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Naquelles annos aquillo alli era u’a photographia
Por Roberto Gomes
Temos mais uma reforma ortográfica pela proa. O que dará muita dor de cabeça aos escrevinhadores em geral e a este pobre cronista em particular.
Os primeiros livros que li eram da biblioteca de meu pai, o que incluía livros vindos da biblioteca de um primo distante, que viveu no início do século XX, além daqueles que eu retirava da biblioteca pública de Blumenau. Todos obedeciam a velhas convenções ortográficas.
Sem boas livrarias na cidade e não tendo dinheiro para comprar livros novos, eu lia edições publicadas havia meio século. No cardápio, Machado de Assis nas edições Garnier, um vício do qual não me livrei até hoje. Continuo convencido de que Machado deve ser lido sempre nas edições Garnier; o leitor tomaria um vinho francês numa caneca de porcelana?
Isso significa que li os primeiros livros – os mais marcantes – em edições feitas segundo uma convenção ortográfica anterior àquela na qual fui alfabetizado. Nelas havia uma profusão de “seccado, despeza, á socapa, aquillo, affluiu, caracteres, naquelle, annos, edade, estupido, collocal-os, d’ahi, fel-o, bellas, pharmacias, cousas, vae, alli, creação, sahires, photographia, defuncto, rheumatismo, affecções, mez”. Foi o meu primeiro conflito com a ortografia. Habitava dois mundos: o dos livros escolares e, um outro, velho de uns cinqüenta anos.
Naquele momento estava em vigor a ortografia fixada em 1943. Em 1971, novas mudanças – despencaram alguns acentos, pelo que lembro. O resultado é que fiquei ainda mais confuso. Coexistiam em minha pobre cabeça convenções que vinham de 1911 e alcançavam 1971. Com minha notória capacidade de misturar alhos com bugalhos, para usar uma expressão ainda mais antiga, acabei criando confusões imensas.
Vem daí minha hesitação quando devo grafar certas palavras. Misturei várias ortografias e fico sofrendo para me lembrar se despesa é com z ou com s. A ortografia me parece um terreno movediço que flutua segundo a arbitrariedade das leis dos homens. Caiu ou não aquele acento? É diferencial? Havia uma implicância suspeita com relação ao acento diferencial. E aquele acento agudo que, em alguns casos, virava oblíquo? Por isso acabei fã de palavras proparoxítonas – levam acento e acabou-se. Que não se mexa nelas!
Agora, esse tal acordo ortográfico dos países lusófonos, sobre o qual eu e mais uns cento e oitenta milhões de brasileiros não fomos consultados. E justo quando o corretor ortográfico do Word me passava a sensação de ter afinal chegado ao paraíso.
Mas há equívocos. Em primeiro lugar, essa reforma não implica qualquer mudança na “língua portuguesa”, conforme ouvi um membro da Academia Brasileira de Letras dizer. Mudam apenas certas convenções ortográficas, não mais.
Não sei também se isso contribui realmente para “unificar” a língua que praticamos. Estou relendo no momento Os Maias, do Eça. Há nesse romance inúmeras frases incompreensíveis para um brasileiro. Não por razões ortográficas. O significado das palavras, seu desuso, o fato de designarem objetos que sumiram – o que o leitor acha que era uma tipóia? Além disso, a ordem das palavras, o modo de arranjá-las, o uso de pronomes, certos tempos verbais, certas expressões, tudo isso causa ao leitor brasileiro algum desconforto.
Nada disso está ligado à ortografia. Então, me parece que o alarde em torno desta reforma é falso. Desconfio que possa ser mais uma bobagem lusófona: colocar o secundário no lugar do principal.
Manoel Carlos Karam, meu querido amigo, me dizia uma coisa ótima: o que o incomodava era o prejuízo gráfico. Por exemplo: estava acostumado ao trema, um grafismo indissociável de certas palavras a seu ver. Por isso, a tal reforma anunciada causava nele um grande desgosto. Ademais, o trema lhe parecia belíssimo.
Um dia, faz tempo, contei meus sofrimentos ao professor Eurico Back, enquanto tomávamos cafezinho numa antiga saleta da Universidade Católica. Ele me ouviu atentamente, com um olhar divertido, e me aconselhou, com a serenidade dos sábios:
- Não dê a menor importância a essas coisas. Quando ficar em dúvida, abra um dicionário e pronto.
Fonte: http://criaredicoes.com.br/cronicasrg.htm
Segundo o novo acordo ortográfico “não se acentuam mais certos substantivos e formas verbais para distingui-los graficamente de outras palavras”.
Essa regra não se aplica a palavras como:
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Por Roberto Gomes
Temos mais uma reforma ortográfica pela proa. O que dará muita dor de cabeça aos escrevinhadores em geral e a este pobre cronista em particular.
Os primeiros livros que li eram da biblioteca de meu pai, o que incluía livros vindos da biblioteca de um primo distante, que viveu no início do século XX, além daqueles que eu retirava da biblioteca pública de Blumenau. Todos obedeciam a velhas convenções ortográficas.
Sem boas livrarias na cidade e não tendo dinheiro para comprar livros novos, eu lia edições publicadas havia meio século. No cardápio, Machado de Assis nas edições Garnier, um vício do qual não me livrei até hoje. Continuo convencido de que Machado deve ser lido sempre nas edições Garnier; o leitor tomaria um vinho francês numa caneca de porcelana?
