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Texto para a questão
O GRANDE ENCONTRO DOS DESAPARECIDOS
(Crônica de Moacyr Scliar)
“Sem destino: 102,2 mil desapareceram em 6 meses.”
Folha de São Paulo, caderno C - Cotidiano, 10 jul. 1999
Uma vez ao ano os desaparecidos se reúnem. Sempre em
data diferente e em local diferente: às margens de um
grande rio, no meio da floresta, no alto de uma montanha.
Ninguém falta. Por certos mecanismos de comunicação,
do qual só os desaparecidos têm conhecimento, a notícia
chega a todos e a cada um deles.
No dia aprazado lá estão. Usam máscaras, naturalmente.
Alguns – precaução adicional – colocam vendas sobre os
olhos: não querem ver os rostos, mesmos disfarçados,
dos outros desaparecidos.
O encontro é, sobretudo, de trabalho. Para isso, os
desaparecidos são divididos em comissões temáticas,
que têm como objetivo responder a perguntas cruciais: é
lícito desaparecer quando há uma crise na família? O
desemprego é uma boa razão para o desaparecimento?
Deve uma possível reaparição ser precedida de
exigências ao grupo, à comunidade, ao país?
As discussões são intensas e acaloradas. Mas há
também tempo para amenidades, para amável convívio,
em que os desaparecidos intercambiam experiências e
relatam episódios diversos, pitorescos ou não. Entre as
figuras mais interessantes está a de um ancião com
cerca de 90 anos, desaparecido quando bebê. Criado por
feras do mato, ele preferiu, no entanto, desaparecer na
civilização e assim percorreu o Brasil de sul a norte e de
leste a oeste, desaparecendo em cidades, em fazendas,
em feiras livres e até numa grande convenção do
comércio lojista. Suas histórias, engraçadas ou trágicas,
são muito apreciadas.
À medida que se aproxima o final do encontro, os
desaparecidos vão ficando cada vez mais inquietos;
consultam o relógio ou miram o crepúsculo. Em breve
terão de desaparecer, e isso será um choque. Sentir-seão melhor depois que sumirem, depois que se
dissolverem no anonimato. Mas a ânsia os acompanhará
para sempre, mesmo nos momentos de maior liberdade.
Dentro de cada desaparecido há um ser incógnito que faz
força para aparecer. E que, em algum momento, o
conseguirá.
FONTE: https://contobrasileiro.com.br/o-grande-encontro-dos-desaparecidos-cronicade-moacyr-scliar/
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O GRANDE ENCONTRO DOS DESAPARECIDOS
(Crônica de Moacyr Scliar)
“Sem destino: 102,2 mil desapareceram em 6 meses.”
Folha de São Paulo, caderno C - Cotidiano, 10 jul. 1999
Uma vez ao ano os desaparecidos se reúnem. Sempre em
data diferente e em local diferente: às margens de um
grande rio, no meio da floresta, no alto de uma montanha.
Ninguém falta. Por certos mecanismos de comunicação,
do qual só os desaparecidos têm conhecimento, a notícia
chega a todos e a cada um deles.
No dia aprazado lá estão. Usam máscaras, naturalmente.
Alguns – precaução adicional – colocam vendas sobre os
olhos: não querem ver os rostos, mesmos disfarçados,
dos outros desaparecidos.
O encontro é, sobretudo, de trabalho. Para isso, os
desaparecidos são divididos em comissões temáticas,
que têm como objetivo responder a perguntas cruciais: é
lícito desaparecer quando há uma crise na família? O
desemprego é uma boa razão para o desaparecimento?
Deve uma possível reaparição ser precedida de
exigências ao grupo, à comunidade, ao país?
As discussões são intensas e acaloradas. Mas há
também tempo para amenidades, para amável convívio,
em que os desaparecidos intercambiam experiências e
relatam episódios diversos, pitorescos ou não. Entre as
figuras mais interessantes está a de um ancião com
cerca de 90 anos, desaparecido quando bebê. Criado por
feras do mato, ele preferiu, no entanto, desaparecer na
civilização e assim percorreu o Brasil de sul a norte e de
leste a oeste, desaparecendo em cidades, em fazendas,
em feiras livres e até numa grande convenção do
comércio lojista. Suas histórias, engraçadas ou trágicas,
são muito apreciadas.
