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Texto 3 para responder à questão.
Seriam porventura dez horas da noite...
Desde muitos dias os jornais vinham polindo a curiosidade pública, estufados de notícias e reclamos de festa. O Clube Automobilístico dava o seu primeiro grande baile. Tinham vindo de Londres as marcas do cotilhão e corria que as prendas seriam de sublimado gosto e valor. Os restaurantes anunciavam orgíacos revelhões de Natal. Os grêmios carnavalescos agitavam-se.
Seriam porventura dez horas da noite quando esse homem entrou na praça Antônio Prado. Trazia uma pequena mala de viagem. Chegara sem dúvida de longe e denunciava cansaço e tédio. Sírio ou judeu? Magro, meão na altura, dum moreno doentio abria admirativamente os olhos molhados de tristeza e calmos como um bálsamo. Barba dura sem trato. Os lábios emoldurados no crespo dos cabelos moviam-se como se rezassem. O ombro direito mais baixo que o outro parecia suportar forte peso e quem lhe visse as costas das mãos notara duas cicatrizes como feitas por balas. Fraque escuro, bastante velho. Chapéu gasto dum negro oscilante.
Desanimava. Já se retirara de muitos hotéis sempre batido pela mesma negativa: — Que se há-de fazer! Não há mais quarto!
Alcançada a praça o judeu estacou. Pôs no chão a maleta e recostado a um poste mirou o vaivém. O povo comprimia-se. Erravam maltrapilhos aos grupos conversando alto. Os burgueses passavam esmerados no trajar. No ambiente iluminado dos automóveis esplendiam os peitilhos e as carnes desnudadas e aos cachos as mulheres-da-vida roçavam pela multidão, bamboleando-se, olhos pintados, lábios incrustados de carmim. Boiando no espaço estrias de odores sensuais.
O homem olhava e olhava. Parecia admiradíssimo.
Por várias vezes fez o gesto de tirar o chapéu mas a timidez dolorosa gelava-lhe o movimento. Continuava a olhar.
— Vais ao baile do Clube?
— Não arranjei convite. Você vai?
— Onde irás hoje?
— Como não! Toda São Paulo estará lá.
— Ao réveillon do Hotel Sportsman.
— Vamos ao Trianon!
— Por que não vens comigo à casa dos Marques? Há lá um Souper-rose.
— Impossível.
— Por quê?
— Não Posso. Vou ter com a Amélia.
— Ah...
Tirando respeitoso o chapéu, o oriental dirigiu-se por fim ao homem que dissera “ir ter com a Amélia” e perguntou-lhe com uma voz tão suave como os olhos — caíam-lhe os cabelos pelas orelhas, pelo colarinho:
— O senhor vai sem dúvida para o seu lar...
Decerto um louco. Não, bêbedo apenas. O outro deu de ombros. Descartou-se:
— Não.
— Mas... e o senhor poderia informar-me... não é hoje noite de Natal?...
— Parece. (E sorria.) Estamos a 24 de dezembro.
— Mas...
O homem da Amélia tocara no chapéu e partira. Desolação, no sacudir lento da cabeça. Agarrando a maleta o judeu recomeçou a andar. Tomou pela rua de São Bento, venceu o último gomo da rua Direita, atingiu o Viaduto. A vista era maravilhosa.
ANDRADE, Mário de. Conto de Natal. O Melhor de Mário de Andrade: contos e crônicas (Coleção O melhor de).
Nova Fronteira. Edição do Kindle, com adaptações
Em relação aos aspectos linguísticos e aos sentidos do texto, julgue (C ou E) o item a seguir.
O pronome “lhe” foi empregado no texto com valor possessivo.
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Texto 3 para responder à questão.
Seriam porventura dez horas da noite...
Desde muitos dias os jornais vinham polindo a curiosidade pública, estufados de notícias e reclamos de festa. O Clube Automobilístico dava o seu primeiro grande baile. Tinham vindo de Londres as marcas do cotilhão e corria que as prendas seriam de sublimado gosto e valor. Os restaurantes anunciavam orgíacos revelhões de Natal. Os grêmios carnavalescos agitavam-se.