Isso significa que li os primeiros livros – os mais marcantes – em edições feitas segundo uma convenção ortográfica anterior àquela na qual fui alfabetizado. Nelas havia uma profusão de “seccado, despeza, á socapa, aquillo, affluiu, caracteres, naquelle, annos, edade, estupido, collocal-os, d’ahi, fel-o, bellas, pharmacias, cousas, vae, alli, creação, sahires, photographia, defuncto, rheumatismo, affecções, mez”. Foi o meu primeiro conflito com a ortografia. Habitava dois mundos: o dos livros escolares e, um outro, velho de uns cinqüenta anos.
Naquele momento estava em vigor a ortografia fixada em 1943. Em 1971, novas mudanças – despencaram alguns acentos, pelo que lembro. O resultado é que fiquei ainda mais confuso. Coexistiam em minha pobre cabeça convenções que vinham de 1911 e alcançavam 1971. Com minha notória capacidade de misturar alhos com bugalhos, para usar uma expressão ainda mais antiga, acabei criando confusões imensas.
Vem daí minha hesitação quando devo grafar certas palavras. Misturei várias ortografias e fico sofrendo para me lembrar se despesa é com z ou com s. A ortografia me parece um terreno movediço que flutua segundo a arbitrariedade das leis dos homens. Caiu ou não aquele acento? É diferencial? Havia uma implicância suspeita com relação ao acento diferencial. E aquele acento agudo que, em alguns casos, virava oblíquo? Por isso acabei fã de palavras proparoxítonas – levam acento e acabou-se. Que não se mexa nelas!
Agora, esse tal acordo ortográfico dos países lusófonos, sobre o qual eu e mais uns cento e oitenta milhões de brasileiros não fomos consultados. E justo quando o corretor ortográfico do Word me passava a sensação de ter afinal chegado ao paraíso.
Mas há equívocos. Em primeiro lugar, essa reforma não implica qualquer mudança na “língua portuguesa”, conforme ouvi um membro da Academia Brasileira de Letras dizer. Mudam apenas certas convenções ortográficas, não mais.
Não sei também se isso contribui realmente para “unificar” a língua que praticamos. Estou relendo no momento Os Maias, do Eça. Há nesse romance inúmeras frases incompreensíveis para um brasileiro. Não por razões ortográficas. O significado das palavras, seu desuso, o fato de designarem objetos que sumiram – o que o leitor acha que era uma tipóia? Além disso, a ordem das palavras, o modo de arranjá-las, o uso de pronomes, certos tempos verbais, certas expressões, tudo isso causa ao leitor brasileiro algum desconforto.
Nada disso está ligado à ortografia. Então, me parece que o alarde em torno desta reforma é falso. Desconfio que possa ser mais uma bobagem lusófona: colocar o secundário no lugar do principal.
Manoel Carlos Karam, meu querido amigo, me dizia uma coisa ótima: o que o incomodava era o prejuízo gráfico. Por exemplo: estava acostumado ao trema, um grafismo indissociável de certas palavras a seu ver. Por isso, a tal reforma anunciada causava nele um grande desgosto. Ademais, o trema lhe parecia belíssimo.
Um dia, faz tempo, contei meus sofrimentos ao professor Eurico Back, enquanto tomávamos cafezinho numa antiga saleta da Universidade Católica. Ele me ouviu atentamente, com um olhar divertido, e me aconselhou, com a serenidade dos sábios:
- Não dê a menor importância a essas coisas. Quando ficar em dúvida, abra um dicionário e pronto.
Fonte: http://criaredicoes.com.br/cronicasrg.htm
Os vocábulos “um dicionário” empregados pelo autor na frase “Quando ficar em dúvida, abra um dicionário e pronto”, classificados do ponto de vista das classes gramaticais como artigo e substantivo, são de um ponto de vista sintático classificados pelas gramáticas de língua portuguesa como:
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Temos mais uma reforma ortográfica pela proa. O que dará muita dor de cabeça aos escrevinhadores em geral e a este pobre cronista em particular.
Os primeiros livros que li eram da biblioteca de meu pai, o que incluía livros vindos da biblioteca de um primo distante, que viveu no início do século XX, além daqueles que eu retirava da biblioteca pública de Blumenau. Todos obedeciam a velhas convenções ortográficas.
Sem boas livrarias na cidade e não tendo dinheiro para comprar livros novos, eu lia edições publicadas havia meio século. No cardápio, Machado de Assis nas edições Garnier, um vício do qual não me livrei até hoje. Continuo convencido de que Machado deve ser lido sempre nas edições Garnier; o leitor tomaria um vinho francês numa caneca de porcelana?
Isso significa que li os primeiros livros – os mais marcantes – em edições feitas segundo uma convenção ortográfica anterior àquela na qual fui alfabetizado. Nelas havia uma profusão de “seccado, despeza, á socapa, aquillo, affluiu, caracteres, naquelle, annos, edade, estupido, collocal-os, d’ahi, fel-o, bellas, pharmacias, cousas, vae, alli, creação, sahires, photographia, defuncto, rheumatismo, affecções, mez”. Foi o meu primeiro conflito com a ortografia. Habitava dois mundos: o dos livros escolares e, um outro, velho de uns cinqüenta anos.
Naquele momento estava em vigor a ortografia fixada em 1943. Em 1971, novas mudanças – despencaram alguns acentos, pelo que lembro. O resultado é que fiquei ainda mais confuso. Coexistiam em minha pobre cabeça convenções que vinham de 1911 e alcançavam 1971. Com minha notória capacidade de misturar alhos com bugalhos, para usar uma expressão ainda mais antiga, acabei criando confusões imensas.
Vem daí minha hesitação quando devo grafar certas palavras. Misturei várias ortografias e fico sofrendo para me lembrar se despesa é com z ou com s. A ortografia me parece um terreno movediço que flutua segundo a arbitrariedade das leis dos homens. Caiu ou não aquele acento? É diferencial? Havia uma implicância suspeita com relação ao acento diferencial. E aquele acento agudo que, em alguns casos, virava oblíquo? Por isso acabei fã de palavras proparoxítonas – levam acento e acabou-se. Que não se mexa nelas!
