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Texto para responder à questão.
Tecnologia, inovação e trabalho são feitos de gente
É evidente a mudança significativa na forma de trabalho,
já que a tecnologia está cada vez mais presente no nosso dia a
dia. Tem-se falado muito sobre transformação digital, algoritmo,
metaverso, mas nos deparamos com questões voltadas para
pessoas que não estão sendo observadas como deveriam.
Há um
deficit
educacional gigantesco no Brasil, além da
carência de profissionais da área de tecnologia da informação
(TI). Segundo a Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom), a TI precisará de aproximadamente 420 mil profissionais até 2024, mas o sistema
educacional brasileiro só capacita 46 mil pessoas com perfil
tecnológico por ano. Precisamos investir em educação tecnológica, mas não só isso, também precisamos dar oportunidades.
Estamos falando de tecnologias incríveis nas mãos de
poucos. Para se ter uma ideia, de acordo com uma pesquisa
feita pelo Instituto Locomotiva e a empresa PwC, mais de 33,9
milhões de brasileiros não têm sequer acesso à
internet
. Com
a chegada do 5G, as escolas privadas que estão nas grandes
cidades serão beneficiadas de forma muito mais rápida com a
realidade virtual, por exemplo, mas as crianças que estudam
em escolas públicas, no interior, não têm a mesma oportunidade.
A tecnologia é importante, é um fator primordial. Mas,
no fundo, temos carência em diversos aspectos quando falamos de Brasil, inclusive uma necessidade extrema de pessoas querendo falar com pessoas. Os bancos digitais estão
mudando suas configurações para que os clientes possam
ser atendidos por pessoas e não por robôs. É uma dicotomia
que estamos passando, visto que nunca vivemos momentos
tão intensos de disrupção digital como agora, sem precedentes históricos. A nossa realidade hoje é completamente diferente e impulsionada por essa transformação digital.
Estamos vendo fins de empregos formais, passando a
focar em times com outras habilidades, expertises, exigindo
criatividade e capacidade de resolver problemas complexos, alfabetização em dados, equidade e meio ambiente. Temas antes
desconsiderados que hoje estão provocando essa grande mudança no mercado de trabalho. Isso implica a necessidade de
haver pessoas capacitadas, capazes de tomar decisões, com
senso crítico apurado e em condições de agir em ambientes
turbulentos e incertos. Por isso afirmamos que a inovação é
feita por pessoas. Gente que sente e se emociona com as questões do seu entorno. Gente que tem empatia e se solidariza com
os problemas dos colegas. Gente que valoriza a ética. A mudança é a constante em nossa vida, mas compreender que o
momento não é só tecnologia nos colocará mais empáticos com
todos que estão à nossa volta.
A tecnologia é o meio, um suporte que, de acordo com a
Lei de
Moore
, se modifica e dobra a cada dois anos. Por sua vez,
as pessoas se modificam e crescem. Ampliam o seu conhecimento a cada nova experiência, o aprendizado é incremental e
se amplia a cada nova vivência. E altera também em contato
com outras pessoas, com viagens, com leituras, com a própria
vida. Cada indivíduo modifica a sua realidade e, ao mesmo
tempo, é modificado por ela: um ato recíproco. Essas mudanças
apresentam uma velocidade exponencial na tecnologia, alteram
o nosso ambiente e pessoas são necessárias para conduzir os
processos. Desconsiderar as pessoas e sua importância nesse
contexto é eliminar a inovação e a tecnologia.
(Maria Augusta Orofino. Disponível em:
https://www.correiobraziliense.com.br/opiniao/2022/11/5054357-
artigo-tecnologia-inovacao-e-trabalho-sao-feitos-de-gente.html. Em:
25/11/2022.)
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As cores do silêncio
Bem, chega de falar de política. Hoje vou falar de uma
coisa silenciosa chamada pintura.
Porque acho que a vida é inventada por nós – mas, claro,
dentro das possibilidades reais – creio também, consequentemente, que o acaso desempenha um papel importante nessa
invenção. E na arte também, sem dúvidas.
Mas o artista, para inventar sua obra, trabalha dentro
de determinados princípios que descobre e de que se vale
para impor sua inventividade poética sobre o acaso.
No fundo a criação artística é resultado da opção que o
artista faz entre sua necessidade de criar e os fatores casuais
que envolvem a criação. Em suma, ele torna necessário o
que era mera probabilidade.
Descubro esses pensamentos ao rever um álbum de
obras de
Van Gogh.
Embora já as conhecesse de longa data,
descubro nelas, ainda sim, que a pintura dele é de fato diferente de tudo o que se pintava antes. Todo mundo hoje sabe
disso, claro, mas tive a impressão de que só então, ao rever
suas telas, percebia por quê.
E isso me levou a refletir sobre o que era a pintura, antes
dele, feita pelos impressionistas. Já falei aqui da diferença entre a pintura de ateliê – realizada dentro de casa – e a pintura
impressionista, feita ao ar livre.
Os pintores impressionistas descobriram a cor da paisagem sob a luz solar, a vibração da luz sobre a superfície das
coisas. E, ao descobri-las, descobriram também que o colorido da paisagem muda com o passar das horas: descobriram
o tempo. É exemplo disso a série de quadros em que
Monet
mostra a catedral de
Rouen
em momentos diferentes do dia.
