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O milagre das folhas
Não, nunca me acontecem milagres. Ouço falar, e às vezes isso me basta como esperança. Mas também me revolta: por que não a mim? Por que só de ouvir falar? Pois já cheguei a ouvir conversas assim, sobre milagres: “Avisou-me que, ao ser dita determinada palavra, um objeto de estimação se quebraria”. Meus objetos se quebram banalmente e pelas mãos das empregadas.
Até que fui obrigada a chegar à conclusão de que sou daqueles* que rolam pedras durante séculos, e não daqueles** para os quais os seixos já vêm prontos, polidos e brancos. Bem que tenho visões fugitivas antes de adormecer – seria milagre? Mas já me foi tranquilamente explicado que isso até nome tem: cidetismo (sic), capacidade de projetar no alucinatório as imagens inconscientes.
Milagre, não. Mas as coincidências. Vivo de coincidências, vivo de linhas que incidem uma na outra e se cruzam e no cruzamento formam um leve e instantâneo ponto, tão leve e instantâneo que mais é feito de pudor e segredo: mal eu falasse nele, já estaria falando em nada.
Mas tenho um milagre, sim. O milagre das folhas. Estou andando pela rua e do vento me cai uma folha exatamente nos cabelos. A incidência da linha de milhões de folhas transformadas em uma única, e de milhões de pessoas a incidência de reduzi-las a mim. Isso me acontece tantas vezes que passei a me considerar modestamente a escolhida das folhas. Com gestos furtivos tiro a folha dos cabelos e guardo-a na bolsa, como o mais diminuto diamante.
Até que um dia, abrindo a bolsa, encontro entre os objetos a folha seca, engelhada, morta. Jogo-a fora: não me interessa fetiche morto como lembrança. E também porque sei que novas folhas coincidirão comigo.
Um dia uma folha me bateu nos cílios. Achei Deus de uma grande delicadeza.
LISPECTOR, Clarice. In: SANTOS, Joaquim Ferreira
dos. Organização e introdução. As cem melhores
crônicas brasileiras. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007.
p. 186-187.
Reflita sobre o seguinte trecho “Até que fui obrigada a chegar à conclusão de que sou daqueles que rolam pedras durante séculos, e não daqueles para os quais os seixos já vêm prontos, polidos e brancos.”
Assinale com F o que for falso e com V o que for verdadeiro.
( ) Rolar pedras durante séculos e receber os seixos prontos e polidos são, respectivamente, metáforas para o fazer sacrifícios por si mesmo e o fazer sacrifícios pelos outros.
( ) Embora pedra e seixo possam aparecer como sinônimos, no texto desta prova esses dois vocábulos não podem trocar de lugar sob pena de causar prejuízo, senão à compreensão das ideias, pelo menos à expressividade e à carga emotiva do texto.
( ) as orações 1. “que rolam pedras durante séculos” e 2. “para os quais os seixos já vêm prontos, polidos e brancos”, restringem respectivamente o “(d)aqueles”* e o “(d)aqueles”** . Daí a ausência da vírgula antes de “os quais” e de “para os quais”.
Está correta, de cima para baixo, a seguinte sequência:
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O menor número natural que pode ser escrito como produto de fatores primos positivos e distintos e que tem 32 divisores é
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