À medida que se aproxima o final do encontro, os
desaparecidos vão ficando cada vez mais inquietos;
consultam o relógio ou miram o crepúsculo. Em breve
terão de desaparecer, e isso será um choque. Sentir-seão melhor depois que sumirem, depois que se
dissolverem no anonimato. Mas a ânsia os acompanhará
para sempre, mesmo nos momentos de maior liberdade.
Dentro de cada desaparecido há um ser incógnito que faz
força para aparecer. E que, em algum momento, o
conseguirá.
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“Sem destino: 102,2 mil desapareceram em 6 meses.”
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Uma vez ao ano os desaparecidos se reúnem. Sempre em
data diferente e em local diferente: às margens de um
grande rio, no meio da floresta, no alto de uma montanha.
Ninguém falta. Por certos mecanismos de comunicação,
do qual só os desaparecidos têm conhecimento, a notícia
chega a todos e a cada um deles.
No dia aprazado lá estão. Usam máscaras, naturalmente.
Alguns – precaução adicional – colocam vendas sobre os
olhos: não querem ver os rostos, mesmos disfarçados,
dos outros desaparecidos.
O encontro é, sobretudo, de trabalho. Para isso, os
desaparecidos são divididos em comissões temáticas,
que têm como objetivo responder a perguntas cruciais: é
lícito desaparecer quando há uma crise na família? O
desemprego é uma boa razão para o desaparecimento?
Deve uma possível reaparição ser precedida de
exigências ao grupo, à comunidade, ao país?
As discussões são intensas e acaloradas. Mas há
também tempo para amenidades, para amável convívio,
em que os desaparecidos intercambiam experiências e
relatam episódios diversos, pitorescos ou não. Entre as
figuras mais interessantes está a de um ancião com
cerca de 90 anos, desaparecido quando bebê. Criado por
feras do mato, ele preferiu, no entanto, desaparecer na
civilização e assim percorreu o Brasil de sul a norte e de
leste a oeste, desaparecendo em cidades, em fazendas,
em feiras livres e até numa grande convenção do
comércio lojista. Suas histórias, engraçadas ou trágicas,
são muito apreciadas.
À medida que se aproxima o final do encontro, os
desaparecidos vão ficando cada vez mais inquietos;
consultam o relógio ou miram o crepúsculo. Em breve
terão de desaparecer, e isso será um choque. Sentir-seão melhor depois que sumirem, depois que se
dissolverem no anonimato. Mas a ânsia os acompanhará
para sempre, mesmo nos momentos de maior liberdade.
Dentro de cada desaparecido há um ser incógnito que faz
força para aparecer. E que, em algum momento, o
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Uma vez ao ano os desaparecidos se reúnem. Sempre em
data diferente e em local diferente: às margens de um
grande rio, no meio da floresta, no alto de uma montanha.
Ninguém falta. Por certos mecanismos de comunicação,
do qual só os desaparecidos têm conhecimento, a notícia
chega a todos e a cada um deles.
No dia aprazado lá estão. Usam máscaras, naturalmente.
Alguns – precaução adicional – colocam vendas sobre os
olhos: não querem ver os rostos, mesmos disfarçados,
dos outros desaparecidos.
O encontro é, sobretudo, de trabalho. Para isso, os
desaparecidos são divididos em comissões temáticas,
que têm como objetivo responder a perguntas cruciais: é
lícito desaparecer quando há uma crise na família? O
desemprego é uma boa razão para o desaparecimento?
Deve uma possível reaparição ser precedida de
exigências ao grupo, à comunidade, ao país?
As discussões são intensas e acaloradas. Mas há
também tempo para amenidades, para amável convívio,
em que os desaparecidos intercambiam experiências e
relatam episódios diversos, pitorescos ou não. Entre as
figuras mais interessantes está a de um ancião com
cerca de 90 anos, desaparecido quando bebê. Criado por
feras do mato, ele preferiu, no entanto, desaparecer na
civilização e assim percorreu o Brasil de sul a norte e de
leste a oeste, desaparecendo em cidades, em fazendas,
em feiras livres e até numa grande convenção do
comércio lojista. Suas histórias, engraçadas ou trágicas,
são muito apreciadas.
À medida que se aproxima o final do encontro, os
desaparecidos vão ficando cada vez mais inquietos;
consultam o relógio ou miram o crepúsculo. Em breve
terão de desaparecer, e isso será um choque. Sentir-seão melhor depois que sumirem, depois que se
dissolverem no anonimato. Mas a ânsia os acompanhará
para sempre, mesmo nos momentos de maior liberdade.
