No momento em que morreu, Joaquim escrevia um livro
que nunca me mostrou. Meu pai, meu estranho. Ouvi falar da
sua obra inacabada desde criança. Onde guardar a dança da
mão direita do escritor, enquanto projetou o romance, toda a
vida adulta, o pontilhado de gestos abortados, os rascunhos-fantasma, tentativas, planos, ou seriam sonhos, a energia
despendida, o fogo de que irradiavam ideias que jamais viram
a luz? O que restou foi o vazio. Mas talvez o vazio seja um
lugar - uma cidade - repleto de avenidas. Algures, livro
sobreviverá, aberto, como sobrevivem as nossas ideias,
anseios, as nossas mistificações, literatura desconhecida,
minha tradição. Ninguém leu o livro que dizia escrever. O
escritor morreu, levou-o. Não é possível que a morte do meu
Pai tenha matado o livro, que era a própria vida. O sonho
dessa obra foi a herança que me deixou. Como parar de
sonhá-lo, se jamais o li? Imagino a biblioteca dos livros por
escrever.
Adaptado de Djaimilia Pereira de Almeida. O livro do meu pai. Todavia.
2025.
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