Magna Concursos

Foram encontradas 492 questões.

2538256 Ano: 2016
Disciplina: Português
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: IRB
Provas:
Texto
Pergunto: e agora? Como é que meu Padrinho foi degolado num quarto de pesadas paredes sem janelas, cuja porta fora trancada, por dentro, por ele mesmo? Como foi que os assassinos ali penetraram, sem ter por onde? Como foi que saíram, deixando o quarto trancado por dentro? Quem foram esses assassinos? Como foi que raptaram Sinésio, aquele rapaz alumioso, que concentrava em si as esperanças dos Sertanejos por um Reino de glória, de justiça, de beleza e de grandeza para todos? Bem, não posso avançar nada, porque aí é que está o nó! Este é o “centro de enigma e sangue” da minha história. Lembro que o genial poeta Nicolau Fagundes Varela adverte todos nós, Brasileiros, de que “os irônicos estrangeiros” vivem sempre vigilantes, sempre à espreita do menor deslize nosso para, então, “ridicularizar o pátrio pensamento”:
Fatal destino o dos brasílios Mestres!
Fatal destino o dos brasílios Vates!
Política nefanda, horrenda e negra,
pestilento Bulcão abafa e mata
quanto, aos olhos de irônico estrangeiro,
podia honrar o pátrio pensamento!
Ora, um dos argumentos que os “irônicos estrangeiros” mais invocam para isso é dizer que nós, Brasileiros, somos incapazes de forjar uma verdadeira trança, uma intrincada teia, um insolúvel enredo de “romance de crime e sangue”. Dizem eles que não é necessário nem um adulto dotado de argúcia especial: qualquer adolescente estrangeiro é capaz de decifrar os enigmas brasileiros, os quais, tecidos por um Povo superficial, à luz de um Sol por demais luminoso, são pouco sombrios, pouco maldosos e subterrâneos, transparentes ao primeiro exame, facílimos de desenredar.
Ah, e se fossem somente os estrangeiros, ainda ia: mas até o excelso Gênio brasileiro Tobias Barreto, aí é demais! Diz Tobias Barreto que, no Brasil, é impossível aparecer um “romance de gênio”, porque “a nossa vida pública e particular não é bastante fértil de peripécias e lances romanescos”. Lamenta que seja raro, entre nós, “um amor sincero, delirante, terrível e sanguinário”, ou que, quando apareça, seja num velho como o Desembargador Pontes Visgueiro, o célebre assassino alagoano do Segundo Império. E comenta, ácido: “Um ou outro crime, mesmo, que porventura erga a cabeça acima do nível da vulgaridade, são coisas que não desmancham a impressão geral da monotonia contínua. Até na estatística criminal o nosso país revela-se mesquinho. O delito mais comum é justamente o mais frívolo e estúpido: o furto de cavalos”.
A gente lê uma coisa dessas e fica até desanimado, julgando ser impossível a um Brasileiro ultrapassar Homero e outros conceituados gênios estrangeiros! A sorte é que, na mesma hora, o Doutor Samuel nos lembra que a conquista da América Latina “foi uma Epopeia”. Vemos que somos muito maiores do que a Grécia — aquela porqueirinha de terra! — e aí descansamos o pobre coração, amargurado pelas injustiças, mas também incendiado de esperanças! Sim, nobres Senhores e belas Damas: porque eu, Dom Pedro Quaderna (Quaderna, O Astrólogo, Quaderna, O Decifrador, como tantas vezes fui chamado); eu, Poeta-guerreiro e soberano de um Reino cujos súditos são, quase todos, cavalarianos, trocadores e ladrões de cavalo, desafio qualquer irônico, estrangeiro ou Brasileiro, primeiro a narrar uma história de amor mais sangrenta, terrível, cruel e delirante do que a minha; e, depois, a decifrar, antes que eu o faça, o centro enigmático de crime e sangue da minha história, isto é, a degola do meu Padrinho e a “desaparição profética” de seu filho Sinésio, O Alumioso, esperança e bandeira do Reino Sertanejo.
Ariano Suassuna. A pedra do reino. Rio de Janeiro: José Olympio, 1972, 3.ª ed., p. 27-30 (com adaptações).
Com relação às ideias desenvolvidas no texto, julgue o próximo item.
Conforme o narrador, brasileiros como Nicolau Fagundes Varela e Tobias Barreto escreveram contra os brasileiros, incapazes, para ambos, de decifrar os enigmas do país e de fazer aparecer um romance de gênio.
 

