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2538266 Ano: 2016
Disciplina: Português
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: IRB
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Texto
Em suas remotas origens helênicas, o termo “caráter” significou gravar. Empregavam-no, então, tanto para exprimir o sinete como a marca deixada na cera dócil. Essa dupla significação ainda hoje é vernácula — se não corrente — em certas acepções. Na linguagem tipográfica, por exemplo, “caráter” tanto é o tipo da imprensa como o sinal ou a letra gravada. Assim sendo, podemos dizer que o caráter de um homem não é somente o seu feitio moral, senão também a expressão e a impressão do indivíduo. Em arte, caráter será a personalidade do autor, o aspecto aparente e profundo da obra e o efeito dela. Fixada assim a verdadeira acepção do termo, podemos afirmar que o mérito maior do poema do Sr. Menotti del Picchia é “o caráter”. Poesia profundamente simples e pessoal, de inspiração larga e sadia, tem a força das obras bem concebidas e a beleza das coisas naturais. Poesia de corpos simples, poderíamos dizer, pela sobriedade de linhas no sentimento, no pensamento e na expressão. Sente-se que o autor procurou a naturalidade e não a arte, que é o melhor caminho para atingir a esta.
O segredo da arte é a naturalidade sem prejuízo da perfeição.
O Sr. Menotti del Picchia ainda não pôde naturalmente desvendar o segredo da arte. Se no buscar a expressão natural do seu lirismo alcançou a arte, não se despojou ainda das incertezas dessa procura, de certa fraqueza de técnica. Defeitos são todos estes transitórios, quase necessários em quem apenas se inicia.
A essência do livro é excelente.
Indica no autor uma personalidade inconfundível, que procura em si mesmo ou em torno de si os motivos de sua estética. Nem se distingue pela obsessão do isolamento, nem se perde por modelos estranhos. Daí lhe vem a superioridade de caráter individual. Se o caráter do autor provém dessa independência sem esforço, reside o da obra em sua originalidade natural; na conformidade com o meio, em uma perfeita radicação no solo pátrio, na simplicidade da construção e nas perfeitas proporções do ímpeto poético. O próprio desconcerto, em pormenores do poema principal e de outras produções secundárias, concorre para a individualidade desse esplêndido ensaio.
O caráter desse livro se conserva pela ressonância que tem. Não são versos agradáveis, suaves ou elegantes, que com tanto agrado se leem quanto facilmente se esquecem. São versos que lidos — ficam; gravam-se invencivelmente na memória, ora destacados, ora em bloco. A crítica, no julgar e no decompor as obras, não pode desprezar a intuição, se não é principalmente isso. E um dos mais seguros processos de intuição, no distinguir o valor das obras, é esse da permanência das sensações.
Os poemas do Sr. Menotti del Picchia deixam uma funda impressão de sua leitura: não pode haver melhor demonstração do seu “caráter”. Quando essa impressão não se limitar aos leitores e aos críticos, e se estender à própria literatura nacional, terá a sua poesia atingido o grau supremo que lhe auguro.
Juca Mulato é um poema simples. Encerra uma lição profunda na singeleza do motivo e da intenção. É certo que a evidência da beleza não pode ser em arte um critério axiomático. Quantas vezes a paciência é o melhor guia da emoção estética? A exegese das sinfonias de Beethoven, como a dos dramas musicais de Wagner, aumenta a nossa receptividade para essa arte de titãs, se bem que a intuição íntima e a explicação individual sejam imprescindíveis.
O poema do Sr. Menotti del Picchia tem a simplicidade e a frescura das criações espontâneas e necessárias, onde o esforço da composição permanece obscuro como deve.
Para lhe realçar a beleza não se sente a crítica compelida a buscar símbolos problemáticos ou filosofias arbitrárias. Sendo o que é — um mal de amor impossível que leva a alma à desesperança, para se resignar depois e ressurgir consolada pela visão da terra amada, da felicidade atingível e do sonho necessário —, comove pelo simples aspecto de suas linhas harmoniosas.
A beleza maior do poema, que é também o seu caráter, está na sua simplicidade radical. O poeta reprimiu voluntariamente as possíveis exuberâncias ou ambições de seu lirismo para ficar dentro do assunto que escolheu. Ganhou com isso um grande poder virtual e marca mais do que se quisesse marcar: a acústica de uma construção humana nunca chega à acuidade de um eco natural.
Juca Mulato é a reconciliação do homem consigo mesmo, do brasileiro com sua terra, do bárbaro com seu isolamento. Reconciliação às vezes impossível, outras ilusória, 85 sempre necessária, raramente realizada. O consolo de Juca Mulato é a indicação do caminho a seguir.
Alceu Amoroso Lima. Um poeta. In: Estudos literários. Rio de Janeiro: Aguilar, 1966, p.133-5 (com adaptações).
Com relação às ideias desenvolvidas no texto, julgue o item a seguir.
Na percepção do autor do texto, a simplicidade do poema Juca Mulato resulta da combinação entre a “obsessão do isolamento” e os “modelos estranhos” à criação literária.
 

