Foram encontradas 560 questões.
Declaração de amor em outdoor
(Carlos Drummond de Andrade)
Gostei, sim, da ideia daquele publicitário de São
Paulo, que concebeu e instalou na rua um outdoor de
24 metros quadrados, contendo uma declaração de
amor à sua mulher. Todo mundo, ao passar por lá,
ficou sabendo que Bob continua amando Cly, depois de
dez anos de casados, e que não abre.
Julgou-se a princípio que a declaração constituía
peça de campanha publicitária, para lançamento de
algum produto novo. Nada disso. Era anúncio,
realmente, mas de produto antiquíssimo, que não se
submete às leis do mercado, não é objeto de incentivos
fiscais, não depende de instruções do BNDE, não tem
títulos apregoados na Bolsa de Valores e, quer chova,
troveja ou faça dia claro, está sempre à disposição de
quem quer curti-lo: o amor.
O namorado Bob quis fazer uma surpresa à sua
mulher, no aniversário de casamento, e acabou
surpreendendo toda a população que viu o outdoor ou
dele tomou conhecimento pela televisão e pelos
jornais. Como? Bob não está colocando nenhum
barbeador novo, nenhum cigarro sem nicotina mas com
sabor de céu, nenhum objeto absolutamente
indispensável ao viver moderno da humanidade? Bob
não é candidato a deputado? Não pretende vender
alguma coisa a seus semelhantes, que se habituaram à
conexão cartaz-comércio, e gasta aquele despropósito
de espaço para fazer agradinho à sua excelentíssima?
Então é porque o amor continua existindo de fato,
e é gostoso não apenas senti-lo mas também
proclamá-lo. Somos forçados a reconhecer que o amor
entre duas pessoas continua existindo e até
prosperando, pois alguém sentiu necessidade de
exprimi-lo, de público, usando o veículo que atinja mais
diretamente a direção dos passantes: o painel. Bob
poderia ter gravado em cassete a sua expansão lírica e
fazê-la ouvir de manhã, quando Cly acordasse; podia
gravar uma plaquinha de ouro a título de broche, com
a declaração inscrita, e colocá-la junto à xícara de Cly,
na hora do café; podia exprimir o número único de um
jornal que estampasse apenas juras e pipilos de amor,
depositando-o à cabeceira de Cly ou encaminhando-o
pelo correio; podia...
Bob podia fazer mil coisas particulares,
deliciosamente íntimas, para conhecimento e uso
exclusivo de Cly. Se preferiu tornar público o seu
sentimento, foi, em primeiro lugar, devido à sua
formação profissional. Se fosse aviador, soltaria no ar
uma fumaça com a frase declaratória; homem do mar,
pintaria no costado da embarcação os dizeres
amorosos; e assim por diante. Sendo publicitário,
adotou o processo adequado à transmissão da
mensagem: o outdoor.
Em segundo lugar (ou em primeiro, passando o
motivo acima para segundo?), porque sentiu que seu
amor a Cly, sendo um caso típico e tradicional de um sentimento que vem desde o começo do mundo e que
por isso mesmo corre perigo de parecer banal ou
ultrapassado, quando não é mesmo negado por
indivíduos que se dispõem a reformar a estrutura da
vida, reduzindo-a a um feixe de obrigações e ambições,
geradores de conflitos e guerras, em que o dinheiro e o
poder assumem a liderança do mundo (puxa, mas este
período está mais comprido do que a Belém-Brasília),
sentindo isso, Bob achou de bom preceito opor a tantos
sinais de desumanização o seu sinal de 24 metros
quadrados de ternura. Ternura de homem por mulher,
garantia de continuação da espécie, que aqui e ali
busca autodestruir-se. Não é lindo?
Amorosos de gosto mais refinado talvez achassem
preferível que os dizeres do outdoor fossem outros. A
gíria é efêmera e o amor que dura há dez anos já viu
passar muitas e muitas expressões populares. Se, em
vez de “Estou contigo e não abro”, o marido feliz
copiasse um verso de amor de um dos grandes poetas
da língua, ou o inventasse (pois amor põe engenho e
arte em quem o sente), o outdoor se tornaria obra
digna de tombamento pelo IPHAN, resistindo ao tempo
como um dos monumentos do coração, que merecem
ser preservados. Bob não pensou nisso, quis a
mensagem direta aos transeuntes de hoje, na
linguagem do dia. Ainda assim, fez uma bonita coisa.
Prova de que o amor continua, em meio a toda sorte
de absurdos, violências e marotices políticas e outras, e
que nenhum índice de inflação, nenhum terremoto,
nenhuma sinistra maquinação é capaz de cassá-lo em
face da Terra.
Andrade, Carlos Drummond de. As palavras que ninguém diz
/ Carlos Drummond de Andrade; seleção Luzia de Maria. –
12ª Ed. – Rio de Janeiro: Record, 2008. 126 p. –
(Mineiramente Drummond; Crônica)
Provas
Questão presente nas seguintes provas
Leia o texto abaixo e, em seguida, responda a questão pertinente:
Louco amor
(Ferreira Gullar)
Era dado a paixões, desde menino. Na escola,
aos oito anos, sentava-se ao lado de Nevinha, que
tinha a mesma idade que ele e uns olhos que pareciam
fechados: dois traços no rosto redondo e sorridente.
Quando se vestia, de manhã cedo, para ir à escola,
pensava nela e queria ir correndo encontrá-la. Puxava
conversa a ponto da professora ralhar. Mas, chegaram
as férias de dezembro, perguntou onde ela ia passá-las.
“No inferno”, respondeu. Ele se espantou, ela riu. “É
como minha mãe chama o sítio de meus avós em
Codó.” No ano seguinte, sua mãe o matriculou numa
escola mais perto de sua casa e ele nunca mais viu
Nevinha.
Na nova escola, enamorou-se de Teca, que
tinha duas tranças compridas caídas nos ombros. Era
engraçada e sapeca, brincava com todo mundo e não
dava atenção a ele. Já no ginásio, foi a Lúcia, de olhos
fundos, silenciosa, quase não ria. Amor à distância.
Uma vez ela deixa cair o estojo de lápis e ele,
prestimoso, o juntou no chão, e lhe entregou. Ela riu,
agradecida.
Enlouqueceu mesmo foi pela Paula, de 15 anos,
quando ele já tinha 22 e se tornara pintor. Era filha de
Bonetti, seu professor na Escola de Belas Artes e cuja
casa passou a frequentar, bem como outros colegas de
turma. A coisa nasceu sem que ele se desse conta, já
que a via como uma menina. Mas, certo dia, acordou
com a lembrança dela na mente, o perfil bem
desenhado, o nariz, os lábios, os olhos inteligentes. Ela
era muito inteligente, falava francês, já que vivera com
os pais em Paris e lá estudara. A partir daquela manhã,
quando visitava o professor era, na verdade, para revê-la. De volta a seu quarto, no Catete, sentia sua falta e
inventava pretextos para visitas. Ficava a olhá-la, o
coração batendo forte, louco para tomar-lhe as mãos e
dizer-lhe: “Eu te amo, Paula”.
