Foi assim com o ferreiro da esquina, em cujo portão de tenda uma tabuleta — “Ferra-se cavalos” — escoicinhava a santa gramática.
— Amigo — disse-lhe pachorrentamente Aldrovando —, natural a mim me parece que erres, alarve que és. Se erram paredros, nesta época de ouro da corrupção...
O ferreiro pôs de lado o malho e entreabriu a boca.
— Mas da boa sombra do teu focinho espero — continuou o apóstolo — que ouvidos me darás. Naquela tábua um dislate existe que seriamente à língua lusa ofende. Venho pedir-te, em nome do asseio gramatical, que o expunjas.
— ???
— Que reformes a tabuleta, digo.
— Reformar a tabuleta? Uma tabuleta nova, com a licença paga? Estará acaso rachada?
— Fisicamente, não. A racha é na sintaxe. Fogem ali os dizeres à sã gramaticalidade.
O honesto ferreiro não entendia nada de nada.
Monteiro Lobato. O colocador de pronomes. In: Contos completos: Monteiro Lobato. São Paulo: Biblioteca Azul, 2014, p. 379.
No fragmento desse conto de Monteiro Lobato, a cena da dificuldade de comunicação entre os personagens Aldrovando e o ferreiro