A descoberta da realidade que muda a cada minuto
gerou uma pintura de pinceladas fluentes, que provocariam
em
Cézanne
uma reação contrária: ele queria que a nova
pintura se ajustasse a uma estrutura permanente, que ele
admirava nas obras dos museus.
Daí sua opção inovadora, que geraria o cubismo, nascido dessa visão que queria mudar o mundo em pintura, de tal
modo que as maçãs que ele pintou não pretendiam ser a cópia da maçã real: eram pintura.
Não sei que efeito teve essa nova visão da pintura sobre
Van Gogh.
A verdade é que, no começo, ele quis fazer da pintura a cópia dramática do sofrimento humano, particularmente dos mineiros de
Borinage
.
Van Gogh
que vai fascinar
as pessoas e mudar a linguagem pictórica surge depois que
ele conhece a pintura dos impressionistas e especialmente do
impressionismo pontilhista.
Essa mudança da pintura de
Van Gogh
, que abandona as
cores soturnas para entregar-se ao colorido vibrante dos quadros neoimpressionistas é surpreendente, mas, sem dúvida,
própria de uma personalidade que oscila entre atitudes e reações extremadas.
De qualquer modo, por mais surpreendente que seja essa
mudança em seu modo de pintar, ela corresponde a uma
necessidade indiscutível, legítima, tal a extraordinária força
expressiva que constatamos nesses quadros. A conclusão inevitável é que foi na pintura que a personalidade complexa e
angustiada de
Van Gogh
encontrou afinal o modo feliz de
inventar-se. Pintando, ele era saudável.
Mas é necessário acentuar que, a partir da incursão do
pontilhismo,
Van Gogh
descobre seu próprio caminho, tornando-se criador de um universo pictórico que me fascina e
fascina a todos que dele tomam conhecimento. E, no meu caso
pelo menos, quanto mais o frequento, mais novo o descubro.
A verdade é que descobri o que eu já sabia, mas não sabia
tanto. É que, na sua pintura, os capinzais, os arbustos, os roseirais, os pinheiros, o céu estrelado, não são os que conhecemos:
são uma outra realidade por ele criada, feita de pastas de cor,
de pinceladas inesperadas que transformam a paisagem num
mundo gráfico-pictórico, enfim, em algo que só existe ali, nas
telas por ele pintadas.
Não sei se consigo expressá-lo: o que está em suas telas
não é a paisagem real. Como
Cézanne
, mas em outra linguagem, ele mudou o mundo em pintura e a pintura em fascinante delírio. A natureza é bela, mas a beleza de suas telas é
outra, é invenção humana.
(GULLAR, Ferreira. As cores do silêncio. Folha de São Paulo. Agosto de 2014.)
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As cores do silêncio
Bem, chega de falar de política. Hoje vou falar de uma
coisa silenciosa chamada pintura.
Porque acho que a vida é inventada por nós – mas, claro,
dentro das possibilidades reais – creio também, consequentemente, que o acaso desempenha um papel importante nessa
invenção. E na arte também, sem dúvidas.
Mas o artista, para inventar sua obra, trabalha dentro
de determinados princípios que descobre e de que se vale
para impor sua inventividade poética sobre o acaso.
No fundo a criação artística é resultado da opção que o
artista faz entre sua necessidade de criar e os fatores casuais
que envolvem a criação. Em suma, ele torna necessário o
que era mera probabilidade.
Descubro esses pensamentos ao rever um álbum de
obras de
Van Gogh.
Embora já as conhecesse de longa data,
descubro nelas, ainda sim, que a pintura dele é de fato diferente de tudo o que se pintava antes. Todo mundo hoje sabe
disso, claro, mas tive a impressão de que só então, ao rever
suas telas, percebia por quê.
E isso me levou a refletir sobre o que era a pintura, antes
dele, feita pelos impressionistas. Já falei aqui da diferença entre a pintura de ateliê – realizada dentro de casa – e a pintura
impressionista, feita ao ar livre.
Os pintores impressionistas descobriram a cor da paisagem sob a luz solar, a vibração da luz sobre a superfície das
coisas. E, ao descobri-las, descobriram também que o colorido da paisagem muda com o passar das horas: descobriram
o tempo. É exemplo disso a série de quadros em que
Monet
mostra a catedral de
Rouen
em momentos diferentes do dia.
A descoberta da realidade que muda a cada minuto
gerou uma pintura de pinceladas fluentes, que provocariam
em
Cézanne
uma reação contrária: ele queria que a nova
pintura se ajustasse a uma estrutura permanente, que ele
admirava nas obras dos museus.
Daí sua opção inovadora, que geraria o cubismo, nascido dessa visão que queria mudar o mundo em pintura, de tal
modo que as maçãs que ele pintou não pretendiam ser a cópia da maçã real: eram pintura.
Não sei que efeito teve essa nova visão da pintura sobre
Van Gogh.
A verdade é que, no começo, ele quis fazer da pintura a cópia dramática do sofrimento humano, particularmente dos mineiros de
Borinage
.
Van Gogh
que vai fascinar
as pessoas e mudar a linguagem pictórica surge depois que
ele conhece a pintura dos impressionistas e especialmente do
impressionismo pontilhista.
Essa mudança da pintura de
Van Gogh
, que abandona as
cores soturnas para entregar-se ao colorido vibrante dos quadros neoimpressionistas é surpreendente, mas, sem dúvida,
própria de uma personalidade que oscila entre atitudes e reações extremadas.