Dentro de cada desaparecido há um ser incógnito que faz
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(Crônica de Moacyr Scliar)
“Sem destino: 102,2 mil desapareceram em 6 meses.”
Folha de São Paulo, caderno C - Cotidiano, 10 jul. 1999
Uma vez ao ano os desaparecidos se reúnem. Sempre em
data diferente e em local diferente: às margens de um
grande rio, no meio da floresta, no alto de uma montanha.
Ninguém falta. Por certos mecanismos de comunicação,
do qual só os desaparecidos têm conhecimento, a notícia
chega a todos e a cada um deles.
No dia aprazado lá estão. Usam máscaras, naturalmente.
Alguns – precaução adicional – colocam vendas sobre os
olhos: não querem ver os rostos, mesmos disfarçados,
dos outros desaparecidos.
O encontro é, sobretudo, de trabalho. Para isso, os
desaparecidos são divididos em comissões temáticas,
que têm como objetivo responder a perguntas cruciais: é
lícito desaparecer quando há uma crise na família? O
desemprego é uma boa razão para o desaparecimento?
Deve uma possível reaparição ser precedida de
exigências ao grupo, à comunidade, ao país?
As discussões são intensas e acaloradas. Mas há
também tempo para amenidades, para amável convívio,
em que os desaparecidos intercambiam experiências e
relatam episódios diversos, pitorescos ou não. Entre as
figuras mais interessantes está a de um ancião com
cerca de 90 anos, desaparecido quando bebê. Criado por
feras do mato, ele preferiu, no entanto, desaparecer na
civilização e assim percorreu o Brasil de sul a norte e de
leste a oeste, desaparecendo em cidades, em fazendas,
em feiras livres e até numa grande convenção do
comércio lojista. Suas histórias, engraçadas ou trágicas,
são muito apreciadas.
À medida que se aproxima o final do encontro, os
desaparecidos vão ficando cada vez mais inquietos;
consultam o relógio ou miram o crepúsculo. Em breve
terão de desaparecer, e isso será um choque. Sentir-seão melhor depois que sumirem, depois que se
dissolverem no anonimato. Mas a ânsia os acompanhará
para sempre, mesmo nos momentos de maior liberdade.
Dentro de cada desaparecido há um ser incógnito que faz
força para aparecer. E que, em algum momento, o
conseguirá.
FONTE: https://contobrasileiro.com.br/o-grande-encontro-dos-desaparecidos-cronicade-moacyr-scliar/
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Texto para a questão
Leia a entrevista do escritor uruguaio Eduardo Galeano
(1940 – 2015) ao Programa Sangue Latino, do Canal
Brasil, gravado em 2009.
“Acho que o exercício da solidariedade, quando se
pratica de verdade, no dia a dia, é também um exercício
de humildade que ensina você a se reconhecer nos
outros e reconhecer a grandeza escondida nas coisas
pequenininhas, o que implica denunciar a falsa grandeza
nas coisas grandinhas em um mundo que confunde
grandeza com grandinho (...) achei uma boa definição das
minhas intenções, do que eu gostaria de fazer
escrevendo: ser capaz de olhar o que não se olha, mas
que merece ser olhado. As pequenas, as minúsculas
coisas da gente anônima, da gente que os intelectuais
costumam desprezar, esse micromundo onde eu acredito
que se alimenta de verdade a grandeza do universo. E ao
mesmo tempo ser capaz de contemplar o universo
através do buraco da fechadura, ou seja, a partir das
coisas pequenas ser capaz de olhar as grandes, os
grandes mistérios da vida, o mistério da dor humana,
mas também o mistério da persistência humana nesta
mania, às vezes inexplicável, de lutar por um mundo que
seja a casa de todos e não a casa de pouquinhos e o
inferno da maioria e outras coisas mais. A capacidade da
beleza, a capacidade de formosura da gente mais
simples, às vezes da gente mais singela que tem uma
insólita capacidade de formosura que, às vezes, se
manifesta em uma canção, em um grafite, em uma
conversa qualquer. A que as crianças têm… o que
acontece é que depois nós, adultos, ocupamos em
transformá-las em nós mesmos, e aí destruímos a vida
delas. Mas temos que ver o que é uma criança, não? São
todas pagãs… faz pouco tempo eu sofri uma tragédia,
morreu meu companheiro Morgan, meu cachorro, meu
companheiro de passeio, que me acompanhava também
escrevendo porque, quando eu perdia a mão, e já levava
18 horas escrevendo, com a sua perna me dizia: ‘Vamos,
nos vamos. A vida não termina aqui, nos livros. Vem,
vamos passear juntos’, e aí íamos os dois. E ele morreu
assim que eu andava com uma música muito ruim na
alma e, realmente, falando de perdas, a perda do Morgan
foi muito importante para mim, me arrancou um pedaço
do peito. E, bem, estava assim, muito triste e saí a
caminhar aqui, pelo bairro, e era cedo, de manhãzinha.