Seriam porventura dez horas da noite quando esse homem entrou na praça Antônio Prado. Trazia uma pequena mala de viagem. Chegara sem dúvida de longe e denunciava cansaço e tédio. Sírio ou judeu? Magro, meão na altura, dum moreno doentio abria admirativamente os olhos molhados de tristeza e calmos como um bálsamo. Barba dura sem trato. Os lábios emoldurados no crespo dos cabelos moviam-se como se rezassem. O ombro direito mais baixo que o outro parecia suportar forte peso e quem lhe visse as costas das mãos notara duas cicatrizes como feitas por balas. Fraque escuro, bastante velho. Chapéu gasto dum negro oscilante.
Desanimava. Já se retirara de muitos hotéis sempre batido pela mesma negativa: — Que se há-de fazer! Não há mais quarto!
Alcançada a praça o judeu estacou. Pôs no chão a maleta e recostado a um poste mirou o vaivém. O povo comprimia-se. Erravam maltrapilhos aos grupos conversando alto. Os burgueses passavam esmerados no trajar. No ambiente iluminado dos automóveis esplendiam os peitilhos e as carnes desnudadas e aos cachos as mulheres-da-vida roçavam pela multidão, bamboleando-se, olhos pintados, lábios incrustados de carmim. Boiando no espaço estrias de odores sensuais.
O homem olhava e olhava. Parecia admiradíssimo.
Por várias vezes fez o gesto de tirar o chapéu mas a timidez dolorosa gelava-lhe o movimento. Continuava a olhar.
— Vais ao baile do Clube?
— Não arranjei convite. Você vai?
— Onde irás hoje?
— Como não! Toda São Paulo estará lá.
— Ao réveillon do Hotel Sportsman.
— Vamos ao Trianon!
— Por que não vens comigo à casa dos Marques? Há lá um Souper-rose.
— Impossível.
— Por quê?
— Não Posso. Vou ter com a Amélia.
— Ah...
Tirando respeitoso o chapéu, o oriental dirigiu-se por fim ao homem que dissera “ir ter com a Amélia” e perguntou-lhe com uma voz tão suave como os olhos — caíam-lhe os cabelos pelas orelhas, pelo colarinho:
— O senhor vai sem dúvida para o seu lar...
Decerto um louco. Não, bêbedo apenas. O outro deu de ombros. Descartou-se:
— Não.
— Mas... e o senhor poderia informar-me... não é hoje noite de Natal?...
— Parece. (E sorria.) Estamos a 24 de dezembro.
— Mas...
O homem da Amélia tocara no chapéu e partira. Desolação, no sacudir lento da cabeça. Agarrando a maleta o judeu recomeçou a andar. Tomou pela rua de São Bento, venceu o último gomo da rua Direita, atingiu o Viaduto. A vista era maravilhosa.
ANDRADE, Mário de. Conto de Natal. O Melhor de Mário de Andrade: contos e crônicas (Coleção O melhor de).
Nova Fronteira. Edição do Kindle, com adaptações
Em relação aos aspectos linguísticos e aos sentidos do texto, julgue (C ou E) o item a seguir.
Os vocábulos “porventura” e “Decerto” são sinônimos e intercambiáveis no texto.
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Texto 3 para responder à questão.
Seriam porventura dez horas da noite...
Desde muitos dias os jornais vinham polindo a curiosidade pública, estufados de notícias e reclamos de festa. O Clube Automobilístico dava o seu primeiro grande baile. Tinham vindo de Londres as marcas do cotilhão e corria que as prendas seriam de sublimado gosto e valor. Os restaurantes anunciavam orgíacos revelhões de Natal. Os grêmios carnavalescos agitavam-se.
Seriam porventura dez horas da noite quando esse homem entrou na praça Antônio Prado. Trazia uma pequena mala de viagem. Chegara sem dúvida de longe e denunciava cansaço e tédio. Sírio ou judeu? Magro, meão na altura, dum moreno doentio abria admirativamente os olhos molhados de tristeza e calmos como um bálsamo. Barba dura sem trato. Os lábios emoldurados no crespo dos cabelos moviam-se como se rezassem. O ombro direito mais baixo que o outro parecia suportar forte peso e quem lhe visse as costas das mãos notara duas cicatrizes como feitas por balas. Fraque escuro, bastante velho. Chapéu gasto dum negro oscilante.
Desanimava. Já se retirara de muitos hotéis sempre batido pela mesma negativa: — Que se há-de fazer! Não há mais quarto!