De qualquer modo, por mais surpreendente que seja essa
mudança em seu modo de pintar, ela corresponde a uma
necessidade indiscutível, legítima, tal a extraordinária força
expressiva que constatamos nesses quadros. A conclusão inevitável é que foi na pintura que a personalidade complexa e
angustiada de
Van Gogh
encontrou afinal o modo feliz de
inventar-se. Pintando, ele era saudável.
Mas é necessário acentuar que, a partir da incursão do
pontilhismo,
Van Gogh
descobre seu próprio caminho, tornando-se criador de um universo pictórico que me fascina e
fascina a todos que dele tomam conhecimento. E, no meu caso
pelo menos, quanto mais o frequento, mais novo o descubro.
A verdade é que descobri o que eu já sabia, mas não sabia
tanto. É que, na sua pintura, os capinzais, os arbustos, os roseirais, os pinheiros, o céu estrelado, não são os que conhecemos:
são uma outra realidade por ele criada, feita de pastas de cor,
de pinceladas inesperadas que transformam a paisagem num
mundo gráfico-pictórico, enfim, em algo que só existe ali, nas
telas por ele pintadas.
Não sei se consigo expressá-lo: o que está em suas telas
não é a paisagem real. Como
Cézanne
, mas em outra linguagem, ele mudou o mundo em pintura e a pintura em fascinante delírio. A natureza é bela, mas a beleza de suas telas é
outra, é invenção humana.
(GULLAR, Ferreira. As cores do silêncio. Folha de São Paulo. Agosto de 2014.)
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- MorfologiaConjunçõesRelações de Causa e Consequência
- Interpretação de TextosSubstituição/Reescritura de Texto
As cores do silêncio
Bem, chega de falar de política. Hoje vou falar de uma
coisa silenciosa chamada pintura.
Porque acho que a vida é inventada por nós – mas, claro,
dentro das possibilidades reais – creio também, consequentemente, que o acaso desempenha um papel importante nessa
invenção. E na arte também, sem dúvidas.
Mas o artista, para inventar sua obra, trabalha dentro
de determinados princípios que descobre e de que se vale
para impor sua inventividade poética sobre o acaso.
No fundo a criação artística é resultado da opção que o
artista faz entre sua necessidade de criar e os fatores casuais
que envolvem a criação. Em suma, ele torna necessário o
que era mera probabilidade.
Descubro esses pensamentos ao rever um álbum de
obras de
Van Gogh.
Embora já as conhecesse de longa data,
descubro nelas, ainda sim, que a pintura dele é de fato diferente de tudo o que se pintava antes. Todo mundo hoje sabe
disso, claro, mas tive a impressão de que só então, ao rever
suas telas, percebia por quê.
E isso me levou a refletir sobre o que era a pintura, antes
dele, feita pelos impressionistas. Já falei aqui da diferença entre a pintura de ateliê – realizada dentro de casa – e a pintura
impressionista, feita ao ar livre.
Os pintores impressionistas descobriram a cor da paisagem sob a luz solar, a vibração da luz sobre a superfície das
coisas. E, ao descobri-las, descobriram também que o colorido da paisagem muda com o passar das horas: descobriram
o tempo. É exemplo disso a série de quadros em que
Monet
mostra a catedral de
Rouen
em momentos diferentes do dia.
A descoberta da realidade que muda a cada minuto
gerou uma pintura de pinceladas fluentes, que provocariam
em
Cézanne
uma reação contrária: ele queria que a nova
pintura se ajustasse a uma estrutura permanente, que ele
admirava nas obras dos museus.
Daí sua opção inovadora, que geraria o cubismo, nascido dessa visão que queria mudar o mundo em pintura, de tal
modo que as maçãs que ele pintou não pretendiam ser a cópia da maçã real: eram pintura.
Não sei que efeito teve essa nova visão da pintura sobre
Van Gogh.
A verdade é que, no começo, ele quis fazer da pintura a cópia dramática do sofrimento humano, particularmente dos mineiros de
Borinage
.
Van Gogh
que vai fascinar
as pessoas e mudar a linguagem pictórica surge depois que
ele conhece a pintura dos impressionistas e especialmente do
impressionismo pontilhista.
Essa mudança da pintura de
Van Gogh
, que abandona as
cores soturnas para entregar-se ao colorido vibrante dos quadros neoimpressionistas é surpreendente, mas, sem dúvida,
própria de uma personalidade que oscila entre atitudes e reações extremadas.
De qualquer modo, por mais surpreendente que seja essa
mudança em seu modo de pintar, ela corresponde a uma
necessidade indiscutível, legítima, tal a extraordinária força
expressiva que constatamos nesses quadros. A conclusão inevitável é que foi na pintura que a personalidade complexa e
angustiada de
Van Gogh
encontrou afinal o modo feliz de
inventar-se. Pintando, ele era saudável.
Mas é necessário acentuar que, a partir da incursão do
pontilhismo,
Van Gogh
descobre seu próprio caminho, tornando-se criador de um universo pictórico que me fascina e
fascina a todos que dele tomam conhecimento. E, no meu caso
pelo menos, quanto mais o frequento, mais novo o descubro.