Mas não se atrevia, embora já não conseguisse
pintar nem sair com os amigos sem pensar no
momento em que declararia a ela o seu amor. Mas não
o fazia e já agora custava a dormir e, quando dormia,
sonhava com ela. Mas eis que, numa das visitas à casa
do professor, não a encontrou. Puxou conversa com a
mãe dela e soube que havia ido ao cinema com um
primo. Quando chegou, foi em companhia dele, de mãos dadas. Era o Eduardo, que chegara dos Estados
Unidos, onde se formara.
Sentiu que o mundo ia desabar sobre sua
cabeça, mal conseguia ver os dois, sentados no divã da
sala, cochichando e rindo, encantados um com o outro.
Agora, acordar de manhã era um suplício, já
que a lembrança dela não lhe saía da cabeça. Evitava
agora ir à casa de Bonetti, que, entranhando-lhe a
ausência, telefonava para convidá-lo. Temia ir lá, mas
terminava indo, porque pelo menos podia revê-la, mas
voltava para casa arrasado. Muitas vezes nem entrava
em casa, com medo de se defrontar com a insuportável
realidade. Ficava pela rua andando à toa, até altas
horas da noite. Decidiu entregar-se totalmente a sua
pintura, comprou telas novas, tintas novas, mas
postado em frente ao cavalete, tudo o que conseguia
era pensar nela. “Então, vou fazer dela o tema de meus
quadros”, decidiu-se e iniciou uma série de retratos
dela, que eram antes alegorias patéticas e dolorosas.
Os colegas gostaram e contaram ao Bonetti, que pediu
para vê-los. Levou-lhe alguns dos quadros, que
mereceram dele entusiasmados elogios. Paula, depois
de elogiá-los, observou: “Ela parece comigo!”. Ele a
fitou nos olhos: “Ela é você”. Sem entender, ela sorriu
lisonjeada.
Paula e o primo se casaram e foram morar nos
Estados Unidos. Júlio ganhou um prêmio de viagem ao
exterior e foi conhecer os museus da Europa, fixando-se em Paris, que era na época o centro irradiador de
arte e literatura. De volta ao Brasil, conheceu Camila,
com quem se casou e teve dois filhos, uma menina e
um menino, que hoje estão casados e lhe deram netos.
Quanto a Paula, de que nunca mais tivera notícias,
soube que se separara do marido e voltara ao Brasil,
indo morar em São Paulo.
Júlio e Bonetti continuaram amigos. Já sem a
mesma frequência, ia visitá-lo naquele mesmo
apartamento de Botafogo, onde viveu com a mesma
mulher, mãe de Paula. Morreu dormindo, como queria.
Júlio foi ao velório, no Cemitério de São João Batista,
onde ele encontrou Paula, quarenta anos depois.
Ela estava sentada junto ao caixão, ao lado de
uma moça. “Júlio foi amigo de meu pai a vida toda...
Me conheceu menina.”
Falou aquilo com toda a naturalidade. “Que
estranha é a vida”, pensou ele, fitando o rosto da
mocinha que jamais poderia ter sido filha sua.
Gullar, Ferreira. A alquimia na quitanda: artes, bichos e
barulhos nas melhores crônicas do poeta. São Paulo:
Três Estrelas, 2016.
Provas
Questão presente nas seguintes provas
Declaração de amor em outdoor
(Carlos Drummond de Andrade)
Gostei, sim, da ideia daquele publicitário de São
Paulo, que concebeu e instalou na rua um outdoor de
24 metros quadrados, contendo uma declaração de
amor à sua mulher. Todo mundo, ao passar por lá,
ficou sabendo que Bob continua amando Cly, depois de
dez anos de casados, e que não abre.
Julgou-se a princípio que a declaração constituía
peça de campanha publicitária, para lançamento de
algum produto novo. Nada disso. Era anúncio,
realmente, mas de produto antiquíssimo, que não se
submete às leis do mercado, não é objeto de incentivos
fiscais, não depende de instruções do BNDE, não tem
títulos apregoados na Bolsa de Valores e, quer chova,
troveja ou faça dia claro, está sempre à disposição de
quem quer curti-lo: o amor.
O namorado Bob quis fazer uma surpresa à sua
mulher, no aniversário de casamento, e acabou
surpreendendo toda a população que viu o outdoor ou
dele tomou conhecimento pela televisão e pelos
jornais. Como? Bob não está colocando nenhum
barbeador novo, nenhum cigarro sem nicotina mas com
sabor de céu, nenhum objeto absolutamente
indispensável ao viver moderno da humanidade? Bob
não é candidato a deputado? Não pretende vender
alguma coisa a seus semelhantes, que se habituaram à
conexão cartaz-comércio, e gasta aquele despropósito
de espaço para fazer agradinho à sua excelentíssima?
Então é porque o amor continua existindo de fato,
e é gostoso não apenas senti-lo mas também
proclamá-lo. Somos forçados a reconhecer que o amor
entre duas pessoas continua existindo e até
prosperando, pois alguém sentiu necessidade de
exprimi-lo, de público, usando o veículo que atinja mais
diretamente a direção dos passantes: o painel. Bob
poderia ter gravado em cassete a sua expansão lírica e
fazê-la ouvir de manhã, quando Cly acordasse; podia
gravar uma plaquinha de ouro a título de broche, com
a declaração inscrita, e colocá-la junto à xícara de Cly,
na hora do café; podia exprimir o número único de um
jornal que estampasse apenas juras e pipilos de amor,
depositando-o à cabeceira de Cly ou encaminhando-o
pelo correio; podia...
Bob podia fazer mil coisas particulares,
deliciosamente íntimas, para conhecimento e uso
exclusivo de Cly. Se preferiu tornar público o seu
sentimento, foi, em primeiro lugar, devido à sua
formação profissional. Se fosse aviador, soltaria no ar
uma fumaça com a frase declaratória; homem do mar,
pintaria no costado da embarcação os dizeres
amorosos; e assim por diante. Sendo publicitário,
adotou o processo adequado à transmissão da
mensagem: o outdoor.
Em segundo lugar (ou em primeiro, passando o
motivo acima para segundo?), porque sentiu que seu
amor a Cly, sendo um caso típico e tradicional de um sentimento que vem desde o começo do mundo e que
por isso mesmo corre perigo de parecer banal ou
ultrapassado, quando não é mesmo negado por
indivíduos que se dispõem a reformar a estrutura da
vida, reduzindo-a a um feixe de obrigações e ambições,
geradores de conflitos e guerras, em que o dinheiro e o
poder assumem a liderança do mundo (puxa, mas este
período está mais comprido do que a Belém-Brasília),
sentindo isso, Bob achou de bom preceito opor a tantos
sinais de desumanização o seu sinal de 24 metros
quadrados de ternura. Ternura de homem por mulher,
garantia de continuação da espécie, que aqui e ali
busca autodestruir-se. Não é lindo?