Alcançada a praça o judeu estacou. Pôs no chão a maleta e recostado a um poste mirou o vaivém. O povo comprimia-se. Erravam maltrapilhos aos grupos conversando alto. Os burgueses passavam esmerados no trajar. No ambiente iluminado dos automóveis esplendiam os peitilhos e as carnes desnudadas e aos cachos as mulheres-da-vida roçavam pela multidão, bamboleando-se, olhos pintados, lábios incrustados de carmim. Boiando no espaço estrias de odores sensuais.
O homem olhava e olhava. Parecia admiradíssimo.
Por várias vezes fez o gesto de tirar o chapéu mas a timidez dolorosa gelava-lhe o movimento. Continuava a olhar.
— Vais ao baile do Clube?
— Não arranjei convite. Você vai?
— Onde irás hoje?
— Como não! Toda São Paulo estará lá.
— Ao réveillon do Hotel Sportsman.
— Vamos ao Trianon!
— Por que não vens comigo à casa dos Marques? Há lá um Souper-rose.
— Impossível.
— Por quê?
— Não Posso. Vou ter com a Amélia.
— Ah...
Tirando respeitoso o chapéu, o oriental dirigiu-se por fim ao homem que dissera “ir ter com a Amélia” e perguntou-lhe com uma voz tão suave como os olhos — caíam-lhe os cabelos pelas orelhas, pelo colarinho:
— O senhor vai sem dúvida para o seu lar...
Decerto um louco. Não, bêbedo apenas. O outro deu de ombros. Descartou-se:
— Não.
— Mas... e o senhor poderia informar-me... não é hoje noite de Natal?...
— Parece. (E sorria.) Estamos a 24 de dezembro.
— Mas...
O homem da Amélia tocara no chapéu e partira. Desolação, no sacudir lento da cabeça. Agarrando a maleta o judeu recomeçou a andar. Tomou pela rua de São Bento, venceu o último gomo da rua Direita, atingiu o Viaduto. A vista era maravilhosa.
ANDRADE, Mário de. Conto de Natal. O Melhor de Mário de Andrade: contos e crônicas (Coleção O melhor de).
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No que tange às ideias, à forma e aos sentidos do texto, julgue (C ou E) o item a seguir.
A linguagem observada no texto é típica de textos literários.
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Texto 3 para responder à questão.
Seriam porventura dez horas da noite...
Desde muitos dias os jornais vinham polindo a curiosidade pública, estufados de notícias e reclamos de festa. O Clube Automobilístico dava o seu primeiro grande baile. Tinham vindo de Londres as marcas do cotilhão e corria que as prendas seriam de sublimado gosto e valor. Os restaurantes anunciavam orgíacos revelhões de Natal. Os grêmios carnavalescos agitavam-se.
Seriam porventura dez horas da noite quando esse homem entrou na praça Antônio Prado. Trazia uma pequena mala de viagem. Chegara sem dúvida de longe e denunciava cansaço e tédio. Sírio ou judeu? Magro, meão na altura, dum moreno doentio abria admirativamente os olhos molhados de tristeza e calmos como um bálsamo. Barba dura sem trato. Os lábios emoldurados no crespo dos cabelos moviam-se como se rezassem. O ombro direito mais baixo que o outro parecia suportar forte peso e quem lhe visse as costas das mãos notara duas cicatrizes como feitas por balas. Fraque escuro, bastante velho. Chapéu gasto dum negro oscilante.
Desanimava. Já se retirara de muitos hotéis sempre batido pela mesma negativa: — Que se há-de fazer! Não há mais quarto!
Alcançada a praça o judeu estacou. Pôs no chão a maleta e recostado a um poste mirou o vaivém. O povo comprimia-se. Erravam maltrapilhos aos grupos conversando alto. Os burgueses passavam esmerados no trajar. No ambiente iluminado dos automóveis esplendiam os peitilhos e as carnes desnudadas e aos cachos as mulheres-da-vida roçavam pela multidão, bamboleando-se, olhos pintados, lábios incrustados de carmim. Boiando no espaço estrias de odores sensuais.
O homem olhava e olhava. Parecia admiradíssimo.
Por várias vezes fez o gesto de tirar o chapéu mas a timidez dolorosa gelava-lhe o movimento. Continuava a olhar.
