Magna Concursos

Foram encontradas 849 questões.

146381 Ano: 2014
Disciplina: Português
Banca: CESGRANRIO
Orgão: CEFET-RJ

O dia: 28 de novembro de 1995. A hora: aproxi-

madamente vinte, talvez quinze para a uma da tarde.

O local: a recepção do Hotel Novo Mundo, aqui ao

lado, no Flamengo.

Acabara de almoçar com minha secretária e al-

guns amigos, descêramos a escada em curva que

leva do restaurante ao hall da recepção. Pelo menos

uma ou duas vezes por semana cumpro esse itine-

rário e, pelo que me lembre, nada de especial me

acontece nessa hora e nesse lugar. É, em todos os

sentidos, uma passagem.

Não cheguei a ouvir o meu nome. Foi a se-

cretária que me avisou: um dos porteiros, de cabelos

brancos, óculos de aros grossos, queria falar comigo.

E sabia o meu nome — eu que nunca fora hóspede

do hotel, apenas um frequentador mais ou menos re-

gular do restaurante que é aberto a todos.

Aproximei-me do balcão, duvidando que real-

mente me tivessem chamado. Ainda mais pelo nome:

não haveria uma hipótese passável para que soubes-

sem meu nome.

— Sim ...

O porteiro tirou os óculos, abriu uma gaveta em-

baixo do balcão e de lá retirou o embrulho, que pare-

cia um envelope médio, gordo, amarrado por barban-

te ordinário.

— Um hóspede esteve aqui no último fim de se-

mana, perguntou se nós o conhecíamos, pediu que

lhe entregássemos este envelope ...

— Sim ... sim ...

Eu não sabia se examinava o envelope ou a cara

do porteiro. Nada fizera para que ele soubesse meu

nome, para que pudesse dizer a alguém que me co-

nhecia. O fato de duas ou três vezes por semana eu

almoçar no restaurante do hotel não lhe daria esse

direito. [...]

Passou-me o envelope, que era, à primeira vista

e ao primeiro contato, aquilo que eu desconfiava: os

originais de um livro, contos, romance ou poesias, tal-

vez história ou ensaio.

— Está certo ... não terei de agradecer... a menos

que o nome e o endereço do interessado estejam...

Foi então que olhei bem o embrulho. A princípio

apenas suspeitei. E ficaria na suspeita se não hou-

vesse certeza. Uma das faces estava subscritada,

meu nome em letras grandes e a informação logo

embaixo, sublinhada pelo traço inconfundível: “Para

o jornalista Carlos Heitor Cony. Em mão”.

Era a letra do meu pai. A letra e o modo. Tudo no

embrulho o revelava, inteiro, total. Só ele faria aque-

las dobras no papel, só ele daria aquele nó no bar-

bante ordinário, só ele escreveria meu nome daquela

maneira, acrescentando a função que também fora a

sua. Sobretudo, só ele destacaria o fato de alguém

ter se prestado a me trazer aquele embrulho. Ele de-

testava o correio normal, mas se alguém o avisava

que ia a algum lugar, logo encontrava um motivo para

mandar alguma coisa a alguém por intermédio do

portador. [...]

Recente, feito e amarrado há pouco, tudo no en-

velope o revelava: ele, o pai inteiro, com suas manias

e cheiros.

Apenas uma coisa não fazia sentido. Estáva-

mos — como já disse — em novembro de 1995. E o

pai morrera, aos noventa e um anos, no dia 14 de

janeiro de 1985.

CONY, C. H. Quase Memória: quase-romance. São Paulo: Companhia das Letras. 2001. p. 9-11.

A palavra que substitui passável no trecho “hipótese passável” (l. 20), mantendo o mesmo sentido, é
 

Provas

Questão presente nas seguintes provas
146380 Ano: 2014
Disciplina: Português
Banca: CESGRANRIO
Orgão: CEFET-RJ

O dia: 28 de novembro de 1995. A hora: aproxi-

madamente vinte, talvez quinze para a uma da tarde.

