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Na fazenda FAZ DE CONTA, 25% dos equinos pensam ser bovinos e 30% dos bovinos pensam ser equinos. O restante de equinos e bovinos pensam ser o que realmente são. O dono da fazenda decidiu então chamar um “psicólogo veterinário”, que resolveu testar todos os equinos e bovinos. Ao final da testagem, o veterinário concluiu que 50% do total de animais pensavam ser equinos.
A porcentagem de animais testados pelo veterinário que eram realmente bovinos é, aproximadamente, igual a
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Um aluno, ao finalizar a etapa inicial da formação básica, mais conhecida como ensino fundamental, pode levar consigo para o ensino médio o entendimento equivocado de alguns conceitos matemáticos.
Nas proposições abaixo, encontram-se algumas afirmações frequentemente enunciadas em sala de aula.
Analise e classifique corretamente cada uma quanto a ser (V) VERDADEIRA ou (F) FALSA, de acordo com conceitos matemáticos válidos.
( ) !$ \sqrt{16} !$ = ±4
( ) Na teoria dos conjuntos, o símbolo {∅} é usado para representar conjunto vazio.
( ) Escrever {x ∈ IR | 1 ≤ x < 4} é o mesmo que escrever {1, 2, 3}
( ) !$ \sqrt{-25} !$ é um número que não existe.
( ) Se x2 − 4 = 0, então x = ±2
Sobre as proposições, tem-se que
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TEXTO IV
Leia, a seguir, um texto cuja reflexão pode ser relacionada aos fatos apresentados nos textos anteriores desta prova.
A produção cultural do corpo
Pensar o corpo como algo produzido na e pela
cultura é, simultaneamente, um desafio e uma
necessidade. Um desafio porque rompe, de certa forma,
com o olhar naturalista sob o qual muitas vezes o corpo é
5 observado, explicado, classificado e tratado. Uma
necessidade porque ao desnaturalizá-lo revela,
sobretudo, que o corpo é histórico. Isto é, mais do que um
dado natural cuja materialidade nos presentifica no
mundo, o corpo é uma construção sobre a qual são
10 conferidas diferentes marcas em diferentes tempos,
espaços, conjunturas econômicas, grupos sociais,
étnicos, etc. Não é portanto algo dado a priori nem
mesmo é universal: o corpo é provisório, mutável e
mutante, suscetível a inúmeras intervenções consoante o
15 desenvolvimento científico e tecnológico de cada cultura
bem como suas leis, seus códigos morais, as
representações que cria sobre os corpos, os discursos
que sobre ele produz e reproduz.
Um corpo não é apenas um corpo. É também o seu
20 entorno. Mais do que um conjunto de músculos, ossos,
vísceras, reflexos e sensações, o corpo é também a
roupa e os acessórios que o adornam, as intervenções
que nele se operam, a imagem que dele se produz, as
máquinas que nele se acoplam, os sentidos que nele se
25 incorporam, os silêncios que por ele falam, os vestígios
que nele se exibem, a educação de seus gestos... enfim,
é um sem-limite de possibilidades sempre reinventadas e
a serem descobertas. Não são, portanto, as semelhanças
biológicas que o definem mas, fundamentalmente, os
30 significados culturais e sociais que a ele se atribuem.
(GOELLNER, Silvana Vilodre. “A produção cultural do corpo”. In: LOURO, Guacira Lopes (Org.). Corpo, gênero e sexualidade; um debate contemporâneo na educação. Petrópolis: Vozes, 2003, p. 28-29.)
Considerando o Texto IV e os trechos dele extraídos, assinale a alternativa em que o termo referente do pronome grifado é o substantivo “corpo”.
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TEXTO IV
Leia, a seguir, um texto cuja reflexão pode ser relacionada aos fatos apresentados nos textos anteriores desta prova.
A produção cultural do corpo
Pensar o corpo como algo produzido na e pela
cultura é, simultaneamente, um desafio e uma
necessidade. Um desafio porque rompe, de certa forma,
com o olhar naturalista sob o qual muitas vezes o corpo é
5 observado, explicado, classificado e tratado. Uma
necessidade porque ao desnaturalizá-lo revela,
sobretudo, que o corpo é histórico. Isto é, mais do que um
dado natural cuja materialidade nos presentifica no
mundo, o corpo é uma construção sobre a qual são
10 conferidas diferentes marcas em diferentes tempos,
espaços, conjunturas econômicas, grupos sociais,
étnicos, etc. Não é portanto algo dado a priori nem
mesmo é universal: o corpo é provisório, mutável e
mutante, suscetível a inúmeras intervenções consoante o
15 desenvolvimento científico e tecnológico de cada cultura
bem como suas leis, seus códigos morais, as
representações que cria sobre os corpos, os discursos
que sobre ele produz e reproduz.
