demais. A torcida queria Edu, e Zagallo escalou Paulo César. A vaia começou antes do jogo, continuou durante e depois do jogo. Até hoje, não sei como Paulo César sobreviveu ao próprio massacre. Há um tipo de vaia que explode como uma força da natureza. Sim. Uma vaia que venta, chove, troveja e relampeja.

Os jogadores se entreolhavam, sem entender que os tratassem, no Brasil, como o inimigo, como o estrangeiro. Mas não era só a multidão. Também a imprensa, fora algumas exceções, dizia horrores do técnico, do time, dos jogadores.

Todavia, ninguém contava com o homem brasileiro. Cada um de nós é um pouco como o Zé do Patrocínio. O “Tigre da Abolição” era suscetível às mais cavas e feias depressões. Sua retórica sempre começava fria, gaguejante. Seus amigos, porém, iam para o meio da massa e começavam a berrar: — “Negro burro, negro analfabeto, negro ordinário!” E, então, Patrocínio pegava fogo. Dizia coisas assim: — “Sou negro, sim, Deus deu-me sangue de Otelo para ter ciúmes de minha pátria”. Para assumir a sua verdadeira dimensão, o escrete precisava ser mordido pelas vaias. Foi toda uma maravilhosa ressurreição.

A Copa do México desmontou a gigantesca impostura que a maioria criava em torno do futebol europeu. Os virtuosos, os estilistas, éramos nós; nós, os goleadores; nós, os inventores. E a famosa velocidade? Meu Deus, ganhamos andando.

Pelé, maravilhosamente negro, poderia erguer o gesto, gritando: — “Deus deu-me sangue de Otelo para ter ciúmes da minha pátria”. E assim, brancos ou pretos, somos 90 milhões de otelos incendiados de ciúme pela pátria.

(Brasil 4 x 1 Itália, 21/6/1970, na Cidade do México. Brasil tricampeão mundial.)

RODRIGUES, Nélson. In: A pátria em chuteiras: novas crônicas de futebol. São Paulo: Companhia das Letras, 1984. p. 158-160. Texto adaptado.

Atente ao que se diz sobre o enunciado do quarto parágrafo.

I. O vocábulo “mordido”, no texto, é particípio do verbo morder e entra na composição da voz passiva.

II. Na voz ativa, teríamos a seguinte estrutura: (...) as vaias precisavam morder o escrete.

III. Se o cronista optasse pelo uso da voz ativa, mantendo a primeira oração no início, o sentido do enunciado continuaria o mesmo.

Está correto o que se diz apenas em

 

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2490222 Ano: 2014
Disciplina: Português
Banca: UECE
Orgão: UECE
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TEXTO I

O ESCRETE DO SONHO

Nélson Rodrigues

Quem devia escrever a história do tricampeonato era Mário Filho. Só ele teria a visão homérica do maior feito do futebol brasileiro e mundial. Nunca houve, na face da terra, um escrete tão humilhado e tão ofendidoB). Vocês se lembram do que aconteceu no Morumbi.

Sempre digo que a torcida vaia até minuto de silêncio. Mas em São Paulo foi demais. A torcida queria Edu, e Zagallo escalou Paulo César. A vaia começou antes do jogo, continuou durante e depois do jogo. Até hoje, não sei como Paulo César sobreviveu ao próprio massacre. Há um tipo de vaia que explode como uma força da natureza. Sim. Uma vaia que venta, chove, troveja e relampejaC).

Os jogadores se entreolhavam, sem entender que os tratassem, no Brasil, como o inimigo, como o estrangeiro. Mas não era só a multidão. Também a imprensa, fora algumas exceções, dizia horrores do técnico, do time, dos jogadores.

Todavia, ninguém contava com o homem brasileiro. Cada um de nós é um pouco como o Zé do Patrocínio. O “Tigre da Abolição” era suscetível às mais cavas e feias depressões. Sua retórica sempre começava fria, gaguejante. Seus amigos, porém, iam para o meio da massa e começavam a berrar: — “Negro burro, negro analfabeto, negro ordinário!”A) E, então, Patrocínio pegava fogo. Dizia coisas assim: — “Sou negro, sim, Deus deu-me sangue de Otelo para ter ciúmes de minha pátria”. Para assumir a sua verdadeira dimensão, o escrete precisava ser mordido pelas vaias.D) Foi toda uma maravilhosa ressurreição.