O local: a recepção do Hotel Novo Mundo, aqui ao

lado, no Flamengo.

Acabara de almoçar com minha secretária e al-

guns amigos, descêramos a escada em curva que

leva do restaurante ao hall da recepção. Pelo menos

uma ou duas vezes por semana cumpro esse itine-

rário e, pelo que me lembre, nada de especial me

acontece nessa hora e nesse lugar. É, em todos os

sentidos, uma passagem.

Não cheguei a ouvir o meu nome. Foi a se-

cretária que me avisou: um dos porteiros, de cabelos

brancos, óculos de aros grossos, queria falar comigo.

E sabia o meu nome — eu que nunca fora hóspede

do hotel, apenas um frequentador mais ou menos re-

gular do restaurante que é aberto a todos.

Aproximei-me do balcão, duvidando que real-

mente me tivessem chamado. Ainda mais pelo nome:

não haveria uma hipótese passável para que soubes-

sem meu nome.

— Sim ...

O porteiro tirou os óculos, abriu uma gaveta em-

baixo do balcão e de lá retirou o embrulho, que pare-

cia um envelope médio, gordo, amarrado por barban-

te ordinário.

— Um hóspede esteve aqui no último fim de se-

mana, perguntou se nós o conhecíamos, pediu que

lhe entregássemos este envelope ...

— Sim ... sim ...

Eu não sabia se examinava o envelope ou a cara

do porteiro. Nada fizera para que ele soubesse meu

nome, para que pudesse dizer a alguém que me co-

nhecia. O fato de duas ou três vezes por semana eu

almoçar no restaurante do hotel não lhe daria esse

direito. [...]

Passou-me o envelope, que era, à primeira vista

e ao primeiro contato, aquilo que eu desconfiava: os

originais de um livro, contos, romance ou poesias, tal-

vez história ou ensaio.

— Está certo ... não terei de agradecer... a menos

que o nome e o endereço do interessado estejam...

Foi então que olhei bem o embrulho. A princípio

apenas suspeitei. E ficaria na suspeita se não hou-

vesse certeza. Uma das faces estava subscritada,

meu nome em letras grandes e a informação logo

embaixo, sublinhada pelo traço inconfundível: “Para

o jornalista Carlos Heitor Cony. Em mão”.

Era a letra do meu pai. A letra e o modo. Tudo no

embrulho o revelava, inteiro, total. Só ele faria aque-

las dobras no papel, só ele daria aquele nó no bar-

bante ordinário, só ele escreveria meu nome daquela

maneira, acrescentando a função que também fora a

sua. Sobretudo, só ele destacaria o fato de alguém

ter se prestado a me trazer aquele embrulho. Ele de-

testava o correio normal, mas se alguém o avisava

que ia a algum lugar, logo encontrava um motivo para

mandar alguma coisa a alguém por intermédio do

portador. [...]

Recente, feito e amarrado há pouco, tudo no en-

velope o revelava: ele, o pai inteiro, com suas manias

e cheiros.

Apenas uma coisa não fazia sentido. Estáva-

mos — como já disse — em novembro de 1995. E o

pai morrera, aos noventa e um anos, no dia 14 de

janeiro de 1985.

CONY, C. H. Quase Memória: quase-romance. São Paulo: Companhia das Letras. 2001. p. 9-11.

O extrato do texto que justifica a afirmativa do autor “É, em todos os sentidos, uma passagem.” (l. 10-11) é
 

Provas

Questão presente nas seguintes provas
146379 Ano: 2014
Disciplina: Português
Banca: CESGRANRIO
Orgão: CEFET-RJ
Provas:

Febre de liquidação

Passo em frente da vitrine. Observo um paletó

quadriculado, uma calça preta e duas camisas polo,

devidamente acompanhados de um cartaz discreto

anunciando a “remarcação”. Fujo apressadamente

pelos labirintos do shopping. Tarde demais, fui fisga-

do. Mal atinjo as escadas rolantes, inicio o caminho

de volta. O coração badala como um sino. A respi-

ração ofegante. São os primeiros sintomas da febre

por liquidação, que me ataca cada vez que vejo uma

vitrine com promessas sedutoras.

