A amiga sou eu
01 “Preciso me desacostumar a viver fora da vida.
02 Acabei de dizer isto a uma amiga. Ela, retornando do surf – manhã cedo, quatro ondas e a voz gravada – tinha tanta
03 endorfina e serotonina que doeu. Doeu porque me vi, o que deixei pra trás quando ‘cresci’: larguei meu surf, meu vôlei e
04 minha forma de olhar a vida de maneira simples – sem agonia. Doeu porque sempre dói ter que reconhecer que, após tantos
05 anos, percebo que não deu certo simplesmente esquecer o que nos faz bem, e viver do lado de fora da vida – sim, o
06 capitalismo nos faz viver do lado de fora. Como já anunciado por Guy Debord – vivemos para um ‘espetáculo do ter’ – somos
07 só figurantes de uma grande cena.
08 Eu não sei se a dor de hoje me fará sair de casa de forma diferente: Estou fazendo provas, preparando aulas,
09 estudando questões de concurso para ensinar Direito aos meus alunos que mal querem aprender algo que os mude –
10 querem mesmo – e tenho que dar a eles isto – algo que lhes coloque no espetáculo, a chamada ‘estabilidade’ para o ter. Vai
11 ver que, no final de tudo, o que querem mesmo é viver esta grande cena: viver do lado de fora da vida.
12 [...]
(In http://tribunadoceara.uol.com.br/opiniao/flavia-castelo/flavia-castelo-a-amiga-sou-eu/. Acesso em 21/09/17).
Os termos “a uma amiga” (l. 02) e “a eles” (l. 10) exercem a mesma função sintática, ou seja, ambos são: