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2549738 Ano: 2017
Disciplina: Português
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: IRB
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Texto

A classe dedicada ao comércio, marcada pela compra e venda de mercadorias ou na colocação de dinheiro, não representava, no Império, o padrão social dominante. Os comerciantes eram, em grande parte, estrangeiros; o ramo mais saliente do comércio, o ligado ao escravo, sujava as mãos dos que com ele enriqueciam. Um título de comendador ou de barão dourava o busto do empresário, mas não o nobilitava, visto que o nobre pertencia a uma camada diversa, composta, sob o ponto de vista profissional ou econômico, de letrados ou senhores de rendas. O homem que traficava — membro da classe lucrativa ou aquisitiva —, para se qualificar socialmente, embriagou-se, perdidamente, na imitação do estilo ou nos traços secundários da classe proprietária e do estamento. Elevava-se, se enriquecido — elevava-se é o termo certo — a uma categoria superior no desfrute ostentatório de rendas, transformando a natureza de seu patrimônio, ou ingressava na política e no governo, preocupado em amortecer a cintilação equívoca da origem. Era quase uma situação colonial, com a ascensão, nem sempre possível no espaço de uma geração, do albardeiro ao círculo dos fidalgos. Em meados do século XIX o velho equilíbrio se rompe, fio a fio, imperceptivelmente, na quebra de secular estrutura econômica e social. Consequência da nova dinâmica, que agita e move a sociedade, será a emancipação de uma classe inteira, até aí pejada, impedida e entorpecida em seus passos. Dentro da consciência do homem que enriqueceu no trato de mercadorias e de valores, haverá agora uma crise. O Dr. Félix (Ressurreição) ou Rubião (Quincas Borba ), aquinhoados pela inesperada herança, trataram de aplicar os bens para que eles lhes proporcionassem renda segura e estável.

Outra é a conduta de Mauá, como será a de Palha (Quincas Borba ), Cotrim (Memórias Póstumas) ou de Santos (Esaú e Jacó). Homens do comércio, não convertem o patrimônio em prestações de renda, mas continuam presos aos seus negócios, perseguindo o infinito, imantados por outros desígnios, alimentados por uma nova sociedade. Mas há a crise. Rubião a vive, já, no último quartel do século, em sentido contrário, atraído pelos lucros do comércio e não pelo comércio. Mauá a sentirá, no sentido autêntico: dos doze aos trinta e dois anos, vergado no balcão e sócio de comerciante, torna-se dono de respeitável fortuna. Fiel à ordem dominante, não a calcula em bons e vistosos contos de réis, mas por sua renda, que seria superior a 50 contos anuais. A renda e não o capital dava a nota de grandeza, de opulência, para encher os olhos e provocar a admiração. “Já se vê que, — confessava, aludindo ao ano de 1846 — ao engolfar-me em outra esfera de atividade, possuía eu uma fortuna satisfatória, que me convidava a desfrutá-la. Travou-se em meu espírito, nesse momento, uma luta vivaz entre o egoísmo, que em maior ou menor dose habita o coração humano, e as ideias generosas que em grau elevado me arrastavam a outros destinos...”. O egoísmo seria a fruição do capital, sem suor e angústias; o impulso contrário, a expansão da economia, que se identificaria, para a classe lucrativa, com o progresso do país. Certo de seu papel dinâmico na sociedade, criando atividades novas e aprimorando as existentes; esse estrato ganha relevo e autonomia, sem que se esconda atrás do biombo, dourado de tradição e respeitabilidade, da classe proprietária. É hostil, como conjunto, ao ócio dos homens de renda e ao prestígio do estamento político, que maneja o poder do alto e de cima, sem consultar-lhe as preferências nem lhe pedir orientação e conselho. Atente-se: a classe lucrativa tem conduta adversa ao estilo de vida da camada dirigente, não obstante a explore, e viva, em grande parte, de seus favores, numa espécie de capitalismo político, dependente e subordinado ao Estado.

Raymundo Faoro. Machado de Assis: a pirâmide e o trapézio. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1974, p. 225-7 (com adaptações).

Julgue o item subsequente, acerca das ideias e das estruturas linguísticas do texto.

Os vocábulos “pejada” e “aquinhoados” podem ser substituídos, respectivamente, por embaraçada e contemplados, sem prejuízo para as informações veiculadas no texto.

 

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2549737 Ano: 2017
Disciplina: Português
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: IRB
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Texto

A classe dedicada ao comércio, marcada pela compra e venda de mercadorias ou na colocação de dinheiro, não representava, no Império, o padrão social dominante. Os comerciantes eram, em grande parte, estrangeiros; o ramo mais saliente do comércio, o ligado ao escravo, sujava as mãos dos que com ele enriqueciam. Um título de comendador ou de barão dourava o busto do empresário, mas não o nobilitava, visto que o nobre pertencia a uma camada diversa, composta, sob o ponto de vista profissional ou econômico, de letrados ou senhores de rendas. O homem que traficava — membro da classe lucrativa ou aquisitiva —, para se qualificar socialmente, embriagou-se, perdidamente, na imitação do estilo ou nos traços secundários da classe proprietária e do estamento. Elevava-se, se enriquecido — elevava-se é o termo certo — a uma categoria superior no desfrute ostentatório de rendas, transformando a natureza de seu patrimônio, ou ingressava na política e no governo, preocupado em amortecer a cintilação equívoca da origem. Era quase uma situação colonial, com a ascensão, nem sempre possível no espaço de uma geração, do albardeiro ao círculo dos fidalgos. Em meados do século XIX o velho equilíbrio se rompe, fio a fio, imperceptivelmente, na quebra de secular estrutura econômica e social. Consequência da nova dinâmica, que agita e move a sociedade, será a emancipação de uma classe inteira, até aí pejada, impedida e entorpecida em seus passos. Dentro da consciência do homem que enriqueceu no trato de mercadorias e de valores, haverá agora uma crise. O Dr. Félix (Ressurreição) ou Rubião (Quincas Borba ), aquinhoados pela inesperada herança, trataram de aplicar os bens para que eles lhes proporcionassem renda segura e estável.