Atravesso as portas da loja, farejo em torno, com

o mesmo entusiasmo de um leão vendo criancinhas

em um safári. No primeiro momento, tenho a impres-

são de que entrei numa estação de metrô. A febre já

atingiu a multidão. Os vendedores, cercados, pare-

cem astros da Globo envoltos pelos fãs. Dou duas co-

toveladas em um dos rapazes com ar de executivos

e peço o tal paletó. O funcionário explica que só tem

determinado número. Minto:

— Acho que é o meu.

Ele me observa, incrédulo. É dois algarismos

menor, mas quem sabe? Acho que emagreci 1

gramas na última semana. Experimento. Não fecha.

Respiro fundo e abotoo. Assim devem ter se sentido

as mulheres com espartilho. Gemo, quase sem voz:

— Está um pouquinho apertado.

— É o maior que temos — diz, cruel.

Decido. Vou levar, apesar da barriga encolhida.

O vendedor arregala os olhos. Explico:

— Estou fazendo regime. No ano que vem vai

caber direitinho.

De qualquer maneira, só poderia usá-lo no pró-

ximo inverno. É de lã pesada, e está fazendo o maior

calor. Só de experimentar fiquei suando. [...]

Concordo que fui precipitado em comprar uma

roupa para quando estiver magro, só para aproveitar

o preço. Meu regime dura oito anos, sem resultados

visíveis.

Desabafo com uma amiga naturalista, que vive

apregoando um modo de vida mais simples, sem

muitas posses. Ela me aconselha: Não compre mais

nada. Resista. Aprendi muito quando passei a viver

apenas com o necessário. Revela, com ar culpado:

— Sabe, na minha fase consumista, juntei roupa

para 150 anos.

Sorrio, solidário. Ela pergunta, por mera curiosi-

dade, os preços da loja. Também pede o endereço.

Mais tarde a descubro no shopping, mergulhada na

arara das blusas de lã. Febre de liquidação é pior que

gripe, dá até recaída. Com um detalhe: a gente gasta,

gasta, e ainda acha que levou vantagem.

CARRASCO, W. O golpe do aniversariante e outras crônicas. In: Para Gostar de Ler. São Paulo: Ática, 2005. v.20, p. 60-63.

No Texto I, o autor compara a empolgação que sente na busca por roupas mais baratas em liquidação ao instinto de caça.

Que trecho comprova essa afirmação?
 

Provas

Questão presente nas seguintes provas
146378 Ano: 2014
Disciplina: Português
Banca: CESGRANRIO
Orgão: CEFET-RJ

O dia: 28 de novembro de 1995. A hora: aproxi-

madamente vinte, talvez quinze para a uma da tarde.

O local: a recepção do Hotel Novo Mundo, aqui ao

lado, no Flamengo.

Acabara de almoçar com minha secretária e al-

guns amigos, descêramos a escada em curva que

leva do restaurante ao hall da recepção. Pelo menos

uma ou duas vezes por semana cumpro esse itine-

rário e, pelo que me lembre, nada de especial me

acontece nessa hora e nesse lugar. É, em todos os

sentidos, uma passagem.

Não cheguei a ouvir o meu nome. Foi a se-

cretária que me avisou: um dos porteiros, de cabelos

brancos, óculos de aros grossos, queria falar comigo.

E sabia o meu nome — eu que nunca fora hóspede

do hotel, apenas um frequentador mais ou menos re-

gular do restaurante que é aberto a todos.

Aproximei-me do balcão, duvidando que real-

mente me tivessem chamado. Ainda mais pelo nome:

não haveria uma hipótese passável para que soubes-

sem meu nome.

— Sim ...

O porteiro tirou os óculos, abriu uma gaveta em-

baixo do balcão e de lá retirou o embrulho, que pare-

cia um envelope médio, gordo, amarrado por barban-

te ordinário.