Amorosos de gosto mais refinado talvez achassem
preferível que os dizeres do outdoor fossem outros. A
gíria é efêmera e o amor que dura há dez anos já viu
passar muitas e muitas expressões populares. Se, em
vez de “Estou contigo e não abro”, o marido feliz
copiasse um verso de amor de um dos grandes poetas
da língua, ou o inventasse (pois amor põe engenho e
arte em quem o sente), o outdoor se tornaria obra
digna de tombamento pelo IPHAN, resistindo ao tempo
como um dos monumentos do coração, que merecem
ser preservados. Bob não pensou nisso, quis a
mensagem direta aos transeuntes de hoje, na
linguagem do dia. Ainda assim, fez uma bonita coisa.
Prova de que o amor continua, em meio a toda sorte
de absurdos, violências e marotices políticas e outras, e
que nenhum índice de inflação, nenhum terremoto,
nenhuma sinistra maquinação é capaz de cassá-lo em
face da Terra.
Andrade, Carlos Drummond de. As palavras que ninguém diz
/ Carlos Drummond de Andrade; seleção Luzia de Maria. –
12ª Ed. – Rio de Janeiro: Record, 2008. 126 p. –
(Mineiramente Drummond; Crônica)
Provas
Questão presente nas seguintes provas
Leia o texto abaixo e, em seguida, responda a questão pertinente:
A coisa está branca
(Ferreira Gullar)
Embora todo mundo já tenha escrito sobre a tal
cartilha que a Secretaria Especial de Direitos Humanos
do governo federal elaborou e editou, também vou
meter o bedelho no assunto. Vocês hão de lembrar que
sobre o papa eu não escrevi, que de papa eu não
entendo; de cartilha também não, mas querer nos
ensinar que pega mal usar expressões como “farinha
do mesmo saco” indica que esse pessoal do Lula ou
não tem mesmo o que fazer ou está a fim de nos
encher o saco (com perdão da palavra politicamente
incorreta).
Essa coisa de censurar palavras e expressões
nascidas do falar popular é uma mania que de vez em
quando aflora. Não faz muito, surgiu uma onda
exigindo que se expurgassem dos dicionários palavras
como “judiação” ou “judiar”, sob o argumento de que
são expressões antissemitas. Bastava pensar um pouco
para ver que tais palavras não se referem aos judeus, e
sim a Judas Iscariotes, isto é, à malhação do Judas no
Sábado de Aleluia. Judiar ou fazer judiação é submeter
alguém a maus-tratos semelhantes aos que a molecada
faz com o boneco de Judas.
Outra expressão que a ignorância rancorosa
considera insulto racista é “a coisa está preta”, que, na
verdade, como se sabe, alude ao acúmulo de nuvens
negras no céu no momento que precede as
tempestades. Assim, quando alguém pressente que as
coisas estão se complicando, usa aquela expressão.
Pois acreditem vocês que um conhecido meu, pessoa
talentosa, me disse que em sua casa está proibido dizer
“a coisa está preta”; lá se diz “a coisa está branca”!
Pode?
Essa cartilha – que o governo promete consertar,
como se tal coisa tivesse conserto – pode abrir caminho
para restrições à liberdade de expressão, se não em
termos de lei, por induzir pais de família e professores
a discriminar textos literários ou jornalísticos e,
consequentemente, seus autores. No que me toca, já
estou de orelhas em pé, pois acabo de lançar um livro
para crianças (!!) cujo título é Dr. Urubu e suas fábulas.
Para azar meu, o poema que dá título ao livro começa
assim: “Doutor urubu, a coisa está preta”.
Temo ser levado ao tribunal da Inquisição por
incorrer em duplo delito, pois, além de usar a
expressão condenada, ainda dou a entender que a frase alude à cor negra da ave, e logo que ave! Um
urubu, bicho repugnante, que só come carniça!
Adiantaria alegar que não fui eu quem pintou o urubu
de preto? Minha sorte é que vivemos numa
democracia, e o nosso povo, por índole, é pouco afeito
ao fanatismo desvairado, em que pesem as exceções.
Exagero? Pode ser, mas, se exagero, é de
propósito, para pôr à mostra o que há de perigoso e
burro nesses defensores do politicamente correto,
porque, se não há o perigo da fogueira, há o perigo do
império da burrice ir tomando conta do país. E tudo
devidamente enfeitado de boas intenções.
Sim, porque, conforme alegou o autor da cartilha,
ela foi concebida com o propósito de resguardar a
suscetibilidade de brancos e negros, de judeus e
muçulmanos, de cearenses e baianos, de palhaços e
beatas... Até os comunistas foram beneficiados sob o
pretexto de terem sido vítimas de graves calúnias. Não
sei se a Secretaria de Direitos Humanos acha natural
chamar os outros de fascistas ou nazistas; quanto a
acoimá-los de vigaristas, creio que não, pois isso
ofenderia os vigários em geral. Não posso afirmar se a
cartilha resguarda também a suscetibilidade dos
chifrudos, dos pançudos, dos narigudos, dos cabeludos
e dos cabeçudos; dos pirocudos, acredito que não, pois
isso é tido como elogio. Mas e as moças de pouca
bunda e poucos seios (do tipo Gisele Bündchen), que o
pessoal apelida de “tábua”? E os gorduchos, apelidados
de “bolão”? Os magricelas, de “espeto”? E os baixotes,
chamados de “meia porção”? Isso sem falar num
respeitável senador da República a quem seus
confrades – acredito que sem malícia – apelidaram de
“lapiseira”.
Estou de acordo com que não se deva tratar
pessoa nenhuma por apelidos depreciativos. Por
exemplo, num papo com Bin Laden, eu teria a cautela
de não chamá-lo de terrorista, especialmente se ele
estivesse acompanhado de um homem-bomba. Do
mesmo modo agiria com o juiz Nicolau, a quem nunca
trataria de “Lalau”, embora certamente não lhe
revelasse a senha de meu cartão de crédito.
Como se vê, isso de falar politicamente correto
envolve problemas, porque não se trata de
engessar apenas o humor (bom ou mau) das pessoas,
mas de engessar o próprio idioma. Falar, de certo
modo, é reinventar a língua, já que o que se diz estava
por ser dito e, ao dizê-lo, damos-lhe uma forma
imprevisível até para nós mesmos. Além disso, há
pessoas especialmente dotadas de verve, que nos
surpreendem (e a si próprias) com expressões às vezes
irônicas, sarcásticas ou simplesmente engraçadas.
Criam modos de dizer inusitados, apelidos, ditos,
tiradas, que nos divertem e enriquecem o nosso falar cotidiano. E que falar assim é um exercício de liberdade
(para o bem ou para o mal) que não cabe nos preceitos
de uma cartilha ou de um código de censura.
Aliás, para terminar, sugiro que mudem os nomes
de certos insetos, como barata, formiga e piolho, por
coincidirem lamentavelmente com os sobrenomes de
algumas respeitáveis famílias brasileiras.
15.5.2005.
Gullar, Ferreira. A alquimia na quitanda: artes,
bichos e barulhos nas melhores crônicas do poeta.
