Se era inteligente, não sabia. Ser ou não inteligente dependia da instabilidade dos outros. Às vezes, o que ele dizia despertava de repente nos adultos um olhar satisfeito e astuto. Satisfeito, por guardarem em segredo o fato de acharem-no inteligente e não o mimarem; astuto, por participarem mais do que ele próprio daquilo que ele dissera. Assim, pois, quando era considerado inteligente, tinha ao mesmo tempo a inquieta sensação de inconsciência: alguma coisa lhe havia escapado. A chave de sua inteligência também lhe escapava. Pois às vezes, procurando imitar a si mesmo, (...) ao repetir uma frase de sucesso, era recebido pela distração dos outros. Com os olhos pestanejando de curiosidade, no começo de sua miopia, ele se indagava por que uma vez conseguia mover a família, e outra vez não. Sua inteligência era julgada pela falta de disciplina alheia?
Clarice Lispector. Miopia progressiva. In: Felicidade clandestina. Rio de Janeiro: Rocco, 1998, p. 17-18.
Com relação às idéias e aos aspectos gramaticais do texto acima, julgue o item seguinte.
a expressão “um olhar satisfeito e astuto” complementa o sentido da forma verbal “despertava”.