— Um hóspede esteve aqui no último fim de se-

mana, perguntou se nós o conhecíamos, pediu que

lhe entregássemos este envelope ...

— Sim ... sim ...

Eu não sabia se examinava o envelope ou a cara

do porteiro. Nada fizera para que ele soubesse meu

nome, para que pudesse dizer a alguém que me co-

nhecia. O fato de duas ou três vezes por semana eu

almoçar no restaurante do hotel não lhe daria esse

direito. [...]

Passou-me o envelope, que era, à primeira vista

e ao primeiro contato, aquilo que eu desconfiava: os

originais de um livro, contos, romance ou poesias, tal-

vez história ou ensaio.

— Está certo ... não terei de agradecer... a menos

que o nome e o endereço do interessado estejam...

Foi então que olhei bem o embrulho. A princípio

apenas suspeitei. E ficaria na suspeita se não hou-

vesse certeza. Uma das faces estava subscritada,

meu nome em letras grandes e a informação logo

embaixo, sublinhada pelo traço inconfundível: “Para

o jornalista Carlos Heitor Cony. Em mão”.

Era a letra do meu pai. A letra e o modo. Tudo no

embrulho o revelava, inteiro, total. Só ele faria aque-

las dobras no papel, só ele daria aquele nó no bar-

bante ordinário, só ele escreveria meu nome daquela

maneira, acrescentando a função que também fora a

sua. Sobretudo, só ele destacaria o fato de alguém

ter se prestado a me trazer aquele embrulho. Ele de-

testava o correio normal, mas se alguém o avisava

que ia a algum lugar, logo encontrava um motivo para

mandar alguma coisa a alguém por intermédio do

portador. [...]

Recente, feito e amarrado há pouco, tudo no en-

velope o revelava: ele, o pai inteiro, com suas manias

e cheiros.

Apenas uma coisa não fazia sentido. Estáva-

mos — como já disse — em novembro de 1995. E o

pai morrera, aos noventa e um anos, no dia 14 de

janeiro de 1985.

CONY, C. H. Quase Memória: quase-romance. São Paulo: Companhia das Letras. 2001. p. 9-11.

Quando o narrador diz “A princípio apenas suspeitei” (l. 43-44), essa suspeita é a de que o
 

Provas

Questão presente nas seguintes provas
146377 Ano: 2014
Disciplina: Português
Banca: CESGRANRIO
Orgão: CEFET-RJ
Provas:

Texto I

Quando o porteiro do Hotel Novo Mundo me entregou o embrulho, mesmo depois de reconhecer a letra do pai, não tive hesitação em segurá-lo(a) como se fosse encomenda banal,(b) um pacote contendo um livro, originais de algum autor que desejava opinião, recortes de jornais.

Pela flacidez, só podia ser coisa parecida.(c) Mas o embrulho estava bem-feito, revelava meticulosidade(d) nos pormenores, nas dobras do papel que se fechavam para trás, no acerto das pontas, na eficiência do barbante. Tudo isso mais a evidência da letra, da tinta roxa levaram-me a outros pacotes e embrulhos que havia recebido no passado, todos feitos, amarrados e enviados pelo pai.

E havia sobretudo o nó.(e) Depois de tanto contemplá-lo à distância, com receio de tocá-lo, dele me aproximei não mais para lhe sentir o cheiro — ou os cheiros — mas para admirar o nó perfeito, justo, obra de arte de que só o pai era capaz.

Parece exagero louvar um nó, mas o pai era o primeiro a se vangloriar da arte de dar um nó. Lá está ele, bem no centro do embrulho, simétrico, sem uma laçada a mais ou a menos. Por experiências anteriores, sei que será impossível desatá-lo, como se fosse um nó qualquer. Precisarei de tesoura, de canivete, de faca. Ele só poderá ser cortado, jamais desfeito: assim era o nó que Ernesto Cony Filho, o pai, sabia e gostava de dar.