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2538265 Ano: 2016
Disciplina: Português
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: IRB
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Texto
Em suas remotas origens helênicas, o termo “caráter” significou gravar. Empregavam-no, então, tanto para exprimir o sinete como a marca deixada na cera dócil. Essa dupla significação ainda hoje é vernácula — se não corrente — em certas acepções. Na linguagem tipográfica, por exemplo, “caráter” tanto é o tipo da imprensa como o sinal ou a letra gravada. Assim sendo, podemos dizer que o caráter de um homem não é somente o seu feitio moral, senão também a expressão e a impressão do indivíduo. Em arte, caráter será a personalidade do autor, o aspecto aparente e profundo da obra e o efeito dela. Fixada assim a verdadeira acepção do termo, podemos afirmar que o mérito maior do poema do Sr. Menotti del Picchia é “o caráter”. Poesia profundamente simples e pessoal, de inspiração larga e sadia, tem a força das obras bem concebidas e a beleza das coisas naturais. Poesia de corpos simples, poderíamos dizer, pela sobriedade de linhas no sentimento, no pensamento e na expressão. Sente-se que o autor procurou a naturalidade e não a arte, que é o melhor caminho para atingir a esta.
O segredo da arte é a naturalidade sem prejuízo da perfeição.
O Sr. Menotti del Picchia ainda não pôde naturalmente desvendar o segredo da arte. Se no buscar a expressão natural do seu lirismo alcançou a arte, não se despojou ainda das incertezas dessa procura, de certa fraqueza de técnica. Defeitos são todos estes transitórios, quase necessários em quem apenas se inicia.
A essência do livro é excelente.
Indica no autor uma personalidade inconfundível, que procura em si mesmo ou em torno de si os motivos de sua estética. Nem se distingue pela obsessão do isolamento, nem se perde por modelos estranhos. Daí lhe vem a superioridade de caráter individual. Se o caráter do autor provém dessa independência sem esforço, reside o da obra em sua originalidade natural; na conformidade com o meio, em uma perfeita radicação no solo pátrio, na simplicidade da construção e nas perfeitas proporções do ímpeto poético. O próprio desconcerto, em pormenores do poema principal e de outras produções secundárias, concorre para a individualidade desse esplêndido ensaio.
O caráter desse livro se conserva pela ressonância que tem. Não são versos agradáveis, suaves ou elegantes, que com tanto agrado se leem quanto facilmente se esquecem. São versos que lidos — ficam; gravam-se invencivelmente na memória, ora destacados, ora em bloco. A crítica, no julgar e no decompor as obras, não pode desprezar a intuição, se não é principalmente isso. E um dos mais seguros processos de intuição, no distinguir o valor das obras, é esse da permanência das sensações.
Os poemas do Sr. Menotti del Picchia deixam uma funda impressão de sua leitura: não pode haver melhor demonstração do seu “caráter”. Quando essa impressão não se limitar aos leitores e aos críticos, e se estender à própria literatura nacional, terá a sua poesia atingido o grau supremo que lhe auguro.
Juca Mulato é um poema simples. Encerra uma lição profunda na singeleza do motivo e da intenção. É certo que a evidência da beleza não pode ser em arte um critério axiomático. Quantas vezes a paciência é o melhor guia da emoção estética? A exegese das sinfonias de Beethoven, como a dos dramas musicais de Wagner, aumenta a nossa receptividade para essa arte de titãs, se bem que a intuição íntima e a explicação individual sejam imprescindíveis.
O poema do Sr. Menotti del Picchia tem a simplicidade e a frescura das criações espontâneas e necessárias, onde o esforço da composição permanece obscuro como deve.
Para lhe realçar a beleza não se sente a crítica compelida a buscar símbolos problemáticos ou filosofias arbitrárias. Sendo o que é — um mal de amor impossível que leva a alma à desesperança, para se resignar depois e ressurgir consolada pela visão da terra amada, da felicidade atingível e do sonho necessário —, comove pelo simples aspecto de suas linhas harmoniosas.
A beleza maior do poema, que é também o seu caráter, está na sua simplicidade radical. O poeta reprimiu voluntariamente as possíveis exuberâncias ou ambições de seu lirismo para ficar dentro do assunto que escolheu. Ganhou com isso um grande poder virtual e marca mais do que se quisesse marcar: a acústica de uma construção humana nunca chega à acuidade de um eco natural.
Juca Mulato é a reconciliação do homem consigo mesmo, do brasileiro com sua terra, do bárbaro com seu isolamento. Reconciliação às vezes impossível, outras ilusória, 85 sempre necessária, raramente realizada. O consolo de Juca Mulato é a indicação do caminho a seguir.
Alceu Amoroso Lima. Um poeta. In: Estudos literários. Rio de Janeiro: Aguilar, 1966, p.133-5 (com adaptações).
Com relação às ideias desenvolvidas no texto, julgue o item a seguir.
O autor do excerto afirma que a crítica precisa levar em conta a intuição no julgamento e na análise da obra de arte.
 