— Vais ao baile do Clube?
— Não arranjei convite. Você vai?
— Onde irás hoje?
— Como não! Toda São Paulo estará lá.
— Ao réveillon do Hotel Sportsman.
— Vamos ao Trianon!
— Por que não vens comigo à casa dos Marques? Há lá um Souper-rose.
— Impossível.
— Por quê?
— Não Posso. Vou ter com a Amélia.
— Ah...
Tirando respeitoso o chapéu, o oriental dirigiu-se por fim ao homem que dissera “ir ter com a Amélia” e perguntou-lhe com uma voz tão suave como os olhos — caíam-lhe os cabelos pelas orelhas, pelo colarinho:
— O senhor vai sem dúvida para o seu lar...
Decerto um louco. Não, bêbedo apenas. O outro deu de ombros. Descartou-se:
— Não.
— Mas... e o senhor poderia informar-me... não é hoje noite de Natal?...
— Parece. (E sorria.) Estamos a 24 de dezembro.
— Mas...
O homem da Amélia tocara no chapéu e partira. Desolação, no sacudir lento da cabeça. Agarrando a maleta o judeu recomeçou a andar. Tomou pela rua de São Bento, venceu o último gomo da rua Direita, atingiu o Viaduto. A vista era maravilhosa.
ANDRADE, Mário de. Conto de Natal. O Melhor de Mário de Andrade: contos e crônicas (Coleção O melhor de).
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No que tange às ideias, à forma e aos sentidos do texto, julgue (C ou E) o item a seguir.
A forma verbal “Erravam” foi empregada no texto com o sentido de vaguear.
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Texto 3 para responder à questão.
Seriam porventura dez horas da noite...
Desde muitos dias os jornais vinham polindo a curiosidade pública, estufados de notícias e reclamos de festa. O Clube Automobilístico dava o seu primeiro grande baile. Tinham vindo de Londres as marcas do cotilhão e corria que as prendas seriam de sublimado gosto e valor. Os restaurantes anunciavam orgíacos revelhões de Natal. Os grêmios carnavalescos agitavam-se.
Seriam porventura dez horas da noite quando esse homem entrou na praça Antônio Prado. Trazia uma pequena mala de viagem. Chegara sem dúvida de longe e denunciava cansaço e tédio. Sírio ou judeu? Magro, meão na altura, dum moreno doentio abria admirativamente os olhos molhados de tristeza e calmos como um bálsamo. Barba dura sem trato. Os lábios emoldurados no crespo dos cabelos moviam-se como se rezassem. O ombro direito mais baixo que o outro parecia suportar forte peso e quem lhe visse as costas das mãos notara duas cicatrizes como feitas por balas. Fraque escuro, bastante velho. Chapéu gasto dum negro oscilante.
Desanimava. Já se retirara de muitos hotéis sempre batido pela mesma negativa: — Que se há-de fazer! Não há mais quarto!
Alcançada a praça o judeu estacou. Pôs no chão a maleta e recostado a um poste mirou o vaivém. O povo comprimia-se. Erravam maltrapilhos aos grupos conversando alto. Os burgueses passavam esmerados no trajar. No ambiente iluminado dos automóveis esplendiam os peitilhos e as carnes desnudadas e aos cachos as mulheres-da-vida roçavam pela multidão, bamboleando-se, olhos pintados, lábios incrustados de carmim. Boiando no espaço estrias de odores sensuais.
O homem olhava e olhava. Parecia admiradíssimo.
Por várias vezes fez o gesto de tirar o chapéu mas a timidez dolorosa gelava-lhe o movimento. Continuava a olhar.
— Vais ao baile do Clube?
— Não arranjei convite. Você vai?
— Onde irás hoje?
— Como não! Toda São Paulo estará lá.
— Ao réveillon do Hotel Sportsman.
— Vamos ao Trianon!
— Por que não vens comigo à casa dos Marques? Há lá um Souper-rose.
— Impossível.
— Por quê?
— Não Posso. Vou ter com a Amélia.
— Ah...
Tirando respeitoso o chapéu, o oriental dirigiu-se por fim ao homem que dissera “ir ter com a Amélia” e perguntou-lhe com uma voz tão suave como os olhos — caíam-lhe os cabelos pelas orelhas, pelo colarinho:
— O senhor vai sem dúvida para o seu lar...