Provas

Questão presente nas seguintes provas
2538255 Ano: 2016
Disciplina: Português
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: IRB
Provas:
Texto
Pergunto: e agora? Como é que meu Padrinho foi degolado num quarto de pesadas paredes sem janelas, cuja porta fora trancada, por dentro, por ele mesmo? Como foi que os assassinos ali penetraram, sem ter por onde? Como foi que saíram, deixando o quarto trancado por dentro? Quem foram esses assassinos? Como foi que raptaram Sinésio, aquele rapaz alumioso, que concentrava em si as esperanças dos Sertanejos por um Reino de glória, de justiça, de beleza e de grandeza para todos? Bem, não posso avançar nada, porque aí é que está o nó! Este é o “centro de enigma e sangue” da minha história. Lembro que o genial poeta Nicolau Fagundes Varela adverte todos nós, Brasileiros, de que “os irônicos estrangeiros” vivem sempre vigilantes, sempre à espreita do menor deslize nosso para, então, “ridicularizar o pátrio pensamento”:
Fatal destino o dos brasílios Mestres!
Fatal destino o dos brasílios Vates!
Política nefanda, horrenda e negra,
pestilento Bulcão abafa e mata
quanto, aos olhos de irônico estrangeiro,
podia honrar o pátrio pensamento!
Ora, um dos argumentos que os “irônicos estrangeiros” mais invocam para isso é dizer que nós, Brasileiros, somos incapazes de forjar uma verdadeira trança, uma intrincada teia, um insolúvel enredo de “romance de crime e sangue”. Dizem eles que não é necessário nem um adulto dotado de argúcia especial: qualquer adolescente estrangeiro é capaz de decifrar os enigmas brasileiros, os quais, tecidos por um Povo superficial, à luz de um Sol por demais luminoso, são pouco sombrios, pouco maldosos e subterrâneos, transparentes ao primeiro exame, facílimos de desenredar.
Ah, e se fossem somente os estrangeiros, ainda ia: mas até o excelso Gênio brasileiro Tobias Barreto, aí é demais! Diz Tobias Barreto que, no Brasil, é impossível aparecer um “romance de gênio”, porque “a nossa vida pública e particular não é bastante fértil de peripécias e lances romanescos”. Lamenta que seja raro, entre nós, “um amor sincero, delirante, terrível e sanguinário”, ou que, quando apareça, seja num velho como o Desembargador Pontes Visgueiro, o célebre assassino alagoano do Segundo Império. E comenta, ácido: “Um ou outro crime, mesmo, que porventura erga a cabeça acima do nível da vulgaridade, são coisas que não desmancham a impressão geral da monotonia contínua. Até na estatística criminal o nosso país revela-se mesquinho. O delito mais comum é justamente o mais frívolo e estúpido: o furto de cavalos”.
A gente lê uma coisa dessas e fica até desanimado, julgando ser impossível a um Brasileiro ultrapassar Homero e outros conceituados gênios estrangeiros! A sorte é que, na mesma hora, o Doutor Samuel nos lembra que a conquista da América Latina “foi uma Epopeia”. Vemos que somos muito maiores do que a Grécia — aquela porqueirinha de terra! — e aí descansamos o pobre coração, amargurado pelas injustiças, mas também incendiado de esperanças! Sim, nobres Senhores e belas Damas: porque eu, Dom Pedro Quaderna (Quaderna, O Astrólogo, Quaderna, O Decifrador, como tantas vezes fui chamado); eu, Poeta-guerreiro e soberano de um Reino cujos súditos são, quase todos, cavalarianos, trocadores e ladrões de cavalo, desafio qualquer irônico, estrangeiro ou Brasileiro, primeiro a narrar uma história de amor mais sangrenta, terrível, cruel e delirante do que a minha; e, depois, a decifrar, antes que eu o faça, o centro enigmático de crime e sangue da minha história, isto é, a degola do meu Padrinho e a “desaparição profética” de seu filho Sinésio, O Alumioso, esperança e bandeira do Reino Sertanejo.
Ariano Suassuna. A pedra do reino. Rio de Janeiro: José Olympio, 1972, 3.ª ed., p. 27-30 (com adaptações).
Com relação às ideias desenvolvidas no texto, julgue o próximo item.
Para o narrador, a formação territorial do Brasil foi um ato de bravura que poderia fazer os brasileiros ultrapassarem os feitos narrados por Homero.
 

Provas

Questão presente nas seguintes provas
2538254 Ano: 2016
Disciplina: Português
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: IRB
Provas:
Texto
Pergunto: e agora? Como é que meu Padrinho foi degolado num quarto de pesadas paredes sem janelas, cuja porta fora trancada, por dentro, por ele mesmo? Como foi que os assassinos ali penetraram, sem ter por onde? Como foi que saíram, deixando o quarto trancado por dentro? Quem foram esses assassinos? Como foi que raptaram Sinésio, aquele rapaz alumioso, que concentrava em si as esperanças dos Sertanejos por um Reino de glória, de justiça, de beleza e de grandeza para todos? Bem, não posso avançar nada, porque aí é que está o nó! Este é o “centro de enigma e sangue” da minha história. Lembro que o genial poeta Nicolau Fagundes Varela adverte todos nós, Brasileiros, de que “os irônicos estrangeiros” vivem sempre vigilantes, sempre à espreita do menor deslize nosso para, então, “ridicularizar o pátrio pensamento”:
Fatal destino o dos brasílios Mestres!
Fatal destino o dos brasílios Vates!
Política nefanda, horrenda e negra,
pestilento Bulcão abafa e mata
quanto, aos olhos de irônico estrangeiro,
podia honrar o pátrio pensamento!
Ora, um dos argumentos que os “irônicos estrangeiros” mais invocam para isso é dizer que nós, Brasileiros, somos incapazes de forjar uma verdadeira trança, uma intrincada teia, um insolúvel enredo de “romance de crime e sangue”. Dizem eles que não é necessário nem um adulto dotado de argúcia especial: qualquer adolescente estrangeiro é capaz de decifrar os enigmas brasileiros, os quais, tecidos por um Povo superficial, à luz de um Sol por demais luminoso, são pouco sombrios, pouco maldosos e subterrâneos, transparentes ao primeiro exame, facílimos de desenredar.
Ah, e se fossem somente os estrangeiros, ainda ia: mas até o excelso Gênio brasileiro Tobias Barreto, aí é demais! Diz Tobias Barreto que, no Brasil, é impossível aparecer um “romance de gênio”, porque “a nossa vida pública e particular não é bastante fértil de peripécias e lances romanescos”. Lamenta que seja raro, entre nós, “um amor sincero, delirante, terrível e sanguinário”, ou que, quando apareça, seja num velho como o Desembargador Pontes Visgueiro, o célebre assassino alagoano do Segundo Império. E comenta, ácido: “Um ou outro crime, mesmo, que porventura erga a cabeça acima do nível da vulgaridade, são coisas que não desmancham a impressão geral da monotonia contínua. Até na estatística criminal o nosso país revela-se mesquinho. O delito mais comum é justamente o mais frívolo e estúpido: o furto de cavalos”.
A gente lê uma coisa dessas e fica até desanimado, julgando ser impossível a um Brasileiro ultrapassar Homero e outros conceituados gênios estrangeiros! A sorte é que, na mesma hora, o Doutor Samuel nos lembra que a conquista da América Latina “foi uma Epopeia”. Vemos que somos muito maiores do que a Grécia — aquela porqueirinha de terra! — e aí descansamos o pobre coração, amargurado pelas injustiças, mas também incendiado de esperanças! Sim, nobres Senhores e belas Damas: porque eu, Dom Pedro Quaderna (Quaderna, O Astrólogo, Quaderna, O Decifrador, como tantas vezes fui chamado); eu, Poeta-guerreiro e soberano de um Reino cujos súditos são, quase todos, cavalarianos, trocadores e ladrões de cavalo, desafio qualquer irônico, estrangeiro ou Brasileiro, primeiro a narrar uma história de amor mais sangrenta, terrível, cruel e delirante do que a minha; e, depois, a decifrar, antes que eu o faça, o centro enigmático de crime e sangue da minha história, isto é, a degola do meu Padrinho e a “desaparição profética” de seu filho Sinésio, O Alumioso, esperança e bandeira do Reino Sertanejo.
Ariano Suassuna. A pedra do reino. Rio de Janeiro: José Olympio, 1972, 3.ª ed., p. 27-30 (com adaptações).
Com relação às ideias desenvolvidas no texto, julgue o próximo item.
O narrador classifica Tobias Barreto de “excelso Gênio brasileiro” por este haver escrito um romance que não expressou a índole de um povo superficial, uma vez que a narrativa se revelou enigmática e sangrenta.
 