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2538264 Ano: 2016
Disciplina: Português
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: IRB
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Texto
Pergunto: e agora? Como é que meu Padrinho foi degolado num quarto de pesadas paredes sem janelas, cuja porta fora trancada, por dentro, por ele mesmo? Como foi que os assassinos ali penetraram, sem ter por onde? Como foi que saíram, deixando o quarto trancado por dentro? Quem foram esses assassinos? Como foi que raptaram Sinésio, aquele rapaz alumioso, que concentrava em si as esperanças dos Sertanejos por um Reino de glória, de justiça, de beleza e de grandeza para todos? Bem, não posso avançar nada, porque aí é que está o nó! Este é o “centro de enigma e sangue” da minha história. Lembro que o genial poeta Nicolau Fagundes Varela adverte todos nós, Brasileiros, de que “os irônicos estrangeiros” vivem sempre vigilantes, sempre à espreita do menor deslize nosso para, então, “ridicularizar o pátrio pensamento”:
Fatal destino o dos brasílios Mestres!
Fatal destino o dos brasílios Vates!
Política nefanda, horrenda e negra,
pestilento Bulcão abafa e mata
quanto, aos olhos de irônico estrangeiro,
podia honrar o pátrio pensamento!
Ora, um dos argumentos que os “irônicos estrangeiros” mais invocam para isso é dizer que nós, Brasileiros, somos incapazes de forjar uma verdadeira trança, uma intrincada teia, um insolúvel enredo de “romance de crime e sangue”. Dizem eles que não é necessário nem um adulto dotado de argúcia especial: qualquer adolescente estrangeiro é capaz de decifrar os enigmas brasileiros, os quais, tecidos por um Povo superficial, à luz de um Sol por demais luminoso, são pouco sombrios, pouco maldosos e subterrâneos, transparentes ao primeiro exame, facílimos de desenredar.
Ah, e se fossem somente os estrangeiros, ainda ia: mas até o excelso Gênio brasileiro Tobias Barreto, aí é demais! Diz Tobias Barreto que, no Brasil, é impossível aparecer um “romance de gênio”, porque “a nossa vida pública e particular não é bastante fértil de peripécias e lances romanescos”. Lamenta que seja raro, entre nós, “um amor sincero, delirante, terrível e sanguinário”, ou que, quando apareça, seja num velho como o Desembargador Pontes Visgueiro, o célebre assassino alagoano do Segundo Império. E comenta, ácido: “Um ou outro crime, mesmo, que porventura erga a cabeça acima do nível da vulgaridade, são coisas que não desmancham a impressão geral da monotonia contínua. Até na estatística criminal o nosso país revela-se mesquinho. O delito mais comum é justamente o mais frívolo e estúpido: o furto de cavalos”.
A gente lê uma coisa dessas e fica até desanimado, julgando ser impossível a um Brasileiro ultrapassar Homero e outros conceituados gênios estrangeiros! A sorte é que, na mesma hora, o Doutor Samuel nos lembra que a conquista da América Latina “foi uma Epopeia”. Vemos que somos muito maiores do que a Grécia — aquela porqueirinha de terra! — e aí descansamos o pobre coração, amargurado pelas injustiças, mas também incendiado de esperanças! Sim, nobres Senhores e belas Damas: porque eu, Dom Pedro Quaderna (Quaderna, O Astrólogo, Quaderna, O Decifrador, como tantas vezes fui chamado); eu, Poeta-guerreiro e soberano de um Reino cujos súditos são, quase todos, cavalarianos, trocadores e ladrões de cavalo, desafio qualquer irônico, estrangeiro ou Brasileiro, primeiro a narrar uma história de amor mais sangrenta, terrível, cruel e delirante do que a minha; e, depois, a decifrar, antes que eu o faça, o centro enigmático de crime e sangue da minha história, isto é, a degola do meu Padrinho e a “desaparição profética” de seu filho Sinésio, O Alumioso, esperança e bandeira do Reino Sertanejo.
Ariano Suassuna. A pedra do reino. Rio de Janeiro: José Olympio, 1972, 3.ª ed., p. 27-30 (com adaptações).
Com referência ao texto, julgue o item que se segue.
No excerto apresentado, são exemplos do uso da linguagem formal escrita: a construção com o pronome relativo “cujos” e o emprego da forma verbal “faça” na oração “antes que eu o faça”.
 