Um corpo não é apenas um corpo. É também o seu
20 entorno. Mais do que um conjunto de músculos, ossos,
vísceras, reflexos e sensações, o corpo é também a
roupa e os acessórios que o adornam, as intervenções
que nele se operam, a imagem que dele se produz, as
máquinas que nele se acoplam, os sentidos que nele se
25 incorporam, os silêncios que por ele falam, os vestígios
que nele se exibem, a educação de seus gestos... enfim,
é um sem-limite de possibilidades sempre reinventadas e
a serem descobertas. Não são, portanto, as semelhanças
biológicas que o definem mas, fundamentalmente, os
30 significados culturais e sociais que a ele se atribuem.
(GOELLNER, Silvana Vilodre. “A produção cultural do corpo”. In: LOURO, Guacira Lopes (Org.). Corpo, gênero e sexualidade; um debate contemporâneo na educação. Petrópolis: Vozes, 2003, p. 28-29.)
TEXTO I
Você lerá a seguir trechos – com ortografia atualizada – extraídos do jornal A Gazeta de notícias, da cidade do Rio de Janeiro, que publicou, dos dias 22 a 25 de julho de 1895, a notícia de um assassinato e os desdobramentos da investigação policial sobre o fato.
Dia 22
Às 2 ½ horas da madrugada de ontem, um indivíduo,
que corria da rua da Relação em direção à repartição da
polícia, caiu morto junto à porta principal do edifício,
apresentando no peito um profundo ferimento.
5 Ato contínuo um outro indivíduo, que também se
achava ferido no rosto, parou junto ao cadáver procurando
certificar-se se o indivíduo que ali se achava caído estava
com vida.
Tornando-se o referido indivíduo suspeito, foi
10 imediatamente preso e apresentado ao Sr. Dr. Carijó,
1º delegado auxiliar.
/.../
Ontem pela manhã apareceram no necrotério três
praças da brigada policial, entre os quais se achava
15 Antonio Primeiro, pertencente à 6ª companhia, que
declarou reconhecer o cadáver como o de João Ferreira
da Silva, ex-corneta da brigada policial, de onde teve baixa
há cerca de três meses.
/.../
20_ Silva era casado com Maria Virginia da Costa, com a
qual residia, em companhia de dois filhos menores, na
casinha nº 19 da estalagem da rua do Rezende, nº 109.
Segundo nos informou Maria Virginia, seu marido era
homem pacato, de bons costumes e trabalhava como
25 servente de pedreiro em umas obras da rua Francisco
Muratori.
Disse mais que seu marido havia estado no botequim
no 64 da referida rua, ponto de reunião de indivíduos
suspeitos, não regressando mais à casa.
Dia 23
30 O Sr. Dr. Carijó, 1º delegado auxiliar, auxiliado por
seu escrivão o Sr. major Luiz de Andrade, já descobriu o
fio do misterioso assassinato de João Ferreira da Silva,
perpetrado na rua da Relação, na madrugada de 21 do
corrente mês.
35 Já depuseram no inquérito muitas testemunhas, entre
as quais se acham os dois soldados de polícia que
rondaram a referida rua e a dos Inválidos, José Teixeira da
Silva, Balbino Ferreira de Oliveira, Pedro da Costa, Manuel
de Souza e Silva, Maria Regina da Costa e outras pessoas
40 que estiveram com o falecido no botequim nº 64 da rua do
Rezende, de onde saíram em serenata.
A autoridade policial espera em breve descobrir o
verdadeiro assassino para entregá-lo à ação da justiça.
Segundo trata C. Lombroso* em seu livro intitulado
45 L´Uomo delinquente, publicamos em seguida as tatuagens
verificadas no corpo de Manuel de Sousa e Silva pelos
Drs. Moraes Brito e Cunha Cruz.
Manuel de Sousa e Silva, de cor branca, com 21 anos
de idade, português, solteiro, morador à rua
50 Resende, nº 109.
Apresenta uma ferida incisa na região tenar**, dois
centímetros de extensão, dirigida de cima para baixo, de
dentro para fora, na mão esquerda; apresenta, entre
outras, as seguintes tatuagens: um crucifixo na face
55 anterior do braço esquerdo; um signo de Salomão, na face
externa do mesmo braço; as iniciais I. M. C. (Isaura Maria
da Conceição) isto no dorso da mão do mesmo lado; no
dorso da mão direita um signo de Salomão; na face
anterior do antebraço, do mesmo lado um coração, com
60 ápice para baixo, atravessado por uma seta, e um punhal
em cruz; na área representada pelo coração, as iniciais M.
S. S. (Manuel de Sousa e Silva); por baixo dessas iniciais,
e na mesma área, as iniciais S. E. S. (Sara Escaldina dos
Santos); por sobre o coração, na mesma face do braço,
65 uma estrela; sobre a estrela, uma fita com as iniciais M. S.
F. (Maria da Silva Fidalga); por sobre a fita as iniciais M. J.
R. C. (Maria Joaquina Rosa da Conceição); no peito, na
região precordial, um coração atravessado por dois
punhais em cruz. Uma figura de mulher e outra de homem,
70 em colóquio amoroso, na face anterior do braço direito.
