A cor da injustiça ambiental no Brasil
Carolina Azevedo e Samantha Prado
Na semana do Carnaval, o litoral norte de São Paulo foi afetado por um desastre ambiental sem
precedentes na história do Brasil. Foram mais de 680 milímetros de chuva acumulados no período de 24
horas, o maior registro do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) no
país até o momento – o que resultou na devastação de diversas áreas nas cidades de Guarujá, Bertioga, São
Sebastião, Caraguatatuba, Ilhabela e Ubatuba. Ao todo foram 65 mortos e mais de 2 mil pessoas entre
desabrigados e desalojados.
A situação não pode ser lida apenas como um evento extremo isolado. Desastres bastante similares
têm ocorrido nos últimos anos, como as inundações em Petrópolis (RJ) e Pernambuco em 2022. O que esses
episódios têm em comum? Os mais afetados são majoritariamente a população pobre e negra.
Com o objetivo de analisar como os efeitos da crise ambiental se manifestam de forma territorialmente
desigual, impactando desproporcionalmente certas populações a depender do seu grau de vulnerabilidade, o
Instituto Pólis realizou o estudo “Racismo ambiental e justiça socioambiental nas cidades”. De acordo com a
pesquisa, esse desequilíbrio é, em parte, a expressão da injustiça e do racismo ambientais nas cidades
brasileiras. “Temos visto nos últimos anos, especialmente no verão, diversos desastres no país – e também
quais foram suas vítimas. Acompanhamos um agravamento das situações e, com certeza, o negacionismo
no momento de compreender as mudanças climáticas e seus impactos urbanos está dentro da lógica de como
construímos as nossas cidades”, declara Maria Gabriela Feitosa dos Santos, uma das pesquisadoras que fez
parte da produção do estudo.
Existe um padrão recorrente inegável quanto à distribuição territorial da população nas cidades
brasileiras. Observando o censo do IBGE de 2010, é possível ver que a renda é maior nas áreas onde a
população residente é mais branca do que negra – territórios que condizem com condições de urbanização e
saneamento melhores, contando com maior investimento público. Mais dados do censo mostram que os
chamados aglomerados subnormais, áreas caracterizadas por um padrão urbanístico irregular, carência de
serviços públicos essenciais e localização em áreas com restrição à ocupação, reiteram o padrão territorial
observado. Nas três cidades estudadas pelo Instituto Pólis – São Paulo, Recife e Belém –, o percentual de
pessoas negras que residem em áreas desse tipo supera as médias de cada município, evidenciando a
tendência de concentração desse grupo nesses territórios.
Em outras palavras, a distribuição demográfica e racial das cidades evidencia que a população negra
vive em piores condições ambientais e com menos recursos financeiros para lidar com os impactos de
eventuais emergências ou desastres – colocando-a em situação de vulnerabilidade. “Por estarmos em uma
sociedade racialmente estruturada, a desigualdade social é um instrumento que opera de acordo com essa
lógica. Isso pode ser visto sobretudo no funcionamento da expansão imobiliária”, diz Maria Gabriela. As áreas
onde o mercado imobiliário não tem interesse acabam sendo esquecidas pelo poder público, deixadas de
lado no quesito de criação de infraestrutura e, por isso, tornam-se locais mais baratos e viáveis para serem
ocupados pela população mais vulnerabilizada. “Essa desigualdade gera riscos socialmente produzidos. São
escolhas feitas pelas políticas urbanas que a gente tem adotado e implementado, gerando uma lógica de
ocupação de risco”, completa Feitosa dos Santos.
A localização e as características dos aglomerados subnormais nas três cidades analisadas ilustram
como a ocupação de áreas de potencial risco são apropriadas pela população vulnerabilizada como
alternativa para a questão habitacional não tratada pelo Estado. Em São Paulo, o IBGE aponta que 355.756
domicílios em aglomerados subnormais encontram-se em áreas de encosta e margens de rios, córregos e
lagos. É importante ressaltar que a ocupação de áreas de risco não advém de uma escolha, mas sim da total
falta de alternativas habitacionais. “Chamamos atenção para a questão do déficit habitacional. Pessoas e
famílias residem em áreas inapropriadas como uma última alternativa, uma resposta própria à questão
habitacional que historicamente não tem sido equacionada pelo Estado como deveria ser”, diz a pesquisadora.