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2538263 Ano: 2016
Disciplina: Português
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: IRB
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Pergunto: e agora? Como é que meu Padrinho foi degolado num quarto de pesadas paredes sem janelas, cuja porta fora trancada, por dentro, por ele mesmo? Como foi que os assassinos ali penetraram, sem ter por onde? Como foi que saíram, deixando o quarto trancado por dentro? Quem foram esses assassinos? Como foi que raptaram Sinésio, aquele rapaz alumioso, que concentrava em si as esperanças dos Sertanejos por um Reino de glória, de justiça, de beleza e de grandeza para todos? Bem, não posso avançar nada, porque aí é que está o nó! Este é o “centro de enigma e sangue” da minha história. Lembro que o genial poeta Nicolau Fagundes Varela adverte todos nós, Brasileiros, de que “os irônicos estrangeiros” vivem sempre vigilantes, sempre à espreita do menor deslize nosso para, então, “ridicularizar o pátrio pensamento”:
Fatal destino o dos brasílios Mestres!
Fatal destino o dos brasílios Vates!
Política nefanda, horrenda e negra,
pestilento Bulcão abafa e mata
quanto, aos olhos de irônico estrangeiro,
podia honrar o pátrio pensamento!
Ora, um dos argumentos que os “irônicos estrangeiros” mais invocam para isso é dizer que nós, Brasileiros, somos incapazes de forjar uma verdadeira trança, uma intrincada teia, um insolúvel enredo de “romance de crime e sangue”. Dizem eles que não é necessário nem um adulto dotado de argúcia especial: qualquer adolescente estrangeiro é capaz de decifrar os enigmas brasileiros, os quais, tecidos por um Povo superficial, à luz de um Sol por demais luminoso, são pouco sombrios, pouco maldosos e subterrâneos, transparentes ao primeiro exame, facílimos de desenredar.
Ah, e se fossem somente os estrangeiros, ainda ia: mas até o excelso Gênio brasileiro Tobias Barreto, aí é demais! Diz Tobias Barreto que, no Brasil, é impossível aparecer um “romance de gênio”, porque “a nossa vida pública e particular não é bastante fértil de peripécias e lances romanescos”. Lamenta que seja raro, entre nós, “um amor sincero, delirante, terrível e sanguinário”, ou que, quando apareça, seja num velho como o Desembargador Pontes Visgueiro, o célebre assassino alagoano do Segundo Império. E comenta, ácido: “Um ou outro crime, mesmo, que porventura erga a cabeça acima do nível da vulgaridade, são coisas que não desmancham a impressão geral da monotonia contínua. Até na estatística criminal o nosso país revela-se mesquinho. O delito mais comum é justamente o mais frívolo e estúpido: o furto de cavalos”.
A gente lê uma coisa dessas e fica até desanimado, julgando ser impossível a um Brasileiro ultrapassar Homero e outros conceituados gênios estrangeiros! A sorte é que, na mesma hora, o Doutor Samuel nos lembra que a conquista da América Latina “foi uma Epopeia”. Vemos que somos muito maiores do que a Grécia — aquela porqueirinha de terra! — e aí descansamos o pobre coração, amargurado pelas injustiças, mas também incendiado de esperanças! Sim, nobres Senhores e belas Damas: porque eu, Dom Pedro Quaderna (Quaderna, O Astrólogo, Quaderna, O Decifrador, como tantas vezes fui chamado); eu, Poeta-guerreiro e soberano de um Reino cujos súditos são, quase todos, cavalarianos, trocadores e ladrões de cavalo, desafio qualquer irônico, estrangeiro ou Brasileiro, primeiro a narrar uma história de amor mais sangrenta, terrível, cruel e delirante do que a minha; e, depois, a decifrar, antes que eu o faça, o centro enigmático de crime e sangue da minha história, isto é, a degola do meu Padrinho e a “desaparição profética” de seu filho Sinésio, O Alumioso, esperança e bandeira do Reino Sertanejo.
Ariano Suassuna. A pedra do reino. Rio de Janeiro: José Olympio, 1972, 3.ª ed., p. 27-30 (com adaptações).
Com referência ao texto, julgue o item que se segue.
No trecho “porque eu, Dom Pedro Quaderna”, a conjunção “porque” é expressão de realce, empregada de modo expletivo, visto que não estabelece relação entre a oração que ela introduz e outra oração do período.
 

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2538262 Ano: 2016
Disciplina: Português
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: IRB
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Texto

Pergunto: e agora? Como é que meu Padrinho foi degolado num quarto de pesadas paredes sem janelas, cuja porta fora trancada, por dentro, por ele mesmo? Como foi que os assassinos ali penetraram, sem ter por onde? Como foi que saíram, deixando o quarto trancado por dentro? Quem foram esses assassinos? Como foi que raptaram Sinésio, aquele rapaz alumioso, que concentrava em si as esperanças dos Sertanejos por um Reino de glória, de justiça, de beleza e de grandeza para todos? Bem, não posso avançar nada, porque aí é que está o nó! Este é o “centro de enigma e sangue” da minha história. Lembro que o genial poeta Nicolau Fagundes Varela adverte todos nós, Brasileiros, de que “os irônicos estrangeiros” vivem sempre vigilantes, sempre à espreita do menor deslize nosso para, então, “ridicularizar o pátrio pensamento”:

Fatal destino o dos brasílios Mestres!
Fatal destino o dos brasílios Vates!
Política nefanda, horrenda e negra,
pestilento Bulcão abafa e mata
quanto, aos olhos de irônico estrangeiro,
podia honrar o pátrio pensamento!

Ora, um dos argumentos que os “irônicos estrangeiros” mais invocam para isso é dizer que nós, Brasileiros, somos incapazes de forjar uma verdadeira trança, uma intrincada teia, um insolúvel enredo de “romance de crime e sangue”. Dizem eles que não é necessário nem um adulto dotado de argúcia especial: qualquer adolescente estrangeiro é capaz de decifrar os enigmas brasileiros, os quais, tecidos por um Povo superficial, à luz de um Sol por demais luminoso, são pouco sombrios, pouco maldosos e subterrâneos, transparentes ao primeiro exame, facílimos de desenredar.

Ah, e se fossem somente os estrangeiros, ainda ia: mas até o excelso Gênio brasileiro Tobias Barreto, aí é demais! Diz Tobias Barreto que, no Brasil, é impossível aparecer um “romance de gênio”, porque “a nossa vida pública e particular não é bastante fértil de peripécias e lances romanescos”. Lamenta que seja raro, entre nós, “um amor sincero, delirante, terrível e sanguinário”, ou que, quando apareça, seja num velho como o Desembargador Pontes Visgueiro, o célebre assassino alagoano do Segundo Império. E comenta, ácido: “Um ou outro crime, mesmo, que porventura erga a cabeça acima do nível da vulgaridade, são coisas que não desmancham a impressão geral da monotonia contínua. Até na estatística criminal o nosso país revela-se mesquinho. O delito mais comum é justamente o mais frívolo e estúpido: o furto de cavalos”.