*Cesare Lombroso (1835-1909) foi criminologista italiano, autor entre outros livros de L’uomo delinquente (1876), e muito influente na época, embora em boa parte desacreditado hoje. Achava que a criminalidade era hereditária, e que os criminosos podiam ser reconhecidos por certos traços e defeitos físicos, inclusive o uso excessivo de tatuagem.
** tenar: palma da mão.
Dia 24
Sobre o assassinato de João Ferreira da Silva,
perpetrado na rua da Relação, temos a acrescentar o
seguinte:
O Sr. Dr. Carijó, 1º delegado auxiliar, conseguiu
75 descobrir e prender todos os indivíduos que, na noite do
crime, estiveram em serenata com a vítima /.../.
O Sr. Dr. Souza Lima, lente* da Academia de
Medicina, requisitou ontem do Sr. Dr. Carijó a presença de
Manuel de Souza e Silva, o homem tatuado de que
80 tratamos ontem na nossa notícia.
À 1 hora da tarde, na aula de medicina legal, fez uma
pequena preleção aos seus alunos sobre os indivíduos
tatuados de que trata o professor Lombroso,
apresentando-lhes Souza e Silva como um dos indivíduos
85 que deviam estar sempre sob as vistas da polícia por isso
que os desenhos de tatuagem que apresentava no corpo
eram descritos pelo sábio escritor italiano em seu livro
L´Uomo delinquente, os quais demonstraram ser uma
cópia fiel dos que existiam no citado livro.
* lente: professor de escola superior ou secundária.
Dia 25
90 O Sr. Dr. Carijó, prosseguindo no inquérito sobre o
assassinato de João Ferreira da Silva, chegou à
conclusão de que o autor do crime foi Manuel de Souza e
Silva, vulgo Nené, o qual já cumpriu pena há anos
passados por crime de morte.
95 Nené é o indivíduo que, conforme noticiamos,
apresenta o corpo cheio de tatuagens.
/.../
Pelos depoimentos das testemunhas, vê-se que o
móvel do crime foram os ciúmes de Nené por causa de
100 uma mulher.
(ASSIS, Machado de. A Semana – 165. Edição, apresentação e notas por John Gledson. In: Machadiana Eletrônica, Vitória, v. 4, n.9, p. s-s, jul.-dez. 2021.- com adaptações.)
TEXTO II
Você lerá, a seguir, um trecho do livro O homem delinquente, de Cesare Lombroso, autor citado nas notícias dos dias 23 e 24 do Texto I.
Fisionomia dos criminosos
/.../ estudando a massa inteira desses infelizes,
como o fiz nas casas de detenção, conclui-se que, ainda
que não tenham sempre uma fisionomia rebarbativa* e
assustadora, têm eles uma toda particular e quase
5 especial a cada forma de criminalidade.
Entre os violadores (quando não são cretinos),
quase sempre os olhos são salientes, a fisionomia é
delicada, os lábios são volumosos. A maior parte é frágil,
loura, raquítica e, às vezes, corcunda. /.../
10 Os homicidas, os arrombadores, têm cabelos
crespos, são deformados no crânio, têm possantes
maxilares, zigomas** enormes e frequentes tatuagens;
são cobertos de cicatrizes na cabeça e no tronco.
Os homicidas habituais têm o olhar vidrado, frio,
15 imóvel, algumas vezes sanguíneo e injetado; o nariz,
frequentemente aquilino ou adunco como o das aves de
rapina, sempre volumoso; os maxilares são robustos; as
orelhas, longas; os zigomas largos; os cabelos crespos
são abundantes e escuros. Com frequência, a barba é
20 escassa, os dentes caninos muito desenvolvidos; os
lábios, finos.
/.../
Em geral, muitos criminosos têm orelhas de abano,
cabelos abundantes, barba escassa, sinos frontais*** e
25 maxilares enormes, queixo quadrado e saliente, zigomas
largos /.../.
* rebarbativa: desagradável, rude, carrancuda.
** zigomas: bochechas.
*** sinos frontais: seios da face.
(LOMBROSO, Cesare. O homem delinquente. Tradução, atualização, notas e comentários de Maristela Tomasini e Oscar Antonio Corbo Garcia. Porto alegre: Ricardo Lenz Editor, 2001, p. 247-248)
TEXTO III
Leia agora um trecho de um texto de Machado de Assis, do dia 28 de julho de 1895. Para escrever seu texto, Machado baseou-se nos fatos noticiados na semana anterior pelo jornal A Gazeta de notícias.
A SEMANA – 165
Raramente leio as notícias policiais, e não sei se
faço bem. São monótonas, vulgares, a língua não é boa;
em compensação, podem achar-se pérolas nesse
esterco. Foi o que me sucedeu esta semana, deixando
5 cair os olhos na notícia do assassinato de João Ferreira
da Silva. Não foi o nome da vítima que me prendeu a
atenção, nem o do suposto assassino, nem as demais
circunstâncias citadas no depoimento das testemunhas
/.../
10 /.../ O que me atraiu nesse crime foi a força do amor,
não por ser o motivo da discórdia e do ato, – há muito
quem mate e morra por mulheres – mas por apresentar
na pessoa de Manuel dos Santos, o suposto assassino,
um modelo particular de paixões contrárias e múltiplas.