Provas

Questão presente nas seguintes provas
2538253 Ano: 2016
Disciplina: Português
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: IRB
Provas:
Texto
Pergunto: e agora? Como é que meu Padrinho foi degolado num quarto de pesadas paredes sem janelas, cuja porta fora trancada, por dentro, por ele mesmo? Como foi que os assassinos ali penetraram, sem ter por onde? Como foi que saíram, deixando o quarto trancado por dentro? Quem foram esses assassinos? Como foi que raptaram Sinésio, aquele rapaz alumioso, que concentrava em si as esperanças dos Sertanejos por um Reino de glória, de justiça, de beleza e de grandeza para todos? Bem, não posso avançar nada, porque aí é que está o nó! Este é o “centro de enigma e sangue” da minha história. Lembro que o genial poeta Nicolau Fagundes Varela adverte todos nós, Brasileiros, de que “os irônicos estrangeiros” vivem sempre vigilantes, sempre à espreita do menor deslize nosso para, então, “ridicularizar o pátrio pensamento”:
Fatal destino o dos brasílios Mestres!
Fatal destino o dos brasílios Vates!
Política nefanda, horrenda e negra,
pestilento Bulcão abafa e mata
quanto, aos olhos de irônico estrangeiro,
podia honrar o pátrio pensamento!
Ora, um dos argumentos que os “irônicos estrangeiros” mais invocam para isso é dizer que nós, Brasileiros, somos incapazes de forjar uma verdadeira trança, uma intrincada teia, um insolúvel enredo de “romance de crime e sangue”. Dizem eles que não é necessário nem um adulto dotado de argúcia especial: qualquer adolescente estrangeiro é capaz de decifrar os enigmas brasileiros, os quais, tecidos por um Povo superficial, à luz de um Sol por demais luminoso, são pouco sombrios, pouco maldosos e subterrâneos, transparentes ao primeiro exame, facílimos de desenredar.
Ah, e se fossem somente os estrangeiros, ainda ia: mas até o excelso Gênio brasileiro Tobias Barreto, aí é demais! Diz Tobias Barreto que, no Brasil, é impossível aparecer um “romance de gênio”, porque “a nossa vida pública e particular não é bastante fértil de peripécias e lances romanescos”. Lamenta que seja raro, entre nós, “um amor sincero, delirante, terrível e sanguinário”, ou que, quando apareça, seja num velho como o Desembargador Pontes Visgueiro, o célebre assassino alagoano do Segundo Império. E comenta, ácido: “Um ou outro crime, mesmo, que porventura erga a cabeça acima do nível da vulgaridade, são coisas que não desmancham a impressão geral da monotonia contínua. Até na estatística criminal o nosso país revela-se mesquinho. O delito mais comum é justamente o mais frívolo e estúpido: o furto de cavalos”.
A gente lê uma coisa dessas e fica até desanimado, julgando ser impossível a um Brasileiro ultrapassar Homero e outros conceituados gênios estrangeiros! A sorte é que, na mesma hora, o Doutor Samuel nos lembra que a conquista da América Latina “foi uma Epopeia”. Vemos que somos muito maiores do que a Grécia — aquela porqueirinha de terra! — e aí descansamos o pobre coração, amargurado pelas injustiças, mas também incendiado de esperanças! Sim, nobres Senhores e belas Damas: porque eu, Dom Pedro Quaderna (Quaderna, O Astrólogo, Quaderna, O Decifrador, como tantas vezes fui chamado); eu, Poeta-guerreiro e soberano de um Reino cujos súditos são, quase todos, cavalarianos, trocadores e ladrões de cavalo, desafio qualquer irônico, estrangeiro ou Brasileiro, primeiro a narrar uma história de amor mais sangrenta, terrível, cruel e delirante do que a minha; e, depois, a decifrar, antes que eu o faça, o centro enigmático de crime e sangue da minha história, isto é, a degola do meu Padrinho e a “desaparição profética” de seu filho Sinésio, O Alumioso, esperança e bandeira do Reino Sertanejo.
Ariano Suassuna. A pedra do reino. Rio de Janeiro: José Olympio, 1972, 3.ª ed., p. 27-30 (com adaptações).
Com relação às ideias desenvolvidas no texto, julgue o próximo item.
O narrador do texto apresenta um “insolúvel enredo de ‘romance de crime e sangue’”, a partir de um episódio familiar, constituído pela degola do seu padrinho e pelo rapto de Sinésio.
 