Agora, esse tal acordo ortográfico dos países lusófonos, sobre o qual eu e mais uns cento e oitenta milhões de brasileiros não fomos consultados. E justo quando o corretor ortográfico do Word me passava a sensação de ter afinal chegado ao paraíso.
Mas há equívocos. Em primeiro lugar, essa reforma não implica qualquer mudança na “língua portuguesa”, conforme ouvi um membro da Academia Brasileira de Letras dizer. Mudam apenas certas convenções ortográficas, não mais.
Não sei também se isso contribui realmente para “unificar” a língua que praticamos. Estou relendo no momento Os Maias, do Eça. Há nesse romance inúmeras frases incompreensíveis para um brasileiro. Não por razões ortográficas. O significado das palavras, seu desuso, o fato de designarem objetos que sumiram – o que o leitor acha que era uma tipóia? Além disso, a ordem das palavras, o modo de arranjá-las, o uso de pronomes, certos tempos verbais, certas expressões, tudo isso causa ao leitor brasileiro algum desconforto.
Nada disso está ligado à ortografia. Então, me parece que o alarde em torno desta reforma é falso. Desconfio que possa ser mais uma bobagem lusófona: colocar o secundário no lugar do principal.
Manoel Carlos Karam, meu querido amigo, me dizia uma coisa ótima: o que o incomodava era o prejuízo gráfico. Por exemplo: estava acostumado ao trema, um grafismo indissociável de certas palavras a seu ver. Por isso, a tal reforma anunciada causava nele um grande desgosto. Ademais, o trema lhe parecia belíssimo.
Um dia, faz tempo, contei meus sofrimentos ao professor Eurico Back, enquanto tomávamos cafezinho numa antiga saleta da Universidade Católica. Ele me ouviu atentamente, com um olhar divertido, e me aconselhou, com a serenidade dos sábios:
- Não dê a menor importância a essas coisas. Quando ficar em dúvida, abra um dicionário e pronto.
Fonte: http://criaredicoes.com.br/cronicasrg.htm
O autor no décimo parágrafo utiliza o vocábulo “tipóia”. Esse tipo de vocábulo segundo o novo acordo ortográfico não recebe mais a acentuação gráfica.
Entram nesse mesmo caso palavras que possuem o mesmo ditongo aberto de “tipóia” tais como:
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Temos mais uma reforma ortográfica pela proa. O que dará muita dor de cabeça aos escrevinhadores em geral e a este pobre cronista em particular.
Os primeiros livros que li eram da biblioteca de meu pai, o que incluía livros vindos da biblioteca de um primo distante, que viveu no início do século XX, além daqueles que eu retirava da biblioteca pública de Blumenau. Todos obedeciam a velhas convenções ortográficas.
Sem boas livrarias na cidade e não tendo dinheiro para comprar livros novos, eu lia edições publicadas havia meio século. No cardápio, Machado de Assis nas edições Garnier, um vício do qual não me livrei até hoje. Continuo convencido de que Machado deve ser lido sempre nas edições Garnier; o leitor tomaria um vinho francês numa caneca de porcelana?
Isso significa que li os primeiros livros – os mais marcantes – em edições feitas segundo uma convenção ortográfica anterior àquela na qual fui alfabetizado. Nelas havia uma profusão de “seccado, despeza, á socapa, aquillo, affluiu, caracteres, naquelle, annos, edade, estupido, collocal-os, d’ahi, fel-o, bellas, pharmacias, cousas, vae, alli, creação, sahires, photographia, defuncto, rheumatismo, affecções, mez”. Foi o meu primeiro conflito com a ortografia. Habitava dois mundos: o dos livros escolares e, um outro, velho de uns cinqüenta anos.
Naquele momento estava em vigor a ortografia fixada em 1943. Em 1971, novas mudanças – despencaram alguns acentos, pelo que lembro. O resultado é que fiquei ainda mais confuso. Coexistiam em minha pobre cabeça convenções que vinham de 1911 e alcançavam 1971. Com minha notória capacidade de misturar alhos com bugalhos, para usar uma expressão ainda mais antiga, acabei criando confusões imensas.
Vem daí minha hesitação quando devo grafar certas palavras. Misturei várias ortografias e fico sofrendo para me lembrar se despesa é com z ou com s. A ortografia me parece um terreno movediço que flutua segundo a arbitrariedade das leis dos homens. Caiu ou não aquele acento? É diferencial? Havia uma implicância suspeita com relação ao acento diferencial. E aquele acento agudo que, em alguns casos, virava oblíquo? Por isso acabei fã de palavras proparoxítonas – levam acento e acabou-se. Que não se mexa nelas!
Agora, esse tal acordo ortográfico dos países lusófonos, sobre o qual eu e mais uns cento e oitenta milhões de brasileiros não fomos consultados. E justo quando o corretor ortográfico do Word me passava a sensação de ter afinal chegado ao paraíso.
Mas há equívocos. Em primeiro lugar, essa reforma não implica qualquer mudança na “língua portuguesa”, conforme ouvi um membro da Academia Brasileira de Letras dizer. Mudam apenas certas convenções ortográficas, não mais.
Não sei também se isso contribui realmente para “unificar” a língua que praticamos. Estou relendo no momento Os Maias, do Eça. Há nesse romance inúmeras frases incompreensíveis para um brasileiro. Não por razões ortográficas. O significado das palavras, seu desuso, o fato de designarem objetos que sumiram – o que o leitor acha que era uma tipóia? Além disso, a ordem das palavras, o modo de arranjá-las, o uso de pronomes, certos tempos verbais, certas expressões, tudo isso causa ao leitor brasileiro algum desconforto.