A verdade é que descobri o que eu já sabia, mas não sabia
tanto. É que, na sua pintura, os capinzais, os arbustos, os roseirais, os pinheiros, o céu estrelado, não são os que conhecemos:
são uma outra realidade por ele criada, feita de pastas de cor,
de pinceladas inesperadas que transformam a paisagem num
mundo gráfico-pictórico, enfim, em algo que só existe ali, nas
telas por ele pintadas.
Não sei se consigo expressá-lo: o que está em suas telas
não é a paisagem real. Como
Cézanne
, mas em outra linguagem, ele mudou o mundo em pintura e a pintura em fascinante delírio. A natureza é bela, mas a beleza de suas telas é
outra, é invenção humana.
(GULLAR, Ferreira. As cores do silêncio. Folha de São Paulo. Agosto de 2014.)
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As cores do silêncio
Bem, chega de falar de política. Hoje vou falar de uma
coisa silenciosa chamada pintura.
Porque acho que a vida é inventada por nós – mas, claro,
dentro das possibilidades reais – creio também, consequentemente, que o acaso desempenha um papel importante nessa
invenção. E na arte também, sem dúvidas.
Mas o artista, para inventar sua obra, trabalha dentro
de determinados princípios que descobre e de que se vale
para impor sua inventividade poética sobre o acaso.
No fundo a criação artística é resultado da opção que o
artista faz entre sua necessidade de criar e os fatores casuais
que envolvem a criação. Em suma, ele torna necessário o
que era mera probabilidade.
Descubro esses pensamentos ao rever um álbum de
obras de
Van Gogh.
Embora já as conhecesse de longa data,
descubro nelas, ainda sim, que a pintura dele é de fato diferente de tudo o que se pintava antes. Todo mundo hoje sabe
disso, claro, mas tive a impressão de que só então, ao rever
suas telas, percebia por quê.
E isso me levou a refletir sobre o que era a pintura, antes
dele, feita pelos impressionistas. Já falei aqui da diferença entre a pintura de ateliê – realizada dentro de casa – e a pintura
impressionista, feita ao ar livre.
Os pintores impressionistas descobriram a cor da paisagem sob a luz solar, a vibração da luz sobre a superfície das
coisas. E, ao descobri-las, descobriram também que o colorido da paisagem muda com o passar das horas: descobriram
o tempo. É exemplo disso a série de quadros em que
Monet
mostra a catedral de
Rouen
em momentos diferentes do dia.
A descoberta da realidade que muda a cada minuto
gerou uma pintura de pinceladas fluentes, que provocariam
em
Cézanne
uma reação contrária: ele queria que a nova
pintura se ajustasse a uma estrutura permanente, que ele
admirava nas obras dos museus.
Daí sua opção inovadora, que geraria o cubismo, nascido dessa visão que queria mudar o mundo em pintura, de tal
modo que as maçãs que ele pintou não pretendiam ser a cópia da maçã real: eram pintura.
Não sei que efeito teve essa nova visão da pintura sobre
Van Gogh.
A verdade é que, no começo, ele quis fazer da pintura a cópia dramática do sofrimento humano, particularmente dos mineiros de
Borinage
.
Van Gogh
que vai fascinar
as pessoas e mudar a linguagem pictórica surge depois que
ele conhece a pintura dos impressionistas e especialmente do
impressionismo pontilhista.
Essa mudança da pintura de
Van Gogh
, que abandona as
cores soturnas para entregar-se ao colorido vibrante dos quadros neoimpressionistas é surpreendente, mas, sem dúvida,
própria de uma personalidade que oscila entre atitudes e reações extremadas.
De qualquer modo, por mais surpreendente que seja essa
mudança em seu modo de pintar, ela corresponde a uma
necessidade indiscutível, legítima, tal a extraordinária força
expressiva que constatamos nesses quadros. A conclusão inevitável é que foi na pintura que a personalidade complexa e
angustiada de
Van Gogh
encontrou afinal o modo feliz de
inventar-se. Pintando, ele era saudável.
Mas é necessário acentuar que, a partir da incursão do
pontilhismo,
Van Gogh
descobre seu próprio caminho, tornando-se criador de um universo pictórico que me fascina e
fascina a todos que dele tomam conhecimento. E, no meu caso
pelo menos, quanto mais o frequento, mais novo o descubro.
A verdade é que descobri o que eu já sabia, mas não sabia
tanto. É que, na sua pintura, os capinzais, os arbustos, os roseirais, os pinheiros, o céu estrelado, não são os que conhecemos:
são uma outra realidade por ele criada, feita de pastas de cor,
de pinceladas inesperadas que transformam a paisagem num
mundo gráfico-pictórico, enfim, em algo que só existe ali, nas
telas por ele pintadas.
Não sei se consigo expressá-lo: o que está em suas telas
não é a paisagem real. Como
Cézanne
, mas em outra linguagem, ele mudou o mundo em pintura e a pintura em fascinante delírio. A natureza é bela, mas a beleza de suas telas é
outra, é invenção humana.
(GULLAR, Ferreira. As cores do silêncio. Folha de São Paulo. Agosto de 2014.)
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Questão presente nas seguintes provas
As cores do silêncio
Bem, chega de falar de política. Hoje vou falar de uma
coisa silenciosa chamada pintura.
Porque acho que a vida é inventada por nós – mas, claro,
dentro das possibilidades reais – creio também, consequentemente, que o acaso desempenha um papel importante nessa
invenção. E na arte também, sem dúvidas.
Mas o artista, para inventar sua obra, trabalha dentro
de determinados princípios que descobre e de que se vale
para impor sua inventividade poética sobre o acaso.
No fundo a criação artística é resultado da opção que o
artista faz entre sua necessidade de criar e os fatores casuais
que envolvem a criação. Em suma, ele torna necessário o
que era mera probabilidade.
Descubro esses pensamentos ao rever um álbum de
obras de
Van Gogh.
Embora já as conhecesse de longa data,
descubro nelas, ainda sim, que a pintura dele é de fato diferente de tudo o que se pintava antes. Todo mundo hoje sabe
disso, claro, mas tive a impressão de que só então, ao rever
suas telas, percebia por quê.
E isso me levou a refletir sobre o que era a pintura, antes
dele, feita pelos impressionistas. Já falei aqui da diferença entre a pintura de ateliê – realizada dentro de casa – e a pintura
impressionista, feita ao ar livre.
Os pintores impressionistas descobriram a cor da paisagem sob a luz solar, a vibração da luz sobre a superfície das
coisas. E, ao descobri-las, descobriram também que o colorido da paisagem muda com o passar das horas: descobriram
o tempo. É exemplo disso a série de quadros em que
Monet
mostra a catedral de
Rouen
em momentos diferentes do dia.
A descoberta da realidade que muda a cada minuto
gerou uma pintura de pinceladas fluentes, que provocariam
em
Cézanne
uma reação contrária: ele queria que a nova
pintura se ajustasse a uma estrutura permanente, que ele
admirava nas obras dos museus.
Daí sua opção inovadora, que geraria o cubismo, nascido dessa visão que queria mudar o mundo em pintura, de tal
modo que as maçãs que ele pintou não pretendiam ser a cópia da maçã real: eram pintura.
Não sei que efeito teve essa nova visão da pintura sobre
Van Gogh.
A verdade é que, no começo, ele quis fazer da pintura a cópia dramática do sofrimento humano, particularmente dos mineiros de
Borinage
.
Van Gogh
que vai fascinar
as pessoas e mudar a linguagem pictórica surge depois que
ele conhece a pintura dos impressionistas e especialmente do
impressionismo pontilhista.
Essa mudança da pintura de
Van Gogh
, que abandona as
cores soturnas para entregar-se ao colorido vibrante dos quadros neoimpressionistas é surpreendente, mas, sem dúvida,
própria de uma personalidade que oscila entre atitudes e reações extremadas.
De qualquer modo, por mais surpreendente que seja essa
mudança em seu modo de pintar, ela corresponde a uma
necessidade indiscutível, legítima, tal a extraordinária força
expressiva que constatamos nesses quadros. A conclusão inevitável é que foi na pintura que a personalidade complexa e
angustiada de
Van Gogh
encontrou afinal o modo feliz de
inventar-se. Pintando, ele era saudável.
Mas é necessário acentuar que, a partir da incursão do
pontilhismo,
Van Gogh
descobre seu próprio caminho, tornando-se criador de um universo pictórico que me fascina e
fascina a todos que dele tomam conhecimento. E, no meu caso
pelo menos, quanto mais o frequento, mais novo o descubro.
A verdade é que descobri o que eu já sabia, mas não sabia
tanto. É que, na sua pintura, os capinzais, os arbustos, os roseirais, os pinheiros, o céu estrelado, não são os que conhecemos:
são uma outra realidade por ele criada, feita de pastas de cor,
de pinceladas inesperadas que transformam a paisagem num
mundo gráfico-pictórico, enfim, em algo que só existe ali, nas
telas por ele pintadas.
Não sei se consigo expressá-lo: o que está em suas telas
não é a paisagem real. Como
Cézanne
, mas em outra linguagem, ele mudou o mundo em pintura e a pintura em fascinante delírio. A natureza é bela, mas a beleza de suas telas é
outra, é invenção humana.
(GULLAR, Ferreira. As cores do silêncio. Folha de São Paulo. Agosto de 2014.)
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Questão presente nas seguintes provas
As cores do silêncio
Bem, chega de falar de política. Hoje vou falar de uma
coisa silenciosa chamada pintura.
Porque acho que a vida é inventada por nós – mas, claro,
dentro das possibilidades reais – creio também, consequentemente, que o acaso desempenha um papel importante nessa
invenção. E na arte também, sem dúvidas.
Mas o artista, para inventar sua obra, trabalha dentro
de determinados princípios que descobre e de que se vale
para impor sua inventividade poética sobre o acaso.
No fundo a criação artística é resultado da opção que o
artista faz entre sua necessidade de criar e os fatores casuais
que envolvem a criação. Em suma, ele torna necessário o
que era mera probabilidade.
Descubro esses pensamentos ao rever um álbum de
obras de
Van Gogh.
Embora já as conhecesse de longa data,
descubro nelas, ainda sim, que a pintura dele é de fato diferente de tudo o que se pintava antes. Todo mundo hoje sabe
disso, claro, mas tive a impressão de que só então, ao rever
suas telas, percebia por quê.
E isso me levou a refletir sobre o que era a pintura, antes
dele, feita pelos impressionistas. Já falei aqui da diferença entre a pintura de ateliê – realizada dentro de casa – e a pintura
impressionista, feita ao ar livre.