Provas

Questão presente nas seguintes provas
2538252 Ano: 2016
Disciplina: Português
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: IRB
Provas:
Texto
O índio não teve muita sorte na literatura brasileira, depois do Romantismo. Enquanto nas letras hispano-americanas viceja um esplêndido indigenismo pelo século XX adentro, com tantos e tão importantes criadores dedicando-se a transpor o índio para a ficção, no Brasil se podem contar nos dedos das mãos os casos.
Torna a trazer o assunto à baila o aparecimento e grande vendagem de Maíra, romance de Darcy Ribeiro. O renomado antropólogo já tinha em seu acervo de realizações uma respeitável brasiliana, incluindo vários trabalhos sobre os índios, um dos quais, a história de Uirá, fora transformado em filme no início da década de 70. Maíra é, portanto, a primeira incursão do autor pelo épico, a menos que se considere a história de Uirá como uma primeira aproximação ao gênero.
O relato, como o filme, dá conta do trágico percurso de Uirá, da tribo Urubu-Kaapor, no Maranhão deste século, o qual um dia fica iñaron quando, após muitas desgraças comuns ao destino dos índios brasileiros, como fome, espoliação, epidemias, perseguições, perde também um dos filhos.
A palavra tupi iñaron designa um estado de fúria sagrada, associado ao sofrimento excessivo, não deixando de lembrar as famosas fúrias dos heróis gregos: Hércules, uma vez acometido por um desses acessos, enviado pela vingativa Hera, matou, sem o saber, seus três filhos e esposa, tal como vem narrado na tragédia Héracles Furioso, de Eurípedes. Nas Bacantes, do mesmo autor, Agave, fora de si, participa do desmembramento de seu filho adulto, Penteu, rei de Tebas. E talvez o mais formidável exemplo seja o da cólera de Aquiles, que dá nascimento à inteira composição da Ilíada, desencadeada por sua recusa a continuar lutando. Devido à recusa de Aquiles, quase foi perdida a guerra de Troia e, não fosse sua fúria, o poema não teria sido composto.
Em meio ao furacão histórico da fase do capitalismo selvagem no país, quando o acirramento da acumulação leva multinacionais e suas cabeças-de-ponte nacionais a apropriar-se dos mais recônditos confins com vistas ao lucro, encontram-se, estonteados, os índios. O único problema dos Mairum — nome inventado, tribo arquetípica de todas as tribos, povo de Maíra — é como sobreviver e como fazer sua cultura sobreviver, com crescente dificuldade.
O romance inteiro soa como uma lamentação, um carpir sobre o fim de uma civilização das mais admiráveis. Seus trechos mais bem realizados são aqueles nos quais uma espécie de narrador coletivo índio dá conta de sua maneira de ver o mundo, de como compreende e interpreta seus hábitos e tradições; e, o que é mais importante, franqueia para o leitor seu tremendo desejo de sobrevivência e alegria de viver.
A produção e publicação de um romance como esse, agora, mostra como o índio está mais vivo do que nunca em sua conexão com a literatura brasileira. Tampouco deve ser uma coincidência que, neste exato momento, outras ficções, filmes, romances, peças de teatro, novelas de televisão, canções, estejam sendo feitos, todos sobre os índios, todos lutando em defesa de sua preservação para a História. Quando há tanta desconfiança em relação à pulsão destrutiva da civilização ocidental e entre nós é tão escandaloso o capitalismo selvagem, isso pode vir a significar alguma coisa. Talvez uma postura mais cautelosa e menos arrogante, de quem está aprendendo a perceber que outras civilizações encontraram saídas melhores e, sobretudo, não suicidas para males que hoje parecem irremediáveis, como o problema do poder, da proliferação e potenciação dos armamentos, da destruição da natureza, do Estado e de seu aparelho, da igualdade nunca encontrada. A alegoria da moça branca morta ao parir mestiços mortos poderá significar também o caráter heteroletal e autoletal da etnia branca? Pode ser que a importância da civilização indígena esteja, final e penosamente, penetrando na consciência do corpo social
brasileiro.
Walnice Nogueira Galvão. Indianismo revisitado. In: Esboço de figura – Homenagem a Antonio Candido. São Paulo: Duas Cidades, 1979, p. 379-89 (com adaptações).
Considerando as relações semântico-sintáticas estabelecidas no texto, julgue o item a seguir.
Infere-se do texto que, na tribo Urubu-Kaapor, a fúria sagrada se manifesta sempre que um parente, em especial, um filho, morre, o que, por consequência, demonstra que os índios dessa tribo valorizam os laços familiares e não aceitam a impermanência da existência humana.
 