15 Foram as tatuagens do corpo do homem que me
deslumbraram.
As tatuagens são todas ou quase todas amorosas.
Braços e peito estão marcados de nomes de mulheres e
de símbolos de amor. Lá estão as iniciais de uma Isaura
20 Maria da Conceição, as de Sara Esaltina dos Santos, as
de Maria da Silva Fidalga, as de Joaquina Rosa da
Conceição. Lá estão as figuras de um homem e de uma
mulher em colóquio amoroso; lá estão dois corações, um
atravessado por uma seta, outro por dois punhais em
25 cruz...
Quando os médicos examinaram este homem
fizeram-no com Lombroso na mão, e acharam nele os
sinais que o célebre italiano dá para se conhecer um
criminoso nato; daí a veemente suposição de ser ele o
30 assassino de João Ferreira. Eu, para completar o juízo
científico, mandaria ao mestre Lombroso cópia das
tatuagens, pedindo-lhe que dissesse se um homem tão
dado a amores, que os escrevia em si mesmo, pode ser
verdadeiramente criminoso. /.../
(ASSIS, Machado de. A Semana – 165. Edição, apresentação e notas por John Gledson. In: Machadiana Eletrônica, Vitória, v. 4, n.9, p. s-s, jul.-dez. 2021.- com adaptações.)
Sobre as relações propostas entre argumentos do Texto IV e os demais textos desta prova, assinale a alternativa INCORRETA.
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TEXTO IV
Leia, a seguir, um texto cuja reflexão pode ser relacionada aos fatos apresentados nos textos anteriores desta prova.
A produção cultural do corpo
Pensar o corpo como algo produzido na e pela
cultura é, simultaneamente, um desafio e uma
necessidade. Um desafio porque rompe, de certa forma,
com o olhar naturalista sob o qual muitas vezes o corpo é
5 observado, explicado, classificado e tratado. Uma
necessidade porque ao desnaturalizá-lo revela,
sobretudo, que o corpo é histórico. Isto é, mais do que um
dado natural cuja materialidade nos presentifica no
mundo, o corpo é uma construção sobre a qual são
10 conferidas diferentes marcas em diferentes tempos,
espaços, conjunturas econômicas, grupos sociais,
étnicos, etc. Não é portanto algo dado a priori nem
mesmo é universal: o corpo é provisório, mutável e
mutante, suscetível a inúmeras intervenções consoante o
15 desenvolvimento científico e tecnológico de cada cultura
bem como suas leis, seus códigos morais, as
representações que cria sobre os corpos, os discursos
que sobre ele produz e reproduz.
Um corpo não é apenas um corpo. É também o seu
20 entorno. Mais do que um conjunto de músculos, ossos,
vísceras, reflexos e sensações, o corpo é também a
roupa e os acessórios que o adornam, as intervenções
que nele se operam, a imagem que dele se produz, as
máquinas que nele se acoplam, os sentidos que nele se
25 incorporam, os silêncios que por ele falam, os vestígios
que nele se exibem, a educação de seus gestos... enfim,
é um sem-limite de possibilidades sempre reinventadas e
a serem descobertas. Não são, portanto, as semelhanças
biológicas que o definem mas, fundamentalmente, os
30 significados culturais e sociais que a ele se atribuem.
(GOELLNER, Silvana Vilodre. “A produção cultural do corpo”. In: LOURO, Guacira Lopes (Org.). Corpo, gênero e sexualidade; um debate contemporâneo na educação. Petrópolis: Vozes, 2003, p. 28-29.)
O objetivo principal do Texto IV é
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TEXTO III
Leia agora um trecho de um texto de Machado de Assis, do dia 28 de julho de 1895. Para escrever seu texto, Machado baseou-se nos fatos noticiados na semana anterior pelo jornal A Gazeta de notícias.
A SEMANA – 165
Raramente leio as notícias policiais, e não sei se
faço bem. São monótonas, vulgares, a língua não é boa;
em compensação, podem achar-se pérolas nesse
esterco. Foi o que me sucedeu esta semana, deixando
5 cair os olhos na notícia do assassinato de João Ferreira
da Silva. Não foi o nome da vítima que me prendeu a
atenção, nem o do suposto assassino, nem as demais
circunstâncias citadas no depoimento das testemunhas
/.../
10 /.../ O que me atraiu nesse crime foi a força do amor,
não por ser o motivo da discórdia e do ato, – há muito
quem mate e morra por mulheres – mas por apresentar
na pessoa de Manuel dos Santos, o suposto assassino,
um modelo particular de paixões contrárias e múltiplas.
15 Foram as tatuagens do corpo do homem que me
deslumbraram.
As tatuagens são todas ou quase todas amorosas.
