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Leia o texto a seguir para responder às questões de 1 a 6.
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Escravidão e o mito da benevolência
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01--Certa vez um etnologista disse que "o caminho do progresso é cheio de aventuras, rupturas e escândalos".
02--Devemos, assim, começar examinando o maior de todos os escândalos, aquele que ultrapassou qualquer
03--outro na história da humanidade: a escravização dos povos negro-africanos.
04--No Brasil, é a escravidão que define a qualidade, a extensão e a intensidade da relação física e espiritual
05--dos filhos de três continentes que aqui se encontraram, confrontando um ao outro no esforço épico de
06--edificar um novo país, com suas características próprias, tanto na composição étnica do seu povo quanto
07--na especificidade do seu espírito.
08--A chamada "descoberta" do Brasil pelos portugueses, em 1500, nos assinala o ponto de partida. A
09--exploração da nova terra se iniciou com o aparecimento da raça negra fertilizando o solo brasileiro com
10--suas lágrimas, seu sangue, seu suor e seu martírio na escravidão. Por volta de 1530, os africanos, trazidos
11--sob correntes, já aparecem exercendo seu papel de "força de trabalho". Em 1535, o comércio escravo para
12--o Brasil estava regularmente constituído e organizado e, rapidamente, aumentaria em proporções
13--enormes. Como primeira atividade significativa da colônia portuguesa, as plantações de cana-de-açúcar se
14--espalhavam pelas costas do nordeste, especialmente nos estados da Bahia e Pernambuco. Só a Bahia, lá
15--por 1587, tinha cerca de 47 engenhos de cana-de-açúcar, fato que bem ilustra a velocidade expansionista
16--da indústria açucareira desenvolvida com o uso da força muscular africana. Uma canção de trabalho
17--incluída no artigo de Zora Seljan, “A poesia negra popular no Brasil”, nos fornece o sentido do ritmo dos
18--engenhos de açúcar:
19----------Solo: Engenho novo está p'ra moer!
20----------Côro: Trabalhar até morrer!
21----------Ô trabalhar, ô trabalhar, olé! Trabalhar até morrer!
-------[...]
22--O papel do negro escravizado foi decisivo para o começo da história econômica de um país fundado, como
23--era o caso do Brasil, sob o signo do parasitismo imperialista. Sem o escravo, a estrutura econômica do
24--país jamais teria existido. O africano escravizado construiu as fundações da nova sociedade com a flexão e
25--a quebra da sua espinha dorsal, quando ao mesmo tempo seu trabalho significava a própria espinha dorsal
26--daquela colônia. Ele plantou, alimentou e colheu a riqueza material do país para o desfrute exclusivo da
27--aristocracia branca. Tanto nas plantações de cana-de-açúcar e café e na mineração, quanto nas cidades, o
28--africano incorporava as mãos e os pés das classes dirigentes que não se “autodegradavam” em ocupações
29--vis como aquelas do trabalho braçal. A nobilitante ocupação das classes dirigentes - os latifundiários, os
30--comerciantes, os sacerdotes católicos - consistia no exercício da indolência, no cultivo da ignorância, do
31--preconceito, e na prática da mais licenciosa luxúria.
32--Durante séculos, por mais incrível que pareça, esse duro e ignóbil sistema escravocrata desfrutou a fama,
33--sobretudo no estrangeiro, de ser uma instituição benigna, de caráter humano. Isso graças ao colonialismo
34--português que permanentemente adotou formas de comportamento muito específicas para disfarçar sua
35--fundamental violência e crueldade. A mentira e a dissimulação foram recursos utilizados nesse sentido. A
36--consciência do mundo guarda bem viva a lembrança do colonialista Portugal encobrindo sua natureza
37--racista e espoliadora através de estratagemas como: a) designação de "Províncias de Ultramar" para
38--Angola, Moçambique e Guiné-Bissau; b) as leis do chamado indigenato, proscrevendo, entre outras
39--indignidades, a assimilação das populações africanas à cultura e identidade portuguesas. Essa rabulice
40--colonizadora pretendia imprimir o selo de legalidade, benevolência e generosidade civilizadora à sua
41--atuação no território africano. Porém, todas essas e outras dissimulações oficiais não conseguiram encobrir
42--a realidade, que consistia no saque de terras e povos e na repressão e negação de suas culturas - ambos
43--sustentados e realizados, não pelo artifício jurídico, mas sim pela força militar imperialista.
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NASCIMENTO, Abdias do. O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado. 3. ed. São Paulo: Perspectivas,
2016. p. 57-60. (Adaptado).
Considere os trechos a seguir, recortados do texto:
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Trecho 1: Certa vez um etnologista disse que "o caminho do progresso é cheio de aventuras, rupturas e escândalos".
Trecho 2: A chamada "descoberta" do Brasil pelos portugueses, em 1500, nos assinala o ponto de partida.
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Nos trechos 1 e 2, o emprego das aspas marca, respectivamente,