A gente lê uma coisa dessas e fica até desanimado, julgando ser impossível a um Brasileiro ultrapassar Homero e outros conceituados gênios estrangeiros! A sorte é que, na mesma hora, o Doutor Samuel nos lembra que a conquista da América Latina “foi uma Epopeia”. Vemos que somos muito maiores do que a Grécia — aquela porqueirinha de terra! — e aí descansamos o pobre coração, amargurado pelas injustiças, mas também incendiado de esperanças! Sim, nobres Senhores e belas Damas: porque eu, Dom Pedro Quaderna (Quaderna, O Astrólogo, Quaderna, O Decifrador, como tantas vezes fui chamado); eu, Poeta-guerreiro e soberano de um Reino cujos súditos são, quase todos, cavalarianos, trocadores e ladrões de cavalo, desafio qualquer irônico, estrangeiro ou Brasileiro, primeiro a narrar uma história de amor mais sangrenta, terrível, cruel e delirante do que a minha; e, depois, a decifrar, antes que eu o faça, o centro enigmático de crime e sangue da minha história, isto é, a degola do meu Padrinho e a “desaparição profética” de seu filho Sinésio, O Alumioso, esperança e bandeira do Reino Sertanejo.

Ariano Suassuna. A pedra do reino. Rio de Janeiro: José Olympio, 1972, 3.ª ed., p. 27-30 (com adaptações).

Com referência ao texto, julgue o item que se segue.

No sintagma “os ‘irônicos estrangeiros’”, o vocábulo ‘irônicos’ é o núcleo do sujeito, o que é confirmado pelo emprego de “irônico” em “desafio qualquer irônico”.

 

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Disciplina: Português
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Pergunto: e agora? Como é que meu Padrinho foi degolado num quarto de pesadas paredes sem janelas, cuja porta fora trancada, por dentro, por ele mesmo? Como foi que os assassinos ali penetraram, sem ter por onde? Como foi que saíram, deixando o quarto trancado por dentro? Quem foram esses assassinos? Como foi que raptaram Sinésio, aquele rapaz alumioso, que concentrava em si as esperanças dos Sertanejos por um Reino de glória, de justiça, de beleza e de grandeza para todos? Bem, não posso avançar nada, porque aí é que está o nó! Este é o “centro de enigma e sangue” da minha história. Lembro que o genial poeta Nicolau Fagundes Varela adverte todos nós, Brasileiros, de que “os irônicos estrangeiros” vivem sempre vigilantes, sempre à espreita do menor deslize nosso para, então, “ridicularizar o pátrio pensamento”:

Fatal destino o dos brasílios Mestres!
Fatal destino o dos brasílios Vates!
Política nefanda, horrenda e negra,
pestilento Bulcão abafa e mata
quanto, aos olhos de irônico estrangeiro,
podia honrar o pátrio pensamento!

Ora, um dos argumentos que os “irônicos estrangeiros” mais invocam para isso é dizer que nós, Brasileiros, somos incapazes de forjar uma verdadeira trança, uma intrincada teia, um insolúvel enredo de “romance de crime e sangue”. Dizem eles que não é necessário nem um adulto dotado de argúcia especial: qualquer adolescente estrangeiro é capaz de decifrar os enigmas brasileiros, os quais, tecidos por um Povo superficial, à luz de um Sol por demais luminoso, são pouco sombrios, pouco maldosos e subterrâneos, transparentes ao primeiro exame, facílimos de desenredar.

Ah, e se fossem somente os estrangeiros, ainda ia: mas até o excelso Gênio brasileiro Tobias Barreto, aí é demais! Diz Tobias Barreto que, no Brasil, é impossível aparecer um “romance de gênio”, porque “a nossa vida pública e particular não é bastante fértil de peripécias e lances romanescos”. Lamenta que seja raro, entre nós, “um amor sincero, delirante, terrível e sanguinário”, ou que, quando apareça, seja num velho como o Desembargador Pontes Visgueiro, o célebre assassino alagoano do Segundo Império. E comenta, ácido: “Um ou outro crime, mesmo, que porventura erga a cabeça acima do nível da vulgaridade, são coisas que não desmancham a impressão geral da monotonia contínua. Até na estatística criminal o nosso país revela-se mesquinho. O delito mais comum é justamente o mais frívolo e estúpido: o furto de cavalos”.

A gente lê uma coisa dessas e fica até desanimado, julgando ser impossível a um Brasileiro ultrapassar Homero e outros conceituados gênios estrangeiros! A sorte é que, na mesma hora, o Doutor Samuel nos lembra que a conquista da América Latina “foi uma Epopeia”. Vemos que somos muito maiores do que a Grécia — aquela porqueirinha de terra! — e aí descansamos o pobre coração, amargurado pelas injustiças, mas também incendiado de esperanças! Sim, nobres Senhores e belas Damas: porque eu, Dom Pedro Quaderna (Quaderna, O Astrólogo, Quaderna, O Decifrador, como tantas vezes fui chamado); eu, Poeta-guerreiro e soberano de um Reino cujos súditos são, quase todos, cavalarianos, trocadores e ladrões de cavalo, desafio qualquer irônico, estrangeiro ou Brasileiro, primeiro a narrar uma história de amor mais sangrenta, terrível, cruel e delirante do que a minha; e, depois, a decifrar, antes que eu o faça, o centro enigmático de crime e sangue da minha história, isto é, a degola do meu Padrinho e a “desaparição profética” de seu filho Sinésio, O Alumioso, esperança e bandeira do Reino Sertanejo.

Ariano Suassuna. A pedra do reino. Rio de Janeiro: José Olympio, 1972, 3.ª ed., p. 27-30 (com adaptações).

Com referência ao texto, julgue o item que se segue.

Sem prejuízo da informação veiculada no relato e da correção gramatical do texto, a vírgula empregada logo após “janelas” poderia ser substituída pelo conector e.