Não conseguia dormir, me vesti, fui caminhar e cruzei
com uma menina muito nova, devia ter uns dois anos,
não mais que dois, que vinha brincando na direção
oposta e ela vinha cumprimentando a grama, a graminha,
as plantinhas. ‘Bom dia, graminha!’, dizia: ‘bom dia,
graminha!’. Ou seja, nessa idade somos todos pagãos e
nessa idade somos todos poetas. Depois o mundo se
ocupa de apequenar nossa alma. Isso que chamamos
‘crescimento’, ‘desenvolvimento’…
(...)
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Leia a entrevista do escritor uruguaio Eduardo Galeano
(1940 – 2015) ao Programa Sangue Latino, do Canal
Brasil, gravado em 2009.
“Acho que o exercício da solidariedade, quando se
pratica de verdade, no dia a dia, é também um exercício
de humildade que ensina você a se reconhecer nos
outros e reconhecer a grandeza escondida nas coisas
pequenininhas, o que implica denunciar a falsa grandeza
nas coisas grandinhas em um mundo que confunde
grandeza com grandinho (...) achei uma boa definição das
minhas intenções, do que eu gostaria de fazer
escrevendo: ser capaz de olhar o que não se olha, mas
que merece ser olhado. As pequenas, as minúsculas
coisas da gente anônima, da gente que os intelectuais
costumam desprezar, esse micromundo onde eu acredito
que se alimenta de verdade a grandeza do universo. E ao
mesmo tempo ser capaz de contemplar o universo
através do buraco da fechadura, ou seja, a partir das
coisas pequenas ser capaz de olhar as grandes, os
grandes mistérios da vida, o mistério da dor humana,
mas também o mistério da persistência humana nesta
mania, às vezes inexplicável, de lutar por um mundo que
seja a casa de todos e não a casa de pouquinhos e o
inferno da maioria e outras coisas mais. A capacidade da
beleza, a capacidade de formosura da gente mais
simples, às vezes da gente mais singela que tem uma
insólita capacidade de formosura que, às vezes, se
manifesta em uma canção, em um grafite, em uma
conversa qualquer. A que as crianças têm… o que
acontece é que depois nós, adultos, ocupamos em
transformá-las em nós mesmos, e aí destruímos a vida
delas. Mas temos que ver o que é uma criança, não? São
todas pagãs… faz pouco tempo eu sofri uma tragédia,
morreu meu companheiro Morgan, meu cachorro, meu
companheiro de passeio, que me acompanhava também
escrevendo porque, quando eu perdia a mão, e já levava
18 horas escrevendo, com a sua perna me dizia: ‘Vamos,
nos vamos. A vida não termina aqui, nos livros. Vem,
vamos passear juntos’, e aí íamos os dois. E ele morreu
assim que eu andava com uma música muito ruim na
alma e, realmente, falando de perdas, a perda do Morgan
foi muito importante para mim, me arrancou um pedaço
do peito. E, bem, estava assim, muito triste e saí a
caminhar aqui, pelo bairro, e era cedo, de manhãzinha.
Não conseguia dormir, me vesti, fui caminhar e cruzei
com uma menina muito nova, devia ter uns dois anos,
não mais que dois, que vinha brincando na direção
oposta e ela vinha cumprimentando a grama, a graminha,
as plantinhas. ‘Bom dia, graminha!’, dizia: ‘bom dia,
graminha!’. Ou seja, nessa idade somos todos pagãos e
nessa idade somos todos poetas. Depois o mundo se
ocupa de apequenar nossa alma. Isso que chamamos
‘crescimento’, ‘desenvolvimento’…
(...)
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(1940 – 2015) ao Programa Sangue Latino, do Canal
Brasil, gravado em 2009.