Ele se jactava de ter aprendido aquele tipo de nó nos tempos em que fora escoteiro — embora nunca tenha sido escoteiro. Foi fase passageira em sua imaginação, atribuía diversas habilidades que aprendera vida afora a tempos e funções inexistentes. Depois, sem que nada houvesse acontecido para mudar de opinião, esqueceu esta referência a um passado imaginário e adotou outra versão — igualmente improvável.

Passou a atribuir essas habilidades a outras circunstâncias e pessoas. No que dizia respeito ao nó, a versão escoteira foi transformada numa história meio enrolada: ele conhecera um marinheiro holandês no bar do Zica, na praça Mauá, no térreo do edifício de A Noite, reduto de uma certa boemia dos anos 30 e 40.

CONY, C. H. Quase memória: quase-romance. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. p. 39-40. Adaptado.

A evidência de que o pacote entregue pelo porteiro era do pai do narrador encontra-se na afirmativa

 

Provas

Questão presente nas seguintes provas
146376 Ano: 2014
Disciplina: Português
Banca: CESGRANRIO
Orgão: CEFET-RJ
Provas:

Escrever é fácil?

Para estimular crianças e jovens a escrever, há

quem diga que escrever é fácil: basta pôr no papel o

que está na cabeça. Na maioria das vezes, porém,

este estímulo é deveras desestimulante.

Há boas explicações para o desestímulo: se a

pessoa não consegue escrever, convencê-la de que

escrever é fácil na verdade a convence apenas da

sua própria incompetência, a convence apenas de

que ela nunca vai conseguir escrever direito; não

se escreve pondo no papel o que está na cabeça,

sob pena de ninguém entender nada; quem escreve

profissionalmente nunca acha que escrever é fácil,

nem mesmo quando escreve há muito tempo — a não

ser que já escreva mecanicamente, apenas repetindo

frases e fórmulas.

Via de regra, nosso pensamento é caótico: funciona

para alimentar nossas decisões cotidianas, mas não

funciona se for expresso, em voz alta ou por escrito,

tal qual se encontra na cabeça. Para entender o nosso

próprio pensamento, precisamos expressá-lo para

outra pessoa. Ao fazê-lo, organizamos o pensamento

segundo um código comum e então, finalmente, o

entendemos, isto é, nos entendemos. Não à toa o

jagunço Riobaldo, personagem do escritor Guimarães

Rosa, dizia: professor é aquele que de repente aprende.

Todo professor conhece este segredo: você

entende melhor o seu assunto depois de dar sua

aula sobre ele, e não antes. Ao falar sobre o meu

tema, tentando explicá-lo a quem o conhece pouco,

aumento exponencialmente a minha compreensão

a respeito. Motivado pelas expressões de dúvida e

até de estupor dos alunos, refino minhas explicações

e, ao fazê-lo, entendo bem melhor o que queria

dizer. Costumo dizer que, passados tantos anos de

profissão, gosto muito de dar aula, principalmente

porque ensinar ainda é o melhor método de estudar

e compreender.

Ora, do mesmo jeito que ensino me dirigindo a

um grupo de alunos que não conheço, pelo menos

no começo dos meus cursos, quem escreve o faz

para ser lido por leitores que ele potencialmente não

conhece e que também não o conhecem. Mesmo

ao escrever um diário secreto, faço-o imaginando

um leitor futuro: ou eu mesmo daqui a alguns anos,

ou quem sabe a posteridade. Logo, preciso do outro

e do leitor para entender a mim mesmo e, em última

análise, para ser e saber quem sou.

Exatamente porque esta relação com o outro,

aluno ou leitor, é tão fundamental, todo professor sente

um frio na espinha quando encontra uma nova turma,

não importa há quantos anos exerça o magistério.

Pela mesma razão, todo escritor fica “enrolando” até

começar um texto novo, arrumando a escrivaninha ou

vagando pela internet, não importa quantos livros já

tenha publicado. Pela mesmíssima razão, todo aluno

não quer que ninguém leia sua redação enquanto a

escreve ou faz questão de colocá-la debaixo da pilha

de redações na mesa do professor, não importa se

suas notas são boas ou não na matéria.