São Paulo: Três Estrelas, 2016.
Provas
Questão presente nas seguintes provas
Leia o texto abaixo e, em seguida, responda a questão pertinente:
A coisa está branca
(Ferreira Gullar)
Embora todo mundo já tenha escrito sobre a tal
cartilha que a Secretaria Especial de Direitos Humanos
do governo federal elaborou e editou, também vou
meter o bedelho no assunto. Vocês hão de lembrar que
sobre o papa eu não escrevi, que de papa eu não
entendo; de cartilha também não, mas querer nos
ensinar que pega mal usar expressões como “farinha
do mesmo saco” indica que esse pessoal do Lula ou
não tem mesmo o que fazer ou está a fim de nos
encher o saco (com perdão da palavra politicamente
incorreta).
Essa coisa de censurar palavras e expressões
nascidas do falar popular é uma mania que de vez em
quando aflora. Não faz muito, surgiu uma onda
exigindo que se expurgassem dos dicionários palavras
como “judiação” ou “judiar”, sob o argumento de que
são expressões antissemitas. Bastava pensar um pouco
para ver que tais palavras não se referem aos judeus, e
sim a Judas Iscariotes, isto é, à malhação do Judas no
Sábado de Aleluia. Judiar ou fazer judiação é submeter
alguém a maus-tratos semelhantes aos que a molecada
faz com o boneco de Judas.
Outra expressão que a ignorância rancorosa
considera insulto racista é “a coisa está preta”, que, na
verdade, como se sabe, alude ao acúmulo de nuvens
negras no céu no momento que precede as
tempestades. Assim, quando alguém pressente que as
coisas estão se complicando, usa aquela expressão.
Pois acreditem vocês que um conhecido meu, pessoa
talentosa, me disse que em sua casa está proibido dizer
“a coisa está preta”; lá se diz “a coisa está branca”!
Pode?
Essa cartilha – que o governo promete consertar,
como se tal coisa tivesse conserto – pode abrir caminho
para restrições à liberdade de expressão, se não em
termos de lei, por induzir pais de família e professores
a discriminar textos literários ou jornalísticos e,
consequentemente, seus autores. No que me toca, já
estou de orelhas em pé, pois acabo de lançar um livro
para crianças (!!) cujo título é Dr. Urubu e suas fábulas.
Para azar meu, o poema que dá título ao livro começa
assim: “Doutor urubu, a coisa está preta”.
Temo ser levado ao tribunal da Inquisição por
incorrer em duplo delito, pois, além de usar a
expressão condenada, ainda dou a entender que a frase alude à cor negra da ave, e logo que ave! Um
urubu, bicho repugnante, que só come carniça!
Adiantaria alegar que não fui eu quem pintou o urubu
de preto? Minha sorte é que vivemos numa
democracia, e o nosso povo, por índole, é pouco afeito
ao fanatismo desvairado, em que pesem as exceções.
Exagero? Pode ser, mas, se exagero, é de
propósito, para pôr à mostra o que há de perigoso e
burro nesses defensores do politicamente correto,
porque, se não há o perigo da fogueira, há o perigo do
império da burrice ir tomando conta do país. E tudo
devidamente enfeitado de boas intenções.
Sim, porque, conforme alegou o autor da cartilha,
ela foi concebida com o propósito de resguardar a
suscetibilidade de brancos e negros, de judeus e
muçulmanos, de cearenses e baianos, de palhaços e
beatas... Até os comunistas foram beneficiados sob o
pretexto de terem sido vítimas de graves calúnias. Não
sei se a Secretaria de Direitos Humanos acha natural
chamar os outros de fascistas ou nazistas; quanto a
acoimá-los de vigaristas, creio que não, pois isso
ofenderia os vigários em geral. Não posso afirmar se a
cartilha resguarda também a suscetibilidade dos
chifrudos, dos pançudos, dos narigudos, dos cabeludos
e dos cabeçudos; dos pirocudos, acredito que não, pois
isso é tido como elogio. Mas e as moças de pouca
bunda e poucos seios (do tipo Gisele Bündchen), que o
pessoal apelida de “tábua”? E os gorduchos, apelidados
de “bolão”? Os magricelas, de “espeto”? E os baixotes,
chamados de “meia porção”? Isso sem falar num
respeitável senador da República a quem seus
confrades – acredito que sem malícia – apelidaram de
“lapiseira”.
Estou de acordo com que não se deva tratar
pessoa nenhuma por apelidos depreciativos. Por
exemplo, num papo com Bin Laden, eu teria a cautela
de não chamá-lo de terrorista, especialmente se ele
estivesse acompanhado de um homem-bomba. Do
mesmo modo agiria com o juiz Nicolau, a quem nunca
trataria de “Lalau”, embora certamente não lhe
revelasse a senha de meu cartão de crédito.
Como se vê, isso de falar politicamente correto
envolve problemas, porque não se trata de
engessar apenas o humor (bom ou mau) das pessoas,
mas de engessar o próprio idioma. Falar, de certo
modo, é reinventar a língua, já que o que se diz estava
por ser dito e, ao dizê-lo, damos-lhe uma forma
imprevisível até para nós mesmos. Além disso, há
pessoas especialmente dotadas de verve, que nos
surpreendem (e a si próprias) com expressões às vezes
irônicas, sarcásticas ou simplesmente engraçadas.
Criam modos de dizer inusitados, apelidos, ditos,
tiradas, que nos divertem e enriquecem o nosso falar cotidiano. E que falar assim é um exercício de liberdade
(para o bem ou para o mal) que não cabe nos preceitos
de uma cartilha ou de um código de censura.
Aliás, para terminar, sugiro que mudem os nomes
de certos insetos, como barata, formiga e piolho, por
coincidirem lamentavelmente com os sobrenomes de
algumas respeitáveis famílias brasileiras.
15.5.2005.
Gullar, Ferreira. A alquimia na quitanda: artes,
bichos e barulhos nas melhores crônicas do poeta.
São Paulo: Três Estrelas, 2016.
Provas
Questão presente nas seguintes provas
Leia o texto abaixo e, em seguida, responda a questão pertinente:
A coisa está branca
(Ferreira Gullar)
Embora todo mundo já tenha escrito sobre a tal
cartilha que a Secretaria Especial de Direitos Humanos
do governo federal elaborou e editou, também vou
meter o bedelho no assunto. Vocês hão de lembrar que
sobre o papa eu não escrevi, que de papa eu não
entendo; de cartilha também não, mas querer nos
ensinar que pega mal usar expressões como “farinha
do mesmo saco” indica que esse pessoal do Lula ou
não tem mesmo o que fazer ou está a fim de nos
encher o saco (com perdão da palavra politicamente
incorreta).
Essa coisa de censurar palavras e expressões
nascidas do falar popular é uma mania que de vez em
quando aflora. Não faz muito, surgiu uma onda
exigindo que se expurgassem dos dicionários palavras
como “judiação” ou “judiar”, sob o argumento de que
são expressões antissemitas. Bastava pensar um pouco
para ver que tais palavras não se referem aos judeus, e
sim a Judas Iscariotes, isto é, à malhação do Judas no
Sábado de Aleluia. Judiar ou fazer judiação é submeter
alguém a maus-tratos semelhantes aos que a molecada
faz com o boneco de Judas.