“Acho que o exercício da solidariedade, quando se
pratica de verdade, no dia a dia, é também um exercício
de humildade que ensina você a se reconhecer nos
outros e reconhecer a grandeza escondida nas coisas
pequenininhas, o que implica denunciar a falsa grandeza
nas coisas grandinhas em um mundo que confunde
grandeza com grandinho (...) achei uma boa definição das
minhas intenções, do que eu gostaria de fazer
escrevendo: ser capaz de olhar o que não se olha, mas
que merece ser olhado. As pequenas, as minúsculas
coisas da gente anônima, da gente que os intelectuais
costumam desprezar, esse micromundo onde eu acredito
que se alimenta de verdade a grandeza do universo. E ao
mesmo tempo ser capaz de contemplar o universo
através do buraco da fechadura, ou seja, a partir das
coisas pequenas ser capaz de olhar as grandes, os
grandes mistérios da vida, o mistério da dor humana,
mas também o mistério da persistência humana nesta
mania, às vezes inexplicável, de lutar por um mundo que
seja a casa de todos e não a casa de pouquinhos e o
inferno da maioria e outras coisas mais. A capacidade da
beleza, a capacidade de formosura da gente mais
simples, às vezes da gente mais singela que tem uma
insólita capacidade de formosura que, às vezes, se
manifesta em uma canção, em um grafite, em uma
conversa qualquer. A que as crianças têm… o que
acontece é que depois nós, adultos, ocupamos em
transformá-las em nós mesmos, e aí destruímos a vida
delas. Mas temos que ver o que é uma criança, não? São
todas pagãs… faz pouco tempo eu sofri uma tragédia,
morreu meu companheiro Morgan, meu cachorro, meu
companheiro de passeio, que me acompanhava também
escrevendo porque, quando eu perdia a mão, e já levava
18 horas escrevendo, com a sua perna me dizia: ‘Vamos,
nos vamos. A vida não termina aqui, nos livros. Vem,
vamos passear juntos’, e aí íamos os dois. E ele morreu
assim que eu andava com uma música muito ruim na
alma e, realmente, falando de perdas, a perda do Morgan
foi muito importante para mim, me arrancou um pedaço
do peito. E, bem, estava assim, muito triste e saí a
caminhar aqui, pelo bairro, e era cedo, de manhãzinha.
Não conseguia dormir, me vesti, fui caminhar e cruzei
com uma menina muito nova, devia ter uns dois anos,
não mais que dois, que vinha brincando na direção
oposta e ela vinha cumprimentando a grama, a graminha,
as plantinhas. ‘Bom dia, graminha!’, dizia: ‘bom dia,
graminha!’. Ou seja, nessa idade somos todos pagãos e
nessa idade somos todos poetas. Depois o mundo se
ocupa de apequenar nossa alma. Isso que chamamos
‘crescimento’, ‘desenvolvimento’…
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(1940 – 2015) ao Programa Sangue Latino, do Canal
Brasil, gravado em 2009.
“Acho que o exercício da solidariedade, quando se
pratica de verdade, no dia a dia, é também um exercício
de humildade que ensina você a se reconhecer nos
outros e reconhecer a grandeza escondida nas coisas
pequenininhas, o que implica denunciar a falsa grandeza
nas coisas grandinhas em um mundo que confunde
grandeza com grandinho (...) achei uma boa definição das
minhas intenções, do que eu gostaria de fazer
escrevendo: ser capaz de olhar o que não se olha, mas
que merece ser olhado. As pequenas, as minúsculas
coisas da gente anônima, da gente que os intelectuais
costumam desprezar, esse micromundo onde eu acredito
que se alimenta de verdade a grandeza do universo. E ao
mesmo tempo ser capaz de contemplar o universo
através do buraco da fechadura, ou seja, a partir das
coisas pequenas ser capaz de olhar as grandes, os
grandes mistérios da vida, o mistério da dor humana,
mas também o mistério da persistência humana nesta
mania, às vezes inexplicável, de lutar por um mundo que
seja a casa de todos e não a casa de pouquinhos e o
inferno da maioria e outras coisas mais. A capacidade da
beleza, a capacidade de formosura da gente mais
simples, às vezes da gente mais singela que tem uma
insólita capacidade de formosura que, às vezes, se
manifesta em uma canção, em um grafite, em uma
conversa qualquer. A que as crianças têm… o que
acontece é que depois nós, adultos, ocupamos em
transformá-las em nós mesmos, e aí destruímos a vida
delas. Mas temos que ver o que é uma criança, não? São
todas pagãs… faz pouco tempo eu sofri uma tragédia,
morreu meu companheiro Morgan, meu cachorro, meu
companheiro de passeio, que me acompanhava também
escrevendo porque, quando eu perdia a mão, e já levava
18 horas escrevendo, com a sua perna me dizia: ‘Vamos,
nos vamos. A vida não termina aqui, nos livros. Vem,
vamos passear juntos’, e aí íamos os dois. E ele morreu
assim que eu andava com uma música muito ruim na
alma e, realmente, falando de perdas, a perda do Morgan
foi muito importante para mim, me arrancou um pedaço
do peito. E, bem, estava assim, muito triste e saí a
caminhar aqui, pelo bairro, e era cedo, de manhãzinha.
