Leia os trechos que seguem, do capítulo 1, “A cicatriz de Ulisses”, do livro Mimesis, de Erich Auerbach, e assinale a alternativa que se apresenta INCORRETA em relação ao que propõe o estudioso.
Mas um tal processo subjetivo-perspectivista, que cria um primeiro e um segundo planos, de modo que o presente se abra na direção das profundezas do passado, é totalmente estranho ao estilo homérico; ele só conhece o primeiro plano, só um presente uniformemente iluminado, uniformemente objetivo; e assim, a digressão começa só dois versos depois, quando Euricleia já descobriu a cicatriz – quando a possibilidade da ordenação em perspectiva não mais existe, e a estória da cicatriz torna-se um presente independente e pleno. [...]
Mas os próprios seres humanos dos relatos bíblicos são mais ricos em segundos planos do que os homéricos; eles têm mais profundidade quanto ao tempo, ao destino e à consciência. Ainda que estejam quase sempre envolvidos num acontecimento que os ocupa por completo, não se entregam a tal acontecimento a ponto de perderem a permanente consciência do que lhes acontecera em outro tempo e em outro lugar; seus pensamentos e sentimentos têm mais camadas e são mais intrincados.
(AUERBACH, Erich. Mimesis: a representação da realidade na literatura ocidental. 2. ed. rev. São Paulo: Perspectiva, 1987. p. 5-9.)