Decerto um louco. Não, bêbedo apenas. O outro deu de ombros. Descartou-se:
— Não.
— Mas... e o senhor poderia informar-me... não é hoje noite de Natal?...
— Parece. (E sorria.) Estamos a 24 de dezembro.
— Mas...
O homem da Amélia tocara no chapéu e partira. Desolação, no sacudir lento da cabeça. Agarrando a maleta o judeu recomeçou a andar. Tomou pela rua de São Bento, venceu o último gomo da rua Direita, atingiu o Viaduto. A vista era maravilhosa.
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No que tange às ideias, à forma e aos sentidos do texto, julgue (C ou E) o item a seguir.
Observa-se, na descrição em destaque, uma crítica à aparência das mulheres presentes na praça, o que fica explícito no emprego do diminutivo no vocábulo “peitilhos”.
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Texto 3 para responder à questão.
Seriam porventura dez horas da noite...
Desde muitos dias os jornais vinham polindo a curiosidade pública, estufados de notícias e reclamos de festa. O Clube Automobilístico dava o seu primeiro grande baile. Tinham vindo de Londres as marcas do cotilhão e corria que as prendas seriam de sublimado gosto e valor. Os restaurantes anunciavam orgíacos revelhões de Natal. Os grêmios carnavalescos agitavam-se.
Seriam porventura dez horas da noite quando esse homem entrou na praça Antônio Prado. Trazia uma pequena mala de viagem. Chegara sem dúvida de longe e denunciava cansaço e tédio. Sírio ou judeu? Magro, meão na altura, dum moreno doentio abria admirativamente os olhos molhados de tristeza e calmos como um bálsamo. Barba dura sem trato. Os lábios emoldurados no crespo dos cabelos moviam-se como se rezassem. O ombro direito mais baixo que o outro parecia suportar forte peso e quem lhe visse as costas das mãos notara duas cicatrizes como feitas por balas. Fraque escuro, bastante velho. Chapéu gasto dum negro oscilante.
Desanimava. Já se retirara de muitos hotéis sempre batido pela mesma negativa: — Que se há-de fazer! Não há mais quarto!
Alcançada a praça o judeu estacou. Pôs no chão a maleta e recostado a um poste mirou o vaivém. O povo comprimia-se. Erravam maltrapilhos aos grupos conversando alto. Os burgueses passavam esmerados no trajar. No ambiente iluminado dos automóveis esplendiam os peitilhos e as carnes desnudadas e aos cachos as mulheres-da-vida roçavam pela multidão, bamboleando-se, olhos pintados, lábios incrustados de carmim. Boiando no espaço estrias de odores sensuais.
O homem olhava e olhava. Parecia admiradíssimo.
Por várias vezes fez o gesto de tirar o chapéu mas a timidez dolorosa gelava-lhe o movimento. Continuava a olhar.
— Vais ao baile do Clube?
— Não arranjei convite. Você vai?
— Onde irás hoje?
— Como não! Toda São Paulo estará lá.
— Ao réveillon do Hotel Sportsman.
— Vamos ao Trianon!
— Por que não vens comigo à casa dos Marques? Há lá um Souper-rose.
— Impossível.
— Por quê?
— Não Posso. Vou ter com a Amélia.
— Ah...
Tirando respeitoso o chapéu, o oriental dirigiu-se por fim ao homem que dissera “ir ter com a Amélia” e perguntou-lhe com uma voz tão suave como os olhos — caíam-lhe os cabelos pelas orelhas, pelo colarinho:
— O senhor vai sem dúvida para o seu lar...
Decerto um louco. Não, bêbedo apenas. O outro deu de ombros. Descartou-se:
— Não.
— Mas... e o senhor poderia informar-me... não é hoje noite de Natal?...
— Parece. (E sorria.) Estamos a 24 de dezembro.
— Mas...
O homem da Amélia tocara no chapéu e partira. Desolação, no sacudir lento da cabeça. Agarrando a maleta o judeu recomeçou a andar. Tomou pela rua de São Bento, venceu o último gomo da rua Direita, atingiu o Viaduto. A vista era maravilhosa.
ANDRADE, Mário de. Conto de Natal. O Melhor de Mário de Andrade: contos e crônicas (Coleção O melhor de).