Não conseguia dormir, me vesti, fui caminhar e cruzei
com uma menina muito nova, devia ter uns dois anos,
não mais que dois, que vinha brincando na direção
oposta e ela vinha cumprimentando a grama, a graminha,
as plantinhas. ‘Bom dia, graminha!’, dizia: ‘bom dia,
graminha!’. Ou seja, nessa idade somos todos pagãos e
nessa idade somos todos poetas. Depois o mundo se
ocupa de apequenar nossa alma. Isso que chamamos
‘crescimento’, ‘desenvolvimento’…
(...)
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(1940 – 2015) ao Programa Sangue Latino, do Canal
Brasil, gravado em 2009.
“Acho que o exercício da solidariedade, quando se
pratica de verdade, no dia a dia, é também um exercício
de humildade que ensina você a se reconhecer nos
outros e reconhecer a grandeza escondida nas coisas
pequenininhas, o que implica denunciar a falsa grandeza
nas coisas grandinhas em um mundo que confunde
grandeza com grandinho (...) achei uma boa definição das
minhas intenções, do que eu gostaria de fazer
escrevendo: ser capaz de olhar o que não se olha, mas
que merece ser olhado. As pequenas, as minúsculas
coisas da gente anônima, da gente que os intelectuais
costumam desprezar, esse micromundo onde eu acredito
que se alimenta de verdade a grandeza do universo. E ao
mesmo tempo ser capaz de contemplar o universo
através do buraco da fechadura, ou seja, a partir das
coisas pequenas ser capaz de olhar as grandes, os
grandes mistérios da vida, o mistério da dor humana,
mas também o mistério da persistência humana nesta
mania, às vezes inexplicável, de lutar por um mundo que
seja a casa de todos e não a casa de pouquinhos e o
inferno da maioria e outras coisas mais. A capacidade da
beleza, a capacidade de formosura da gente mais
simples, às vezes da gente mais singela que tem uma
insólita capacidade de formosura que, às vezes, se
manifesta em uma canção, em um grafite, em uma
conversa qualquer. A que as crianças têm… o que
acontece é que depois nós, adultos, ocupamos em
transformá-las em nós mesmos, e aí destruímos a vida
delas. Mas temos que ver o que é uma criança, não? São
todas pagãs… faz pouco tempo eu sofri uma tragédia,
morreu meu companheiro Morgan, meu cachorro, meu
companheiro de passeio, que me acompanhava também
escrevendo porque, quando eu perdia a mão, e já levava
18 horas escrevendo, com a sua perna me dizia: ‘Vamos,
nos vamos. A vida não termina aqui, nos livros. Vem,
vamos passear juntos’, e aí íamos os dois. E ele morreu
assim que eu andava com uma música muito ruim na
alma e, realmente, falando de perdas, a perda do Morgan
foi muito importante para mim, me arrancou um pedaço
do peito. E, bem, estava assim, muito triste e saí a
caminhar aqui, pelo bairro, e era cedo, de manhãzinha.
Não conseguia dormir, me vesti, fui caminhar e cruzei
com uma menina muito nova, devia ter uns dois anos,
não mais que dois, que vinha brincando na direção
oposta e ela vinha cumprimentando a grama, a graminha,
as plantinhas. ‘Bom dia, graminha!’, dizia: ‘bom dia,
graminha!’. Ou seja, nessa idade somos todos pagãos e
nessa idade somos todos poetas. Depois o mundo se
ocupa de apequenar nossa alma. Isso que chamamos
‘crescimento’, ‘desenvolvimento’…
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