O dinheiro e a estabilidade favorecem estudos e bom ambiente. A matéria-prima do escritor (ou do artista em geral) é a vida, e as biografias costumam ser mais completas em meio a crises e desafios.
Machado de Assis era negro e pobre. Cruz e Souza tinha escravos na ascendência. A grande Conceição Evaristo nasceu na periferia de Belo Horizonte. Maria de Jesus lançou seu olhar agudo a partir de um ambiente quase ágrafo. O que dizer do imenso Lima Barreto? Todos eram negros e negras de origem humilde e de talento incontestável. Seria isso que formou seu olhar original?
Machado teve um começo árduo e cresceu socialmente. Lima Barreto viveu no limiar da miséria e do alcoolismo quase sempre. Nascer fora de grupos de elite? Também poderíamos dizer de Clarice Lispector, imigrante russa-ucraniana-judia que enfrentou desafios enormes.
Aí vamos além da conversa social ... Ariano Suassuna era filho do governador da Paraíba. Oswald de Andrade viveu e cresceu na aristocracia milionária cafeeira. A grande Lygia Fagundes Teles não nasceu entre milionários, mas a mãe pianista e o pai procurador e promotor garantiram sua estabilidade. O tio fazendeiro de Guimarães Rosa patrocinou os estudos do autor, da medicina à diplomacia.
A origem social não explica autores. Quantidade de melanina também não. O que parece ser comum a todos é uma originalidade do olhar, uma maneira de ver o mundo, uma capacidade de distanciamento que pode ser, talvez, a infância solitária de Cecília Meireles ou a dor social de Lima Barreto ou a densidade interna de Clarice Lispector.
(Karnal, Leandro. A areia que forma a pérola. O Estado de São Paulo,
1.03.2020. Adaptado).
De acordo com o texto, existe entre os artistas