Todo esse quadro expõe a forma como os conceitos de justiça socioambiental e racismo ambiental
são intrincados: enquanto o primeiro caracteriza a produção de impactos desiguais pelo meio ambiente, que
sobrecarregam grupos minoritários e a população de baixa renda; o racismo ambiental evidencia as
consequências dessas degradações, concentradas em bairros e territórios periféricos, onde vivem famílias
mais pobres e há maior concentração de pessoas negras, indígenas e quilombolas.
Para além do déficit habitacional, está a diferença de tratamento entre comunidades de baixa renda
e condomínios de luxo em áreas sujeitas a desastres ambientais. Não bastando serem proibidas pela classe
média e alta de construírem moradia nas faixas de terra mais seguras, populações assentadas em áreas de
risco ambiental são frequentemente retiradas à força e sem qualquer garantia de direitos, enquanto moradores
de condomínios e chácaras são tratados por autoridades com complacência.
Esse é o caso de moradores das margens da Represa Billings, no extremo sul da cidade de São
Paulo. Segundo mapeamento do Instituto Pólis, comunidades de baixa-renda do Jardim Noronha receberam
de autoridades quatro ameaças de remoção, dada a fragilidade ambiental e o risco apresentado pela área de
mananciais. O tratamento, no entanto, não se estendeu para o loteamento de chácaras Jardim Moraes Prado,
bairro vizinho também colado à represa. O caso evidencia que a intervenção pública é também pautada pelo
racismo ambiental, como explica Feitosa dos Santos: “Há uma tendência de criminalização de muitas dessas
áreas em detrimento de ocupações de alto padrão que dividem a mesma área e ainda assim não são alvo da
mesma criminalização que acontece com as ocupações. É necessário compreender esse cenário e incluir a
população marginalizada dentro dessa demanda.”
Ou seja, no contexto de desastres climáticos como as chuvas que assolaram o litoral paulista, políticas
paliativas voltadas para regiões ricas das cidades não são o bastante, dado que as mudanças climáticas
continuarão agravando a situação de comunidades periféricas a cada ano. “É necessário que se reverta essa
lógica de políticas paliativas por políticas perenes, que antecedam esses fenômenos. Elas não
necessariamente vão evitar mas vão dar capacidade de resiliência a essa população”, defende a
pesquisadora.
Para isso, é necessário entender a crise climática a partir de uma perspectiva social e racial, como
propõe o Instituto Perifa Sustentável, que reivindica a democratização e a representatividade das juventudes
nos locais de tomada de decisão em relação a políticas ambientais. Amanda Costa, diretora executiva do
instituto, advoga: “Falar de clima é falar de um direito básico. Quando pensamos em direitos básicos
pensamos em saúde, educação, transporte, mas o clima é uma questão transversal, que afeta todas as
outras.” Como respostas, a ativista sustenta inverter a lógica que permeia a elaboração de políticas públicas
nas cidades: partindo mais frequentemente de regiões ricas e majoritariamente brancas, políticas ambientais
e sanitárias precisam colocar a periferia no centro.
No entanto, em uma sociedade estruturalmente racista, quem mais sofre menos é ouvido. Os espaços
de debate ambiental e de elaboração de políticas públicas ainda são dominados por homens brancos, como
conta Mahryan Sampaio, do Instituto Perifa Sustentável: “O fato de eu dialogar com pessoas que não têm a
mesma cor que eu mas estão ocupando os espaços de poder é um caso de racismo ambiental.
Recentemente, Marina Silva nos convidou para conversar com os patriarcas e as matriarcas do ambientalismo
brasileiro. Nós éramos as únicas pessoas pretas e jovens. Isso é racismo ambiental”.
Para que populações periféricas possam viver com dignidade nas cidades brasileiras, é necessário
pensar na questão climática de maneira interseccional, pois a injustiça ambiental no Brasil tem cor. Será
apenas colocando pessoas pretas, indígenas e periféricas nos locais de tomada de decisão que discussões
levantadas em fóruns como a COP 26 – da qual as ativistas do Perifa Sustentável participaram – podem se
reverter em políticas efetivas de combate a desastres climáticos e tantas outras questões do dia a dia na
periferia, das ruas tomadas por lixo ao problema do saneamento básico. “Colocar essas pessoas no poder é
olhar para a base, par quem está no território e entende sua complexidade. O olhar que está lá tem cor e é
limitado, pouco diverso, ele não inclui. Esse é um momento histórico para a questão ambiental, que viu um
grande desmonte nos últimos quatro anos”, completa Costa.
Disponível em: <https://diplomatique.org.br/a-cor-da-injustica-ambiental-no-brasil/>. Acesso em: 3 de mar. 2023. [Adaptado]
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