Braços e peito estão marcados de nomes de mulheres e
de símbolos de amor. Lá estão as iniciais de uma Isaura
20 Maria da Conceição, as de Sara Esaltina dos Santos, as
de Maria da Silva Fidalga, as de Joaquina Rosa da
Conceição. Lá estão as figuras de um homem e de uma
mulher em colóquio amoroso; lá estão dois corações, um
atravessado por uma seta, outro por dois punhais em
25 cruz...
Quando os médicos examinaram este homem
fizeram-no com Lombroso na mão, e acharam nele os
sinais que o célebre italiano dá para se conhecer um
criminoso nato; daí a veemente suposição de ser ele o
30 assassino de João Ferreira. Eu, para completar o juízo
científico, mandaria ao mestre Lombroso cópia das
tatuagens, pedindo-lhe que dissesse se um homem tão
dado a amores, que os escrevia em si mesmo, pode ser
verdadeiramente criminoso. /.../
(ASSIS, Machado de. A Semana – 165. Edição, apresentação e notas por John Gledson. In: Machadiana Eletrônica, Vitória, v. 4, n.9, p. s-s, jul.-dez. 2021.- com adaptações.)
TEXTO I
Você lerá a seguir trechos – com ortografia atualizada – extraídos do jornal A Gazeta de notícias, da cidade do Rio de Janeiro, que publicou, dos dias 22 a 25 de julho de 1895, a notícia de um assassinato e os desdobramentos da investigação policial sobre o fato.
Dia 22
Às 2 ½ horas da madrugada de ontem, um indivíduo,
que corria da rua da Relação em direção à repartição da
polícia, caiu morto junto à porta principal do edifício,
apresentando no peito um profundo ferimento.
5 Ato contínuo um outro indivíduo, que também se
achava ferido no rosto, parou junto ao cadáver procurando
certificar-se se o indivíduo que ali se achava caído estava
com vida.
Tornando-se o referido indivíduo suspeito, foi
10 imediatamente preso e apresentado ao Sr. Dr. Carijó,
1º delegado auxiliar.
/.../
Ontem pela manhã apareceram no necrotério três
praças da brigada policial, entre os quais se achava
15 Antonio Primeiro, pertencente à 6ª companhia, que
declarou reconhecer o cadáver como o de João Ferreira
da Silva, ex-corneta da brigada policial, de onde teve baixa
há cerca de três meses.
/.../
20_ Silva era casado com Maria Virginia da Costa, com a
qual residia, em companhia de dois filhos menores, na
casinha nº 19 da estalagem da rua do Rezende, nº 109.
Segundo nos informou Maria Virginia, seu marido era
homem pacato, de bons costumes e trabalhava como
25 servente de pedreiro em umas obras da rua Francisco
Muratori.
Disse mais que seu marido havia estado no botequim
no 64 da referida rua, ponto de reunião de indivíduos
suspeitos, não regressando mais à casa.
Dia 23
30 O Sr. Dr. Carijó, 1º delegado auxiliar, auxiliado por
seu escrivão o Sr. major Luiz de Andrade, já descobriu o
fio do misterioso assassinato de João Ferreira da Silva,
perpetrado na rua da Relação, na madrugada de 21 do
corrente mês.
35 Já depuseram no inquérito muitas testemunhas, entre
as quais se acham os dois soldados de polícia que
rondaram a referida rua e a dos Inválidos, José Teixeira da
Silva, Balbino Ferreira de Oliveira, Pedro da Costa, Manuel
de Souza e Silva, Maria Regina da Costa e outras pessoas
40 que estiveram com o falecido no botequim nº 64 da rua do
Rezende, de onde saíram em serenata.
A autoridade policial espera em breve descobrir o
verdadeiro assassino para entregá-lo à ação da justiça.
Segundo trata C. Lombroso* em seu livro intitulado
45 L´Uomo delinquente, publicamos em seguida as tatuagens
verificadas no corpo de Manuel de Sousa e Silva pelos
Drs. Moraes Brito e Cunha Cruz.
Manuel de Sousa e Silva, de cor branca, com 21 anos
de idade, português, solteiro, morador à rua
50 Resende, nº 109.
Apresenta uma ferida incisa na região tenar**, dois
centímetros de extensão, dirigida de cima para baixo, de
dentro para fora, na mão esquerda; apresenta, entre
outras, as seguintes tatuagens: um crucifixo na face
55 anterior do braço esquerdo; um signo de Salomão, na face
externa do mesmo braço; as iniciais I. M. C. (Isaura Maria
da Conceição) isto no dorso da mão do mesmo lado; no
dorso da mão direita um signo de Salomão; na face
anterior do antebraço, do mesmo lado um coração, com
60 ápice para baixo, atravessado por uma seta, e um punhal
em cruz; na área representada pelo coração, as iniciais M.
S. S. (Manuel de Sousa e Silva); por baixo dessas iniciais,
e na mesma área, as iniciais S. E. S. (Sara Escaldina dos
Santos); por sobre o coração, na mesma face do braço,
65 uma estrela; sobre a estrela, uma fita com as iniciais M. S.