Nada disso está ligado à ortografia. Então, me parece que o alarde em torno desta reforma é falso. Desconfio que possa ser mais uma bobagem lusófona: colocar o secundário no lugar do principal.
Manoel Carlos Karam, meu querido amigo, me dizia uma coisa ótima: o que o incomodava era o prejuízo gráfico. Por exemplo: estava acostumado ao trema, um grafismo indissociável de certas palavras a seu ver. Por isso, a tal reforma anunciada causava nele um grande desgosto. Ademais, o trema lhe parecia belíssimo.
Um dia, faz tempo, contei meus sofrimentos ao professor Eurico Back, enquanto tomávamos cafezinho numa antiga saleta da Universidade Católica. Ele me ouviu atentamente, com um olhar divertido, e me aconselhou, com a serenidade dos sábios:
- Não dê a menor importância a essas coisas. Quando ficar em dúvida, abra um dicionário e pronto.
Fonte: http://criaredicoes.com.br/cronicasrg.htm
A expressão “Países lusófonos”, utilizado pelo autor no oitavo parágrafo refere-se aos países falantes da:
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Os primeiros livros que li eram da biblioteca de meu pai, o que incluía livros vindos da biblioteca de um primo distante, que viveu no início do século XX, além daqueles que eu retirava da biblioteca pública de Blumenau. Todos obedeciam a velhas convenções ortográficas.
Sem boas livrarias na cidade e não tendo dinheiro para comprar livros novos, eu lia edições publicadas havia meio século. No cardápio, Machado de Assis nas edições Garnier, um vício do qual não me livrei até hoje. Continuo convencido de que Machado deve ser lido sempre nas edições Garnier; o leitor tomaria um vinho francês numa caneca de porcelana?
Isso significa que li os primeiros livros – os mais marcantes – em edições feitas segundo uma convenção ortográfica anterior àquela na qual fui alfabetizado. Nelas havia uma profusão de “seccado, despeza, á socapa, aquillo, affluiu, caracteres, naquelle, annos, edade, estupido, collocal-os, d’ahi, fel-o, bellas, pharmacias, cousas, vae, alli, creação, sahires, photographia, defuncto, rheumatismo, affecções, mez”. Foi o meu primeiro conflito com a ortografia. Habitava dois mundos: o dos livros escolares e, um outro, velho de uns cinqüenta anos.
Naquele momento estava em vigor a ortografia fixada em 1943. Em 1971, novas mudanças – despencaram alguns acentos, pelo que lembro. O resultado é que fiquei ainda mais confuso. Coexistiam em minha pobre cabeça convenções que vinham de 1911 e alcançavam 1971. Com minha notória capacidade de misturar alhos com bugalhos, para usar uma expressão ainda mais antiga, acabei criando confusões imensas.
Vem daí minha hesitação quando devo grafar certas palavras. Misturei várias ortografias e fico sofrendo para me lembrar se despesa é com z ou com s. A ortografia me parece um terreno movediço que flutua segundo a arbitrariedade das leis dos homens. Caiu ou não aquele acento? É diferencial? Havia uma implicância suspeita com relação ao acento diferencial. E aquele acento agudo que, em alguns casos, virava oblíquo? Por isso acabei fã de palavras proparoxítonas – levam acento e acabou-se. Que não se mexa nelas!
Agora, esse tal acordo ortográfico dos países lusófonos, sobre o qual eu e mais uns cento e oitenta milhões de brasileiros não fomos consultados. E justo quando o corretor ortográfico do Word me passava a sensação de ter afinal chegado ao paraíso.
Mas há equívocos. Em primeiro lugar, essa reforma não implica qualquer mudança na “língua portuguesa”, conforme ouvi um membro da Academia Brasileira de Letras dizer. Mudam apenas certas convenções ortográficas, não mais.
Não sei também se isso contribui realmente para “unificar” a língua que praticamos. Estou relendo no momento Os Maias, do Eça. Há nesse romance inúmeras frases incompreensíveis para um brasileiro. Não por razões ortográficas. O significado das palavras, seu desuso, o fato de designarem objetos que sumiram – o que o leitor acha que era uma tipóia? Além disso, a ordem das palavras, o modo de arranjá-las, o uso de pronomes, certos tempos verbais, certas expressões, tudo isso causa ao leitor brasileiro algum desconforto.
Nada disso está ligado à ortografia. Então, me parece que o alarde em torno desta reforma é falso. Desconfio que possa ser mais uma bobagem lusófona: colocar o secundário no lugar do principal.
Manoel Carlos Karam, meu querido amigo, me dizia uma coisa ótima: o que o incomodava era o prejuízo gráfico. Por exemplo: estava acostumado ao trema, um grafismo indissociável de certas palavras a seu ver. Por isso, a tal reforma anunciada causava nele um grande desgosto. Ademais, o trema lhe parecia belíssimo.
Um dia, faz tempo, contei meus sofrimentos ao professor Eurico Back, enquanto tomávamos cafezinho numa antiga saleta da Universidade Católica. Ele me ouviu atentamente, com um olhar divertido, e me aconselhou, com a serenidade dos sábios:
- Não dê a menor importância a essas coisas. Quando ficar em dúvida, abra um dicionário e pronto.
Fonte: http://criaredicoes.com.br/cronicasrg.htm
No enunciado “Por isso acabei fã de palavras proparoxítonas – levam acento e acabou-se”, o verbo acabar reescrito em acabou-se, ficou no singular pelo fato de:
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Temos mais uma reforma ortográfica pela proa. O que dará muita dor de cabeça aos escrevinhadores em geral e a este pobre cronista em particular.