Outra é a conduta de Mauá, como será a de Palha (Quincas Borba ), Cotrim (Memórias Póstumas) ou de Santos (Esaú e Jacó). Homens do comércio, não convertem o patrimônio em prestações de renda, mas continuam presos aos seus negócios, perseguindo o infinito, imantados por outros desígnios, alimentados por uma nova sociedade. Mas há a crise. Rubião a vive, já, no último quartel do século, em sentido contrário, atraído pelos lucros do comércio e não pelo comércio. Mauá a sentirá, no sentido autêntico: dos doze aos trinta e dois anos, vergado no balcão e sócio de comerciante, torna-se dono de respeitável fortuna. Fiel à ordem dominante, não a calcula em bons e vistosos contos de réis, mas por sua renda, que seria superior a 50 contos anuais. A renda e não o capital dava a nota de grandeza, de opulência, para encher os olhos e provocar a admiração. “Já se vê que, — confessava, aludindo ao ano de 1846 — ao engolfar-me em outra esfera de atividade, possuía eu uma fortuna satisfatória, que me convidava a desfrutá-la. Travou-se em meu espírito, nesse momento, uma luta vivaz entre o egoísmo, que em maior ou menor dose habita o coração humano, e as ideias generosas que em grau elevado me arrastavam a outros destinos...”. O egoísmo seria a fruição do capital, sem suor e angústias; o impulso contrário, a expansão da economia, que se identificaria, para a classe lucrativa, com o progresso do país. Certo de seu papel dinâmico na sociedade, criando atividades novas e aprimorando as existentes; esse estrato ganha relevo e autonomia, sem que se esconda atrás do biombo, dourado de tradição e respeitabilidade, da classe proprietária. É hostil, como conjunto, ao ócio dos homens de renda e ao prestígio do estamento político, que maneja o poder do alto e de cima, sem consultar-lhe as preferências nem lhe pedir orientação e conselho. Atente-se: a classe lucrativa tem conduta adversa ao estilo de vida da camada dirigente, não obstante a explore, e viva, em grande parte, de seus favores, numa espécie de capitalismo político, dependente e subordinado ao Estado.

Raymundo Faoro. Machado de Assis: a pirâmide e o trapézio. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1974, p. 225-7 (com adaptações).

Julgue o item subsequente, acerca das ideias e das estruturas linguísticas do texto.

Feitos os devidos ajustes de maiúsculas e minúsculas e de pontuação, o deslocamento dos advérbios “socialmente” e “perdidamente”, para o início e para o fim do período em que eles ocorrem, respectivamente, manteria a correção e o sentido original do texto.

 

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2549736 Ano: 2017
Disciplina: Português
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: IRB
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A classe dedicada ao comércio, marcada pela compra e venda de mercadorias ou na colocação de dinheiro, não representava, no Império, o padrão social dominante. Os comerciantes eram, em grande parte, estrangeiros; o ramo mais saliente do comércio, o ligado ao escravo, sujava as mãos dos que com ele enriqueciam. Um título de comendador ou de barão dourava o busto do empresário, mas não o nobilitava, visto que o nobre pertencia a uma camada diversa, composta, sob o ponto de vista profissional ou econômico, de letrados ou senhores de rendas. O homem que traficava — membro da classe lucrativa ou aquisitiva —, para se qualificar socialmente, embriagou-se, perdidamente, na imitação do estilo ou nos traços secundários da classe proprietária e do estamento. Elevava-se, se enriquecido — elevava-se é o termo certo — a uma categoria superior no desfrute ostentatório de rendas, transformando a natureza de seu patrimônio, ou ingressava na política e no governo, preocupado em amortecer a cintilação equívoca da origem. Era quase uma situação colonial, com a ascensão, nem sempre possível no espaço de uma geração, do albardeiro ao círculo dos fidalgos. Em meados do século XIX o velho equilíbrio se rompe, fio a fio, imperceptivelmente, na quebra de secular estrutura econômica e social. Consequência da nova dinâmica, que agita e move a sociedade, será a emancipação de uma classe inteira, até aí pejada, impedida e entorpecida em seus passos. Dentro da consciência do homem que enriqueceu no trato de mercadorias e de valores, haverá agora uma crise. O Dr. Félix (Ressurreição) ou Rubião (Quincas Borba ), aquinhoados pela inesperada herança, trataram de aplicar os bens para que eles lhes proporcionassem renda segura e estável.