Outra expressão que a ignorância rancorosa
considera insulto racista é “a coisa está preta”, que, na
verdade, como se sabe, alude ao acúmulo de nuvens
negras no céu no momento que precede as
tempestades. Assim, quando alguém pressente que as
coisas estão se complicando, usa aquela expressão.
Pois acreditem vocês que um conhecido meu, pessoa
talentosa, me disse que em sua casa está proibido dizer
“a coisa está preta”; lá se diz “a coisa está branca”!
Pode?
Essa cartilha – que o governo promete consertar,
como se tal coisa tivesse conserto – pode abrir caminho
para restrições à liberdade de expressão, se não em
termos de lei, por induzir pais de família e professores
a discriminar textos literários ou jornalísticos e,
consequentemente, seus autores. No que me toca, já
estou de orelhas em pé, pois acabo de lançar um livro
para crianças (!!) cujo título é Dr. Urubu e suas fábulas.
Para azar meu, o poema que dá título ao livro começa
assim: “Doutor urubu, a coisa está preta”.
Temo ser levado ao tribunal da Inquisição por
incorrer em duplo delito, pois, além de usar a
expressão condenada, ainda dou a entender que a frase alude à cor negra da ave, e logo que ave! Um
urubu, bicho repugnante, que só come carniça!
Adiantaria alegar que não fui eu quem pintou o urubu
de preto? Minha sorte é que vivemos numa
democracia, e o nosso povo, por índole, é pouco afeito
ao fanatismo desvairado, em que pesem as exceções.
Exagero? Pode ser, mas, se exagero, é de
propósito, para pôr à mostra o que há de perigoso e
burro nesses defensores do politicamente correto,
porque, se não há o perigo da fogueira, há o perigo do
império da burrice ir tomando conta do país. E tudo
devidamente enfeitado de boas intenções.
Sim, porque, conforme alegou o autor da cartilha,
ela foi concebida com o propósito de resguardar a
suscetibilidade de brancos e negros, de judeus e
muçulmanos, de cearenses e baianos, de palhaços e
beatas... Até os comunistas foram beneficiados sob o
pretexto de terem sido vítimas de graves calúnias. Não
sei se a Secretaria de Direitos Humanos acha natural
chamar os outros de fascistas ou nazistas; quanto a
acoimá-los de vigaristas, creio que não, pois isso
ofenderia os vigários em geral. Não posso afirmar se a
cartilha resguarda também a suscetibilidade dos
chifrudos, dos pançudos, dos narigudos, dos cabeludos
e dos cabeçudos; dos pirocudos, acredito que não, pois
isso é tido como elogio. Mas e as moças de pouca
bunda e poucos seios (do tipo Gisele Bündchen), que o
pessoal apelida de “tábua”? E os gorduchos, apelidados
de “bolão”? Os magricelas, de “espeto”? E os baixotes,
chamados de “meia porção”? Isso sem falar num
respeitável senador da República a quem seus
confrades – acredito que sem malícia – apelidaram de
“lapiseira”.
Estou de acordo com que não se deva tratar
pessoa nenhuma por apelidos depreciativos. Por
exemplo, num papo com Bin Laden, eu teria a cautela
de não chamá-lo de terrorista, especialmente se ele
estivesse acompanhado de um homem-bomba. Do
mesmo modo agiria com o juiz Nicolau, a quem nunca
trataria de “Lalau”, embora certamente não lhe
revelasse a senha de meu cartão de crédito.
Como se vê, isso de falar politicamente correto
envolve problemas, porque não se trata de
engessar apenas o humor (bom ou mau) das pessoas,
mas de engessar o próprio idioma. Falar, de certo
modo, é reinventar a língua, já que o que se diz estava
por ser dito e, ao dizê-lo, damos-lhe uma forma
imprevisível até para nós mesmos. Além disso, há
pessoas especialmente dotadas de verve, que nos
surpreendem (e a si próprias) com expressões às vezes
irônicas, sarcásticas ou simplesmente engraçadas.
Criam modos de dizer inusitados, apelidos, ditos,
tiradas, que nos divertem e enriquecem o nosso falar cotidiano. E que falar assim é um exercício de liberdade
(para o bem ou para o mal) que não cabe nos preceitos
de uma cartilha ou de um código de censura.
Aliás, para terminar, sugiro que mudem os nomes
de certos insetos, como barata, formiga e piolho, por
coincidirem lamentavelmente com os sobrenomes de
algumas respeitáveis famílias brasileiras.
15.5.2005.
Gullar, Ferreira. A alquimia na quitanda: artes,
bichos e barulhos nas melhores crônicas do poeta.
São Paulo: Três Estrelas, 2016.
Provas
Questão presente nas seguintes provas
Leia o texto abaixo e, em seguida, responda a questão pertinente:
A coisa está branca
(Ferreira Gullar)
Embora todo mundo já tenha escrito sobre a tal
cartilha que a Secretaria Especial de Direitos Humanos
do governo federal elaborou e editou, também vou
meter o bedelho no assunto. Vocês hão de lembrar que
sobre o papa eu não escrevi, que de papa eu não
entendo; de cartilha também não, mas querer nos
ensinar que pega mal usar expressões como “farinha
do mesmo saco” indica que esse pessoal do Lula ou
não tem mesmo o que fazer ou está a fim de nos
encher o saco (com perdão da palavra politicamente
incorreta).
Essa coisa de censurar palavras e expressões
nascidas do falar popular é uma mania que de vez em
quando aflora. Não faz muito, surgiu uma onda
exigindo que se expurgassem dos dicionários palavras
como “judiação” ou “judiar”, sob o argumento de que
são expressões antissemitas. Bastava pensar um pouco
para ver que tais palavras não se referem aos judeus, e
sim a Judas Iscariotes, isto é, à malhação do Judas no
Sábado de Aleluia. Judiar ou fazer judiação é submeter
alguém a maus-tratos semelhantes aos que a molecada
faz com o boneco de Judas.
Outra expressão que a ignorância rancorosa
considera insulto racista é “a coisa está preta”, que, na
verdade, como se sabe, alude ao acúmulo de nuvens
negras no céu no momento que precede as
tempestades. Assim, quando alguém pressente que as
coisas estão se complicando, usa aquela expressão.
Pois acreditem vocês que um conhecido meu, pessoa
talentosa, me disse que em sua casa está proibido dizer
“a coisa está preta”; lá se diz “a coisa está branca”!
Pode?
Essa cartilha – que o governo promete consertar,
como se tal coisa tivesse conserto – pode abrir caminho
para restrições à liberdade de expressão, se não em
termos de lei, por induzir pais de família e professores
a discriminar textos literários ou jornalísticos e,
consequentemente, seus autores. No que me toca, já
estou de orelhas em pé, pois acabo de lançar um livro
para crianças (!!) cujo título é Dr. Urubu e suas fábulas.
Para azar meu, o poema que dá título ao livro começa
assim: “Doutor urubu, a coisa está preta”.
Temo ser levado ao tribunal da Inquisição por
incorrer em duplo delito, pois, além de usar a
expressão condenada, ainda dou a entender que a frase alude à cor negra da ave, e logo que ave! Um
urubu, bicho repugnante, que só come carniça!
Adiantaria alegar que não fui eu quem pintou o urubu
de preto? Minha sorte é que vivemos numa
democracia, e o nosso povo, por índole, é pouco afeito
ao fanatismo desvairado, em que pesem as exceções.
Exagero? Pode ser, mas, se exagero, é de
propósito, para pôr à mostra o que há de perigoso e
burro nesses defensores do politicamente correto,
porque, se não há o perigo da fogueira, há o perigo do
império da burrice ir tomando conta do país. E tudo
devidamente enfeitado de boas intenções.
Sim, porque, conforme alegou o autor da cartilha,
ela foi concebida com o propósito de resguardar a
suscetibilidade de brancos e negros, de judeus e
muçulmanos, de cearenses e baianos, de palhaços e
beatas... Até os comunistas foram beneficiados sob o
pretexto de terem sido vítimas de graves calúnias. Não
sei se a Secretaria de Direitos Humanos acha natural
chamar os outros de fascistas ou nazistas; quanto a
acoimá-los de vigaristas, creio que não, pois isso
ofenderia os vigários em geral. Não posso afirmar se a
cartilha resguarda também a suscetibilidade dos
chifrudos, dos pançudos, dos narigudos, dos cabeludos
e dos cabeçudos; dos pirocudos, acredito que não, pois
isso é tido como elogio. Mas e as moças de pouca
bunda e poucos seios (do tipo Gisele Bündchen), que o
pessoal apelida de “tábua”? E os gorduchos, apelidados
de “bolão”? Os magricelas, de “espeto”? E os baixotes,
chamados de “meia porção”? Isso sem falar num
respeitável senador da República a quem seus
confrades – acredito que sem malícia – apelidaram de
“lapiseira”.
Estou de acordo com que não se deva tratar
pessoa nenhuma por apelidos depreciativos. Por
exemplo, num papo com Bin Laden, eu teria a cautela
de não chamá-lo de terrorista, especialmente se ele
estivesse acompanhado de um homem-bomba. Do
mesmo modo agiria com o juiz Nicolau, a quem nunca
trataria de “Lalau”, embora certamente não lhe
revelasse a senha de meu cartão de crédito.
Como se vê, isso de falar politicamente correto
envolve problemas, porque não se trata de
engessar apenas o humor (bom ou mau) das pessoas,
mas de engessar o próprio idioma. Falar, de certo
modo, é reinventar a língua, já que o que se diz estava
por ser dito e, ao dizê-lo, damos-lhe uma forma
imprevisível até para nós mesmos. Além disso, há
pessoas especialmente dotadas de verve, que nos
surpreendem (e a si próprias) com expressões às vezes
irônicas, sarcásticas ou simplesmente engraçadas.
Criam modos de dizer inusitados, apelidos, ditos,
tiradas, que nos divertem e enriquecem o nosso falar cotidiano. E que falar assim é um exercício de liberdade
(para o bem ou para o mal) que não cabe nos preceitos
de uma cartilha ou de um código de censura.
Aliás, para terminar, sugiro que mudem os nomes
de certos insetos, como barata, formiga e piolho, por
coincidirem lamentavelmente com os sobrenomes de
algumas respeitáveis famílias brasileiras.
15.5.2005.
Gullar, Ferreira. A alquimia na quitanda: artes,
bichos e barulhos nas melhores crônicas do poeta.
São Paulo: Três Estrelas, 2016.
Provas
Questão presente nas seguintes provas
Leia o texto abaixo e, em seguida, responda a questão pertinente:
A coisa está branca
(Ferreira Gullar)
Embora todo mundo já tenha escrito sobre a tal
cartilha que a Secretaria Especial de Direitos Humanos
do governo federal elaborou e editou, também vou
meter o bedelho no assunto. Vocês hão de lembrar que
sobre o papa eu não escrevi, que de papa eu não
entendo; de cartilha também não, mas querer nos
ensinar que pega mal usar expressões como “farinha
do mesmo saco” indica que esse pessoal do Lula ou
não tem mesmo o que fazer ou está a fim de nos
encher o saco (com perdão da palavra politicamente
incorreta).
Essa coisa de censurar palavras e expressões
nascidas do falar popular é uma mania que de vez em
quando aflora. Não faz muito, surgiu uma onda
exigindo que se expurgassem dos dicionários palavras
como “judiação” ou “judiar”, sob o argumento de que
são expressões antissemitas. Bastava pensar um pouco
para ver que tais palavras não se referem aos judeus, e
sim a Judas Iscariotes, isto é, à malhação do Judas no
Sábado de Aleluia. Judiar ou fazer judiação é submeter
alguém a maus-tratos semelhantes aos que a molecada
faz com o boneco de Judas.
Outra expressão que a ignorância rancorosa
considera insulto racista é “a coisa está preta”, que, na
verdade, como se sabe, alude ao acúmulo de nuvens
negras no céu no momento que precede as
tempestades. Assim, quando alguém pressente que as
coisas estão se complicando, usa aquela expressão.
Pois acreditem vocês que um conhecido meu, pessoa
talentosa, me disse que em sua casa está proibido dizer
“a coisa está preta”; lá se diz “a coisa está branca”!
Pode?
Essa cartilha – que o governo promete consertar,
como se tal coisa tivesse conserto – pode abrir caminho
para restrições à liberdade de expressão, se não em
termos de lei, por induzir pais de família e professores
a discriminar textos literários ou jornalísticos e,
consequentemente, seus autores. No que me toca, já
estou de orelhas em pé, pois acabo de lançar um livro
para crianças (!!) cujo título é Dr. Urubu e suas fábulas.
Para azar meu, o poema que dá título ao livro começa
assim: “Doutor urubu, a coisa está preta”.
Temo ser levado ao tribunal da Inquisição por
incorrer em duplo delito, pois, além de usar a
expressão condenada, ainda dou a entender que a frase alude à cor negra da ave, e logo que ave! Um
urubu, bicho repugnante, que só come carniça!
Adiantaria alegar que não fui eu quem pintou o urubu
de preto? Minha sorte é que vivemos numa
democracia, e o nosso povo, por índole, é pouco afeito
ao fanatismo desvairado, em que pesem as exceções.
Exagero? Pode ser, mas, se exagero, é de
propósito, para pôr à mostra o que há de perigoso e
burro nesses defensores do politicamente correto,
porque, se não há o perigo da fogueira, há o perigo do
império da burrice ir tomando conta do país. E tudo
devidamente enfeitado de boas intenções.