 

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Fatal destino o dos brasílios Mestres!
Fatal destino o dos brasílios Vates!
Política nefanda, horrenda e negra,
pestilento Bulcão abafa e mata
quanto, aos olhos de irônico estrangeiro,
podia honrar o pátrio pensamento!
Ora, um dos argumentos que os “irônicos estrangeiros” mais invocam para isso é dizer que nós, Brasileiros, somos incapazes de forjar uma verdadeira trança, uma intrincada teia, um insolúvel enredo de “romance de crime e sangue”. Dizem eles que não é necessário nem um adulto dotado de argúcia especial: qualquer adolescente estrangeiro é capaz de decifrar os enigmas brasileiros, os quais, tecidos por um Povo superficial, à luz de um Sol por demais luminoso, são pouco sombrios, pouco maldosos e subterrâneos, transparentes ao primeiro exame, facílimos de desenredar.
Ah, e se fossem somente os estrangeiros, ainda ia: mas até o excelso Gênio brasileiro Tobias Barreto, aí é demais! Diz Tobias Barreto que, no Brasil, é impossível aparecer um “romance de gênio”, porque “a nossa vida pública e particular não é bastante fértil de peripécias e lances romanescos”. Lamenta que seja raro, entre nós, “um amor sincero, delirante, terrível e sanguinário”, ou que, quando apareça, seja num velho como o Desembargador Pontes Visgueiro, o célebre assassino alagoano do Segundo Império. E comenta, ácido: “Um ou outro crime, mesmo, que porventura erga a cabeça acima do nível da vulgaridade, são coisas que não desmancham a impressão geral da monotonia contínua. Até na estatística criminal o nosso país revela-se mesquinho. O delito mais comum é justamente o mais frívolo e estúpido: o furto de cavalos”.
A gente lê uma coisa dessas e fica até desanimado, julgando ser impossível a um Brasileiro ultrapassar Homero e outros conceituados gênios estrangeiros! A sorte é que, na mesma hora, o Doutor Samuel nos lembra que a conquista da América Latina “foi uma Epopeia”. Vemos que somos muito maiores do que a Grécia — aquela porqueirinha de terra! — e aí descansamos o pobre coração, amargurado pelas injustiças, mas também incendiado de esperanças! Sim, nobres Senhores e belas Damas: porque eu, Dom Pedro Quaderna (Quaderna, O Astrólogo, Quaderna, O Decifrador, como tantas vezes fui chamado); eu, Poeta-guerreiro e soberano de um Reino cujos súditos são, quase todos, cavalarianos, trocadores e ladrões de cavalo, desafio qualquer irônico, estrangeiro ou Brasileiro, primeiro a narrar uma história de amor mais sangrenta, terrível, cruel e delirante do que a minha; e, depois, a decifrar, antes que eu o faça, o centro enigmático de crime e sangue da minha história, isto é, a degola do meu Padrinho e a “desaparição profética” de seu filho Sinésio, O Alumioso, esperança e bandeira do Reino Sertanejo.
Ariano Suassuna. A pedra do reino. Rio de Janeiro: José Olympio, 1972, 3.ª ed., p. 27-30 (com adaptações).
Julgue o item subsequente, relativos às ideias desenvolvidas no texto.
Em “somos incapazes de forjar uma verdadeira trança, uma intrincada teia”, a palavra “trança” foi empregada no sentido de trama.
 