Outra é a conduta de Mauá, como será a de Palha (Quincas Borba ), Cotrim (Memórias Póstumas) ou de Santos (Esaú e Jacó). Homens do comércio, não convertem o patrimônio em prestações de renda, mas continuam presos aos seus negócios, perseguindo o infinito, imantados por outros desígnios, alimentados por uma nova sociedade. Mas há a crise. Rubião a vive, já, no último quartel do século, em sentido contrário, atraído pelos lucros do comércio e não pelo comércio. Mauá a sentirá, no sentido autêntico: dos doze aos trinta e dois anos, vergado no balcão e sócio de comerciante, torna-se dono de respeitável fortuna. Fiel à ordem dominante, não a calcula em bons e vistosos contos de réis, mas por sua renda, que seria superior a 50 contos anuais. A renda e não o capital dava a nota de grandeza, de opulência, para encher os olhos e provocar a admiração. “Já se vê que, — confessava, aludindo ao ano de 1846 — ao engolfar-me em outra esfera de atividade, possuía eu uma fortuna satisfatória, que me convidava a desfrutá-la. Travou-se em meu espírito, nesse momento, uma luta vivaz entre o egoísmo, que em maior ou menor dose habita o coração humano, e as ideias generosas que em grau elevado me arrastavam a outros destinos...”. O egoísmo seria a fruição do capital, sem suor e angústias; o impulso contrário, a expansão da economia, que se identificaria, para a classe lucrativa, com o progresso do país. Certo de seu papel dinâmico na sociedade, criando atividades novas e aprimorando as existentes; esse estrato ganha relevo e autonomia, sem que se esconda atrás do biombo, dourado de tradição e respeitabilidade, da classe proprietária. É hostil, como conjunto, ao ócio dos homens de renda e ao prestígio do estamento político, que maneja o poder do alto e de cima, sem consultar-lhe as preferências nem lhe pedir orientação e conselho. Atente-se: a classe lucrativa tem conduta adversa ao estilo de vida da camada dirigente, não obstante a explore, e viva, em grande parte, de seus favores, numa espécie de capitalismo político, dependente e subordinado ao Estado.

Raymundo Faoro. Machado de Assis: a pirâmide e o trapézio. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1974, p. 225-7 (com adaptações).

Com referência ao texto, julgue o próximo item.

Tanto em “do albardeiro ao círculo dos fidalgos” quanto em “dos doze aos trinta e dois anos”, a preposição de foi empregada no sentido de desde..

 

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2549735 Ano: 2017
Disciplina: Português
Banca: CESPE / CEBRASPE
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A classe dedicada ao comércio, marcada pela compra e venda de mercadorias ou na colocação de dinheiro, não representava, no Império, o padrão social dominante. Os comerciantes eram, em grande parte, estrangeiros; o ramo mais saliente do comércio, o ligado ao escravo, sujava as mãos dos que com ele enriqueciam. Um título de comendador ou de barão dourava o busto do empresário, mas não o nobilitava, visto que o nobre pertencia a uma camada diversa, composta, sob o ponto de vista profissional ou econômico, de letrados ou senhores de rendas. O homem que traficava — membro da classe lucrativa ou aquisitiva —, para se qualificar socialmente, embriagou-se, perdidamente, na imitação do estilo ou nos traços secundários da classe proprietária e do estamento. Elevava-se, se enriquecido — elevava-se é o termo certo — a uma categoria superior no desfrute ostentatório de rendas, transformando a natureza de seu patrimônio, ou ingressava na política e no governo, preocupado em amortecer a cintilação equívoca da origem. Era quase uma situação colonial, com a ascensão, nem sempre possível no espaço de uma geração, do albardeiro ao círculo dos fidalgos. Em meados do século XIX o velho equilíbrio se rompe, fio a fio, imperceptivelmente, na quebra de secular estrutura econômica e social. Consequência da nova dinâmica, que agita e move a sociedade, será a emancipação de uma classe inteira, até aí pejada, impedida e entorpecida em seus passos. Dentro da consciência do homem que enriqueceu no trato de mercadorias e de valores, haverá agora uma crise. O Dr. Félix (Ressurreição) ou Rubião (Quincas Borba ), aquinhoados pela inesperada herança, trataram de aplicar os bens para que eles lhes proporcionassem renda segura e estável.

Outra é a conduta de Mauá, como será a de Palha (Quincas Borba ), Cotrim (Memórias Póstumas) ou de Santos (Esaú e Jacó). Homens do comércio, não convertem o patrimônio em prestações de renda, mas continuam presos aos seus negócios, perseguindo o infinito, imantados por outros desígnios, alimentados por uma nova sociedade. Mas há a crise. Rubião a vive, já, no último quartel do século, em sentido contrário, atraído pelos lucros do comércio e não pelo comércio. Mauá a sentirá, no sentido autêntico: dos doze aos trinta e dois anos, vergado no balcão e sócio de comerciante, torna-se dono de respeitável fortuna. Fiel à ordem dominante, não a calcula em bons e vistosos contos de réis, mas por sua renda, que seria superior a 50 contos anuais. A renda e não o capital dava a nota de grandeza, de opulência, para encher os olhos e provocar a admiração. “Já se vê que, — confessava, aludindo ao ano de 1846 — ao engolfar-me em outra esfera de atividade, possuía eu uma fortuna satisfatória, que me convidava a desfrutá-la. Travou-se em meu espírito, nesse momento, uma luta vivaz entre o egoísmo, que em maior ou menor dose habita o coração humano, e as ideias generosas que em grau elevado me arrastavam a outros destinos...”. O egoísmo seria a fruição do capital, sem suor e angústias; o impulso contrário, a expansão da economia, que se identificaria, para a classe lucrativa, com o progresso do país. Certo de seu papel dinâmico na sociedade, criando atividades novas e aprimorando as existentes; esse estrato ganha relevo e autonomia, sem que se esconda atrás do biombo, dourado de tradição e respeitabilidade, da classe proprietária. É hostil, como conjunto, ao ócio dos homens de renda e ao prestígio do estamento político, que maneja o poder do alto e de cima, sem consultar-lhe as preferências nem lhe pedir orientação e conselho. Atente-se: a classe lucrativa tem conduta adversa ao estilo de vida da camada dirigente, não obstante a explore, e viva, em grande parte, de seus favores, numa espécie de capitalismo político, dependente e subordinado ao Estado.