Os primeiros livros que li eram da biblioteca de meu pai, o que incluía livros vindos da biblioteca de um primo distante, que viveu no início do século XX, além daqueles que eu retirava da biblioteca pública de Blumenau. Todos obedeciam a velhas convenções ortográficas.
Sem boas livrarias na cidade e não tendo dinheiro para comprar livros novos, eu lia edições publicadas havia meio século. No cardápio, Machado de Assis nas edições Garnier, um vício do qual não me livrei até hoje. Continuo convencido de que Machado deve ser lido sempre nas edições Garnier; o leitor tomaria um vinho francês numa caneca de porcelana?
Isso significa que li os primeiros livros – os mais marcantes – em edições feitas segundo uma convenção ortográfica anterior àquela na qual fui alfabetizado. Nelas havia uma profusão de “seccado, despeza, á socapa, aquillo, affluiu, caracteres, naquelle, annos, edade, estupido, collocal-os, d’ahi, fel-o, bellas, pharmacias, cousas, vae, alli, creação, sahires, photographia, defuncto, rheumatismo, affecções, mez”. Foi o meu primeiro conflito com a ortografia. Habitava dois mundos: o dos livros escolares e, um outro, velho de uns cinqüenta anos.
Naquele momento estava em vigor a ortografia fixada em 1943. Em 1971, novas mudanças – despencaram alguns acentos, pelo que lembro. O resultado é que fiquei ainda mais confuso. Coexistiam em minha pobre cabeça convenções que vinham de 1911 e alcançavam 1971. Com minha notória capacidade de misturar alhos com bugalhos, para usar uma expressão ainda mais antiga, acabei criando confusões imensas.
Vem daí minha hesitação quando devo grafar certas palavras. Misturei várias ortografias e fico sofrendo para me lembrar se despesa é com z ou com s. A ortografia me parece um terreno movediço que flutua segundo a arbitrariedade das leis dos homens. Caiu ou não aquele acento? É diferencial? Havia uma implicância suspeita com relação ao acento diferencial. E aquele acento agudo que, em alguns casos, virava oblíquo? Por isso acabei fã de palavras proparoxítonas – levam acento e acabou-se. Que não se mexa nelas!
Agora, esse tal acordo ortográfico dos países lusófonos, sobre o qual eu e mais uns cento e oitenta milhões de brasileiros não fomos consultados. E justo quando o corretor ortográfico do Word me passava a sensação de ter afinal chegado ao paraíso.
Mas há equívocos. Em primeiro lugar, essa reforma não implica qualquer mudança na “língua portuguesa”, conforme ouvi um membro da Academia Brasileira de Letras dizer. Mudam apenas certas convenções ortográficas, não mais.
Não sei também se isso contribui realmente para “unificar” a língua que praticamos. Estou relendo no momento Os Maias, do Eça. Há nesse romance inúmeras frases incompreensíveis para um brasileiro. Não por razões ortográficas. O significado das palavras, seu desuso, o fato de designarem objetos que sumiram – o que o leitor acha que era uma tipóia? Além disso, a ordem das palavras, o modo de arranjá-las, o uso de pronomes, certos tempos verbais, certas expressões, tudo isso causa ao leitor brasileiro algum desconforto.
Nada disso está ligado à ortografia. Então, me parece que o alarde em torno desta reforma é falso. Desconfio que possa ser mais uma bobagem lusófona: colocar o secundário no lugar do principal.
Manoel Carlos Karam, meu querido amigo, me dizia uma coisa ótima: o que o incomodava era o prejuízo gráfico. Por exemplo: estava acostumado ao trema, um grafismo indissociável de certas palavras a seu ver. Por isso, a tal reforma anunciada causava nele um grande desgosto. Ademais, o trema lhe parecia belíssimo.
Um dia, faz tempo, contei meus sofrimentos ao professor Eurico Back, enquanto tomávamos cafezinho numa antiga saleta da Universidade Católica. Ele me ouviu atentamente, com um olhar divertido, e me aconselhou, com a serenidade dos sábios:
- Não dê a menor importância a essas coisas. Quando ficar em dúvida, abra um dicionário e pronto.
Fonte: http://criaredicoes.com.br/cronicasrg.htm
O autor, no sétimo parágrafo, utiliza a seguinte oração: “É diferencial?”.
No contexto em que essa oração aparece o seu sujeito é:
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Temos mais uma reforma ortográfica pela proa. O que dará muita dor de cabeça aos escrevinhadores em geral e a este pobre cronista em particular.
Os primeiros livros que li eram da biblioteca de meu pai, o que incluía livros vindos da biblioteca de um primo distante, que viveu no início do século XX, além daqueles que eu retirava da biblioteca pública de Blumenau. Todos obedeciam a velhas convenções ortográficas.
Sem boas livrarias na cidade e não tendo dinheiro para comprar livros novos, eu lia edições publicadas havia meio século. No cardápio, Machado de Assis nas edições Garnier, um vício do qual não me livrei até hoje. Continuo convencido de que Machado deve ser lido sempre nas edições Garnier; o leitor tomaria um vinho francês numa caneca de porcelana?
Isso significa que li os primeiros livros – os mais marcantes – em edições feitas segundo uma convenção ortográfica anterior àquela na qual fui alfabetizado. Nelas havia uma profusão de “seccado, despeza, á socapa, aquillo, affluiu, caracteres, naquelle, annos, edade, estupido, collocal-os, d’ahi, fel-o, bellas, pharmacias, cousas, vae, alli, creação, sahires, photographia, defuncto, rheumatismo, affecções, mez”. Foi o meu primeiro conflito com a ortografia. Habitava dois mundos: o dos livros escolares e, um outro, velho de uns cinqüenta anos.