Provas

Questão presente nas seguintes provas
2538251 Ano: 2016
Disciplina: Português
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: IRB
Provas:

Texto

O índio não teve muita sorte na literatura brasileira, depois do Romantismo. Enquanto nas letras hispano-americanas viceja um esplêndido indigenismo pelo século XX adentro, com tantos e tão importantes criadores dedicando-se a transpor o índio para a ficção, no Brasil se podem contar nos dedos das mãos os casos.

Torna a trazer o assunto à baila o aparecimento e grande vendagem de Maíra, romance de Darcy Ribeiro. O renomado antropólogo já tinha em seu acervo de realizações uma respeitável brasiliana, incluindo vários trabalhos sobre os índios, um dos quais, a história de Uirá, fora transformado em filme no início da década de 70. Maíra é, portanto, a primeira incursão do autor pelo épico, a menos que se considere a história de Uirá como uma primeira aproximação ao gênero.

O relato, como o filme, dá conta do trágico percurso de Uirá, da tribo Urubu-Kaapor, no Maranhão deste século, o qual um dia fica iñaron quando, após muitas desgraças comuns ao destino dos índios brasileiros, como fome, espoliação, epidemias, perseguições, perde também um dos filhos.

A palavra tupi iñaron designa um estado de fúria sagrada, associado ao sofrimento excessivo, não deixando de lembrar as famosas fúrias dos heróis gregos: Hércules, uma vez acometido por um desses acessos, enviado pela vingativa Hera, matou, sem o saber, seus três filhos e esposa, tal como vem narrado na tragédia Héracles Furioso, de Eurípedes. Nas Bacantes, do mesmo autor, Agave, fora de si, participa do desmembramento de seu filho adulto, Penteu, rei de Tebas. E talvez o mais formidável exemplo seja o da cólera de Aquiles, que dá nascimento à inteira composição da Ilíada, desencadeada por sua recusa a continuar lutando. Devido à recusa de Aquiles, quase foi perdida a guerra de Troia e, não fosse sua fúria, o poema não teria sido composto.

Em meio ao furacão histórico da fase do capitalismo selvagem no país, quando o acirramento da acumulação leva multinacionais e suas cabeças-de-ponte nacionais a apropriar-se dos mais recônditos confins com vistas ao lucro, encontram-se, estonteados, os índios. O único problema dos Mairum — nome inventado, tribo arquetípica de todas as tribos, povo de Maíra — é como sobreviver e como fazer sua cultura sobreviver, com crescente dificuldade.

O romance inteiro soa como uma lamentação, um carpir sobre o fim de uma civilização das mais admiráveis. Seus trechos mais bem realizados são aqueles nos quais uma espécie de narrador coletivo índio dá conta de sua maneira de ver o mundo, de como compreende e interpreta seus hábitos e tradições; e, o que é mais importante, franqueia para o leitor seu tremendo desejo de sobrevivência e alegria de viver.

A produção e publicação de um romance como esse, agora, mostra como o índio está mais vivo do que nunca em sua conexão com a literatura brasileira. Tampouco deve ser uma coincidência que, neste exato momento, outras ficções, filmes, romances, peças de teatro, novelas de televisão, canções, estejam sendo feitos, todos sobre os índios, todos lutando em defesa de sua preservação para a História. Quando há tanta desconfiança em relação à pulsão destrutiva da civilização ocidental e entre nós é tão escandaloso o capitalismo selvagem, isso pode vir a significar alguma coisa. Talvez uma postura mais cautelosa e menos arrogante, de quem está aprendendo a perceber que outras civilizações encontraram saídas melhores e, sobretudo, não suicidas para males que hoje parecem irremediáveis, como o problema do poder, da proliferação e potenciação dos armamentos, da destruição da natureza, do Estado e de seu aparelho, da igualdade nunca encontrada. A alegoria da moça branca morta ao parir mestiços mortos poderá significar também o caráter heteroletal e autoletal da etnia branca? Pode ser que a importância da civilização indígena esteja, final e penosamente, penetrando na consciência do corpo social
brasileiro.

Walnice Nogueira Galvão. Indianismo revisitado. In: Esboço de figura – Homenagem a Antonio Candido. São Paulo: Duas Cidades, 1979, p. 379-89 (com adaptações).

Considerando as relações semântico-sintáticas estabelecidas no texto, julgue o item a seguir.

A oração reduzida iniciada pelo gerúndio “incluindo” poderia ser corretamente substituída pela seguinte oração desenvolvida: no qual se inclui vários trabalhos sobre os índios.

 

Provas

Questão presente nas seguintes provas
2538250 Ano: 2016
Disciplina: Português
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: IRB
Provas:
Texto
O índio não teve muita sorte na literatura brasileira, depois do Romantismo. Enquanto nas letras hispano-americanas viceja um esplêndido indigenismo pelo século XX adentro, com tantos e tão importantes criadores dedicando-se a transpor o índio para a ficção, no Brasil se podem contar nos dedos das mãos os casos.
Torna a trazer o assunto à baila o aparecimento e grande vendagem de Maíra, romance de Darcy Ribeiro. O renomado antropólogo já tinha em seu acervo de realizações uma respeitável brasiliana, incluindo vários trabalhos sobre os índios, um dos quais, a história de Uirá, fora transformado em filme no início da década de 70. Maíra é, portanto, a primeira incursão do autor pelo épico, a menos que se considere a história de Uirá como uma primeira aproximação ao gênero.
O relato, como o filme, dá conta do trágico percurso de Uirá, da tribo Urubu-Kaapor, no Maranhão deste século, o qual um dia fica iñaron quando, após muitas desgraças comuns ao destino dos índios brasileiros, como fome, espoliação, epidemias, perseguições, perde também um dos filhos.
A palavra tupi iñaron designa um estado de fúria sagrada, associado ao sofrimento excessivo, não deixando de lembrar as famosas fúrias dos heróis gregos: Hércules, uma vez acometido por um desses acessos, enviado pela vingativa Hera, matou, sem o saber, seus três filhos e esposa, tal como vem narrado na tragédia Héracles Furioso, de Eurípedes. Nas Bacantes, do mesmo autor, Agave, fora de si, participa do desmembramento de seu filho adulto, Penteu, rei de Tebas. E talvez o mais formidável exemplo seja o da cólera de Aquiles, que dá nascimento à inteira composição da Ilíada, desencadeada por sua recusa a continuar lutando. Devido à recusa de Aquiles, quase foi perdida a guerra de Troia e, não fosse sua fúria, o poema não teria sido composto.
Em meio ao furacão histórico da fase do capitalismo selvagem no país, quando o acirramento da acumulação leva multinacionais e suas cabeças-de-ponte nacionais a apropriar-se dos mais recônditos confins com vistas ao lucro, encontram-se, estonteados, os índios. O único problema dos Mairum — nome inventado, tribo arquetípica de todas as tribos, povo de Maíra — é como sobreviver e como fazer sua cultura sobreviver, com crescente dificuldade.
O romance inteiro soa como uma lamentação, um carpir sobre o fim de uma civilização das mais admiráveis. Seus trechos mais bem realizados são aqueles nos quais uma espécie de narrador coletivo índio dá conta de sua maneira de ver o mundo, de como compreende e interpreta seus hábitos e tradições; e, o que é mais importante, franqueia para o leitor seu tremendo desejo de sobrevivência e alegria de viver.
A produção e publicação de um romance como esse, agora, mostra como o índio está mais vivo do que nunca em sua conexão com a literatura brasileira. Tampouco deve ser uma coincidência que, neste exato momento, outras ficções, filmes, romances, peças de teatro, novelas de televisão, canções, estejam sendo feitos, todos sobre os índios, todos lutando em defesa de sua preservação para a História. Quando há tanta desconfiança em relação à pulsão destrutiva da civilização ocidental e entre nós é tão escandaloso o capitalismo selvagem, isso pode vir a significar alguma coisa. Talvez uma postura mais cautelosa e menos arrogante, de quem está aprendendo a perceber que outras civilizações encontraram saídas melhores e, sobretudo, não suicidas para males que hoje parecem irremediáveis, como o problema do poder, da proliferação e potenciação dos armamentos, da destruição da natureza, do Estado e de seu aparelho, da igualdade nunca encontrada. A alegoria da moça branca morta ao parir mestiços mortos poderá significar também o caráter heteroletal e autoletal da etnia branca? Pode ser que a importância da civilização indígena esteja, final e penosamente, penetrando na consciência do corpo social
brasileiro.
Walnice Nogueira Galvão. Indianismo revisitado. In: Esboço de figura – Homenagem a Antonio Candido. São Paulo: Duas Cidades, 1979, p. 379-89 (com adaptações).
Considerando as relações semântico-sintáticas estabelecidas no texto, julgue o item a seguir.
O trecho “viceja um esplêndido indigenismo” indica que, para a autora, prosperou na literatura hispano-americana, durante todo o século XX, a imagem do índio como herói, como bom selvagem, ou seja, como elemento diferenciador da identidade de nações sul-americanas.
 

Provas

Questão presente nas seguintes provas
2538249 Ano: 2016
Disciplina: Português
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: IRB
Provas:
Texto
O índio não teve muita sorte na literatura brasileira, depois do Romantismo. Enquanto nas letras hispano-americanas viceja um esplêndido indigenismo pelo século XX adentro, com tantos e tão importantes criadores dedicando-se a transpor o índio para a ficção, no Brasil se podem contar nos dedos das mãos os casos.
Torna a trazer o assunto à baila o aparecimento e grande vendagem de Maíra, romance de Darcy Ribeiro. O renomado antropólogo já tinha em seu acervo de realizações uma respeitável brasiliana, incluindo vários trabalhos sobre os índios, um dos quais, a história de Uirá, fora transformado em filme no início da década de 70. Maíra é, portanto, a primeira incursão do autor pelo épico, a menos que se considere a história de Uirá como uma primeira aproximação ao gênero.
O relato, como o filme, dá conta do trágico percurso de Uirá, da tribo Urubu-Kaapor, no Maranhão deste século, o qual um dia fica iñaron quando, após muitas desgraças comuns ao destino dos índios brasileiros, como fome, espoliação, epidemias, perseguições, perde também um dos filhos.
A palavra tupi iñaron designa um estado de fúria sagrada, associado ao sofrimento excessivo, não deixando de lembrar as famosas fúrias dos heróis gregos: Hércules, uma vez acometido por um desses acessos, enviado pela vingativa Hera, matou, sem o saber, seus três filhos e esposa, tal como vem narrado na tragédia Héracles Furioso, de Eurípedes. Nas Bacantes, do mesmo autor, Agave, fora de si, participa do desmembramento de seu filho adulto, Penteu, rei de Tebas. E talvez o mais formidável exemplo seja o da cólera de Aquiles, que dá nascimento à inteira composição da Ilíada, desencadeada por sua recusa a continuar lutando. Devido à recusa de Aquiles, quase foi perdida a guerra de Troia e, não fosse sua fúria, o poema não teria sido composto.
Em meio ao furacão histórico da fase do capitalismo selvagem no país, quando o acirramento da acumulação leva multinacionais e suas cabeças-de-ponte nacionais a apropriar-se dos mais recônditos confins com vistas ao lucro, encontram-se, estonteados, os índios. O único problema dos Mairum — nome inventado, tribo arquetípica de todas as tribos, povo de Maíra — é como sobreviver e como fazer sua cultura sobreviver, com crescente dificuldade.
O romance inteiro soa como uma lamentação, um carpir sobre o fim de uma civilização das mais admiráveis. Seus trechos mais bem realizados são aqueles nos quais uma espécie de narrador coletivo índio dá conta de sua maneira de ver o mundo, de como compreende e interpreta seus hábitos e tradições; e, o que é mais importante, franqueia para o leitor seu tremendo desejo de sobrevivência e alegria de viver.
A produção e publicação de um romance como esse, agora, mostra como o índio está mais vivo do que nunca em sua conexão com a literatura brasileira. Tampouco deve ser uma coincidência que, neste exato momento, outras ficções, filmes, romances, peças de teatro, novelas de televisão, canções, estejam sendo feitos, todos sobre os índios, todos lutando em defesa de sua preservação para a História. Quando há tanta desconfiança em relação à pulsão destrutiva da civilização ocidental e entre nós é tão escandaloso o capitalismo selvagem, isso pode vir a significar alguma coisa. Talvez uma postura mais cautelosa e menos arrogante, de quem está aprendendo a perceber que outras civilizações encontraram saídas melhores e, sobretudo, não suicidas para males que hoje parecem irremediáveis, como o problema do poder, da proliferação e potenciação dos armamentos, da destruição da natureza, do Estado e de seu aparelho, da igualdade nunca encontrada. A alegoria da moça branca morta ao parir mestiços mortos poderá significar também o caráter heteroletal e autoletal da etnia branca? Pode ser que a importância da civilização indígena esteja, final e penosamente, penetrando na consciência do corpo social
brasileiro.
Walnice Nogueira Galvão. Indianismo revisitado. In: Esboço de figura – Homenagem a Antonio Candido. São Paulo: Duas Cidades, 1979, p. 379-89 (com adaptações).
Considerando as relações semântico-sintáticas estabelecidas no texto, julgue o item a seguir.
As relações semântico-sintáticas no período “Nas Bacantes, do mesmo autor, Agave, fora de si, participa do desmembramento de seu filho adulto, Penteu, rei de Tebas” sustentam a inferência de que Agave tinha mais de um filho e apenas um deles era adulto.
 