Raymundo Faoro. Machado de Assis: a pirâmide e o trapézio. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1974, p. 225-7 (com adaptações).

Com referência ao texto, julgue o próximo item.

O emprego da vírgula logo após a expressão “da nova dinâmica” bem como o emprego do artigo definido em “da” indicam que a oração “que agita e move a sociedade” não participa da construção da referência dessa expressão.

 

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2549734 Ano: 2017
Disciplina: Português
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: IRB
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A classe dedicada ao comércio, marcada pela compra e venda de mercadorias ou na colocação de dinheiro, não representava, no Império, o padrão social dominante. Os comerciantes eram, em grande parte, estrangeiros; o ramo mais saliente do comércio, o ligado ao escravo, sujava as mãos dos que com ele enriqueciam. Um título de comendador ou de barão dourava o busto do empresário, mas não o nobilitava, visto que o nobre pertencia a uma camada diversa, composta, sob o ponto de vista profissional ou econômico, de letrados ou senhores de rendas. O homem que traficava — membro da classe lucrativa ou aquisitiva —, para se qualificar socialmente, embriagou-se, perdidamente, na imitação do estilo ou nos traços secundários da classe proprietária e do estamento. Elevava-se, se enriquecido — elevava-se é o termo certo — a uma categoria superior no desfrute ostentatório de rendas, transformando a natureza de seu patrimônio, ou ingressava na política e no governo, preocupado em amortecer a cintilação equívoca da origem. Era quase uma situação colonial, com a ascensão, nem sempre possível no espaço de uma geração, do albardeiro ao círculo dos fidalgos. Em meados do século XIX o velho equilíbrio se rompe, fio a fio, imperceptivelmente, na quebra de secular estrutura econômica e social. Consequência da nova dinâmica, que agita e move a sociedade, será a emancipação de uma classe inteira, até aí pejada, impedida e entorpecida em seus passos. Dentro da consciência do homem que enriqueceu no trato de mercadorias e de valores, haverá agora uma crise. O Dr. Félix (Ressurreição) ou Rubião (Quincas Borba ), aquinhoados pela inesperada herança, trataram de aplicar os bens para que eles lhes proporcionassem renda segura e estável.

Outra é a conduta de Mauá, como será a de Palha (Quincas Borba ), Cotrim (Memórias Póstumas) ou de Santos (Esaú e Jacó). Homens do comércio, não convertem o patrimônio em prestações de renda, mas continuam presos aos seus negócios, perseguindo o infinito, imantados por outros desígnios, alimentados por uma nova sociedade. Mas há a crise. Rubião a vive, já, no último quartel do século, em sentido contrário, atraído pelos lucros do comércio e não pelo comércio. Mauá a sentirá, no sentido autêntico: dos doze aos trinta e dois anos, vergado no balcão e sócio de comerciante, torna-se dono de respeitável fortuna. Fiel à ordem dominante, não a calcula em bons e vistosos contos de réis, mas por sua renda, que seria superior a 50 contos anuais. A renda e não o capital dava a nota de grandeza, de opulência, para encher os olhos e provocar a admiração. “Já se vê que, — confessava, aludindo ao ano de 1846 — ao engolfar-me em outra esfera de atividade, possuía eu uma fortuna satisfatória, que me convidava a desfrutá-la. Travou-se em meu espírito, nesse momento, uma luta vivaz entre o egoísmo, que em maior ou menor dose habita o coração humano, e as ideias generosas que em grau elevado me arrastavam a outros destinos...”. O egoísmo seria a fruição do capital, sem suor e angústias; o impulso contrário, a expansão da economia, que se identificaria, para a classe lucrativa, com o progresso do país. Certo de seu papel dinâmico na sociedade, criando atividades novas e aprimorando as existentes; esse estrato ganha relevo e autonomia, sem que se esconda atrás do biombo, dourado de tradição e respeitabilidade, da classe proprietária. É hostil, como conjunto, ao ócio dos homens de renda e ao prestígio do estamento político, que maneja o poder do alto e de cima, sem consultar-lhe as preferências nem lhe pedir orientação e conselho. Atente-se: a classe lucrativa tem conduta adversa ao estilo de vida da camada dirigente, não obstante a explore, e viva, em grande parte, de seus favores, numa espécie de capitalismo político, dependente e subordinado ao Estado.

Raymundo Faoro. Machado de Assis: a pirâmide e o trapézio. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1974, p. 225-7 (com adaptações).

Com referência ao texto, julgue o próximo item.

A colocação do pronome em “embriagou-se”, “Elevava-se”, ‘Já se vê’ e “que se identificaria” está de acordo com a variedade formal culta da língua portuguesa e deve-se a razões fonético-sintáticas.