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2538259 Ano: 2016
Disciplina: Português
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: IRB
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Pergunto: e agora? Como é que meu Padrinho foi degolado num quarto de pesadas paredes sem janelas, cuja porta fora trancada, por dentro, por ele mesmo? Como foi que os assassinos ali penetraram, sem ter por onde? Como foi que saíram, deixando o quarto trancado por dentro? Quem foram esses assassinos? Como foi que raptaram Sinésio, aquele rapaz alumioso, que concentrava em si as esperanças dos Sertanejos por um Reino de glória, de justiça, de beleza e de grandeza para todos? Bem, não posso avançar nada, porque aí é que está o nó! Este é o “centro de enigma e sangue” da minha história. Lembro que o genial poeta Nicolau Fagundes Varela adverte todos nós, Brasileiros, de que “os irônicos estrangeiros” vivem sempre vigilantes, sempre à espreita do menor deslize nosso para, então, “ridicularizar o pátrio pensamento”:
Fatal destino o dos brasílios Mestres!
Fatal destino o dos brasílios Vates!
Política nefanda, horrenda e negra,
pestilento Bulcão abafa e mata
quanto, aos olhos de irônico estrangeiro,
podia honrar o pátrio pensamento!
Ora, um dos argumentos que os “irônicos estrangeiros” mais invocam para isso é dizer que nós, Brasileiros, somos incapazes de forjar uma verdadeira trança, uma intrincada teia, um insolúvel enredo de “romance de crime e sangue”. Dizem eles que não é necessário nem um adulto dotado de argúcia especial: qualquer adolescente estrangeiro é capaz de decifrar os enigmas brasileiros, os quais, tecidos por um Povo superficial, à luz de um Sol por demais luminoso, são pouco sombrios, pouco maldosos e subterrâneos, transparentes ao primeiro exame, facílimos de desenredar.
Ah, e se fossem somente os estrangeiros, ainda ia: mas até o excelso Gênio brasileiro Tobias Barreto, aí é demais! Diz Tobias Barreto que, no Brasil, é impossível aparecer um “romance de gênio”, porque “a nossa vida pública e particular não é bastante fértil de peripécias e lances romanescos”. Lamenta que seja raro, entre nós, “um amor sincero, delirante, terrível e sanguinário”, ou que, quando apareça, seja num velho como o Desembargador Pontes Visgueiro, o célebre assassino alagoano do Segundo Império. E comenta, ácido: “Um ou outro crime, mesmo, que porventura erga a cabeça acima do nível da vulgaridade, são coisas que não desmancham a impressão geral da monotonia contínua. Até na estatística criminal o nosso país revela-se mesquinho. O delito mais comum é justamente o mais frívolo e estúpido: o furto de cavalos”.
A gente lê uma coisa dessas e fica até desanimado, julgando ser impossível a um Brasileiro ultrapassar Homero e outros conceituados gênios estrangeiros! A sorte é que, na mesma hora, o Doutor Samuel nos lembra que a conquista da América Latina “foi uma Epopeia”. Vemos que somos muito maiores do que a Grécia — aquela porqueirinha de terra! — e aí descansamos o pobre coração, amargurado pelas injustiças, mas também incendiado de esperanças! Sim, nobres Senhores e belas Damas: porque eu, Dom Pedro Quaderna (Quaderna, O Astrólogo, Quaderna, O Decifrador, como tantas vezes fui chamado); eu, Poeta-guerreiro e soberano de um Reino cujos súditos são, quase todos, cavalarianos, trocadores e ladrões de cavalo, desafio qualquer irônico, estrangeiro ou Brasileiro, primeiro a narrar uma história de amor mais sangrenta, terrível, cruel e delirante do que a minha; e, depois, a decifrar, antes que eu o faça, o centro enigmático de crime e sangue da minha história, isto é, a degola do meu Padrinho e a “desaparição profética” de seu filho Sinésio, O Alumioso, esperança e bandeira do Reino Sertanejo.
Ariano Suassuna. A pedra do reino. Rio de Janeiro: José Olympio, 1972, 3.ª ed., p. 27-30 (com adaptações).
Julgue o item subsequente, relativos às ideias desenvolvidas no texto.
O trecho “Até na estatística criminal o nosso país revela-se mesquinho”, atribuído pelo narrador a Tobias Barreto, indica que os ‘irônicos estrangeiros’ ridicularizam a pouca capacidade dos brasileiros de conhecerem a realidade em que vivem.
 

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2538258 Ano: 2016
Disciplina: Português
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: IRB
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Pergunto: e agora? Como é que meu Padrinho foi degolado num quarto de pesadas paredes sem janelas, cuja porta fora trancada, por dentro, por ele mesmo? Como foi que os assassinos ali penetraram, sem ter por onde? Como foi que saíram, deixando o quarto trancado por dentro? Quem foram esses assassinos? Como foi que raptaram Sinésio, aquele rapaz alumioso, que concentrava em si as esperanças dos Sertanejos por um Reino de glória, de justiça, de beleza e de grandeza para todos? Bem, não posso avançar nada, porque aí é que está o nó! Este é o “centro de enigma e sangue” da minha história. Lembro que o genial poeta Nicolau Fagundes Varela adverte todos nós, Brasileiros, de que “os irônicos estrangeiros” vivem sempre vigilantes, sempre à espreita do menor deslize nosso para, então, “ridicularizar o pátrio pensamento”:
Fatal destino o dos brasílios Mestres!
Fatal destino o dos brasílios Vates!
Política nefanda, horrenda e negra,
pestilento Bulcão abafa e mata
quanto, aos olhos de irônico estrangeiro,
podia honrar o pátrio pensamento!
Ora, um dos argumentos que os “irônicos estrangeiros” mais invocam para isso é dizer que nós, Brasileiros, somos incapazes de forjar uma verdadeira trança, uma intrincada teia, um insolúvel enredo de “romance de crime e sangue”. Dizem eles que não é necessário nem um adulto dotado de argúcia especial: qualquer adolescente estrangeiro é capaz de decifrar os enigmas brasileiros, os quais, tecidos por um Povo superficial, à luz de um Sol por demais luminoso, são pouco sombrios, pouco maldosos e subterrâneos, transparentes ao primeiro exame, facílimos de desenredar.
Ah, e se fossem somente os estrangeiros, ainda ia: mas até o excelso Gênio brasileiro Tobias Barreto, aí é demais! Diz Tobias Barreto que, no Brasil, é impossível aparecer um “romance de gênio”, porque “a nossa vida pública e particular não é bastante fértil de peripécias e lances romanescos”. Lamenta que seja raro, entre nós, “um amor sincero, delirante, terrível e sanguinário”, ou que, quando apareça, seja num velho como o Desembargador Pontes Visgueiro, o célebre assassino alagoano do Segundo Império. E comenta, ácido: “Um ou outro crime, mesmo, que porventura erga a cabeça acima do nível da vulgaridade, são coisas que não desmancham a impressão geral da monotonia contínua. Até na estatística criminal o nosso país revela-se mesquinho. O delito mais comum é justamente o mais frívolo e estúpido: o furto de cavalos”.
A gente lê uma coisa dessas e fica até desanimado, julgando ser impossível a um Brasileiro ultrapassar Homero e outros conceituados gênios estrangeiros! A sorte é que, na mesma hora, o Doutor Samuel nos lembra que a conquista da América Latina “foi uma Epopeia”. Vemos que somos muito maiores do que a Grécia — aquela porqueirinha de terra! — e aí descansamos o pobre coração, amargurado pelas injustiças, mas também incendiado de esperanças! Sim, nobres Senhores e belas Damas: porque eu, Dom Pedro Quaderna (Quaderna, O Astrólogo, Quaderna, O Decifrador, como tantas vezes fui chamado); eu, Poeta-guerreiro e soberano de um Reino cujos súditos são, quase todos, cavalarianos, trocadores e ladrões de cavalo, desafio qualquer irônico, estrangeiro ou Brasileiro, primeiro a narrar uma história de amor mais sangrenta, terrível, cruel e delirante do que a minha; e, depois, a decifrar, antes que eu o faça, o centro enigmático de crime e sangue da minha história, isto é, a degola do meu Padrinho e a “desaparição profética” de seu filho Sinésio, O Alumioso, esperança e bandeira do Reino Sertanejo.
Ariano Suassuna. A pedra do reino. Rio de Janeiro: José Olympio, 1972, 3.ª ed., p. 27-30 (com adaptações).
Julgue o item subsequente, relativos às ideias desenvolvidas no texto.
Além de revelar sua identidade e algumas de suas alcunhas, o narrador do texto declara-se apto a, com sua história, superar os irônicos, sejam eles estrangeiros ou não.
 