Provas

Questão presente nas seguintes provas
2538248 Ano: 2016
Disciplina: Português
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: IRB
Provas:
Texto
O índio não teve muita sorte na literatura brasileira, depois do Romantismo. Enquanto nas letras hispano-americanas viceja um esplêndido indigenismo pelo século XX adentro, com tantos e tão importantes criadores dedicando-se a transpor o índio para a ficção, no Brasil se podem contar nos dedos das mãos os casos.
Torna a trazer o assunto à baila o aparecimento e grande vendagem de Maíra, romance de Darcy Ribeiro. O renomado antropólogo já tinha em seu acervo de realizações uma respeitável brasiliana, incluindo vários trabalhos sobre os índios, um dos quais, a história de Uirá, fora transformado em filme no início da década de 70. Maíra é, portanto, a primeira incursão do autor pelo épico, a menos que se considere a história de Uirá como uma primeira aproximação ao gênero.
O relato, como o filme, dá conta do trágico percurso de Uirá, da tribo Urubu-Kaapor, no Maranhão deste século, o qual um dia fica iñaron quando, após muitas desgraças comuns ao destino dos índios brasileiros, como fome, espoliação, epidemias, perseguições, perde também um dos filhos.
A palavra tupi iñaron designa um estado de fúria sagrada, associado ao sofrimento excessivo, não deixando de lembrar as famosas fúrias dos heróis gregos: Hércules, uma vez acometido por um desses acessos, enviado pela vingativa Hera, matou, sem o saber, seus três filhos e esposa, tal como vem narrado na tragédia Héracles Furioso, de Eurípedes. Nas Bacantes, do mesmo autor, Agave, fora de si, participa do desmembramento de seu filho adulto, Penteu, rei de Tebas. E talvez o mais formidável exemplo seja o da cólera de Aquiles, que dá nascimento à inteira composição da Ilíada, desencadeada por sua recusa a continuar lutando. Devido à recusa de Aquiles, quase foi perdida a guerra de Troia e, não fosse sua fúria, o poema não teria sido composto.
Em meio ao furacão histórico da fase do capitalismo selvagem no país, quando o acirramento da acumulação leva multinacionais e suas cabeças-de-ponte nacionais a apropriar-se dos mais recônditos confins com vistas ao lucro, encontram-se, estonteados, os índios. O único problema dos Mairum — nome inventado, tribo arquetípica de todas as tribos, povo de Maíra — é como sobreviver e como fazer sua cultura sobreviver, com crescente dificuldade.
O romance inteiro soa como uma lamentação, um carpir sobre o fim de uma civilização das mais admiráveis. Seus trechos mais bem realizados são aqueles nos quais uma espécie de narrador coletivo índio dá conta de sua maneira de ver o mundo, de como compreende e interpreta seus hábitos e tradições; e, o que é mais importante, franqueia para o leitor seu tremendo desejo de sobrevivência e alegria de viver.
A produção e publicação de um romance como esse, agora, mostra como o índio está mais vivo do que nunca em sua conexão com a literatura brasileira. Tampouco deve ser uma coincidência que, neste exato momento, outras ficções, filmes, romances, peças de teatro, novelas de televisão, canções, estejam sendo feitos, todos sobre os índios, todos lutando em defesa de sua preservação para a História. Quando há tanta desconfiança em relação à pulsão destrutiva da civilização ocidental e entre nós é tão escandaloso o capitalismo selvagem, isso pode vir a significar alguma coisa. Talvez uma postura mais cautelosa e menos arrogante, de quem está aprendendo a perceber que outras civilizações encontraram saídas melhores e, sobretudo, não suicidas para males que hoje parecem irremediáveis, como o problema do poder, da proliferação e potenciação dos armamentos, da destruição da natureza, do Estado e de seu aparelho, da igualdade nunca encontrada. A alegoria da moça branca morta ao parir mestiços mortos poderá significar também o caráter heteroletal e autoletal da etnia branca? Pode ser que a importância da civilização indígena esteja, final e penosamente, penetrando na consciência do corpo social
brasileiro.
Walnice Nogueira Galvão. Indianismo revisitado. In: Esboço de figura – Homenagem a Antonio Candido. São Paulo: Duas Cidades, 1979, p. 379-89 (com adaptações).
Acerca das relações semântico-sintáticas e do vocabulário do texto, julgue o item seguinte.
Sem prejuízo da correção gramatical e do sentido do texto, a expressão “contar nos dedos das mãos” poderia ser substituída por contar pelos dedos.
 