 

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2549733 Ano: 2017
Disciplina: Português
Banca: CESPE / CEBRASPE
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A classe dedicada ao comércio, marcada pela compra e venda de mercadorias ou na colocação de dinheiro, não representava, no Império, o padrão social dominante. Os comerciantes eram, em grande parte, estrangeiros; o ramo mais saliente do comércio, o ligado ao escravo, sujava as mãos dos que com ele enriqueciam. Um título de comendador ou de barão dourava o busto do empresário, mas não o nobilitava, visto que o nobre pertencia a uma camada diversa, composta, sob o ponto de vista profissional ou econômico, de letrados ou senhores de rendas. O homem que traficava — membro da classe lucrativa ou aquisitiva —, para se qualificar socialmente, embriagou-se, perdidamente, na imitação do estilo ou nos traços secundários da classe proprietária e do estamento. Elevava-se, se enriquecido — elevava-se é o termo certo — a uma categoria superior no desfrute ostentatório de rendas, transformando a natureza de seu patrimônio, ou ingressava na política e no governo, preocupado em amortecer a cintilação equívoca da origem. Era quase uma situação colonial, com a ascensão, nem sempre possível no espaço de uma geração, do albardeiro ao círculo dos fidalgos. Em meados do século XIX o velho equilíbrio se rompe, fio a fio, imperceptivelmente, na quebra de secular estrutura econômica e social. Consequência da nova dinâmica, que agita e move a sociedade, será a emancipação de uma classe inteira, até aí pejada, impedida e entorpecida em seus passos. Dentro da consciência do homem que enriqueceu no trato de mercadorias e de valores, haverá agora uma crise. O Dr. Félix (Ressurreição) ou Rubião (Quincas Borba ), aquinhoados pela inesperada herança, trataram de aplicar os bens para que eles lhes proporcionassem renda segura e estável.

Outra é a conduta de Mauá, como será a de Palha (Quincas Borba ), Cotrim (Memórias Póstumas) ou de Santos (Esaú e Jacó). Homens do comércio, não convertem o patrimônio em prestações de renda, mas continuam presos aos seus negócios, perseguindo o infinito, imantados por outros desígnios, alimentados por uma nova sociedade. Mas há a crise. Rubião a vive, já, no último quartel do século, em sentido contrário, atraído pelos lucros do comércio e não pelo comércio. Mauá a sentirá, no sentido autêntico: dos doze aos trinta e dois anos, vergado no balcão e sócio de comerciante, torna-se dono de respeitável fortuna. Fiel à ordem dominante, não a calcula em bons e vistosos contos de réis, mas por sua renda, que seria superior a 50 contos anuais. A renda e não o capital dava a nota de grandeza, de opulência, para encher os olhos e provocar a admiração. “Já se vê que, — confessava, aludindo ao ano de 1846 — ao engolfar-me em outra esfera de atividade, possuía eu uma fortuna satisfatória, que me convidava a desfrutá-la. Travou-se em meu espírito, nesse momento, uma luta vivaz entre o egoísmo, que em maior ou menor dose habita o coração humano, e as ideias generosas que em grau elevado me arrastavam a outros destinos...”. O egoísmo seria a fruição do capital, sem suor e angústias; o impulso contrário, a expansão da economia, que se identificaria, para a classe lucrativa, com o progresso do país. Certo de seu papel dinâmico na sociedade, criando atividades novas e aprimorando as existentes; esse estrato ganha relevo e autonomia, sem que se esconda atrás do biombo, dourado de tradição e respeitabilidade, da classe proprietária. É hostil, como conjunto, ao ócio dos homens de renda e ao prestígio do estamento político, que maneja o poder do alto e de cima, sem consultar-lhe as preferências nem lhe pedir orientação e conselho. Atente-se: a classe lucrativa tem conduta adversa ao estilo de vida da camada dirigente, não obstante a explore, e viva, em grande parte, de seus favores, numa espécie de capitalismo político, dependente e subordinado ao Estado.

Raymundo Faoro. Machado de Assis: a pirâmide e o trapézio. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1974, p. 225-7 (com adaptações).

Com referência ao texto, julgue o próximo item.

Tendo o pronome oblíquo sentido possessivo em “sem consultar-lhe as preferências”, tal trecho poderia ser substituído por sem consultar as suas preferências, mantendo-se, com isso, a correção gramatical e o sentido do texto.

 