Escrever definitivamente não é fácil, porque nos

expõe no momento mesmo de fazê-lo. [...] Quem

escreve sente de repente todas as suas hesitações,

lacunas e omissões, percebendo como o seu próprio

pensamento é incompleto e o quanto ainda precisa

pensar. Quem escreve de repente entende o quanto

a sua própria pessoa é incompleta e fraturada, o

quanto ainda precisa se refazer, se inventar, enfim:

se reescrever.

BERNARDO, G. Conversas com um professor de literatura. Rio de Janeiro: Rocco, 2013. Adaptado.

A analogia entre a atividade de escrita e o ofício do professor fundamenta-se no seguinte motivo:
 

Provas

Questão presente nas seguintes provas
146375 Ano: 2014
Disciplina: Português
Banca: CESGRANRIO
Orgão: CEFET-RJ

O dia: 28 de novembro de 1995. A hora: aproxi-

madamente vinte, talvez quinze para a uma da tarde.

O local: a recepção do Hotel Novo Mundo, aqui ao

lado, no Flamengo.

Acabara de almoçar com minha secretária e al-

guns amigos, descêramos a escada em curva que

leva do restaurante ao hall da recepção. Pelo menos

uma ou duas vezes por semana cumpro esse itine-

rário e, pelo que me lembre, nada de especial me

acontece nessa hora e nesse lugar. É, em todos os

sentidos, uma passagem.

Não cheguei a ouvir o meu nome. Foi a se-

cretária que me avisou: um dos porteiros, de cabelos

brancos, óculos de aros grossos, queria falar comigo.

E sabia o meu nome — eu que nunca fora hóspede

do hotel, apenas um frequentador mais ou menos re-

gular do restaurante que é aberto a todos.

Aproximei-me do balcão, duvidando que real-

mente me tivessem chamado. Ainda mais pelo nome:

não haveria uma hipótese passável para que soubes-

sem meu nome.

— Sim ...

O porteiro tirou os óculos, abriu uma gaveta em-

baixo do balcão e de lá retirou o embrulho, que pare-

cia um envelope médio, gordo, amarrado por barban-

te ordinário.

— Um hóspede esteve aqui no último fim de se-

mana, perguntou se nós o conhecíamos, pediu que

lhe entregássemos este envelope ...

— Sim ... sim ...

Eu não sabia se examinava o envelope ou a cara

do porteiro. Nada fizera para que ele soubesse meu

nome, para que pudesse dizer a alguém que me co-

nhecia. O fato de duas ou três vezes por semana eu

almoçar no restaurante do hotel não lhe daria esse

direito. [...]

Passou-me o envelope, que era, à primeira vista

e ao primeiro contato, aquilo que eu desconfiava: os

originais de um livro, contos, romance ou poesias, tal-

vez história ou ensaio.

— Está certo ... não terei de agradecer... a menos

que o nome e o endereço do interessado estejam...

Foi então que olhei bem o embrulho. A princípio

apenas suspeitei. E ficaria na suspeita se não hou-

vesse certeza. Uma das faces estava subscritada,

meu nome em letras grandes e a informação logo

embaixo, sublinhada pelo traço inconfundível: “Para

o jornalista Carlos Heitor Cony. Em mão”.

Era a letra do meu pai. A letra e o modo. Tudo no

embrulho o revelava, inteiro, total. Só ele faria aque-

las dobras no papel, só ele daria aquele nó no bar-

bante ordinário, só ele escreveria meu nome daquela

maneira, acrescentando a função que também fora a

sua. Sobretudo, só ele destacaria o fato de alguém

ter se prestado a me trazer aquele embrulho. Ele de-

testava o correio normal, mas se alguém o avisava

que ia a algum lugar, logo encontrava um motivo para

mandar alguma coisa a alguém por intermédio do

portador. [...]