Os pintores impressionistas descobriram a cor da paisagem sob a luz solar, a vibração da luz sobre a superfície das
coisas. E, ao descobri-las, descobriram também que o colorido da paisagem muda com o passar das horas: descobriram
o tempo. É exemplo disso a série de quadros em que
Monet
mostra a catedral de
Rouen
em momentos diferentes do dia.
A descoberta da realidade que muda a cada minuto
gerou uma pintura de pinceladas fluentes, que provocariam
em
Cézanne
uma reação contrária: ele queria que a nova
pintura se ajustasse a uma estrutura permanente, que ele
admirava nas obras dos museus.
Daí sua opção inovadora, que geraria o cubismo, nascido dessa visão que queria mudar o mundo em pintura, de tal
modo que as maçãs que ele pintou não pretendiam ser a cópia da maçã real: eram pintura.
Não sei que efeito teve essa nova visão da pintura sobre
Van Gogh.
A verdade é que, no começo, ele quis fazer da pintura a cópia dramática do sofrimento humano, particularmente dos mineiros de
Borinage
.
Van Gogh
que vai fascinar
as pessoas e mudar a linguagem pictórica surge depois que
ele conhece a pintura dos impressionistas e especialmente do
impressionismo pontilhista.
Essa mudança da pintura de
Van Gogh
, que abandona as
cores soturnas para entregar-se ao colorido vibrante dos quadros neoimpressionistas é surpreendente, mas, sem dúvida,
própria de uma personalidade que oscila entre atitudes e reações extremadas.
De qualquer modo, por mais surpreendente que seja essa
mudança em seu modo de pintar, ela corresponde a uma
necessidade indiscutível, legítima, tal a extraordinária força
expressiva que constatamos nesses quadros. A conclusão inevitável é que foi na pintura que a personalidade complexa e
angustiada de
Van Gogh
encontrou afinal o modo feliz de
inventar-se. Pintando, ele era saudável.
Mas é necessário acentuar que, a partir da incursão do
pontilhismo,
Van Gogh
descobre seu próprio caminho, tornando-se criador de um universo pictórico que me fascina e
fascina a todos que dele tomam conhecimento. E, no meu caso
pelo menos, quanto mais o frequento, mais novo o descubro.
A verdade é que descobri o que eu já sabia, mas não sabia
tanto. É que, na sua pintura, os capinzais, os arbustos, os roseirais, os pinheiros, o céu estrelado, não são os que conhecemos:
são uma outra realidade por ele criada, feita de pastas de cor,
de pinceladas inesperadas que transformam a paisagem num
mundo gráfico-pictórico, enfim, em algo que só existe ali, nas
telas por ele pintadas.
Não sei se consigo expressá-lo: o que está em suas telas
não é a paisagem real. Como
Cézanne
, mas em outra linguagem, ele mudou o mundo em pintura e a pintura em fascinante delírio. A natureza é bela, mas a beleza de suas telas é
outra, é invenção humana.
(GULLAR, Ferreira. As cores do silêncio. Folha de São Paulo. Agosto de 2014.)
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As cores do silêncio
Bem, chega de falar de política. Hoje vou falar de uma
coisa silenciosa chamada pintura.
Porque acho que a vida é inventada por nós – mas, claro,
dentro das possibilidades reais – creio também, consequentemente, que o acaso desempenha um papel importante nessa
invenção. E na arte também, sem dúvidas.
Mas o artista, para inventar sua obra, trabalha dentro
de determinados princípios que descobre e de que se vale
para impor sua inventividade poética sobre o acaso.
No fundo a criação artística é resultado da opção que o
artista faz entre sua necessidade de criar e os fatores casuais
que envolvem a criação. Em suma, ele torna necessário o
que era mera probabilidade.
Descubro esses pensamentos ao rever um álbum de
obras de
Van Gogh.
Embora já as conhecesse de longa data,
descubro nelas, ainda sim, que a pintura dele é de fato diferente de tudo o que se pintava antes. Todo mundo hoje sabe
disso, claro, mas tive a impressão de que só então, ao rever
suas telas, percebia por quê.
E isso me levou a refletir sobre o que era a pintura, antes
dele, feita pelos impressionistas. Já falei aqui da diferença entre a pintura de ateliê – realizada dentro de casa – e a pintura
impressionista, feita ao ar livre.
Os pintores impressionistas descobriram a cor da paisagem sob a luz solar, a vibração da luz sobre a superfície das
coisas. E, ao descobri-las, descobriram também que o colorido da paisagem muda com o passar das horas: descobriram
o tempo. É exemplo disso a série de quadros em que
Monet
mostra a catedral de
Rouen
em momentos diferentes do dia.
A descoberta da realidade que muda a cada minuto
gerou uma pintura de pinceladas fluentes, que provocariam
em
Cézanne
uma reação contrária: ele queria que a nova
pintura se ajustasse a uma estrutura permanente, que ele
admirava nas obras dos museus.
Daí sua opção inovadora, que geraria o cubismo, nascido dessa visão que queria mudar o mundo em pintura, de tal
modo que as maçãs que ele pintou não pretendiam ser a cópia da maçã real: eram pintura.
Não sei que efeito teve essa nova visão da pintura sobre
Van Gogh.
A verdade é que, no começo, ele quis fazer da pintura a cópia dramática do sofrimento humano, particularmente dos mineiros de
Borinage
.
