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“Grande Sertão: Veredas” (1956)
Não sou nada. Nunca fui. Não posso
querer ser. Riobaldo falava assim, cavalgando em
dia de sol raso, quando o calor faz tudo cintilar feito
lente de aumento sobre formigueiro. Areia chiava
sob o casco, e o Rio das Velhas, lá adiante, corria
avarento, escondendo-se em veredas.
E, nesse remanso de palavras, lembrava
Diadorim: “— Viver é muito perigoso…Porque
ainda não se sabe.” Dizia e deixava ficar a frase,
pairando, como beija-flor em flor vermelha.
Riobaldo repetia para dentro, degustando cada
sílaba, sentindo a faca da incerteza rasgar miúdo
o couro do coração. Pois, se o viver é risco, então
o amor — sobretudo aquele que não ousa dizer
nome — há de ser fogueira sem noite de São
João, ardendo fora de tempo, clandestina.
O sol subia. Do arrebol distante vinham
brados de vaqueiros, bois berravam, e tudo soava,
ao jagunço, presságio. Trazia nas ancas
cartucheira cheia, na lembrança a voz de Joca
Ramiro, no peito promessa de pacto possível:
“Fazer acordo com o Demo? E por que não, se
Deus, às vezes, demora?” Esse pensamento, que
era mais tempestade que maré, rodopiava-lhe no
juízo, complicando palavras simples — coragem,
honra, destino.
Enquanto o cavalo respirava ofegante,
Riobaldo parou na sombra agreste de um angico,
ajeitou o rifle no ombro e cuspiu o pó que lhe
colava ao palato. Naquele ínterim de silêncio
quente, pareceu-lhe ouvir o estrépito antigo de
espingardas, o grito de Hermógenes e a
derradeira visão de Joca Ramiro caindo, lento,
sobre o chão de pedra. Teve vontade de chorar,
mas o rosto ficou seco: jagunço não molha terra
com lágrima — terra é de sangue —
ensinaram-lhe.
— Diadorim… — sussurrou.
A palavra saiu fina, quase pena de
passarinho. Sentiu, então, que a vida toda se
curvaria, daí em diante, àquele nome. E
compreendeu, como numa faísca, que viver
perigoso era também viver pleno de sentido: o
risco é que tempera o viver.
Tocou de rédea, rumou em frente. No céu,
urubu fazia círculo. No chão, formiga carregava
folha dez vezes o corpo. Riobaldo pensou que,
talvez, um dia, também ele carregasse fardo maior
que o peito: a dúvida de ter feito, ou não, pacto
com o Mefistófeles dos ermos.
Fonte: GUIMARÃES ROSA, João. Grande sertão: veredas.
3. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1956. (Adaptado)
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