Nova Fronteira. Edição do Kindle, com adaptações
No que tange às ideias, à forma e aos sentidos do texto, julgue (C ou E) o item a seguir.
É plausível supor que o diálogo que ocorre no texto se dá entre um judeu recém-chegado a São Paulo e um oriental supostamente embriagado.
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Texto 2 para responder à questão.
A primeira das apresentações seria dedicada à pintura e à escultura; a segunda, à literatura, e a terceira à música. A notícia da Semana fora recebida “com um frêmito de curiosidade” nas rodas intelectuais e “altamente mundanas” de São Paulo, o que seria natural, pois se tratava da primeira tentativa de realizar no Brasil “um certame dessa natureza”. Os modernistas de São Paulo usavam habitualmente o termo “futurismo”, mas o faziam em sentido elástico, para designar as propostas mais ou menos renovadoras que se opunham às receitas “passadistas” e “acadêmicas”. A polarização futurismo x passadismo servia como uma tática retórica eficaz – mas também simplificadora. Esse aspecto do discurso modernista, que se apresentava como ruptura com o “velho”, acabava por atirar na lata de lixo do “passadismo” manifestações variadas, às quais, diga-se, não raro os próprios “novos” estavam atados. O rótulo “futurista” gerava incompreensões e facilitava ataques por sugerir subordinação às ideias de Marinetti. Por isso, Mário de Andrade preferia, “bandeirantemente”, recusar em público a batuta do vanguardista italiano. Os “rapazes modernistas” desejavam apenas “ser atuais, livres de cânones gastos, incapazes de objetivar com exatidão o ímpeto feliz da modernidade”. A expressão “ímpeto feliz” vinha como um grito de frescor e juventude em oposição à sisudez “passadista” e ao ambiente soturno dos anos anteriores, imposto pela guerra. Mário gostava de citar a “mocidade alegre” e Oswald, alguns anos depois, em 1928, sentenciaria no Manifesto Antropófago: “A alegria é a prova
dos nove”.
GONÇALVES, Marcos Augusto. 1922: a semana que não terminou. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, com adaptações
Tendo em vista os aspectos linguísticos do texto, julgue (C ou E) o item a seguir.
Em “às quais, diga-se, não raro os próprios ‘novos’ estavam atados.”, a expressão iniciada pelo acento grave indicativo de crase é o complemento nominal do predicativo “atados”.
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Texto 2 para responder à questão.
A primeira das apresentações seria dedicada à pintura e à escultura; a segunda, à literatura, e a terceira à música. A notícia da Semana fora recebida “com um frêmito de curiosidade” nas rodas intelectuais e “altamente mundanas” de São Paulo, o que seria natural, pois se tratava da primeira tentativa de realizar no Brasil “um certame dessa natureza”. Os modernistas de São Paulo usavam habitualmente o termo “futurismo”, mas o faziam em sentido elástico, para designar as propostas mais ou menos renovadoras que se opunham às receitas “passadistas” e “acadêmicas”. A polarização futurismo x passadismo servia como uma tática retórica eficaz – mas também simplificadora. Esse aspecto do discurso modernista, que se apresentava como ruptura com o “velho”, acabava por atirar na lata de lixo do “passadismo” manifestações variadas, às quais, diga-se, não raro os próprios “novos” estavam atados. O rótulo “futurista” gerava incompreensões e facilitava ataques por sugerir subordinação às ideias de Marinetti. Por isso, Mário de Andrade preferia, “bandeirantemente”, recusar em público a batuta do vanguardista italiano. Os “rapazes modernistas” desejavam apenas “ser atuais, livres de cânones gastos, incapazes de objetivar com exatidão o ímpeto feliz da modernidade”. A expressão “ímpeto feliz” vinha como um grito de frescor e juventude em oposição à sisudez “passadista” e ao ambiente soturno dos anos anteriores, imposto pela guerra. Mário gostava de citar a “mocidade alegre” e Oswald, alguns anos depois, em 1928, sentenciaria no Manifesto Antropófago: “A alegria é a prova
dos nove”.
GONÇALVES, Marcos Augusto. 1922: a semana que não terminou. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, com adaptações
Tendo em vista os aspectos linguísticos do texto, julgue (C ou E) o item a seguir.