Van Gogh
que vai fascinar
as pessoas e mudar a linguagem pictórica surge depois que
ele conhece a pintura dos impressionistas e especialmente do
impressionismo pontilhista.
Essa mudança da pintura de
Van Gogh
, que abandona as
cores soturnas para entregar-se ao colorido vibrante dos quadros neoimpressionistas é surpreendente, mas, sem dúvida,
própria de uma personalidade que oscila entre atitudes e reações extremadas.
De qualquer modo, por mais surpreendente que seja essa
mudança em seu modo de pintar, ela corresponde a uma
necessidade indiscutível, legítima, tal a extraordinária força
expressiva que constatamos nesses quadros. A conclusão inevitável é que foi na pintura que a personalidade complexa e
angustiada de
Van Gogh
encontrou afinal o modo feliz de
inventar-se. Pintando, ele era saudável.
Mas é necessário acentuar que, a partir da incursão do
pontilhismo,
Van Gogh
descobre seu próprio caminho, tornando-se criador de um universo pictórico que me fascina e
fascina a todos que dele tomam conhecimento. E, no meu caso
pelo menos, quanto mais o frequento, mais novo o descubro.
A verdade é que descobri o que eu já sabia, mas não sabia
tanto. É que, na sua pintura, os capinzais, os arbustos, os roseirais, os pinheiros, o céu estrelado, não são os que conhecemos:
são uma outra realidade por ele criada, feita de pastas de cor,
de pinceladas inesperadas que transformam a paisagem num
mundo gráfico-pictórico, enfim, em algo que só existe ali, nas
telas por ele pintadas.
Não sei se consigo expressá-lo: o que está em suas telas
não é a paisagem real. Como
Cézanne
, mas em outra linguagem, ele mudou o mundo em pintura e a pintura em fascinante delírio. A natureza é bela, mas a beleza de suas telas é
outra, é invenção humana.
(GULLAR, Ferreira. As cores do silêncio. Folha de São Paulo. Agosto de 2014.)
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Questão presente nas seguintes provas
As cores do silêncio
Bem, chega de falar de política. Hoje vou falar de uma
coisa silenciosa chamada pintura.
Porque acho que a vida é inventada por nós – mas, claro,
dentro das possibilidades reais – creio também, consequentemente, que o acaso desempenha um papel importante nessa
invenção. E na arte também, sem dúvidas.
Mas o artista, para inventar sua obra, trabalha dentro
de determinados princípios que descobre e de que se vale
para impor sua inventividade poética sobre o acaso.
No fundo a criação artística é resultado da opção que o
artista faz entre sua necessidade de criar e os fatores casuais
que envolvem a criação. Em suma, ele torna necessário o
que era mera probabilidade.
Descubro esses pensamentos ao rever um álbum de
obras de
Van Gogh.
Embora já as conhecesse de longa data,
descubro nelas, ainda sim, que a pintura dele é de fato diferente de tudo o que se pintava antes. Todo mundo hoje sabe
disso, claro, mas tive a impressão de que só então, ao rever
suas telas, percebia por quê.
E isso me levou a refletir sobre o que era a pintura, antes
dele, feita pelos impressionistas. Já falei aqui da diferença entre a pintura de ateliê – realizada dentro de casa – e a pintura
impressionista, feita ao ar livre.
Os pintores impressionistas descobriram a cor da paisagem sob a luz solar, a vibração da luz sobre a superfície das
coisas. E, ao descobri-las, descobriram também que o colorido da paisagem muda com o passar das horas: descobriram
o tempo. É exemplo disso a série de quadros em que
Monet
mostra a catedral de
Rouen
em momentos diferentes do dia.
A descoberta da realidade que muda a cada minuto
gerou uma pintura de pinceladas fluentes, que provocariam
em
Cézanne
uma reação contrária: ele queria que a nova
pintura se ajustasse a uma estrutura permanente, que ele
admirava nas obras dos museus.
Daí sua opção inovadora, que geraria o cubismo, nascido dessa visão que queria mudar o mundo em pintura, de tal
modo que as maçãs que ele pintou não pretendiam ser a cópia da maçã real: eram pintura.
Não sei que efeito teve essa nova visão da pintura sobre
Van Gogh.
A verdade é que, no começo, ele quis fazer da pintura a cópia dramática do sofrimento humano, particularmente dos mineiros de
Borinage
.
Van Gogh
que vai fascinar
as pessoas e mudar a linguagem pictórica surge depois que
ele conhece a pintura dos impressionistas e especialmente do
impressionismo pontilhista.
Essa mudança da pintura de
Van Gogh
, que abandona as
cores soturnas para entregar-se ao colorido vibrante dos quadros neoimpressionistas é surpreendente, mas, sem dúvida,
própria de uma personalidade que oscila entre atitudes e reações extremadas.
De qualquer modo, por mais surpreendente que seja essa
mudança em seu modo de pintar, ela corresponde a uma
necessidade indiscutível, legítima, tal a extraordinária força
expressiva que constatamos nesses quadros. A conclusão inevitável é que foi na pintura que a personalidade complexa e
angustiada de
Van Gogh
encontrou afinal o modo feliz de
inventar-se. Pintando, ele era saudável.