Provas

Questão presente nas seguintes provas
2538247 Ano: 2016
Disciplina: Português
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: IRB
Provas:

Texto

O índio não teve muita sorte na literatura brasileira, depois do Romantismo. Enquanto nas letras hispano-americanas viceja um esplêndido indigenismo pelo século XX adentro, com tantos e tão importantes criadores dedicando-se a transpor o índio para a ficção, no Brasil se podem contar nos dedos das mãos os casos.

Torna a trazer o assunto à baila o aparecimento e grande vendagem de Maíra, romance de Darcy Ribeiro. O renomado antropólogo já tinha em seu acervo de realizações uma respeitável brasiliana, incluindo vários trabalhos sobre os índios, um dos quais, a história de Uirá, fora transformado em filme no início da década de 70. Maíra é, portanto, a primeira incursão do autor pelo épico, a menos que se considere a história de Uirá como uma primeira aproximação ao gênero.

O relato, como o filme, dá conta do trágico percurso de Uirá, da tribo Urubu-Kaapor, no Maranhão deste século, o qual um dia fica iñaron quando, após muitas desgraças comuns ao destino dos índios brasileiros, como fome, espoliação, epidemias, perseguições, perde também um dos filhos.

A palavra tupi iñaron designa um estado de fúria sagrada, associado ao sofrimento excessivo, não deixando de lembrar as famosas fúrias dos heróis gregos: Hércules, uma vez acometido por um desses acessos, enviado pela vingativa Hera, matou, sem o saber, seus três filhos e esposa, tal como vem narrado na tragédia Héracles Furioso, de Eurípedes. Nas Bacantes, do mesmo autor, Agave, fora de si, participa do desmembramento de seu filho adulto, Penteu, rei de Tebas. E talvez o mais formidável exemplo seja o da cólera de Aquiles, que dá nascimento à inteira composição da Ilíada, desencadeada por sua recusa a continuar lutando. Devido à recusa de Aquiles, quase foi perdida a guerra de Troia e, não fosse sua fúria, o poema não teria sido composto.

Em meio ao furacão histórico da fase do capitalismo selvagem no país, quando o acirramento da acumulação leva multinacionais e suas cabeças-de-ponte nacionais a apropriar-se dos mais recônditos confins com vistas ao lucro, encontram-se, estonteados, os índios. O único problema dos Mairum — nome inventado, tribo arquetípica de todas as tribos, povo de Maíra — é como sobreviver e como fazer sua cultura sobreviver, com crescente dificuldade.

O romance inteiro soa como uma lamentação, um carpir sobre o fim de uma civilização das mais admiráveis. Seus trechos mais bem realizados são aqueles nos quais uma espécie de narrador coletivo índio dá conta de sua maneira de ver o mundo, de como compreende e interpreta seus hábitos e tradições; e, o que é mais importante, franqueia para o leitor seu tremendo desejo de sobrevivência e alegria de viver.

A produção e publicação de um romance como esse, agora, mostra como o índio está mais vivo do que nunca em sua conexão com a literatura brasileira. Tampouco deve ser uma coincidência que, neste exato momento, outras ficções, filmes, romances, peças de teatro, novelas de televisão, canções, estejam sendo feitos, todos sobre os índios, todos lutando em defesa de sua preservação para a História. Quando há tanta desconfiança em relação à pulsão destrutiva da civilização ocidental e entre nós é tão escandaloso o capitalismo selvagem, isso pode vir a significar alguma coisa. Talvez uma postura mais cautelosa e menos arrogante, de quem está aprendendo a perceber que outras civilizações encontraram saídas melhores e, sobretudo, não suicidas para males que hoje parecem irremediáveis, como o problema do poder, da proliferação e potenciação dos armamentos, da destruição da natureza, do Estado e de seu aparelho, da igualdade nunca encontrada. A alegoria da moça branca morta ao parir mestiços mortos poderá significar também o caráter heteroletal e autoletal da etnia branca? Pode ser que a importância da civilização indígena esteja, final e penosamente, penetrando na consciência do corpo social
brasileiro.

Walnice Nogueira Galvão. Indianismo revisitado. In: Esboço de figura – Homenagem a Antonio Candido. São Paulo: Duas Cidades, 1979, p. 379-89 (com adaptações).

Acerca das relações semântico-sintáticas e do vocabulário do texto, julgue o item seguinte.

Os termos “trágico”, “de Uirá” e “deste século” exercem a mesma função sintática, na oração em que ocorrem.

 

Provas

Questão presente nas seguintes provas