Sim, porque, conforme alegou o autor da cartilha,
ela foi concebida com o propósito de resguardar a
suscetibilidade de brancos e negros, de judeus e
muçulmanos, de cearenses e baianos, de palhaços e
beatas... Até os comunistas foram beneficiados sob o
pretexto de terem sido vítimas de graves calúnias. Não
sei se a Secretaria de Direitos Humanos acha natural
chamar os outros de fascistas ou nazistas; quanto a
acoimá-los de vigaristas, creio que não, pois isso
ofenderia os vigários em geral. Não posso afirmar se a
cartilha resguarda também a suscetibilidade dos
chifrudos, dos pançudos, dos narigudos, dos cabeludos
e dos cabeçudos; dos pirocudos, acredito que não, pois
isso é tido como elogio. Mas e as moças de pouca
bunda e poucos seios (do tipo Gisele Bündchen), que o
pessoal apelida de “tábua”? E os gorduchos, apelidados
de “bolão”? Os magricelas, de “espeto”? E os baixotes,
chamados de “meia porção”? Isso sem falar num
respeitável senador da República a quem seus
confrades – acredito que sem malícia – apelidaram de
“lapiseira”.
Estou de acordo com que não se deva tratar
pessoa nenhuma por apelidos depreciativos. Por
exemplo, num papo com Bin Laden, eu teria a cautela
de não chamá-lo de terrorista, especialmente se ele
estivesse acompanhado de um homem-bomba. Do
mesmo modo agiria com o juiz Nicolau, a quem nunca
trataria de “Lalau”, embora certamente não lhe
revelasse a senha de meu cartão de crédito.
Como se vê, isso de falar politicamente correto
envolve problemas, porque não se trata de
engessar apenas o humor (bom ou mau) das pessoas,
mas de engessar o próprio idioma. Falar, de certo
modo, é reinventar a língua, já que o que se diz estava
por ser dito e, ao dizê-lo, damos-lhe uma forma
imprevisível até para nós mesmos. Além disso, há
pessoas especialmente dotadas de verve, que nos
surpreendem (e a si próprias) com expressões às vezes
irônicas, sarcásticas ou simplesmente engraçadas.
Criam modos de dizer inusitados, apelidos, ditos,
tiradas, que nos divertem e enriquecem o nosso falar cotidiano. E que falar assim é um exercício de liberdade
(para o bem ou para o mal) que não cabe nos preceitos
de uma cartilha ou de um código de censura.
Aliás, para terminar, sugiro que mudem os nomes
de certos insetos, como barata, formiga e piolho, por
coincidirem lamentavelmente com os sobrenomes de
algumas respeitáveis famílias brasileiras.
15.5.2005.
Gullar, Ferreira. A alquimia na quitanda: artes,
bichos e barulhos nas melhores crônicas do poeta.
São Paulo: Três Estrelas, 2016.
Provas
Questão presente nas seguintes provas
Leia o texto abaixo e, em seguida, responda a questão pertinente:
A coisa está branca
(Ferreira Gullar)
Embora todo mundo já tenha escrito sobre a tal
cartilha que a Secretaria Especial de Direitos Humanos
do governo federal elaborou e editou, também vou
meter o bedelho no assunto. Vocês hão de lembrar que
sobre o papa eu não escrevi, que de papa eu não
entendo; de cartilha também não, mas querer nos
ensinar que pega mal usar expressões como “farinha
do mesmo saco” indica que esse pessoal do Lula ou
não tem mesmo o que fazer ou está a fim de nos
encher o saco (com perdão da palavra politicamente
incorreta).
Essa coisa de censurar palavras e expressões
nascidas do falar popular é uma mania que de vez em
quando aflora. Não faz muito, surgiu uma onda
exigindo que se expurgassem dos dicionários palavras
como “judiação” ou “judiar”, sob o argumento de que
são expressões antissemitas. Bastava pensar um pouco
para ver que tais palavras não se referem aos judeus, e
sim a Judas Iscariotes, isto é, à malhação do Judas no
Sábado de Aleluia. Judiar ou fazer judiação é submeter
alguém a maus-tratos semelhantes aos que a molecada
faz com o boneco de Judas.
Outra expressão que a ignorância rancorosa
considera insulto racista é “a coisa está preta”, que, na
verdade, como se sabe, alude ao acúmulo de nuvens
negras no céu no momento que precede as
tempestades. Assim, quando alguém pressente que as
coisas estão se complicando, usa aquela expressão.
Pois acreditem vocês que um conhecido meu, pessoa
talentosa, me disse que em sua casa está proibido dizer
“a coisa está preta”; lá se diz “a coisa está branca”!
Pode?
Essa cartilha – que o governo promete consertar,
como se tal coisa tivesse conserto – pode abrir caminho
para restrições à liberdade de expressão, se não em
termos de lei, por induzir pais de família e professores
a discriminar textos literários ou jornalísticos e,
consequentemente, seus autores. No que me toca, já
estou de orelhas em pé, pois acabo de lançar um livro
para crianças (!!) cujo título é Dr. Urubu e suas fábulas.
Para azar meu, o poema que dá título ao livro começa
assim: “Doutor urubu, a coisa está preta”.
Temo ser levado ao tribunal da Inquisição por
incorrer em duplo delito, pois, além de usar a
expressão condenada, ainda dou a entender que a frase alude à cor negra da ave, e logo que ave! Um
urubu, bicho repugnante, que só come carniça!
Adiantaria alegar que não fui eu quem pintou o urubu
de preto? Minha sorte é que vivemos numa
democracia, e o nosso povo, por índole, é pouco afeito
ao fanatismo desvairado, em que pesem as exceções.
Exagero? Pode ser, mas, se exagero, é de
propósito, para pôr à mostra o que há de perigoso e
burro nesses defensores do politicamente correto,
porque, se não há o perigo da fogueira, há o perigo do
império da burrice ir tomando conta do país. E tudo
devidamente enfeitado de boas intenções.
Sim, porque, conforme alegou o autor da cartilha,
ela foi concebida com o propósito de resguardar a
suscetibilidade de brancos e negros, de judeus e
muçulmanos, de cearenses e baianos, de palhaços e
beatas... Até os comunistas foram beneficiados sob o
pretexto de terem sido vítimas de graves calúnias. Não
sei se a Secretaria de Direitos Humanos acha natural
chamar os outros de fascistas ou nazistas; quanto a
acoimá-los de vigaristas, creio que não, pois isso
ofenderia os vigários em geral. Não posso afirmar se a
cartilha resguarda também a suscetibilidade dos
chifrudos, dos pançudos, dos narigudos, dos cabeludos
e dos cabeçudos; dos pirocudos, acredito que não, pois
isso é tido como elogio. Mas e as moças de pouca
bunda e poucos seios (do tipo Gisele Bündchen), que o
pessoal apelida de “tábua”? E os gorduchos, apelidados
de “bolão”? Os magricelas, de “espeto”? E os baixotes,
chamados de “meia porção”? Isso sem falar num
respeitável senador da República a quem seus
confrades – acredito que sem malícia – apelidaram de
“lapiseira”.
