Magna Concursos
2298140 Ano: 2018
Disciplina: Português
Banca: UFV
Orgão: UFV

• Leia o texto abaixo e responda às questões a ele pertinentes:

Eta povo bom danado

1º § Nosso povo é bom e até já foi melhor do que é hoje. Antigamente, éramos dulcíssimos, alegríssimos, tolerantíssimos, bondosíssimos, solidaríssimos, nossa História não narrava episódios de violência, não tínhamos nem vulcãozinho, um furacãozinho ou outras catástrofes naturais. Hoje, já não é mais bem assim. Lembramos, embora sem muito afinco, a escravidão, mantida até hoje, Canudos, a Revolta da Marinha e muitos outros episódios — e até uns abalos sísmicos e uns vendavais meio furacanescos vêm contribuindo para que não nos achemos mais tão abençoados assim e já há quem acredite que Deus devolveu seu passaporte brasileiro e hoje reside no Liechtenstein.

2º § Mas continuamos bons, notadamente em campanhas eleitorais, quando o povo, que nunca é culpado de nada, recebe os mais bajoulos elogios. O povo é trabalhador, ordeiro, disciplinado, cordial, boníssimo, alegríssimo etc. Ruins são “eles”, nunca nós. Mas, afinal, quem é o povo? Não somos nós mesmos? “Eles” são por acaso extraterrestres, ou mesmo estrangeiros (houve um tempo em que eram, principalmente os americanos, mas isso já deixou de colar faz tempo)? Não, não, somos nós mesmos. E, com perdão da má palavra, pois já fui metido a comunista e me lembro dela com arrepios, um pouco de autocrítica não faz mal a ninguém.

3º § Pois então, vamos pôr um pouco a mão na consciência, e com cuidado, senão pode doer bastante. É verdade ou não é que somos ótimos de cobrança e ruins de pagança? Andando a pé pelas ruas, denunciamos ferozmente os motoristas irresponsáveis, xingamos quem avança o sinal e abanamos desgostosamente a cabeça diante de filas duplas ou triplas, carros nas calçadas e outras abominações. Já ao volante de um carro, aceleramos na direção de pedestres (e, quando parados no sinal, damos uma aceleradinha em ponto morto, só para sobressaltar o infeliz que nos impede de prosseguir), nos consideramos no direito líquido e certo de atropelar e matar quem quer que esteja atravessando fora da faixa, bandalhamos à vontade, estacionamos na calçada e, se por acaso amassamos um carro parado sem ninguém dentro, jamais nos ocorre deixar um bilhete, com o número do telefone e a promessa de pagar o prejuízo.

4º § A depender do lado do balcão de serviços em que estejamos, somos pessoas muito diversas. Se estamos no lado a ser servido, vociferamos contra funcionários públicos, bancários e assemelhados que, por trás do guichê, em última análise, não somos nós também? Não blateramos encolerizados, quando ouvimos dizer que a polícia é corrupta? E, no entanto, quantos de nós já deram a “cervejinha” do guarda de trânsito ou oferecemos um “por fora” para que se quebre o galho e nos livrem daquilo a que legalmente estamos obrigados, para obedecermos à norma ou porque violentamos a norma? [...]

5º § O Maracanã em dia de clássico, linda festa do povo, bandeiras desfraldadas, catarse sublime, mitologia nacional a todo vapor, não é mesmo? É, sim, e, no dia da reabertura, só de torneiras arrancadas e furtadas houve centenas. Não se pode pôr espelhos nos banheiros, porque dão um jeito de levá-los. É, falar em banheiro, o da tribuna de honra (não o do “povão”, outro nome artístico para eles, nunca nós), segundo li nos jornais, estava em tais condições depois do jogo que daria náuseas a um suíno, mesmo de má formação. E quem tortura e mata, destrói orelhões, mutila estátuas, arrebenta lâmpadas, emporcalha as ruas, esburaca calçadas e depreda árvores? Quem fornece ao comércio de tóxicos o seu mercado e seu consequente poder? Eles, eles, eles fazem tudo isso. Eles são tão capazes de qualquer coisa que, sem a menor piedade, passam trotes cruéis a famílias de sequestrados e desaparecidos, aparentemente pelo simples prazer de causar mais sofrimento.

6º § Claro que há gente que não faz nada disso, mas a mentalidade de que são “eles” precisa acabar. E, junto com ela, a mania de arranjar um bode expiatório, sempre externo a nós e mais poderoso do que nós. Já foi o imperialismo americano, é a colonização portuguesa, o catolicismo, a mestiçagem, a falta de pena de morte, o ouro de Moscou, nosso mapa astrológico, qualquer coisa, porque, afinal, somos um povo bom. Não somos. Somos um povo como outro qualquer, gente como outra qualquer. Óbvio que somos culturalmente diversos dos outros povos, mas, no que isso é negativo — como nosso individualismo quase desumano, nossa generalizada atitude de “farinha pouca, meu pirão primeiro”, ou “dane-se o avião, que eu não sou piloto” etc. — podemos trabalhar para mudar.

7º § Embora eu considere besteira essa conversa de haver povos melhores ou piores do que outros, não custa provocar um pouco. Talvez, quem sabe, sejamos, não bons, mas maus. Pois não recebemos um dos países mais ricos do mundo e não vivemos perpetuamente assombrados pela miséria, pela instabilidade, pela fome e pela violência? [...]

(RIBEIRO, João Ubaldo. Eta povo bom danado. O Globo. 12 nov. 1995, 1º Caderno, p. 7.)

“[...] um pouco de autocrítica não faz mal a ninguém.” (2º §)

“Pois então, vamos pôr um pouco a mão na consciência, e com cuidado, senão pode doer bastante.” (3º §)

Atentando para a grafia das palavras, a alternativa em que as lacunas são CORRETAMENTE preenchidas por mal e senão, respectivamente, é:

 

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