Recente, feito e amarrado há pouco, tudo no en-

velope o revelava: ele, o pai inteiro, com suas manias

e cheiros.

Apenas uma coisa não fazia sentido. Estáva-

mos — como já disse — em novembro de 1995. E o

pai morrera, aos noventa e um anos, no dia 14 de

janeiro de 1985.

CONY, C. H. Quase Memória: quase-romance. São Paulo: Companhia das Letras. 2001. p. 9-11.

A concordância nominal está de acordo com a norma-padrão na seguinte frase:
 

Provas

Questão presente nas seguintes provas
146374 Ano: 2014
Disciplina: Português
Banca: CESGRANRIO
Orgão: CEFET-RJ
Provas:

Febre de liquidação

Passo em frente da vitrine. Observo um paletó

quadriculado, uma calça preta e duas camisas polo,

devidamente acompanhados de um cartaz discreto

anunciando a “remarcação”. Fujo apressadamente

pelos labirintos do shopping. Tarde demais, fui fisga-

do. Mal atinjo as escadas rolantes, inicio o caminho

de volta. O coração badala como um sino. A respi-

ração ofegante. São os primeiros sintomas da febre

por liquidação, que me ataca cada vez que vejo uma

vitrine com promessas sedutoras.

Atravesso as portas da loja, farejo em torno, com

o mesmo entusiasmo de um leão vendo criancinhas

em um safári. No primeiro momento, tenho a impres-

são de que entrei numa estação de metrô. A febre já

atingiu a multidão. Os vendedores, cercados, pare-

cem astros da Globo envoltos pelos fãs. Dou duas co-

toveladas em um dos rapazes com ar de executivos

e peço o tal paletó. O funcionário explica que só tem

determinado número. Minto:

— Acho que é o meu.

Ele me observa, incrédulo. É dois algarismos

menor, mas quem sabe? Acho que emagreci 1

gramas na última semana. Experimento. Não fecha.

Respiro fundo e abotoo. Assim devem ter se sentido

as mulheres com espartilho. Gemo, quase sem voz:

— Está um pouquinho apertado.

— É o maior que temos — diz, cruel.

Decido. Vou levar, apesar da barriga encolhida.

O vendedor arregala os olhos. Explico:

— Estou fazendo regime. No ano que vem vai

caber direitinho.

De qualquer maneira, só poderia usá-lo no pró-

ximo inverno. É de lã pesada, e está fazendo o maior

calor. Só de experimentar fiquei suando. [...]

Concordo que fui precipitado em comprar uma

roupa para quando estiver magro, só para aproveitar

o preço. Meu regime dura oito anos, sem resultados

visíveis.

Desabafo com uma amiga naturalista, que vive

apregoando um modo de vida mais simples, sem

muitas posses. Ela me aconselha: Não compre mais

nada. Resista. Aprendi muito quando passei a viver

apenas com o necessário. Revela, com ar culpado:

— Sabe, na minha fase consumista, juntei roupa

para 150 anos.

Sorrio, solidário. Ela pergunta, por mera curiosi-

dade, os preços da loja. Também pede o endereço.

Mais tarde a descubro no shopping, mergulhada na

arara das blusas de lã. Febre de liquidação é pior que

gripe, dá até recaída. Com um detalhe: a gente gasta,

gasta, e ainda acha que levou vantagem.

CARRASCO, W. O golpe do aniversariante e outras crônicas. In: Para Gostar de Ler. São Paulo: Ática, 2005. v.20, p. 60-63.

A forma verbal destacada que está flexionada de acordo com a norma-padrão da Língua Portuguesa é:
 

Provas

Questão presente nas seguintes provas
146373 Ano: 2014
Disciplina: Português
Banca: CESGRANRIO
Orgão: CEFET-RJ
Provas:

Escrever é fácil?

Para estimular crianças e jovens a escrever, há

quem diga que escrever é fácil: basta pôr no papel o

que está na cabeça. Na maioria das vezes, porém,

este estímulo é deveras desestimulante.