F. (Maria da Silva Fidalga); por sobre a fita as iniciais M. J.
R. C. (Maria Joaquina Rosa da Conceição); no peito, na
região precordial, um coração atravessado por dois
punhais em cruz. Uma figura de mulher e outra de homem,
70 em colóquio amoroso, na face anterior do braço direito.
*Cesare Lombroso (1835-1909) foi criminologista italiano, autor entre outros livros de L’uomo delinquente (1876), e muito influente na época, embora em boa parte desacreditado hoje. Achava que a criminalidade era hereditária, e que os criminosos podiam ser reconhecidos por certos traços e defeitos físicos, inclusive o uso excessivo de tatuagem.
** tenar: palma da mão.
Dia 24
Sobre o assassinato de João Ferreira da Silva,
perpetrado na rua da Relação, temos a acrescentar o
seguinte:
O Sr. Dr. Carijó, 1º delegado auxiliar, conseguiu
75 descobrir e prender todos os indivíduos que, na noite do
crime, estiveram em serenata com a vítima /.../.
O Sr. Dr. Souza Lima, lente* da Academia de
Medicina, requisitou ontem do Sr. Dr. Carijó a presença de
Manuel de Souza e Silva, o homem tatuado de que
80 tratamos ontem na nossa notícia.
À 1 hora da tarde, na aula de medicina legal, fez uma
pequena preleção aos seus alunos sobre os indivíduos
tatuados de que trata o professor Lombroso,
apresentando-lhes Souza e Silva como um dos indivíduos
85 que deviam estar sempre sob as vistas da polícia por isso
que os desenhos de tatuagem que apresentava no corpo
eram descritos pelo sábio escritor italiano em seu livro
L´Uomo delinquente, os quais demonstraram ser uma
cópia fiel dos que existiam no citado livro.
* lente: professor de escola superior ou secundária.
Dia 25
90 O Sr. Dr. Carijó, prosseguindo no inquérito sobre o
assassinato de João Ferreira da Silva, chegou à
conclusão de que o autor do crime foi Manuel de Souza e
Silva, vulgo Nené, o qual já cumpriu pena há anos
passados por crime de morte.
95 Nené é o indivíduo que, conforme noticiamos,
apresenta o corpo cheio de tatuagens.
/.../
Pelos depoimentos das testemunhas, vê-se que o
móvel do crime foram os ciúmes de Nené por causa de
100 uma mulher.
(ASSIS, Machado de. A Semana – 165. Edição, apresentação e notas por John Gledson. In: Machadiana Eletrônica, Vitória, v. 4, n.9, p. s-s, jul.-dez. 2021.- com adaptações.)
TEXTO II
Você lerá, a seguir, um trecho do livro O homem delinquente, de Cesare Lombroso, autor citado nas notícias dos dias 23 e 24 do Texto I.
Fisionomia dos criminosos
/.../ estudando a massa inteira desses infelizes,
como o fiz nas casas de detenção, conclui-se que, ainda
que não tenham sempre uma fisionomia rebarbativa* e
assustadora, têm eles uma toda particular e quase
5 especial a cada forma de criminalidade.
Entre os violadores (quando não são cretinos),
quase sempre os olhos são salientes, a fisionomia é
delicada, os lábios são volumosos. A maior parte é frágil,
loura, raquítica e, às vezes, corcunda. /.../
10 Os homicidas, os arrombadores, têm cabelos
crespos, são deformados no crânio, têm possantes
maxilares, zigomas** enormes e frequentes tatuagens;
são cobertos de cicatrizes na cabeça e no tronco.
Os homicidas habituais têm o olhar vidrado, frio,
15 imóvel, algumas vezes sanguíneo e injetado; o nariz,
frequentemente aquilino ou adunco como o das aves de
rapina, sempre volumoso; os maxilares são robustos; as
orelhas, longas; os zigomas largos; os cabelos crespos
são abundantes e escuros. Com frequência, a barba é
20 escassa, os dentes caninos muito desenvolvidos; os
lábios, finos.
/.../
Em geral, muitos criminosos têm orelhas de abano,
cabelos abundantes, barba escassa, sinos frontais*** e
25 maxilares enormes, queixo quadrado e saliente, zigomas
largos /.../.
* rebarbativa: desagradável, rude, carrancuda.
** zigomas: bochechas.
*** sinos frontais: seios da face.
(LOMBROSO, Cesare. O homem delinquente. Tradução, atualização, notas e comentários de Maristela Tomasini e Oscar Antonio Corbo Garcia. Porto alegre: Ricardo Lenz Editor, 2001, p. 247-248)
Alguns recursos linguísticos empregados na construção do Texto III têm a função de demonstrar um posicionamento contrário em relação à visão científica sobre o crime e o criminoso exposta nos Textos I e II. Assinale a alternativa que NÃO apresenta um desses recursos.