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2549732 Ano: 2017
Disciplina: Português
Banca: CESPE / CEBRASPE
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A classe dedicada ao comércio, marcada pela compra e venda de mercadorias ou na colocação de dinheiro, não representava, no Império, o padrão social dominante. Os comerciantes eram, em grande parte, estrangeiros; o ramo mais saliente do comércio, o ligado ao escravo, sujava as mãos dos que com ele enriqueciam. Um título de comendador ou de barão dourava o busto do empresário, mas não o nobilitava, visto que o nobre pertencia a uma camada diversa, composta, sob o ponto de vista profissional ou econômico, de letrados ou senhores de rendas. O homem que traficava — membro da classe lucrativa ou aquisitiva —, para se qualificar socialmente, embriagou-se, perdidamente, na imitação do estilo ou nos traços secundários da classe proprietária e do estamento. Elevava-se, se enriquecido — elevava-se é o termo certo — a uma categoria superior no desfrute ostentatório de rendas, transformando a natureza de seu patrimônio, ou ingressava na política e no governo, preocupado em amortecer a cintilação equívoca da origem. Era quase uma situação colonial, com a ascensão, nem sempre possível no espaço de uma geração, do albardeiro ao círculo dos fidalgos. Em meados do século XIX o velho equilíbrio se rompe, fio a fio, imperceptivelmente, na quebra de secular estrutura econômica e social. Consequência da nova dinâmica, que agita e move a sociedade, será a emancipação de uma classe inteira, até aí pejada, impedida e entorpecida em seus passos. Dentro da consciência do homem que enriqueceu no trato de mercadorias e de valores, haverá agora uma crise. O Dr. Félix (Ressurreição) ou Rubião (Quincas Borba ), aquinhoados pela inesperada herança, trataram de aplicar os bens para que eles lhes proporcionassem renda segura e estável.
Outra é a conduta de Mauá, como será a de Palha (Quincas Borba ), Cotrim (Memórias Póstumas) ou de Santos (Esaú e Jacó). Homens do comércio, não convertem o patrimônio em prestações de renda, mas continuam presos aos seus negócios, perseguindo o infinito, imantados por outros desígnios, alimentados por uma nova sociedade. Mas há a crise. Rubião a vive, já, no último quartel do século, em sentido contrário, atraído pelos lucros do comércio e não pelo comércio. Mauá a sentirá, no sentido autêntico: dos doze aos trinta e dois anos, vergado no balcão e sócio de comerciante, torna-se dono de respeitável fortuna. Fiel à ordem dominante, não a calcula em bons e vistosos contos de réis, mas por sua renda, que seria superior a 50 contos anuais. A renda e não o capital dava a nota de grandeza, de opulência, para encher os olhos e provocar a admiração. “Já se vê que, — confessava, aludindo ao ano de 1846 — ao engolfar-me em outra esfera de atividade, possuía eu uma fortuna satisfatória, que me convidava a desfrutá-la. Travou-se em meu espírito, nesse momento, uma luta vivaz entre o egoísmo, que em maior ou menor dose habita o coração humano, e as ideias generosas que em grau elevado me arrastavam a outros destinos...”. O egoísmo seria a fruição do capital, sem suor e angústias; o impulso contrário, a expansão da economia, que se identificaria, para a classe lucrativa, com o progresso do país. Certo de seu papel dinâmico na sociedade, criando atividades novas e aprimorando as existentes; esse estrato ganha relevo e autonomia, sem que se esconda atrás do biombo, dourado de tradição e respeitabilidade, da classe proprietária. É hostil, como conjunto, ao ócio dos homens de renda e ao prestígio do estamento político, que maneja o poder do alto e de cima, sem consultar-lhe as preferências nem lhe pedir orientação e conselho. Atente-se: a classe lucrativa tem conduta adversa ao estilo de vida da camada dirigente, não obstante a explore, e viva, em grande parte, de seus favores, numa espécie de capitalismo político, dependente e subordinado ao Estado.
Raymundo Faoro. Machado de Assis: a pirâmide e o trapézio. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1974, p. 225-7 (com adaptações).
Com referência ao texto, julgue o item que se segue.
Salienta-se, no texto, a importância da renda como atributo de grande reconhecimento social, o que levou Mauá a vivenciar ‘uma luta vivaz’, isto é, um dilema, entre a utilização do capital para fins próprios e o investimento na economia nacional.
 

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2549731 Ano: 2017
Disciplina: Português
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: IRB
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A classe dedicada ao comércio, marcada pela compra e venda de mercadorias ou na colocação de dinheiro, não representava, no Império, o padrão social dominante. Os comerciantes eram, em grande parte, estrangeiros; o ramo mais saliente do comércio, o ligado ao escravo, sujava as mãos dos que com ele enriqueciam. Um título de comendador ou de barão dourava o busto do empresário, mas não o nobilitava, visto que o nobre pertencia a uma camada diversa, composta, sob o ponto de vista profissional ou econômico, de letrados ou senhores de rendas. O homem que traficava — membro da classe lucrativa ou aquisitiva —, para se qualificar socialmente, embriagou-se, perdidamente, na imitação do estilo ou nos traços secundários da classe proprietária e do estamento. Elevava-se, se enriquecido — elevava-se é o termo certo — a uma categoria superior no desfrute ostentatório de rendas, transformando a natureza de seu patrimônio, ou ingressava na política e no governo, preocupado em amortecer a cintilação equívoca da origem. Era quase uma situação colonial, com a ascensão, nem sempre possível no espaço de uma geração, do albardeiro ao círculo dos fidalgos. Em meados do século XIX o velho equilíbrio se rompe, fio a fio, imperceptivelmente, na quebra de secular estrutura econômica e social. Consequência da nova dinâmica, que agita e move a sociedade, será a emancipação de uma classe inteira, até aí pejada, impedida e entorpecida em seus passos. Dentro da consciência do homem que enriqueceu no trato de mercadorias e de valores, haverá agora uma crise. O Dr. Félix (Ressurreição) ou Rubião (Quincas Borba ), aquinhoados pela inesperada herança, trataram de aplicar os bens para que eles lhes proporcionassem renda segura e estável.