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2538257 Ano: 2016
Disciplina: Português
Banca: CESPE / CEBRASPE
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Pergunto: e agora? Como é que meu Padrinho foi degolado num quarto de pesadas paredes sem janelas, cuja porta fora trancada, por dentro, por ele mesmo? Como foi que os assassinos ali penetraram, sem ter por onde? Como foi que saíram, deixando o quarto trancado por dentro? Quem foram esses assassinos? Como foi que raptaram Sinésio, aquele rapaz alumioso, que concentrava em si as esperanças dos Sertanejos por um Reino de glória, de justiça, de beleza e de grandeza para todos? Bem, não posso avançar nada, porque aí é que está o nó! Este é o “centro de enigma e sangue” da minha história. Lembro que o genial poeta Nicolau Fagundes Varela adverte todos nós, Brasileiros, de que “os irônicos estrangeiros” vivem sempre vigilantes, sempre à espreita do menor deslize nosso para, então, “ridicularizar o pátrio pensamento”:
Fatal destino o dos brasílios Mestres!
Fatal destino o dos brasílios Vates!
Política nefanda, horrenda e negra,
pestilento Bulcão abafa e mata
quanto, aos olhos de irônico estrangeiro,
podia honrar o pátrio pensamento!
Ora, um dos argumentos que os “irônicos estrangeiros” mais invocam para isso é dizer que nós, Brasileiros, somos incapazes de forjar uma verdadeira trança, uma intrincada teia, um insolúvel enredo de “romance de crime e sangue”. Dizem eles que não é necessário nem um adulto dotado de argúcia especial: qualquer adolescente estrangeiro é capaz de decifrar os enigmas brasileiros, os quais, tecidos por um Povo superficial, à luz de um Sol por demais luminoso, são pouco sombrios, pouco maldosos e subterrâneos, transparentes ao primeiro exame, facílimos de desenredar.
Ah, e se fossem somente os estrangeiros, ainda ia: mas até o excelso Gênio brasileiro Tobias Barreto, aí é demais! Diz Tobias Barreto que, no Brasil, é impossível aparecer um “romance de gênio”, porque “a nossa vida pública e particular não é bastante fértil de peripécias e lances romanescos”. Lamenta que seja raro, entre nós, “um amor sincero, delirante, terrível e sanguinário”, ou que, quando apareça, seja num velho como o Desembargador Pontes Visgueiro, o célebre assassino alagoano do Segundo Império. E comenta, ácido: “Um ou outro crime, mesmo, que porventura erga a cabeça acima do nível da vulgaridade, são coisas que não desmancham a impressão geral da monotonia contínua. Até na estatística criminal o nosso país revela-se mesquinho. O delito mais comum é justamente o mais frívolo e estúpido: o furto de cavalos”.
A gente lê uma coisa dessas e fica até desanimado, julgando ser impossível a um Brasileiro ultrapassar Homero e outros conceituados gênios estrangeiros! A sorte é que, na mesma hora, o Doutor Samuel nos lembra que a conquista da América Latina “foi uma Epopeia”. Vemos que somos muito maiores do que a Grécia — aquela porqueirinha de terra! — e aí descansamos o pobre coração, amargurado pelas injustiças, mas também incendiado de esperanças! Sim, nobres Senhores e belas Damas: porque eu, Dom Pedro Quaderna (Quaderna, O Astrólogo, Quaderna, O Decifrador, como tantas vezes fui chamado); eu, Poeta-guerreiro e soberano de um Reino cujos súditos são, quase todos, cavalarianos, trocadores e ladrões de cavalo, desafio qualquer irônico, estrangeiro ou Brasileiro, primeiro a narrar uma história de amor mais sangrenta, terrível, cruel e delirante do que a minha; e, depois, a decifrar, antes que eu o faça, o centro enigmático de crime e sangue da minha história, isto é, a degola do meu Padrinho e a “desaparição profética” de seu filho Sinésio, O Alumioso, esperança e bandeira do Reino Sertanejo.
Ariano Suassuna. A pedra do reino. Rio de Janeiro: José Olympio, 1972, 3.ª ed., p. 27-30 (com adaptações).
Julgue o item subsequente, relativos às ideias desenvolvidas no texto.
Em “E comenta, ácido”, a palavra “ácido” foi empregada, com ironia, para ridicularizar o Desembargador Pontes Visgueiro, criminoso de Alagoas.
 

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