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TEXTO III
Leia agora um trecho de um texto de Machado de Assis, do dia 28 de julho de 1895. Para escrever seu texto, Machado baseou-se nos fatos noticiados na semana anterior pelo jornal A Gazeta de notícias.
A SEMANA – 165
Raramente leio as notícias policiais, e não sei se
faço bem. São monótonas, vulgares, a língua não é boa;
em compensação, podem achar-se pérolas nesse
esterco. Foi o que me sucedeu esta semana, deixando
5 cair os olhos na notícia do assassinato de João Ferreira
da Silva. Não foi o nome da vítima que me prendeu a
atenção, nem o do suposto assassino, nem as demais
circunstâncias citadas no depoimento das testemunhas
/.../
10 /.../ O que me atraiu nesse crime foi a força do amor,
não por ser o motivo da discórdia e do ato, – há muito
quem mate e morra por mulheres – mas por apresentar
na pessoa de Manuel dos Santos, o suposto assassino,
um modelo particular de paixões contrárias e múltiplas.
15 Foram as tatuagens do corpo do homem que me
deslumbraram.
As tatuagens são todas ou quase todas amorosas.
Braços e peito estão marcados de nomes de mulheres e
de símbolos de amor. Lá estão as iniciais de uma Isaura
20 Maria da Conceição, as de Sara Esaltina dos Santos, as
de Maria da Silva Fidalga, as de Joaquina Rosa da
Conceição. Lá estão as figuras de um homem e de uma
mulher em colóquio amoroso; lá estão dois corações, um
atravessado por uma seta, outro por dois punhais em
25 cruz...
Quando os médicos examinaram este homem
fizeram-no com Lombroso na mão, e acharam nele os
sinais que o célebre italiano dá para se conhecer um
criminoso nato; daí a veemente suposição de ser ele o
30 assassino de João Ferreira. Eu, para completar o juízo
científico, mandaria ao mestre Lombroso cópia das
tatuagens, pedindo-lhe que dissesse se um homem tão
dado a amores, que os escrevia em si mesmo, pode ser
verdadeiramente criminoso. /.../
(ASSIS, Machado de. A Semana – 165. Edição, apresentação e notas por John Gledson. In: Machadiana Eletrônica, Vitória, v. 4, n.9, p. s-s, jul.-dez. 2021.- com adaptações.)
Na leitura que Machado de Assis faz do julgamento de Manuel de Souza e Silva, o seu olhar se concentra
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TEXTO III
Leia agora um trecho de um texto de Machado de Assis, do dia 28 de julho de 1895. Para escrever seu texto, Machado baseou-se nos fatos noticiados na semana anterior pelo jornal A Gazeta de notícias.
A SEMANA – 165
Raramente leio as notícias policiais, e não sei se
faço bem. São monótonas, vulgares, a língua não é boa;
em compensação, podem achar-se pérolas nesse
esterco. Foi o que me sucedeu esta semana, deixando
5 cair os olhos na notícia do assassinato de João Ferreira
da Silva. Não foi o nome da vítima que me prendeu a
atenção, nem o do suposto assassino, nem as demais
circunstâncias citadas no depoimento das testemunhas
/.../
10 /.../ O que me atraiu nesse crime foi a força do amor,
não por ser o motivo da discórdia e do ato, – há muito
quem mate e morra por mulheres – mas por apresentar
na pessoa de Manuel dos Santos, o suposto assassino,
um modelo particular de paixões contrárias e múltiplas.
15 Foram as tatuagens do corpo do homem que me
deslumbraram.
As tatuagens são todas ou quase todas amorosas.
Braços e peito estão marcados de nomes de mulheres e
de símbolos de amor. Lá estão as iniciais de uma Isaura
20 Maria da Conceição, as de Sara Esaltina dos Santos, as
de Maria da Silva Fidalga, as de Joaquina Rosa da
Conceição. Lá estão as figuras de um homem e de uma
mulher em colóquio amoroso; lá estão dois corações, um
atravessado por uma seta, outro por dois punhais em
25 cruz...
Quando os médicos examinaram este homem
fizeram-no com Lombroso na mão, e acharam nele os
sinais que o célebre italiano dá para se conhecer um
criminoso nato; daí a veemente suposição de ser ele o
30 assassino de João Ferreira. Eu, para completar o juízo
científico, mandaria ao mestre Lombroso cópia das
tatuagens, pedindo-lhe que dissesse se um homem tão
dado a amores, que os escrevia em si mesmo, pode ser
verdadeiramente criminoso. /.../
(ASSIS, Machado de. A Semana – 165. Edição, apresentação e notas por John Gledson. In: Machadiana Eletrônica, Vitória, v. 4, n.9, p. s-s, jul.-dez. 2021.- com adaptações.)
Considerando as características formais do Texto III, bem como seu local de publicação e sua relação com os fatos noticiados na semana anterior, é correto classificá-lo como
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TEXTO III
Leia agora um trecho de um texto de Machado de Assis, do dia 28 de julho de 1895. Para escrever seu texto, Machado baseou-se nos fatos noticiados na semana anterior pelo jornal A Gazeta de notícias.