Naquele momento estava em vigor a ortografia fixada em 1943. Em 1971, novas mudanças – despencaram alguns acentos, pelo que lembro. O resultado é que fiquei ainda mais confuso. Coexistiam em minha pobre cabeça convenções que vinham de 1911 e alcançavam 1971. Com minha notória capacidade de misturar alhos com bugalhos, para usar uma expressão ainda mais antiga, acabei criando confusões imensas.
Vem daí minha hesitação quando devo grafar certas palavras. Misturei várias ortografias e fico sofrendo para me lembrar se despesa é com z ou com s. A ortografia me parece um terreno movediço que flutua segundo a arbitrariedade das leis dos homens. Caiu ou não aquele acento? É diferencial? Havia uma implicância suspeita com relação ao acento diferencial. E aquele acento agudo que, em alguns casos, virava oblíquo? Por isso acabei fã de palavras proparoxítonas – levam acento e acabou-se. Que não se mexa nelas!
Agora, esse tal acordo ortográfico dos países lusófonos, sobre o qual eu e mais uns cento e oitenta milhões de brasileiros não fomos consultados. E justo quando o corretor ortográfico do Word me passava a sensação de ter afinal chegado ao paraíso.
Mas há equívocos. Em primeiro lugar, essa reforma não implica qualquer mudança na “língua portuguesa”, conforme ouvi um membro da Academia Brasileira de Letras dizer. Mudam apenas certas convenções ortográficas, não mais.
Não sei também se isso contribui realmente para “unificar” a língua que praticamos. Estou relendo no momento Os Maias, do Eça. Há nesse romance inúmeras frases incompreensíveis para um brasileiro. Não por razões ortográficas. O significado das palavras, seu desuso, o fato de designarem objetos que sumiram – o que o leitor acha que era uma tipóia? Além disso, a ordem das palavras, o modo de arranjá-las, o uso de pronomes, certos tempos verbais, certas expressões, tudo isso causa ao leitor brasileiro algum desconforto.
Nada disso está ligado à ortografia. Então, me parece que o alarde em torno desta reforma é falso. Desconfio que possa ser mais uma bobagem lusófona: colocar o secundário no lugar do principal.
Manoel Carlos Karam, meu querido amigo, me dizia uma coisa ótima: o que o incomodava era o prejuízo gráfico. Por exemplo: estava acostumado ao trema, um grafismo indissociável de certas palavras a seu ver. Por isso, a tal reforma anunciada causava nele um grande desgosto. Ademais, o trema lhe parecia belíssimo.
Um dia, faz tempo, contei meus sofrimentos ao professor Eurico Back, enquanto tomávamos cafezinho numa antiga saleta da Universidade Católica. Ele me ouviu atentamente, com um olhar divertido, e me aconselhou, com a serenidade dos sábios:
- Não dê a menor importância a essas coisas. Quando ficar em dúvida, abra um dicionário e pronto.
Fonte: http://criaredicoes.com.br/cronicasrg.htm
A oração “que flutua segundo a arbitrariedade das leis dos homens”, utilizada pelo autor no sétimo parágrafo, está funcionando como um adjunto adnominal dos elementos da oração principal e são respectivamente classificados como ; e :
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Temos mais uma reforma ortográfica pela proa. O que dará muita dor de cabeça aos escrevinhadores em geral e a este pobre cronista em particular.
Os primeiros livros que li eram da biblioteca de meu pai, o que incluía livros vindos da biblioteca de um primo distante, que viveu no início do século XX, além daqueles que eu retirava da biblioteca pública de Blumenau. Todos obedeciam a velhas convenções ortográficas.
Sem boas livrarias na cidade e não tendo dinheiro para comprar livros novos, eu lia edições publicadas havia meio século. No cardápio, Machado de Assis nas edições Garnier, um vício do qual não me livrei até hoje. Continuo convencido de que Machado deve ser lido sempre nas edições Garnier; o leitor tomaria um vinho francês numa caneca de porcelana?
Isso significa que li os primeiros livros – os mais marcantes – em edições feitas segundo uma convenção ortográfica anterior àquela na qual fui alfabetizado. Nelas havia uma profusão de “seccado, despeza, á socapa, aquillo, affluiu, caracteres, naquelle, annos, edade, estupido, collocal-os, d’ahi, fel-o, bellas, pharmacias, cousas, vae, alli, creação, sahires, photographia, defuncto, rheumatismo, affecções, mez”. Foi o meu primeiro conflito com a ortografia. Habitava dois mundos: o dos livros escolares e, um outro, velho de uns cinqüenta anos.
Naquele momento estava em vigor a ortografia fixada em 1943. Em 1971, novas mudanças – despencaram alguns acentos, pelo que lembro. O resultado é que fiquei ainda mais confuso. Coexistiam em minha pobre cabeça convenções que vinham de 1911 e alcançavam 1971. Com minha notória capacidade de misturar alhos com bugalhos, para usar uma expressão ainda mais antiga, acabei criando confusões imensas.
Vem daí minha hesitação quando devo grafar certas palavras. Misturei várias ortografias e fico sofrendo para me lembrar se despesa é com z ou com s. A ortografia me parece um terreno movediço que flutua segundo a arbitrariedade das leis dos homens. Caiu ou não aquele acento? É diferencial? Havia uma implicância suspeita com relação ao acento diferencial. E aquele acento agudo que, em alguns casos, virava oblíquo? Por isso acabei fã de palavras proparoxítonas – levam acento e acabou-se. Que não se mexa nelas!