Há boas explicações para o desestímulo: se a

pessoa não consegue escrever, convencê-la de que

escrever é fácil na verdade a convence apenas da

sua própria incompetência, a convence apenas de

que ela nunca vai conseguir escrever direito; não

se escreve pondo no papel o que está na cabeça,

sob pena de ninguém entender nada; quem escreve

profissionalmente nunca acha que escrever é fácil,

nem mesmo quando escreve há muito tempo — a não

ser que já escreva mecanicamente, apenas repetindo

frases e fórmulas.

Via de regra, nosso pensamento é caótico: funciona

para alimentar nossas decisões cotidianas, mas não

funciona se for expresso, em voz alta ou por escrito,

tal qual se encontra na cabeça. Para entender o nosso

próprio pensamento, precisamos expressá-lo para

outra pessoa. Ao fazê-lo, organizamos o pensamento

segundo um código comum e então, finalmente, o

entendemos, isto é, nos entendemos. Não à toa o

jagunço Riobaldo, personagem do escritor Guimarães

Rosa, dizia: professor é aquele que de repente aprende.

Todo professor conhece este segredo: você

entende melhor o seu assunto depois de dar sua

aula sobre ele, e não antes. Ao falar sobre o meu

tema, tentando explicá-lo a quem o conhece pouco,

aumento exponencialmente a minha compreensão

a respeito. Motivado pelas expressões de dúvida e

até de estupor dos alunos, refino minhas explicações

e, ao fazê-lo, entendo bem melhor o que queria

dizer. Costumo dizer que, passados tantos anos de

profissão, gosto muito de dar aula, principalmente

porque ensinar ainda é o melhor método de estudar

e compreender.

Ora, do mesmo jeito que ensino me dirigindo a

um grupo de alunos que não conheço, pelo menos

no começo dos meus cursos, quem escreve o faz

para ser lido por leitores que ele potencialmente não

conhece e que também não o conhecem. Mesmo

ao escrever um diário secreto, faço-o imaginando

um leitor futuro: ou eu mesmo daqui a alguns anos,

ou quem sabe a posteridade. Logo, preciso do outro

e do leitor para entender a mim mesmo e, em última

análise, para ser e saber quem sou.

Exatamente porque esta relação com o outro,

aluno ou leitor, é tão fundamental, todo professor sente

um frio na espinha quando encontra uma nova turma,

não importa há quantos anos exerça o magistério.

Pela mesma razão, todo escritor fica “enrolando” até

começar um texto novo, arrumando a escrivaninha ou

vagando pela internet, não importa quantos livros já

tenha publicado. Pela mesmíssima razão, todo aluno

não quer que ninguém leia sua redação enquanto a

escreve ou faz questão de colocá-la debaixo da pilha

de redações na mesa do professor, não importa se

suas notas são boas ou não na matéria.

Escrever definitivamente não é fácil, porque nos

expõe no momento mesmo de fazê-lo. [...] Quem

escreve sente de repente todas as suas hesitações,

lacunas e omissões, percebendo como o seu próprio

pensamento é incompleto e o quanto ainda precisa

pensar. Quem escreve de repente entende o quanto

a sua própria pessoa é incompleta e fraturada, o

quanto ainda precisa se refazer, se inventar, enfim:

se reescrever.

BERNARDO, G. Conversas com um professor de literatura. Rio de Janeiro: Rocco, 2013. Adaptado.

A expressão destacada está adequadamente substituída pelo pronome, de acordo com a norma-padrão, em:
 

Provas

Questão presente nas seguintes provas
146372 Ano: 2014
Disciplina: Português
Banca: CESGRANRIO
Orgão: CEFET-RJ
Provas:
Enunciado 146372-1
Na oração Sucintas revisões das trajetórias das comunidades ágrafas revelam-se fantásticas, o termo que obriga a flexão de gênero do adjetivo fantástica é
 

Provas

Questão presente nas seguintes provas