A Copa do México desmontou a gigantesca impostura que a maioria criava em torno do futebol europeu. Os virtuosos, os estilistas, éramos nós; nós, os goleadores; nós, os inventores. E a famosa velocidade? Meu Deus, ganhamos andando.

Pelé, maravilhosamente negro, poderia erguer o gesto, gritando: — “Deus deu-me sangue de Otelo para ter ciúmes da minha pátria”. E assim, brancos ou pretos, somos 90 milhões de otelos incendiados de ciúme pela pátria.

(Brasil 4 x 1 Itália, 21/6/1970, na Cidade do México. Brasil tricampeão mundial.)

RODRIGUES, Nélson. In: A pátria em chuteiras: novas crônicas de futebol. São Paulo: Companhia das Letras, 1984. p. 158-160. Texto adaptado.

Assinale a opção que apresenta uma voz que NÃO é a voz do enunciador.

 

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2490221 Ano: 2014
Disciplina: Português
Banca: UECE
Orgão: UECE
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TEXTO I

O ESCRETE DO SONHO

Nélson Rodrigues

Quem devia escrever a história do tricampeonato era Mário Filho. Só ele teria a visão homérica do maior feito do futebol brasileiro e mundial. Nunca houve, na face da terra, um escrete tão humilhado e tão ofendido. Vocês se lembram do que aconteceu no Morumbi.

Sempre digo que a torcida vaia até minuto de silêncio. Mas em São Paulo foi demais. A torcida queria Edu, e Zagallo escalou Paulo César. A vaia começou antes do jogo, continuou durante e depois do jogo. Até hoje, não sei como Paulo César sobreviveu ao próprio massacre. Há um tipo de vaia que explode como uma força da natureza. Sim. Uma vaia que venta, chove, troveja e relampeja.

Os jogadores se entreolhavam, sem entender que os tratassem, no Brasil, como o inimigo, como o estrangeiro. Mas não era só a multidão. Também a imprensa, fora algumas exceções, dizia horrores do técnico, do time, dos jogadores.

Todavia, ninguém contava com o homem brasileiro. Cada um de nós é um pouco como o Zé do Patrocínio. O “Tigre da Abolição” era suscetível às mais cavas e feias depressões. Sua retórica sempre começava fria, gaguejante. Seus amigos, porém, iam para o meio da massa e começavam a berrar: — “Negro burro, negro analfabeto, negro ordinário!” E, então, Patrocínio pegava fogo. Dizia coisas assim: — “Sou negro, sim, Deus deu-me sangue de Otelo para ter ciúmes de minha pátria”. Para assumir a sua verdadeira dimensão, o escrete precisava ser mordido pelas vaias. Foi toda uma maravilhosa ressurreição.

A Copa do México desmontou a gigantesca impostura que a maioria criava em torno do futebol europeu. Os virtuosos, os estilistas, éramos nós; nós, os goleadores; nós, os inventores. E a famosa velocidade? Meu Deus, ganhamos andando.

Pelé, maravilhosamente negro, poderia erguer o gesto, gritando: — “Deus deu-me sangue de Otelo para ter ciúmes da minha pátria”. E assim, brancos ou pretos, somos 90 milhões de otelos incendiados de ciúme pela pátria.

(Brasil 4 x 1 Itália, 21/6/1970, na Cidade do México. Brasil tricampeão mundial.)

RODRIGUES, Nélson. In: A pátria em chuteiras: novas crônicas de futebol. São Paulo: Companhia das Letras, 1984. p. 158-160. Texto adaptado.

A pátria em chuteiras é o título do livro de crônicas de Nélson Rodrigues, sobre futebol, de onde foi retirada a crônica “O escrete do sonho”. O título do livro é também o título de uma das crônicas que compõem a obra. No início da crônica “A pátria em chuteiras”, Nélson Rodrigues faz a seguinte interrogação: “Pergunto: — para nós, o que é o escrete? — Digamos: é a pátria em calções e chuteiras, a dar rútilas botinadas, em todas as direções. O escrete representa os nossos defeitos e as nossas virtudes. Em suma: — o escrete chuta por 100 milhões de brasileiros. E cada gol do escrete é feito por todos nós”.

Assinale a afirmação correta em relação ao título do livro.

 

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