Outra é a conduta de Mauá, como será a de Palha (Quincas Borba ), Cotrim (Memórias Póstumas) ou de Santos (Esaú e Jacó). Homens do comércio, não convertem o patrimônio em prestações de renda, mas continuam presos aos seus negócios, perseguindo o infinito, imantados por outros desígnios, alimentados por uma nova sociedade. Mas há a crise. Rubião a vive, já, no último quartel do século, em sentido contrário, atraído pelos lucros do comércio e não pelo comércio. Mauá a sentirá, no sentido autêntico: dos doze aos trinta e dois anos, vergado no balcão e sócio de comerciante, torna-se dono de respeitável fortuna. Fiel à ordem dominante, não a calcula em bons e vistosos contos de réis, mas por sua renda, que seria superior a 50 contos anuais. A renda e não o capital dava a nota de grandeza, de opulência, para encher os olhos e provocar a admiração. “Já se vê que, — confessava, aludindo ao ano de 1846 — ao engolfar-me em outra esfera de atividade, possuía eu uma fortuna satisfatória, que me convidava a desfrutá-la. Travou-se em meu espírito, nesse momento, uma luta vivaz entre o egoísmo, que em maior ou menor dose habita o coração humano, e as ideias generosas que em grau elevado me arrastavam a outros destinos...”. O egoísmo seria a fruição do capital, sem suor e angústias; o impulso contrário, a expansão da economia, que se identificaria, para a classe lucrativa, com o progresso do país. Certo de seu papel dinâmico na sociedade, criando atividades novas e aprimorando as existentes; esse estrato ganha relevo e autonomia, sem que se esconda atrás do biombo, dourado de tradição e respeitabilidade, da classe proprietária. É hostil, como conjunto, ao ócio dos homens de renda e ao prestígio do estamento político, que maneja o poder do alto e de cima, sem consultar-lhe as preferências nem lhe pedir orientação e conselho. Atente-se: a classe lucrativa tem conduta adversa ao estilo de vida da camada dirigente, não obstante a explore, e viva, em grande parte, de seus favores, numa espécie de capitalismo político, dependente e subordinado ao Estado.

Raymundo Faoro. Machado de Assis: a pirâmide e o trapézio. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1974, p. 225-7 (com adaptações).

Com referência ao texto, julgue o item que se segue.

Raymundo Faoro argumenta que personagens de romances, tais como Palha e Cotrim, anteciparam, em meados do século XIX, tendências econômicas e políticas que estariam plenamente consolidadas ao final do Império brasileiro.

 

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2549730 Ano: 2017
Disciplina: Português
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: IRB
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A classe dedicada ao comércio, marcada pela compra e venda de mercadorias ou na colocação de dinheiro, não representava, no Império, o padrão social dominante. Os comerciantes eram, em grande parte, estrangeiros; o ramo mais saliente do comércio, o ligado ao escravo, sujava as mãos dos que com ele enriqueciam. Um título de comendador ou de barão dourava o busto do empresário, mas não o nobilitava, visto que o nobre pertencia a uma camada diversa, composta, sob o ponto de vista profissional ou econômico, de letrados ou senhores de rendas. O homem que traficava — membro da classe lucrativa ou aquisitiva —, para se qualificar socialmente, embriagou-se, perdidamente, na imitação do estilo ou nos traços secundários da classe proprietária e do estamento. Elevava-se, se enriquecido — elevava-se é o termo certo — a uma categoria superior no desfrute ostentatório de rendas, transformando a natureza de seu patrimônio, ou ingressava na política e no governo, preocupado em amortecer a cintilação equívoca da origem. Era quase uma situação colonial, com a ascensão, nem sempre possível no espaço de uma geração, do albardeiro ao círculo dos fidalgos. Em meados do século XIX o velho equilíbrio se rompe, fio a fio, imperceptivelmente, na quebra de secular estrutura econômica e social. Consequência da nova dinâmica, que agita e move a sociedade, será a emancipação de uma classe inteira, até aí pejada, impedida e entorpecida em seus passos. Dentro da consciência do homem que enriqueceu no trato de mercadorias e de valores, haverá agora uma crise. O Dr. Félix (Ressurreição) ou Rubião (Quincas Borba ), aquinhoados pela inesperada herança, trataram de aplicar os bens para que eles lhes proporcionassem renda segura e estável.
Outra é a conduta de Mauá, como será a de Palha (Quincas Borba ), Cotrim (Memórias Póstumas) ou de Santos (Esaú e Jacó). Homens do comércio, não convertem o patrimônio em prestações de renda, mas continuam presos aos seus negócios, perseguindo o infinito, imantados por outros desígnios, alimentados por uma nova sociedade. Mas há a crise. Rubião a vive, já, no último quartel do século, em sentido contrário, atraído pelos lucros do comércio e não pelo comércio. Mauá a sentirá, no sentido autêntico: dos doze aos trinta e dois anos, vergado no balcão e sócio de comerciante, torna-se dono de respeitável fortuna. Fiel à ordem dominante, não a calcula em bons e vistosos contos de réis, mas por sua renda, que seria superior a 50 contos anuais. A renda e não o capital dava a nota de grandeza, de opulência, para encher os olhos e provocar a admiração. “Já se vê que, — confessava, aludindo ao ano de 1846 — ao engolfar-me em outra esfera de atividade, possuía eu uma fortuna satisfatória, que me convidava a desfrutá-la. Travou-se em meu espírito, nesse momento, uma luta vivaz entre o egoísmo, que em maior ou menor dose habita o coração humano, e as ideias generosas que em grau elevado me arrastavam a outros destinos...”. O egoísmo seria a fruição do capital, sem suor e angústias; o impulso contrário, a expansão da economia, que se identificaria, para a classe lucrativa, com o progresso do país. Certo de seu papel dinâmico na sociedade, criando atividades novas e aprimorando as existentes; esse estrato ganha relevo e autonomia, sem que se esconda atrás do biombo, dourado de tradição e respeitabilidade, da classe proprietária. É hostil, como conjunto, ao ócio dos homens de renda e ao prestígio do estamento político, que maneja o poder do alto e de cima, sem consultar-lhe as preferências nem lhe pedir orientação e conselho. Atente-se: a classe lucrativa tem conduta adversa ao estilo de vida da camada dirigente, não obstante a explore, e viva, em grande parte, de seus favores, numa espécie de capitalismo político, dependente e subordinado ao Estado.
Raymundo Faoro. Machado de Assis: a pirâmide e o trapézio. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1974, p. 225-7 (com adaptações).
Com referência ao texto, julgue o item que se segue.
Conclui-se do texto que a maioria dos comerciantes, no Império, não era formada por brasileiros, bem como que o comércio mais lucrativo praticado na época estava associado à economia escravocrata..
 