Agora, esse tal acordo ortográfico dos países lusófonos, sobre o qual eu e mais uns cento e oitenta milhões de brasileiros não fomos consultados. E justo quando o corretor ortográfico do Word me passava a sensação de ter afinal chegado ao paraíso.
Mas há equívocos. Em primeiro lugar, essa reforma não implica qualquer mudança na “língua portuguesa”, conforme ouvi um membro da Academia Brasileira de Letras dizer. Mudam apenas certas convenções ortográficas, não mais.
Não sei também se isso contribui realmente para “unificar” a língua que praticamos. Estou relendo no momento Os Maias, do Eça. Há nesse romance inúmeras frases incompreensíveis para um brasileiro. Não por razões ortográficas. O significado das palavras, seu desuso, o fato de designarem objetos que sumiram – o que o leitor acha que era uma tipóia? Além disso, a ordem das palavras, o modo de arranjá-las, o uso de pronomes, certos tempos verbais, certas expressões, tudo isso causa ao leitor brasileiro algum desconforto.
Nada disso está ligado à ortografia. Então, me parece que o alarde em torno desta reforma é falso. Desconfio que possa ser mais uma bobagem lusófona: colocar o secundário no lugar do principal.
Manoel Carlos Karam, meu querido amigo, me dizia uma coisa ótima: o que o incomodava era o prejuízo gráfico. Por exemplo: estava acostumado ao trema, um grafismo indissociável de certas palavras a seu ver. Por isso, a tal reforma anunciada causava nele um grande desgosto. Ademais, o trema lhe parecia belíssimo.
Um dia, faz tempo, contei meus sofrimentos ao professor Eurico Back, enquanto tomávamos cafezinho numa antiga saleta da Universidade Católica. Ele me ouviu atentamente, com um olhar divertido, e me aconselhou, com a serenidade dos sábios:
- Não dê a menor importância a essas coisas. Quando ficar em dúvida, abra um dicionário e pronto.
Fonte: http://criaredicoes.com.br/cronicasrg.htm
No sexto parágrafo, o autor usa o vocábulo “hesitação”. Um antônimo para essa palavra poderia ser:
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Naquelles annos aquillo alli era u’a photographia
Por Roberto Gomes
Temos mais uma reforma ortográfica pela proa. O que dará muita dor de cabeça aos escrevinhadores em geral e a este pobre cronista em particular.
Os primeiros livros que li eram da biblioteca de meu pai, o que incluía livros vindos da biblioteca de um primo distante, que viveu no início do século XX, além daqueles que eu retirava da biblioteca pública de Blumenau. Todos obedeciam a velhas convenções ortográficas.
Sem boas livrarias na cidade e não tendo dinheiro para comprar livros novos, eu lia edições publicadas havia meio século. No cardápio, Machado de Assis nas edições Garnier, um vício do qual não me livrei até hoje. Continuo convencido de que Machado deve ser lido sempre nas edições Garnier; o leitor tomaria um vinho francês numa caneca de porcelana?
Isso significa que li os primeiros livros – os mais marcantes – em edições feitas segundo uma convenção ortográfica anterior àquela na qual fui alfabetizado. Nelas havia uma profusão de “seccado, despeza, á socapa, aquillo, affluiu, caracteres, naquelle, annos, edade, estupido, collocal-os, d’ahi, fel-o, bellas, pharmacias, cousas, vae, alli, creação, sahires, photographia, defuncto, rheumatismo, affecções, mez”. Foi o meu primeiro conflito com a ortografia. Habitava dois mundos: o dos livros escolares e, um outro, velho de uns cinqüenta anos.
Naquele momento estava em vigor a ortografia fixada em 1943. Em 1971, novas mudanças – despencaram alguns acentos, pelo que lembro. O resultado é que fiquei ainda mais confuso. Coexistiam em minha pobre cabeça convenções que vinham de 1911 e alcançavam 1971. Com minha notória capacidade de misturar alhos com bugalhos, para usar uma expressão ainda mais antiga, acabei criando confusões imensas.
Vem daí minha hesitação quando devo grafar certas palavras. Misturei várias ortografias e fico sofrendo para me lembrar se despesa é com z ou com s. A ortografia me parece um terreno movediço que flutua segundo a arbitrariedade das leis dos homens. Caiu ou não aquele acento? É diferencial? Havia uma implicância suspeita com relação ao acento diferencial. E aquele acento agudo que, em alguns casos, virava oblíquo? Por isso acabei fã de palavras proparoxítonas – levam acento e acabou-se. Que não se mexa nelas!
Agora, esse tal acordo ortográfico dos países lusófonos, sobre o qual eu e mais uns cento e oitenta milhões de brasileiros não fomos consultados. E justo quando o corretor ortográfico do Word me passava a sensação de ter afinal chegado ao paraíso.
Mas há equívocos. Em primeiro lugar, essa reforma não implica qualquer mudança na “língua portuguesa”, conforme ouvi um membro da Academia Brasileira de Letras dizer. Mudam apenas certas convenções ortográficas, não mais.
Não sei também se isso contribui realmente para “unificar” a língua que praticamos. Estou relendo no momento Os Maias, do Eça. Há nesse romance inúmeras frases incompreensíveis para um brasileiro. Não por razões ortográficas. O significado das palavras, seu desuso, o fato de designarem objetos que sumiram – o que o leitor acha que era uma tipóia? Além disso, a ordem das palavras, o modo de arranjá-las, o uso de pronomes, certos tempos verbais, certas expressões, tudo isso causa ao leitor brasileiro algum desconforto.
Nada disso está ligado à ortografia. Então, me parece que o alarde em torno desta reforma é falso. Desconfio que possa ser mais uma bobagem lusófona: colocar o secundário no lugar do principal.