O uso de aspas se justifica para marcar expressões informais de sentido ambíguo por ser texto escrito no nível formal da língua e concernente a tema relativo à cultura brasileira.
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Texto 2 para responder à questão.
A primeira das apresentações seria dedicada à pintura e à escultura; a segunda, à literatura, e a terceira à música. A notícia da Semana fora recebida “com um frêmito de curiosidade” nas rodas intelectuais e “altamente mundanas” de São Paulo, o que seria natural, pois se tratava da primeira tentativa de realizar no Brasil “um certame dessa natureza”. Os modernistas de São Paulo usavam habitualmente o termo “futurismo”, mas o faziam em sentido elástico, para designar as propostas mais ou menos renovadoras que se opunham às receitas “passadistas” e “acadêmicas”. A polarização futurismo x passadismo servia como uma tática retórica eficaz – mas também simplificadora. Esse aspecto do discurso modernista, que se apresentava como ruptura com o “velho”, acabava por atirar na lata de lixo do “passadismo” manifestações variadas, às quais, diga-se, não raro os próprios “novos” estavam atados. O rótulo “futurista” gerava incompreensões e facilitava ataques por sugerir subordinação às ideias de Marinetti. Por isso, Mário de Andrade preferia, “bandeirantemente”, recusar em público a batuta do vanguardista italiano. Os “rapazes modernistas” desejavam apenas “ser atuais, livres de cânones gastos, incapazes de objetivar com exatidão o ímpeto feliz da modernidade”. A expressão “ímpeto feliz” vinha como um grito de frescor e juventude em oposição à sisudez “passadista” e ao ambiente soturno dos anos anteriores, imposto pela guerra. Mário gostava de citar a “mocidade alegre” e Oswald, alguns anos depois, em 1928, sentenciaria no Manifesto Antropófago: “A alegria é a prova
dos nove”.
GONÇALVES, Marcos Augusto. 1922: a semana que não terminou. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, com adaptações
Tendo em vista os aspectos linguísticos do texto, julgue (C ou E) o item a seguir.
A citação de trecho do Manifesto Antropófago, de Oswald de Andrade, ilustra o emprego da intertextualidade a serviço da progressão textual e da coerência entre as ideias apresentadas a respeito dos “‘rapazes modernistas’”.
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Texto 2 para responder à questão.
A primeira das apresentações seria dedicada à pintura e à escultura; a segunda, à literatura, e a terceira à música. A notícia da Semana fora recebida “com um frêmito de curiosidade” nas rodas intelectuais e “altamente mundanas” de São Paulo, o que seria natural, pois se tratava da primeira tentativa de realizar no Brasil “um certame dessa natureza”. Os modernistas de São Paulo usavam habitualmente o termo “futurismo”, mas o faziam em sentido elástico, para designar as propostas mais ou menos renovadoras que se opunham às receitas “passadistas” e “acadêmicas”. A polarização futurismo x passadismo servia como uma tática retórica eficaz – mas também simplificadora. Esse aspecto do discurso modernista, que se apresentava como ruptura com o “velho”, acabava por atirar na lata de lixo do “passadismo” manifestações variadas, às quais, diga-se, não raro os próprios “novos” estavam atados. O rótulo “futurista” gerava incompreensões e facilitava ataques por sugerir subordinação às ideias de Marinetti. Por isso, Mário de Andrade preferia, “bandeirantemente”, recusar em público a batuta do vanguardista italiano. Os “rapazes modernistas” desejavam apenas “ser atuais, livres de cânones gastos, incapazes de objetivar com exatidão o ímpeto feliz da modernidade”. A expressão “ímpeto feliz” vinha como um grito de frescor e juventude em oposição à sisudez “passadista” e ao ambiente soturno dos anos anteriores, imposto pela guerra. Mário gostava de citar a “mocidade alegre” e Oswald, alguns anos depois, em 1928, sentenciaria no Manifesto Antropófago: “A alegria é a prova
dos nove”.
GONÇALVES, Marcos Augusto. 1922: a semana que não terminou. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, com adaptações
Tendo em vista os aspectos linguísticos do texto, julgue (C ou E) o item a seguir.
As expressões “mas o faziam em sentido elástico”e “atirar na lata de lixo do ‘passadismo’ manifestações variadas” são exemplos da função referencial da linguagem, predominante nesse ensaio acerca da Semana de Arte Moderna.
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