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2549729 Ano: 2017
Disciplina: Português
Banca: CESPE / CEBRASPE
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A classe dedicada ao comércio, marcada pela compra e venda de mercadorias ou na colocação de dinheiro, não representava, no Império, o padrão social dominante. Os comerciantes eram, em grande parte, estrangeiros; o ramo mais saliente do comércio, o ligado ao escravo, sujava as mãos dos que com ele enriqueciam. Um título de comendador ou de barão dourava o busto do empresário, mas não o nobilitava, visto que o nobre pertencia a uma camada diversa, composta, sob o ponto de vista profissional ou econômico, de letrados ou senhores de rendas. O homem que traficava — membro da classe lucrativa ou aquisitiva —, para se qualificar socialmente, embriagou-se, perdidamente, na imitação do estilo ou nos traços secundários da classe proprietária e do estamento. Elevava-se, se enriquecido — elevava-se é o termo certo — a uma categoria superior no desfrute ostentatório de rendas, transformando a natureza de seu patrimônio, ou ingressava na política e no governo, preocupado em amortecer a cintilação equívoca da origem. Era quase uma situação colonial, com a ascensão, nem sempre possível no espaço de uma geração, do albardeiro ao círculo dos fidalgos. Em meados do século XIX o velho equilíbrio se rompe, fio a fio, imperceptivelmente, na quebra de secular estrutura econômica e social. Consequência da nova dinâmica, que agita e move a sociedade, será a emancipação de uma classe inteira, até aí pejada, impedida e entorpecida em seus passos. Dentro da consciência do homem que enriqueceu no trato de mercadorias e de valores, haverá agora uma crise. O Dr. Félix (Ressurreição) ou Rubião (Quincas Borba ), aquinhoados pela inesperada herança, trataram de aplicar os bens para que eles lhes proporcionassem renda segura e estável.
Outra é a conduta de Mauá, como será a de Palha (Quincas Borba ), Cotrim (Memórias Póstumas) ou de Santos (Esaú e Jacó). Homens do comércio, não convertem o patrimônio em prestações de renda, mas continuam presos aos seus negócios, perseguindo o infinito, imantados por outros desígnios, alimentados por uma nova sociedade. Mas há a crise. Rubião a vive, já, no último quartel do século, em sentido contrário, atraído pelos lucros do comércio e não pelo comércio. Mauá a sentirá, no sentido autêntico: dos doze aos trinta e dois anos, vergado no balcão e sócio de comerciante, torna-se dono de respeitável fortuna. Fiel à ordem dominante, não a calcula em bons e vistosos contos de réis, mas por sua renda, que seria superior a 50 contos anuais. A renda e não o capital dava a nota de grandeza, de opulência, para encher os olhos e provocar a admiração. “Já se vê que, — confessava, aludindo ao ano de 1846 — ao engolfar-me em outra esfera de atividade, possuía eu uma fortuna satisfatória, que me convidava a desfrutá-la. Travou-se em meu espírito, nesse momento, uma luta vivaz entre o egoísmo, que em maior ou menor dose habita o coração humano, e as ideias generosas que em grau elevado me arrastavam a outros destinos...”. O egoísmo seria a fruição do capital, sem suor e angústias; o impulso contrário, a expansão da economia, que se identificaria, para a classe lucrativa, com o progresso do país. Certo de seu papel dinâmico na sociedade, criando atividades novas e aprimorando as existentes; esse estrato ganha relevo e autonomia, sem que se esconda atrás do biombo, dourado de tradição e respeitabilidade, da classe proprietária. É hostil, como conjunto, ao ócio dos homens de renda e ao prestígio do estamento político, que maneja o poder do alto e de cima, sem consultar-lhe as preferências nem lhe pedir orientação e conselho. Atente-se: a classe lucrativa tem conduta adversa ao estilo de vida da camada dirigente, não obstante a explore, e viva, em grande parte, de seus favores, numa espécie de capitalismo político, dependente e subordinado ao Estado.
Raymundo Faoro. Machado de Assis: a pirâmide e o trapézio. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1974, p. 225-7 (com adaptações).
Com referência ao texto, julgue o item que se segue.
Conforme o texto, tanto o Dr. Félix, personagem de Ressurreição, quanto Rubião, personagem de Quincas Borba, mantinham, em seus negócios e investimentos, condutas que seguiam princípios éticos e morais opostos aos de um homem de comércio como Mauá, que pertencia à ordem dominante.
 

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