Manoel Carlos Karam, meu querido amigo, me dizia uma coisa ótima: o que o incomodava era o prejuízo gráfico. Por exemplo: estava acostumado ao trema, um grafismo indissociável de certas palavras a seu ver. Por isso, a tal reforma anunciada causava nele um grande desgosto. Ademais, o trema lhe parecia belíssimo.
Um dia, faz tempo, contei meus sofrimentos ao professor Eurico Back, enquanto tomávamos cafezinho numa antiga saleta da Universidade Católica. Ele me ouviu atentamente, com um olhar divertido, e me aconselhou, com a serenidade dos sábios:
- Não dê a menor importância a essas coisas. Quando ficar em dúvida, abra um dicionário e pronto.
Fonte: http://criaredicoes.com.br/cronicasrg.htm
No último parágrafo o autor traz em forma de citação a fala de um amigo seu: “Não dê a menor importância a essas coisas. Quando ficar em dúvida, abra um dicionário e pronto”.
Com essa citação o autor está dizendo que:
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Naquelles annos aquillo alli era u’a photographia
Por Roberto Gomes
Temos mais uma reforma ortográfica pela proa. O que dará muita dor de cabeça aos escrevinhadores em geral e a este pobre cronista em particular.
Os primeiros livros que li eram da biblioteca de meu pai, o que incluía livros vindos da biblioteca de um primo distante, que viveu no início do século XX, além daqueles que eu retirava da biblioteca pública de Blumenau. Todos obedeciam a velhas convenções ortográficas.
Sem boas livrarias na cidade e não tendo dinheiro para comprar livros novos, eu lia edições publicadas havia meio século. No cardápio, Machado de Assis nas edições Garnier, um vício do qual não me livrei até hoje. Continuo convencido de que Machado deve ser lido sempre nas edições Garnier; o leitor tomaria um vinho francês numa caneca de porcelana?
Isso significa que li os primeiros livros – os mais marcantes – em edições feitas segundo uma convenção ortográfica anterior àquela na qual fui alfabetizado. Nelas havia uma profusão de “seccado, despeza, á socapa, aquillo, affluiu, caracteres, naquelle, annos, edade, estupido, collocal-os, d’ahi, fel-o, bellas, pharmacias, cousas, vae, alli, creação, sahires, photographia, defuncto, rheumatismo, affecções, mez”. Foi o meu primeiro conflito com a ortografia. Habitava dois mundos: o dos livros escolares e, um outro, velho de uns cinqüenta anos.
Naquele momento estava em vigor a ortografia fixada em 1943. Em 1971, novas mudanças – despencaram alguns acentos, pelo que lembro. O resultado é que fiquei ainda mais confuso. Coexistiam em minha pobre cabeça convenções que vinham de 1911 e alcançavam 1971. Com minha notória capacidade de misturar alhos com bugalhos, para usar uma expressão ainda mais antiga, acabei criando confusões imensas.
Vem daí minha hesitação quando devo grafar certas palavras. Misturei várias ortografias e fico sofrendo para me lembrar se despesa é com z ou com s. A ortografia me parece um terreno movediço que flutua segundo a arbitrariedade das leis dos homens. Caiu ou não aquele acento? É diferencial? Havia uma implicância suspeita com relação ao acento diferencial. E aquele acento agudo que, em alguns casos, virava oblíquo? Por isso acabei fã de palavras proparoxítonas – levam acento e acabou-se. Que não se mexa nelas!
Agora, esse tal acordo ortográfico dos países lusófonos, sobre o qual eu e mais uns cento e oitenta milhões de brasileiros não fomos consultados. E justo quando o corretor ortográfico do Word me passava a sensação de ter afinal chegado ao paraíso.
Mas há equívocos. Em primeiro lugar, essa reforma não implica qualquer mudança na “língua portuguesa”, conforme ouvi um membro da Academia Brasileira de Letras dizer. Mudam apenas certas convenções ortográficas, não mais.
Não sei também se isso contribui realmente para “unificar” a língua que praticamos. Estou relendo no momento Os Maias, do Eça. Há nesse romance inúmeras frases incompreensíveis para um brasileiro. Não por razões ortográficas. O significado das palavras, seu desuso, o fato de designarem objetos que sumiram – o que o leitor acha que era uma tipóia? Além disso, a ordem das palavras, o modo de arranjá-las, o uso de pronomes, certos tempos verbais, certas expressões, tudo isso causa ao leitor brasileiro algum desconforto.
Nada disso está ligado à ortografia. Então, me parece que o alarde em torno desta reforma é falso. Desconfio que possa ser mais uma bobagem lusófona: colocar o secundário no lugar do principal.
Manoel Carlos Karam, meu querido amigo, me dizia uma coisa ótima: o que o incomodava era o prejuízo gráfico. Por exemplo: estava acostumado ao trema, um grafismo indissociável de certas palavras a seu ver. Por isso, a tal reforma anunciada causava nele um grande desgosto. Ademais, o trema lhe parecia belíssimo.
Um dia, faz tempo, contei meus sofrimentos ao professor Eurico Back, enquanto tomávamos cafezinho numa antiga saleta da Universidade Católica. Ele me ouviu atentamente, com um olhar divertido, e me aconselhou, com a serenidade dos sábios:
- Não dê a menor importância a essas coisas. Quando ficar em dúvida, abra um dicionário e pronto.
Fonte: http://criaredicoes.com.br/cronicasrg.htm
No terceiro parágrafo do texto o autor assevera “Continuo convencido de que Machado deve ser lido sempre nas edições Garnier; o leitor tomaria um vinho francês numa caneca de porcelana?”
Essa comparação em forma de pergunta significa que:
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