Mas é necessário acentuar que, a partir da incursão do
pontilhismo,
Van Gogh
descobre seu próprio caminho, tornando-se criador de um universo pictórico que me fascina e
fascina a todos que dele tomam conhecimento. E, no meu caso
pelo menos, quanto mais o frequento, mais novo o descubro.
A verdade é que descobri o que eu já sabia, mas não sabia
tanto. É que, na sua pintura, os capinzais, os arbustos, os roseirais, os pinheiros, o céu estrelado, não são os que conhecemos:
são uma outra realidade por ele criada, feita de pastas de cor,
de pinceladas inesperadas que transformam a paisagem num
mundo gráfico-pictórico, enfim, em algo que só existe ali, nas
telas por ele pintadas.
Não sei se consigo expressá-lo: o que está em suas telas
não é a paisagem real. Como
Cézanne
, mas em outra linguagem, ele mudou o mundo em pintura e a pintura em fascinante delírio. A natureza é bela, mas a beleza de suas telas é
outra, é invenção humana.
(GULLAR, Ferreira. As cores do silêncio. Folha de São Paulo. Agosto de 2014.)
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As cores do silêncio
Bem, chega de falar de política. Hoje vou falar de uma
coisa silenciosa chamada pintura.
Porque acho que a vida é inventada por nós – mas, claro,
dentro das possibilidades reais – creio também, consequentemente, que o acaso desempenha um papel importante nessa
invenção. E na arte também, sem dúvidas.
Mas o artista, para inventar sua obra, trabalha dentro
de determinados princípios que descobre e de que se vale
para impor sua inventividade poética sobre o acaso.
No fundo a criação artística é resultado da opção que o
artista faz entre sua necessidade de criar e os fatores casuais
que envolvem a criação. Em suma, ele torna necessário o
que era mera probabilidade.
Descubro esses pensamentos ao rever um álbum de
obras de
Van Gogh.
Embora já as conhecesse de longa data,
descubro nelas, ainda sim, que a pintura dele é de fato diferente de tudo o que se pintava antes. Todo mundo hoje sabe
disso, claro, mas tive a impressão de que só então, ao rever
suas telas, percebia por quê.
E isso me levou a refletir sobre o que era a pintura, antes
dele, feita pelos impressionistas. Já falei aqui da diferença entre a pintura de ateliê – realizada dentro de casa – e a pintura
impressionista, feita ao ar livre.
Os pintores impressionistas descobriram a cor da paisagem sob a luz solar, a vibração da luz sobre a superfície das
coisas. E, ao descobri-las, descobriram também que o colorido da paisagem muda com o passar das horas: descobriram
o tempo. É exemplo disso a série de quadros em que
Monet
mostra a catedral de
Rouen
em momentos diferentes do dia.
A descoberta da realidade que muda a cada minuto
gerou uma pintura de pinceladas fluentes, que provocariam
em
Cézanne
uma reação contrária: ele queria que a nova
pintura se ajustasse a uma estrutura permanente, que ele
admirava nas obras dos museus.
Daí sua opção inovadora, que geraria o cubismo, nascido dessa visão que queria mudar o mundo em pintura, de tal
modo que as maçãs que ele pintou não pretendiam ser a cópia da maçã real: eram pintura.
Não sei que efeito teve essa nova visão da pintura sobre
Van Gogh.
A verdade é que, no começo, ele quis fazer da pintura a cópia dramática do sofrimento humano, particularmente dos mineiros de
Borinage
.
Van Gogh
que vai fascinar
as pessoas e mudar a linguagem pictórica surge depois que
ele conhece a pintura dos impressionistas e especialmente do
impressionismo pontilhista.
Essa mudança da pintura de
Van Gogh
, que abandona as
cores soturnas para entregar-se ao colorido vibrante dos quadros neoimpressionistas é surpreendente, mas, sem dúvida,
própria de uma personalidade que oscila entre atitudes e reações extremadas.
De qualquer modo, por mais surpreendente que seja essa
mudança em seu modo de pintar, ela corresponde a uma
necessidade indiscutível, legítima, tal a extraordinária força
expressiva que constatamos nesses quadros. A conclusão inevitável é que foi na pintura que a personalidade complexa e
angustiada de
Van Gogh
encontrou afinal o modo feliz de
inventar-se. Pintando, ele era saudável.
Mas é necessário acentuar que, a partir da incursão do
pontilhismo,
Van Gogh
descobre seu próprio caminho, tornando-se criador de um universo pictórico que me fascina e
fascina a todos que dele tomam conhecimento. E, no meu caso
pelo menos, quanto mais o frequento, mais novo o descubro.
A verdade é que descobri o que eu já sabia, mas não sabia
tanto. É que, na sua pintura, os capinzais, os arbustos, os roseirais, os pinheiros, o céu estrelado, não são os que conhecemos:
são uma outra realidade por ele criada, feita de pastas de cor,
de pinceladas inesperadas que transformam a paisagem num
mundo gráfico-pictórico, enfim, em algo que só existe ali, nas
telas por ele pintadas.
Não sei se consigo expressá-lo: o que está em suas telas
não é a paisagem real. Como
Cézanne
, mas em outra linguagem, ele mudou o mundo em pintura e a pintura em fascinante delírio. A natureza é bela, mas a beleza de suas telas é
outra, é invenção humana.
(GULLAR, Ferreira. As cores do silêncio. Folha de São Paulo. Agosto de 2014.)
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