Estou de acordo com que não se deva tratar
pessoa nenhuma por apelidos depreciativos. Por
exemplo, num papo com Bin Laden, eu teria a cautela
de não chamá-lo de terrorista, especialmente se ele
estivesse acompanhado de um homem-bomba. Do
mesmo modo agiria com o juiz Nicolau, a quem nunca
trataria de “Lalau”, embora certamente não lhe
revelasse a senha de meu cartão de crédito.
Como se vê, isso de falar politicamente correto
envolve problemas, porque não se trata de
engessar apenas o humor (bom ou mau) das pessoas,
mas de engessar o próprio idioma. Falar, de certo
modo, é reinventar a língua, já que o que se diz estava
por ser dito e, ao dizê-lo, damos-lhe uma forma
imprevisível até para nós mesmos. Além disso, há
pessoas especialmente dotadas de verve, que nos
surpreendem (e a si próprias) com expressões às vezes
irônicas, sarcásticas ou simplesmente engraçadas.
Criam modos de dizer inusitados, apelidos, ditos,
tiradas, que nos divertem e enriquecem o nosso falar cotidiano. E que falar assim é um exercício de liberdade
(para o bem ou para o mal) que não cabe nos preceitos
de uma cartilha ou de um código de censura.
Aliás, para terminar, sugiro que mudem os nomes
de certos insetos, como barata, formiga e piolho, por
coincidirem lamentavelmente com os sobrenomes de
algumas respeitáveis famílias brasileiras.
15.5.2005.
Gullar, Ferreira. A alquimia na quitanda: artes,
bichos e barulhos nas melhores crônicas do poeta.
São Paulo: Três Estrelas, 2016.
Provas
Questão presente nas seguintes provas
Leia o texto abaixo e, em seguida, responda a questão pertinente:
Louco amor
(Ferreira Gullar)
Era dado a paixões, desde menino. Na escola,
aos oito anos, sentava-se ao lado de Nevinha, que
tinha a mesma idade que ele e uns olhos que pareciam
fechados: dois traços no rosto redondo e sorridente.
Quando se vestia, de manhã cedo, para ir à escola,
pensava nela e queria ir correndo encontrá-la. Puxava
conversa a ponto da professora ralhar. Mas, chegaram
as férias de dezembro, perguntou onde ela ia passá-las.
“No inferno”, respondeu. Ele se espantou, ela riu. “É
como minha mãe chama o sítio de meus avós em
Codó.” No ano seguinte, sua mãe o matriculou numa
escola mais perto de sua casa e ele nunca mais viu
Nevinha.
Na nova escola, enamorou-se de Teca, que
tinha duas tranças compridas caídas nos ombros. Era
engraçada e sapeca, brincava com todo mundo e não
dava atenção a ele. Já no ginásio, foi a Lúcia, de olhos
fundos, silenciosa, quase não ria. Amor à distância.
Uma vez ela deixa cair o estojo de lápis e ele,
prestimoso, o juntou no chão, e lhe entregou. Ela riu,
agradecida.
Enlouqueceu mesmo foi pela Paula, de 15 anos,
quando ele já tinha 22 e se tornara pintor. Era filha de
Bonetti, seu professor na Escola de Belas Artes e cuja
casa passou a frequentar, bem como outros colegas de
turma. A coisa nasceu sem que ele se desse conta, já
que a via como uma menina. Mas, certo dia, acordou
com a lembrança dela na mente, o perfil bem
desenhado, o nariz, os lábios, os olhos inteligentes. Ela
era muito inteligente, falava francês, já que vivera com
os pais em Paris e lá estudara. A partir daquela manhã,
quando visitava o professor era, na verdade, para revê-la. De volta a seu quarto, no Catete, sentia sua falta e
inventava pretextos para visitas. Ficava a olhá-la, o
coração batendo forte, louco para tomar-lhe as mãos e
dizer-lhe: “Eu te amo, Paula”.
Mas não se atrevia, embora já não conseguisse
pintar nem sair com os amigos sem pensar no
momento em que declararia a ela o seu amor. Mas não
o fazia e já agora custava a dormir e, quando dormia,
sonhava com ela. Mas eis que, numa das visitas à casa
do professor, não a encontrou. Puxou conversa com a
mãe dela e soube que havia ido ao cinema com um
primo. Quando chegou, foi em companhia dele, de mãos dadas. Era o Eduardo, que chegara dos Estados
Unidos, onde se formara.
Sentiu que o mundo ia desabar sobre sua
cabeça, mal conseguia ver os dois, sentados no divã da
sala, cochichando e rindo, encantados um com o outro.
Agora, acordar de manhã era um suplício, já
que a lembrança dela não lhe saía da cabeça. Evitava
agora ir à casa de Bonetti, que, entranhando-lhe a
ausência, telefonava para convidá-lo. Temia ir lá, mas
terminava indo, porque pelo menos podia revê-la, mas
voltava para casa arrasado. Muitas vezes nem entrava
em casa, com medo de se defrontar com a insuportável
realidade. Ficava pela rua andando à toa, até altas
horas da noite. Decidiu entregar-se totalmente a sua
pintura, comprou telas novas, tintas novas, mas
postado em frente ao cavalete, tudo o que conseguia
era pensar nela. “Então, vou fazer dela o tema de meus
quadros”, decidiu-se e iniciou uma série de retratos
dela, que eram antes alegorias patéticas e dolorosas.
Os colegas gostaram e contaram ao Bonetti, que pediu
para vê-los. Levou-lhe alguns dos quadros, que
mereceram dele entusiasmados elogios. Paula, depois
de elogiá-los, observou: “Ela parece comigo!”. Ele a
fitou nos olhos: “Ela é você”. Sem entender, ela sorriu
lisonjeada.
Paula e o primo se casaram e foram morar nos
Estados Unidos. Júlio ganhou um prêmio de viagem ao
exterior e foi conhecer os museus da Europa, fixando-se em Paris, que era na época o centro irradiador de
arte e literatura. De volta ao Brasil, conheceu Camila,
com quem se casou e teve dois filhos, uma menina e
um menino, que hoje estão casados e lhe deram netos.
Quanto a Paula, de que nunca mais tivera notícias,
soube que se separara do marido e voltara ao Brasil,
indo morar em São Paulo.
Júlio e Bonetti continuaram amigos. Já sem a
mesma frequência, ia visitá-lo naquele mesmo
apartamento de Botafogo, onde viveu com a mesma
mulher, mãe de Paula. Morreu dormindo, como queria.
Júlio foi ao velório, no Cemitério de São João Batista,
onde ele encontrou Paula, quarenta anos depois.
Ela estava sentada junto ao caixão, ao lado de
uma moça. “Júlio foi amigo de meu pai a vida toda...
Me conheceu menina.”
Falou aquilo com toda a naturalidade. “Que
estranha é a vida”, pensou ele, fitando o rosto da
mocinha que jamais poderia ter sido filha sua.
Gullar, Ferreira. A alquimia na quitanda: artes, bichos e
barulhos nas melhores crônicas do poeta. São Paulo:
Três Estrelas, 2016.
Provas
Questão presente nas seguintes provas
Cadernos
Caderno Container