A SEMANA – 165
Raramente leio as notícias policiais, e não sei se
faço bem. São monótonas, vulgares, a língua não é boa;
em compensação, podem achar-se pérolas nesse
esterco. Foi o que me sucedeu esta semana, deixando
5 cair os olhos na notícia do assassinato de João Ferreira
da Silva. Não foi o nome da vítima que me prendeu a
atenção, nem o do suposto assassino, nem as demais
circunstâncias citadas no depoimento das testemunhas
/.../
10 /.../ O que me atraiu nesse crime foi a força do amor,
não por ser o motivo da discórdia e do ato, – há muito
quem mate e morra por mulheres – mas por apresentar
na pessoa de Manuel dos Santos, o suposto assassino,
um modelo particular de paixões contrárias e múltiplas.
15 Foram as tatuagens do corpo do homem que me
deslumbraram.
As tatuagens são todas ou quase todas amorosas.
Braços e peito estão marcados de nomes de mulheres e
de símbolos de amor. Lá estão as iniciais de uma Isaura
20 Maria da Conceição, as de Sara Esaltina dos Santos, as
de Maria da Silva Fidalga, as de Joaquina Rosa da
Conceição. Lá estão as figuras de um homem e de uma
mulher em colóquio amoroso; lá estão dois corações, um
atravessado por uma seta, outro por dois punhais em
25 cruz...
Quando os médicos examinaram este homem
fizeram-no com Lombroso na mão, e acharam nele os
sinais que o célebre italiano dá para se conhecer um
criminoso nato; daí a veemente suposição de ser ele o
30 assassino de João Ferreira. Eu, para completar o juízo
científico, mandaria ao mestre Lombroso cópia das
tatuagens, pedindo-lhe que dissesse se um homem tão
dado a amores, que os escrevia em si mesmo, pode ser
verdadeiramente criminoso. /.../
(ASSIS, Machado de. A Semana – 165. Edição, apresentação e notas por John Gledson. In: Machadiana Eletrônica, Vitória, v. 4, n.9, p. s-s, jul.-dez. 2021.- com adaptações.)
No Texto III, o narrador posiciona-se sobre os seguintes aspectos: as notícias policiais dos jornais e o embasamento científico da investigação dos médicos legistas no caso do assassinato em análise. A opinião do narrador sobre esses aspectos é, respectivamente, de
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TEXTO III
Leia agora um trecho de um texto de Machado de Assis, do dia 28 de julho de 1895. Para escrever seu texto, Machado baseou-se nos fatos noticiados na semana anterior pelo jornal A Gazeta de notícias.
A SEMANA – 165
Raramente leio as notícias policiais, e não sei se
faço bem. São monótonas, vulgares, a língua não é boa;
em compensação, podem achar-se pérolas nesse
esterco. Foi o que me sucedeu esta semana, deixando
5 cair os olhos na notícia do assassinato de João Ferreira
da Silva. Não foi o nome da vítima que me prendeu a
atenção, nem o do suposto assassino, nem as demais
circunstâncias citadas no depoimento das testemunhas
/.../
10 /.../ O que me atraiu nesse crime foi a força do amor,
não por ser o motivo da discórdia e do ato, – há muito
quem mate e morra por mulheres – mas por apresentar
na pessoa de Manuel dos Santos, o suposto assassino,
um modelo particular de paixões contrárias e múltiplas.
15 Foram as tatuagens do corpo do homem que me
deslumbraram.
As tatuagens são todas ou quase todas amorosas.
Braços e peito estão marcados de nomes de mulheres e
de símbolos de amor. Lá estão as iniciais de uma Isaura
20 Maria da Conceição, as de Sara Esaltina dos Santos, as
de Maria da Silva Fidalga, as de Joaquina Rosa da
Conceição. Lá estão as figuras de um homem e de uma
mulher em colóquio amoroso; lá estão dois corações, um
atravessado por uma seta, outro por dois punhais em
25 cruz...
Quando os médicos examinaram este homem
fizeram-no com Lombroso na mão, e acharam nele os
sinais que o célebre italiano dá para se conhecer um
criminoso nato; daí a veemente suposição de ser ele o
30 assassino de João Ferreira. Eu, para completar o juízo
científico, mandaria ao mestre Lombroso cópia das
tatuagens, pedindo-lhe que dissesse se um homem tão
dado a amores, que os escrevia em si mesmo, pode ser
verdadeiramente criminoso. /.../
(ASSIS, Machado de. A Semana – 165. Edição, apresentação e notas por John Gledson. In: Machadiana Eletrônica, Vitória, v. 4, n.9, p. s-s, jul.-dez. 2021.- com adaptações.)
O Texto III é construído a partir da visão do narrador a respeito de uma notícia da semana anterior. Sobre a posição desse narrador em relação à notícia da morte de João Ferreira da Silva, é correto afirmar que
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